3. PERCURSO METODOLOGICO
3.1 DELINEAMENTOS DA PESQUISA
Considerando os objetivos deste trabalho, esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa, exploratória, do tipo descritivo.
Pode-se dizer que definir as questões da pesquisa é provavelmente o passo mais importante a ser considerado em um estudo de pesquisa.
A pesquisa em educação no Brasil é uma prática recente se consideramos que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), foi criado em 1938 para apoiar as pesquisas e subsidiar as políticas educacionais e em 1956 foram criados o Centro Brasileiro e os Centros Regionais de Pesquisa, ligados ao INEP, para tratar da formação de recursos humanos para a pesquisa, porém só na década de 1970 é que surgem os cursos de Pós-graduação, e que assim é que são dadas as condições para a institucionalização da pesquisa.
Uma vez delegada à produção cientifica para as universidades e centros de pesquisa, segundo Gatti (1983) são percebidas mudanças nas temáticas e metodologias da pesquisa educacional, fluindo estudos sobre problemáticas como: currículos, avaliação de programas, caracterização de redes e recursos educativos, relações entre educação e trabalho, de alunos, famílias e comunidade, nutrição e aprendizagem, validação e crítica de instrumentos de diagnóstico e de avaliação, estratégias de ensino. Outro dado interessante apresentado pela autora é que emergem estudos sobre política educacional e análises institucionais, temas até então praticamente inexplorados.
Nesta breve reflexão sobre o avanço da pesquisa em educação no Brasil ainda é importante destacar que houve mudanças significativas no enfoque dado às pesquisas. Gatti (1983, p.4) aponta que “passam-se a utilizar tanto instrumentos quantitativos mais sofisticados de analise, como também um referencial teórico mais crítico. ”.
É fato que desde o final de 1980, as décadas seguintes vem indicando o interesse e a necessidade de novas temáticas e enfoques na pesquisa brasileira
mais complexos, apontando para novos desdobramentos que por si exigiram que as abordagens metodológicas também mudassem.
Marli André (2006) revela que
[...] ganham força os estudos “qualitativos”, que englobam um conjunto heterogêneo de métodos, de técnicas e de análises, entre os quais estão os estudos antropológicos e etnográficos, as pesquisas participantes, os estudos de caso, a pesquisa-ação e as análises de discurso, de narrativas, de histórias de vida. (ANDRÉ, 2006, p. 16).
Apesar de que não se descartam as pesquisas quantitativas como significativas, a abordagem qualitativa tem sido a mais adequada às pesquisas realizadas no campo educacional, sendo esta uma discussão recorrente sobre a validação das pesquisas em educação a partir da perspectiva qualitativa.
Para Gatti (2001)
Aqui se enquadra a questão das opções pelo uso de modelos quantitativos de coleta e análise de dados ou pelos chamados modelos qualitativos, ou seja, aquelas metodologias que não se apoiam em medidas operacionais cuja intensidade é traduzida em números. É preciso considerar que os conceitos de quantidade e qualidade não são totalmente dissociados, na medida em que de um lado a quantidade é uma interpretação, uma tradução, um significado que é atribuído à grandeza com que um fenômeno se manifesta (portanto é uma qualificação dessa grandeza) e, de outro, ela precisa ser interpretada qualitativamente, pois em relação a algum referencial não tem significação em si. (GATTI, 2001, p.74)
Segundo Flick (2009) a relevância das pesquisas voltadas ao estudo das relações sociais a partir da abordagem qualitativa se determina por conta da
“pluralização das esferas da vida”, portanto há que se considerar que o primórdio da referida abordagem está na sociologia e antropologia considerando as peculiaridades e interesses investigativos nestas áreas. Há que se considerar que apesar de que as primeiras pesquisas de cunho qualitativo serem anteriores é na década de 1970 que tal abordagem ganha força nos estudos nas ciências sociais como um todo, e como não poderia deixar de ser, também no campo educacional.
Ao considerar então que a perspectiva qualitativa da pesquisa revela a intencionalidade de interpretação de mundo, o pesquisador por sua vez se valerá dos ambientes em que o fenômeno estudado acontece, como campo de pesquisa, buscando perceber quais significados os sujeitos atuantes nestes espaços dão a determinados fenômenos. A pesquisa qualitativa enfatiza tal relevância aos
depoimentos dos atores sociais envolvidos, aos discursos e aos significados transmitidos por eles, devendo privilegiar a descrição detalhada dos elementos e eventos que o envolvem.
O que se tem que ter claro é que na pesquisa qualitativa, por vezes, o processo é mais importante que o resultado, sendo assim, o foco do pesquisador ao estudar um determinado problema é evidenciar como ele se configura no espaço em que há recorrência, como se revela nas atividades, nos encaminhamentos e nas interações.
Por ser essa uma premissa básica a ser assegurada para que se consiga mais qualidade dos dados coletados é que para a realização desta pesquisa foram utilizados como instrumentos de coleta de dados o questionário, a observação direta e o grupo focal.
O questionário é um instrumento mais abrangente onde é possível coletar dados de um grupo maior de pessoas e por se tratar de um momento exclusivo do participante e por não contar com a presença física do pesquisador, deixa o mesmo mais à vontade, sendo possível inclusive lhe assegurar o anonimato, o que nesta pesquisa, não será o caso, pois a identificação de cada participante interferiria na seleção dos professores que participarão das próximas etapas da pesquisa.
Para Gil (1989)
Pode-se definir questionário como a técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevado de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas etc. (GIL, 1989, p.124)
Sobre o grupo focal, há registros de que esta técnica tem seus primórdios na década de 1920 com efeito para estudos de marketing e a partir de 1950 passou a ser mais utilizada, e tinha como finalidade ser um instrumento para estudar as reações das pessoas à propaganda de guerra. Segundo Gatti (2005) esta técnica também foi muito utilizada nos anos 1970 e 1980 nas pesquisas em comunicação, na avaliação de materiais diversos ou de serviços, em estudos de filmes e programas de TV, assim como em processos de pesquisa-ação ou pesquisa de intervenção.
A técnica de grupos focais então tem incialmente sua função voltada ao trabalho com grupos, na Sociologia e na Psicologia social crítica, no entanto a apropriação das Ciências Sociais deste modo de coleta de dados e ai pode-se destacar a área da Política, muito fortemente também tem intensificado sua aplicabilidade na área da educação.
Como uma técnica de pesquisa de abordagem qualitativa, os grupos focais nada mais são que entrevistas em grupo que tem o intuito de estabelecer entendimento sobre um tema ou situação, a partir das trocas que ocorrem entre os sujeitos participantes de discussões em grupo. Esta é uma forma de investigação que procura dar conta do que não se pode conseguir por meio de outras técnicas como questionário ou entrevista individual.
Ainda segundo Gatti (2005) essa é uma técnica utilizada com vários propósitos, podendo inclusive ser o elemento central de uma investigação tanto quanto pode prestar-se a ser apoio para a construção de outros instrumentos de investigação como a observação. Sendo assim, ao estar pareada com outras técnicas ou instrumentos de investigação, esta técnica pode ser utilizada nas análises por triangulação e para a corroboração de dados.
Exceto pelo fato de ser necessário ter um moderador e um observador, gostaria de enfatizar que todos os demais critérios de constituição dos grupos focais devem ser coerentes com os objetivos de pesquisa previamente definidos. Portanto, cabe ao(s) pesquisador(es) delinear os grupos de forma coerente, tendo em vista o que se quer investigar. (KIND, 2004, p. 128)
Não há um consenso sobre o número de participantes para um grupo focal.
Na literatura há argumentos para se constituir grupos de cinco até quinze participantes. Para esta pesquisa foi definida a participação de até doze professores por entender que, sendo este o número máximo apropriado para a sua aplicação, seria possível abranger uma parcela significativa do quadro geral da escola.
Considerando os aspectos relevantes que o moderador deverá estar a tento à organização de grupos focais quanto a ambientação, tempo de discussão e inferências provocativas sobre as questões que se quer suscitar, é que nesta pesquisa será organizado um encontro de no mínimo quarenta e no máximo cento e vinte minutos, sendo que o moderador fará provocações relacionadas à compreensão sobre Educação em Tempo Integral e ampliação do tempo escolar. O
encontro será gravado em áudio e vídeo e os dados obtidos serão comparados com os recolhidos pelo questionário e pela observação direta.
A respeito da observação, Jaccoud e Mayer (2008) explicitam que esta deve ser o centro de qualquer investigação cientifica, sendo que desde os primórdios das Ciências Sociais, a partir das pesquisas sociológicas, esta já se constituía como critério fundamental do conhecimento.
A observação permite ao pesquisador verificar em tempo real como os fenômenos se constituem e qual é o nível de interferência de cada sujeito envolvido, permitindo ao pesquisador uma interlocução mais fidedigna e coerente.
Acompanhar por uma semana a pratica pedagógica dos professores com a intenção de verificar como estes organizam o tempo na efetivação do seu trabalho permitirá, junto com a análise dos dados do questionário e do conteúdo expresso nas discussões realizadas nos grupos focais, elucidar que concepção os participantes da pesquisa têm acerca da Educação em Tempo Integral e em que instância relaciona aos princípios da educação integral.
Por sua vez, sendo a análise de conteúdo considerada, segundo Vergara (2004) como uma técnica para o tratamento de dados que tem como fundamento identificar o que está sendo expressamente falado sobre um determinado assunto e considerando que outros instrumentos validarão a pesquisa, ao usar esta metodologia de análise o pesquisador terá a oportunidade de confrontar o que é dito com o que é efetivado, conseguindo assim obter subsídios para compreender como um dado contexto ou realidade se constitui.
Para Bardin (2011) a análise de conteúdo constitui
[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimento às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. (BARDIN, 2011, p.48)
Ao considerar o contexto histórico do surgimento da análise de conteúdo, esta tinha a intenção de “ser a sondagem sobre diferentes opiniões colhidas a partir de experimentos bem planejados” (FRANCO, 2005, p.8).
Esta pesquisa considera que
o ponto de partida da Análise de Conteúdo é a mensagem, seja ela verbal (oral ou escrita), gestual, silenciosa, figurativa, documental ou diretamente provocada. Necessariamente, ela expressa um significado e um sentido.
Sentido que não pode ser considerado um ato isolado. (FRANCO, 2005, p.13)
Por isso possibilitar ao mesmo participante expressar “sua opinião” sobre a Educação em Tempo Integral dará condições de se interpretar com mais clareza a concepção que cada um tem sobre o tema em questão.