CAPÍTULO 4 CAMINHOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO
4.2 DELINEANDO OS CAMINHOS METODOLÓGICOS: IMAGEM E SOM COMO
Os recursos tecnológicos associados aos estímulos auditivos e visuais são tão presentes e significativos, influenciadores e condicionadores do pensar, que seria praticamente impossível desvincular-lhes das ações do dia a dia na vida urbana moderna. Os variados sistemas de informação usam recursos audiovisuais15 como ferramentas mercadológicas e de difusão, literalmente empregando estratagemas e apelações envolvendo a imagem e o som pelos meios de intercomunicação, anúncios e notícias, na
15 Por audiovisual, entendemos os recursos que utilizam imagem - com ilustrações estáticas ou em
idealização de uma indústria de consumo. Impondo modelos ideais de produtos e padrões estéticos, geram modelos a seguir e sujeições. Trata-se de uma manipulação que visa atrair espectadores com uma imagem de impacto que gere choque ou admiração. Como base, fonte e instrumento, a imagem e o som são elementos fundamentais nos estudos sociais de qualquer espécie.
As expressões artísticas, dentro de um sistema sociocultural e conectadas ao seu tempo e espaço, utilizam os recursos disponíveis apropriando-se dessas ferramentas tecnológicas. Muito dessa maquinaria desenvolveu-se em função das artes, vide as grandes estruturas de som e imagem produzidas para espetáculos de diferentes linguagens artísticas. Da mesma forma, as artes tornaram-se dependentes e reféns desses dispositivos. Tais princípios, interconectados com o meio social, a imagem, o som e evidentemente o texto, tornam-se elementos fundamentais na pesquisa de registros artísticos.
Loizos (2018, p. 137), em relação à análise de imagem/fotografia, observa que:
A imagem, com ou sem acompanhamento de som, oferece um registro restrito, mas poderoso das ações temporais e dos acontecimentos reais concretos, materiais [...]. Ela pode empregar, como dados primários, informação visual que não necessita ser nem em forma de palavras escritas, nem em forma de números.
Esses registros não estão livres de problemas éticos. Por serem representações de um complexo maior de ações passadas, são dependentes de uma série de fatores, o que pode envolver a manipulação ou distorção de informações, comprometendo o registro histórico.
Tais alterações podem envolver determinadas intenções ou até ideologias, pela forma como é feita a captura do registro - escolha do momento da tomada, do enquadramento de uma fotografia etc.- e a edição posterior das imagens, excluindo ou adicionando objetos, pessoas e cenários (LOIZOS, 2018). No entanto, a intenção artística pode visar justamente à alteração de registros, algo presente e muito usado pelos recursos tecnológicos de manipulação de imagens e sons.
É importante destacar, neste sentido, a diferença para os demais elementos midiáticos propaganda, anúncios, notícias etc.-, em que
(PENN, 2018, p. 331). Há diferentes abordagens e finalidades. A manipulação da imagem/som é um recurso amplamente utilizado, tanto no intento de buscar melhorar a
qualidade16 dos resultados, quanto no intuito de fazer uma adição/alteração de elementos, algo muito representativo da arte contemporânea nas diferentes linguagens.
Entre as formas de delinear os estudos de tais elementos encontram-se os semióticos17, que, referentes às artes/música, implicam identificar os porquês do uso de determinados símbolos, cenários, instrumentação, expressões faciais/corporais do artista, intensidade empregada por determinada passagem da música etc. De acordo com Penn (2018, p. 319):
A semiologia tem sido aplicada em uma variedade de sistemas de signos, incluindo cardápios, moda, arquitetura, história de fadas, produtos para consumo e publicidade e todos os tipos. [...] provê o analista com um conjunto de instrumentais conceptuais para uma abordagem sistemática dos sistemas de signo, a fim de descobrir como eles produzem sentido.
Neste aspecto,
mas suas unidades são menos definidas com relação a sua denotação. [...] seu sentido sendo que esses apontamentos levantam indagações que consideram alguns dos elementos presentes e ausentes. Quais tecnologias utilizadas, ferramentas de tratamento18, instrumentos, ritmos, gêneros, estilos, estética, se fazem presentes? São numerosas as relações possíveis.
Como meio de r
(BAUER, 2018,
pressupor uma relação sistemática entre os sons e o contexto social que os produz e os (BAUER, 2018, p. 366).
A análise técnica trata do aspecto interior da música. Relacionam-se o ritmo, a melodia, a harmonia, a instrumentação, o estilo e o gênero, a estética, entre outros. Na análise etnográfica, são relevantes os aspectos de seu entorno/contexto de produção e reprodução. A pesquisa direciona-se ao caráter etnográfico e, assim, a diligência está em
16 Neste sentido, a busca por qualidade parte de recursos que permitem experiências mais elaboradas, mas
não uma padronização embora em alguns cenários ocorra-.
17 Tais estudos semióticos possuem referências da linguagem, de símbolos e de signos, como representação
em determinados sistemas sociais. Autores como Barthes, Peirce e Saussure possuem notórios estudos e abordagens semióticas. Não é objetivo do estudo aprofundar o uso da semiótica, mas ela é utilizada na interpretação das análises das obras audiovisuais, a partir da perspectiva da discussão das identidades culturais.
18 Tratamento é uma expressão utilizada para denominar o processo de edição de imagem/áudio/vídeo após
relação não aleatória (BAUER, 2018, p. 370).
Enquanto objeto de estudo sociocultural, sua análise musicológica delimitaria a contextualização e representação que envolve a conexão com seus espaços e com seu público. "[...] para entender os efeitos da música sobre uma audiência é necessário entender de que maneira as performances afetam tanto os artistas quanto a audiência" (SEEGER, 2008, p. 244). É uma ilusão pensar que a música pode existir independente dessas condições.
Paviani (2013, p. 65) descreve que "conhecimento, linguagem e realidade podem ser examinados isoladamente; no entanto, eles são autênticos apenas à medida que cada um deles é elemento constitutivo de um único evento ou fenômeno. [...] a investigação de uma dessas perspectivas não pode ignorar as demais".
A interpretação e atribuição de sentido, tanto do público leigo quanto especializado, dependem de inúmeros fatores ligados às memórias, experiências e contextos de vida. Nessa perspectiva, o tempo, o local e a circunstância em que se encontra o sujeito observador, mas também os elementos análogos e circundantes ao registro que se está analisando, são objeto de estudos, pois igualmente influenciaram sua construção.
O predomínio dos elementos verbais nas ciências sociais deixa o som e a música der emocional dos sons e da música como um meio de representação simbólica, parecem (BAUER, 2018, p. 385). Entendemos que são fortes recursos já amplamente utilizados por pesquisadores de diferentes áreas.
Conforme Gadotti (2002, p. 217):
A percepção visual e sonora são operações fundamentais ao ato de conhecer. A compreensão não vem depois da audição ou da visão, é iminente à percepção. A linguagem total reintroduz o homem num universo de percepções porque é, antes de mais nada e primordialmente, uma experiência pessoal, global, onde a percepção opera integrando os diversos sentidos.
Salientamos que existe uma relação de mercado que também é objeto de estudo para compreensão dos dados sociais relacionados às artes, como: a padronização dos recursos de gerenciamento e a transformação das artes em cultura de consumo pela indústria fonográfica, a redução de obras em dados e estatísticas, as relações que visam
ao lucro e a influência desses elementos na produção de conteúdo19.
Entrelaçando tais princípios epistemológicos e emancipatórios dos saberes latino- americanos, bem como as concepções de estudo entre texto, imagem e som, avançamos na explanação do percurso metodológico, apresentando suas justificativas e o corpus de pesquisa.