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3.2 DELINEANDO A PESQUISA E SUA RELEVÂNCIA SOCIAL.

―Quem é incapaz de construir hipóteses jamais será cientista‖ (Antonio Gramsci (1891 – 1937). Frase muito ouvida nos dois primeiros semestres de aulas teóricas do Mestrado em Desenvolvimento Territorial Sustentável da UFPR Litoral – turma 2015 – 2. Foi diante de diversas tentativas de debruçar nesta reflexão que fomos aprendendo a pensar e construir todos os elementos da pesquisa.

90 A pesquisa em questão neste trabalho é uma pesquisa estratégica cujo problema é: O funcionamento da dinâmica de matriciamento a partir da atenção primária na Política Pública de Saúde Mental no município de Paranaguá.

Por que pesquisar a Política Pública de Saúde Mental em Paranaguá? Saúde mental vem sendo pauta de discussões frequentes desde a década de 1980 e desde o século XXI vem sendo reformulada a sua Política de Atenção em alinhamento com o novo conceito de saúde da OMS: processo saúde/doença relaciona-se com modo de vida, origem e as referências das pessoas, respeito às diferenças individuais e exercício da cidadania (bem-estar biopsicossocial) com intervenções em saúde mental a partir da Atenção Primária em Saúde (APS).

Como toda construção de Política Pública em sua implantação e seu aprimoramento entende-se como fundamental uma base em produção científica.

Dados quantitativos e qualitativos são as ferramentas importantes para subsidiar decisões estratégicas e ampliar a efetividade das ações propostas pela Política Pública. Na área de saúde mental torna-se ainda mais relevante os dados científicos devido à subjetividade característica do comportamento humano e o momento de mudanças de paradigmas e formas de atenção indicado a partir de 2011 instituindo a Rede de Atenção Psicossocial (Raps). Neste cenário não bastará o acompanhamento clínico dos transtornos mentais como se pensava na lógica do acompanhamento manicomial. É cada vez mais necessário que a pessoa com transtorno mental seja acolhida de forma interdisciplinar em seu território e para tal deve-se conhecer e oferecer uma rede de suporte para essa pessoa, rede essa que é feita de pessoas e de serviços.

Justifica-se esta pesquisa no sentido de trazer as contribuições de um olhar qualitativo para a Política Pública de Saúde Mental no município de Paranaguá.

Entende-se que uma maior compreensão da dinâmica de rede e de matriciamento dessa Rede de Saúde Mental pode potencializar o funcionamento da mesma, ampliar a clareza dos profissionais sobre os serviços que fazem parte da rede e sobre como são os fluxos para realização dos encaminhamentos necessários de maneira adequada a proposta de matriciamento e, assim, facilita para os usuários o acesso a um cuidado mais integral e resolutivo no acompanhamento em saúde mental.

91 Dito isso, é importante destacar que para uma sociedade cada vez mais complexa, em suas relações interpessoais e institucionais, várias são as demandas que surgem na saúde mental dos usuários do Sistema de Saúde Brasileiro. Ao longo da implantação das principais mudanças na Política de Saúde Mental a partir da Reforma Psiquiátrica as práticas propostas pela política foram sendo testadas e novos desafios foram surgindo. O principal desafio nesta política é o da não institucionalização, da reintegração social do usuário de saúde mental e, atualmente, da implantação do modelo de atenção comunitária.

A intenção com a pesquisa é conhecer outras formas de contribuir com a Política Pública de Saúde Mental utilizando conceitos de Rede, Poder e Território e outros das Ciências Sociais aplicadas para problematizar a Política Pública de Saúde Mental em Paranaguá, incluindo o processo de matriciamento na atenção primária. Ao final, com o resultado da pesquisa, almeja-se contribuir com reflexões sobre a dinâmica de funcionamento da Política de Saúde Mental na relação com os usuários e ampliar o conhecimento público da situação da saúde mental na região do litoral. Em outras palavras o objetivo da pesquisa é a compreensão da Política Pública de Saúde Mental em Paranaguá destacando avanços e desafios na superação dos paradigmas da atenção em saúde mental a partir da APS. Para tal três passos são relevantes: identificação das instituições e tecnologias envolvidas no matriciamento e na APS em saúde mental; compreender a dinâmica de matriciamento no município e identificar possíveis fragilidades da rede; e, estabelecer comparações entre a proposta da Política Pública de Saúde Mental e sua execução no município.

Num cenário pós-reforma psiquiátrica de apenas quinze anos de mudança de paradigmas na política de saúde mental e de apenas cinco anos com ênfase na atenção primária tem-se conhecimento de que existem fragilidades e potencialidades no atendimento ao usuário de saúde mental no município. Nesse sentido, a presente pesquisa tem por hipóteses: a) Um dos maiores desafios da saúde mental é a não compreensão dos trabalhadores da saúde sobre a dinâmica da nova configuração da rede de saúde mental na lógica do apoio matricial; b) A política de matriciamento possui dificuldades estruturais para seu funcionamento no município de Paranaguá, por exemplo, a ausência de equipamentos de saúde mental em conformidade com os dados populacionais e as demandas locais.

92 O método de pesquisa foi qualitativo, que, para Minayo (2008), responde a questões muito particulares por trabalhar com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores, das atitudes, em um nível de realidade que não é visível, precisa ser exposta e interpretada, primeiramente, pelo próprio pesquisador. Consiste em estudo aprofundado/detalhamento exaustivo a respeito da Política Pública de Saúde Mental no município de Paranaguá. A definição da amostragem foi não probabilística intencional devido à relevância em buscar fontes estratégicas na aplicação da Política Pública em questão.