• Nenhum resultado encontrado

DELINEANDO PASSOS E COMPASSOS: OS ESPAÇOS, OS

CAMINHOS, OS ENCONTROS, AS TROCAS, OS AFETOS E A

ESCRITA

POR ONDE ANDEI

O universo da presente pesquisa circunscreve-se no Distrito Federal. Apesar de ter percorrido várias de suas regiões administrativas em busca de interlocutoras, ao final os espaços que acolheram o esforço etnográfico que compõe esta tese foram a UNIRE (Unidade de internação do Recanto da Emas), a PFDF (Penitenciária Feminina do Distrito Federal), popularmente conhecido como COMEIA, a Cidade Estrutural, região administrativa do Distrito Federal e a Asa Norte, mais especificamente, a UnB, Universidade de Brasília. A busca por possibilidades de diálogo em meio a contextos tão variados tem relação com o objetivo de entrar em contato com a complexidade e a pluralidade das experiências que cercam o universo das mulheres negras com experiências afetivo-sexual com outras mulheres. A diversidade de percepções, de trajetórias, de gerações, de espaços, de formação, o fato de estarem ou não em situações de encarceramento proporcionou de um lado, uma leitura das especificidades, pluralidade e complexidades que atravessam as categorias de análise muitas vezes alijadas academicamente da dinamicidade às quais estão submetidas nas relações sociais e, de outro lado, possibilitou observar no emaranhado dinâmico e variado das relações e do cotidiano o que é comum, o que une todas essas trajetórias. O que primeiro pode ser apontado enquanto caracteres comuns às minhas interlocutoras/parceiras na pesquisa, serviu de critério para constituí-las enquanto grupo, qual sejam, o fato de todas serem negras, se relacionaram e/ou estavam relacionando-se com mulheres e expuseram seus desejos de falar sobre si, suas relações e as emoções envolvendo suas experiências.

Os espaços não foram definidos a priori, nem o quantitativo de interlocutoras ou de encontros. Já no prólogo, mencionei os primeiros passos, conversas e contatos que contribuíram para definições importantes como a de que a pesquisa seria realizada nas regiões administrativas do DF, priorizando espaços considerados periferias da cidade e que eu percorreria locais onde sabidamente a violência se apresentava de forma desvelada, como em instituições prisionais. Em contato com Lara, minha primeira parceira na troca de histórias, passei a frequentar locais de socialização e festas da cidade, alguns específicos para a população LGBT, outros não. A intenção era de fato socializar, conhecer pessoas, estar presente nos espaços, fazer parte deles na medida em que as portas fossem se abrindo, e então criar vínculos com pessoas que posteriormente pudessem conversar comigo de forma descompromissada ou comprometida com o trabalho, ou ainda pudessem me indicar nomes.

Assim, para além da inserção nos espaços de encontros e socialização, esse primeiro momento foi importante a título de observação e do estabelecimento de contatos. Para tanto, frequentei bares, encontros em parques, grupos fechados e festas privadas. Em locais afastados do centro de Brasília, entrei em contato com grupos e pessoas que estavam fora do circuito dos “bares descolados LGBT”. Estive também em algumas boates, mas no geral as mulheres que me acompanharam nesse início preferiam organizar festas restritas a esses grupos, festas privadas para amigas/os, ou ainda frequentar bares locais, não temáticos, para beber com amigas/os ou para flertar. Frequentei também lugares que promoviam festas e eventos de ampla participação por parte de pessoas negras, no entanto, eram lugares que eu habitualmente frequentava. Nesses espaços tive mais dificuldade em acessar grupos de mulheres lésbicas, talvez por minha inserção anterior já ter se dado enquanto hetero e por isso não os frequentei tanto.

Paralelo a isso, organizei a minha entrada na Penitenciária e na Unidade de Medida Socioeducativa. Duas instituições que ao mesmo tempo em que guardam semelhanças e características comuns, levaram-me a dois percursos e movimentos distintos, dada as especificidades locais e as diferentes naturezas das instituições, uma das quais voltada ao encarceramento e a outra à função socioeducativa.Vale lembrar que o tema das conversas e as características dos diversos grupos que interagi e convivi nessa pesquisa protagonizaram situações e vivências em campo, muitas delas intrinsecamente ligadas às situações narradas e experienciadas nas histórias, tanto nas instituições prisionais, quanto fora delas. Em outras palavras, a trajetória de campo foi repleta de experiências de violências simbólicas, de relações afetivas, de momentos de introspecção, autorreflexão e vivências emocionais profundas.

Discorrer sobre os espaços que abrigaram essa pesquisa tem a finalidade de contextualizar o leitor sobre os locais que circunscrevem a trajetória, mas também apontar especificidades desses espaços que guardam relação direta com as reflexões e situações vividas na experiência de campo. Por uma estratégia didática, optei por apresentar essa trajetória a partir dos espaços onde foram se estabelecendo grupos de diálogo e locais de convivência e observação, quais sejam, UNIRE, PFDF, Cidade Estrutural e UnB. No entanto, não é intenção deste texto aprofundar em uma discussão sobre os espaços em si, características, definições etc, de forma que irei tratar das relações que constituí nesses locais, da dinâmica metodológica e de outras questões de relevância em termo dos propósitos que orientam este trabalho.

Minhas inserções se deram nos três primeiros espaços – PFDF, UNIRE e Cidade Estrutural – ao mesmo tempo, com pequenas diferenças no início, mas a uma certa altura do trabalho, quando findo o processo de busca, convite e início de conversa, eu estava em

comunicação com quinze pessoas, cinco de cada espaço. O quarto espaço, a UnB, foi estabelecido a posteriori, após a finalização da pesquisa nos outros três locais. Isso se deveu às possibilidades que se apresentaram com a finalização dessa “primeira etapa” - vou chama-la assim unicamente pela temporalidade diferente a que se desenvolveram esses momentos no trabalho. Que possibilidades eram essas? A medida que fui avançando no trabalho de campo e no decorrer dos meus diálogos com as interlocutoras que estabeleci na PFDF, na UNIRE e na cidade estrutural, enfim, nos três primeiros espaços, fui tentando me inteirar das memórias afetivas, dores e outras emoções e assim me apercebendo de dinâmicas emocionais que deflagravam muitas vezes reações ora comuns, ora trágicas, mas que tinham, como uma de suas características o fato de que implicavam ou ensejavam uma espécie de aprisionamento. Comecei a me questionar, então, sobre quais diferenças havia no que se refere às trajetórias de vida e às formas de se lidar com a dor, entre minhas interlocutoras e as mulheres que estavam nos espaços das discussões feminista, no âmbito dos movimentos negros, sejam os do campo político ou do campo acadêmico? Foi então, que busquei as mulheres negras, e lésbicas que participavam de grupos de militância, tendo discursos empoderados, e com viés feminista, particularmente do feminismo negro, ou do movimento negro sem adesão ao feminismo. O lugar em que eu já dispunha de contatos foi a UnB, razão pela qual comecei a estabelecer um diálogo mais profundo com este grupo de mulheres.

Dedico um espaço neste capítulo exclusivo para a exposição da realização da pesquisa nos ambientes de privação de liberdade, dado o caráter específico do cotidiano, das relações que são estabelecidas e as possibilidades de trabalho de pesquisa e deslocamento nesses locais. A minha inserção na Cidade Estrutural se deu através de Lara, portanto, os espaços por onde andei e grupos que mantive contato foram orientados pelas relações e conhecimento dela. Apesar de ser uma cidade próxima ao local onde eu morava, nunca havia adentrado tão demoradamente neste espaço e de forma tão imersa. Já era de meu conhecimento a diversidade e complexidade que atravessa a cidade, combinando características sócio-históricas culturais bem peculiares. Tinha em mente que a cidade possui uma organização, uma associação de catadores muito coesa e forte, tendo em vista que a cidade foi construída circundando um grande depósito de lixo. Sabia também que é uma localidade de baixa renda, no geral, com graves problemas de infraestrutura e alto índice de violência. No entanto, me chamaram atenção, particularmente, a grande quantidade de bares e igrejas que quase se tumultuavam. A cidade em sua entrada guarda uma semelhança com a estrutura de outras regiões administrativas de melhor infraestrutura, mas ao adentrar no interior da mesma percebemos a precariedade e ausência do Estado. A despeito disso, ou justo por isso, a cidade conta com organizações de

moradores, populares e religiosas fortes que estão em constate luta por condições melhores para seus habitantes. A cidade possui também uma vida social intensa e como era esse o caminho de Lara, foi essa a via de entrada que utilizei para fazer parte da vida da comunidade dessa cidade. Permaneci por alguns meses na cidade. Não morei nela, mas passava a maior parte do tempo lá, quando não estava na penitenciária ou na unidade de medida socioeducativa. Lá estabeleci relações, mantive relações de pesquisa, de amizade, afetivo-sexuais etc.

O outro espaço frequentado foi a Universidade de Brasília. Este já era um espaço comum ao meu cotidiano, portanto não houve grandes estranhamentos. Contactei algumas pessoas que conhecia de disciplinas, dos movimentos sociais, expus a ideia da pesquisa que foi muito bem aceita e incentivada. A Universidade em questão é federal e o único espaço dessa natureza que é público. Abriga uma diversidade de estilos e perspectivas comum à esse tipo de instituição, o que para a pesquisa foi extremamente positivo. Por ser o último caminho a ser trilhado, pela experiência já angariada anteriormente, a pesquisa na UnB foi substancialmente mais rápida.

METODOLOGIA

Constitui um desafio trabalhar com narrativas e trajetórias de vida em um campo diverso no que diz respeito a características espaciais, a perfis psico-sócio-econômicos e com trajetórias de vida não só específicas no que concerne às peculiaridades próprias da individualidade, mas também enquanto grupo. É um desafio também avaliar criticamente a relação entre etnógrafo e seus interlocutores levando em conta

“o exercício de poder tão próprio das relações de pesquisa e da representação. Representar é mediar (...) o nosso padrão de representação hegemônico é ainda um padrão molológico (...) Nesse padrão, a cultura entendida como padrão heteróclito (...) está do lado de fora, como os nativos também estão do lado de fora”(CARVALHO, 2002)

O exercício de constante reflexão sobre o meu lugar de fala, que instituições eu representava, como seriam estabelecidos os vínculos e relações foram preocupações minhas durante todo o itinerário do trabalho. Diferenças sócio-econômicas, de linguagem, de formação, de experiências, de trajetórias, de perspectivas, dentre outros, marcaram fortemente todo o grupo como um todo, mas especialmente os encontros entre eu e cada uma delas, uma vez que conversávamos de forma individual e privativa. O estranhamento dos primeiros encontros foi recíproco e a tensão própria de encontros diversos nunca foi evitada por nenhuma de nós que

se propôs a realizar o diálogo, bem como nunca foi impeditivo da construção de relações afetivas e nem vista de forma pejorativa. O que caracteriza esta pesquisa é o que chamo de parceria, por se tratar de um projeto compartilhado e por estarem pautados na construção de nossa relação e dos nossos diálogos a não passividade de nenhuma das partes, mesmo as relações se constituindo a partir de muitas diferenças e algumas congruências. Muito mais que uma simetria absoluta de posições, os vínculos estabelecidos e os princípios que regeram esse projeto de pesquisa foram pautados na autonomia, construídas em suas trajetórias e refletidas nos diálogos e em trocas mútuas e porque não, dolorosas. Discorro de forma mais detalhada sobre como se estabeleceu essa relação de parceria e de troca que caracterizou e embasou a proposta metodológica que agora apresento.

Além do que caracteriza e constitui as relações num contexto de pesquisa, objeto de reflexão de quem se propõe a fazer um trabalho de imersão em campo, há de agregar a essas preocupações, a especificidade de um trabalho realizado com indivíduas que sintetizam categorias que isoladamente já se encontram em constante disputa numa estrutura branca, misógina e lesbofóbica. Partindo desta colocação e do fato de que os critérios para participação do trabalho foram pautados na raça/cor e na experiência sexual, proponho a elas um diálogo e trocas que não experimentem uma estrutura a priori, que sejam construídos coletivamente no próprio processo de pesquisa, onde não é uma estrutura de gênero, raça, classe, geração, mas uma dinâmica de trocas, de diálogos, de afetos, de vínculos que sustenta a busca por compreensão de sentidos nas trajetórias em questão. Um projeto que coloque as interlocutoras em diálogo, no qual com frequência e respeitando suas privacidades as questiono sobre situações relatadas por outras, me interesso por suas opiniões a respeito da opinião de outras etc. isso é possível, porque o que importa neste trabalho não é a verdade dos fatos, mas como as narrativas de sexo, gênero e raça, ou seja as narrativas dominantes do patriarcado e de raça e todos os esquemas analíticos se transformam nas experiências dessas mulheres e como elas significam isso em suas vidas. O objetivo com isso é explorar o potencial teórico e político dos diálogos.

A interseccionalidade que atravessa toda a trajetória e as preocupações de pesquisa traz à tona a importância não só de considerar a interação entre categorias e elementos que constituem a complexiadade de relações e subjetividades dos grupos como possibilidade e urgência analítica nas pesquisas, mas por em conta essa interação e as peculiaridades das relações nos meandros da pesquisa. Isso é expresso aqui na medida em que no decorrer da pesquisa fica marcado como essas mulheres não se enquadram na narrativa mestra das ciências, e nenhuma dessas perspectivas analíticas dão conta do que essas mulheres experimentam. A

dor, que é compartilhada por todas, incluindo a mim, sentida no corpo e associada aos silêncios, ao controle etc se dá porque é um corpo negro, porque é lésbica, porque é mulher e porque constituem de forma relacional e profunda a subjetividade.

A pesquisa que aqui se inscreve discute não só a interação entre as categorias relações de gênero, raça e sexualidade, mas se propõe ao recorte do emocional e da dor que nos põe em diálogo não só com características metodológicas de narrativas, trajetórias, entrevistas10, relação entre histórias e o social11, mas da relação com o emocional e as categoria envolvidas12, da imersão em campo e seus limites, da subjetividade da pesquisadora13 e da proposta de interação dos diversos elementos a fim de empreender uma das possíveis leituras desse universo. Após esse breve apontamento, descrevo o meu empreendimento ou aventura em campo.

A proposta de condução metodológica pensada para esse trabalho, apresentada para as instituições de privação de liberdade e para minhas interlocutoras foi a de estabelecer um diálogo sobre experiências de vida, sobre suas histórias, suas trajetórias, priorizando as relações constituídas no decorrer da vida até o momento da realização da pesquisa e as emoções envolvidas no processo de sua trajetória. Foram utilizados enquanto recursos metodológicos as “conversas”, que eram momentos de trocas sobre as biografias, dela e minha, momentos em que compartilhávamos opiniões sobre temas e realizavam uma espécie de construção fenomenológica, autoficionalização etc.

10Queiroz (1988) propõe uma distinção conceitual entre entrevista, história de vida, depoimentos, auto-biografias

e biografias. Para ela, o que caracteriza as entrevistas é o fato de que, a despeito da existência ou não de um roteiro prévio, há um direcionamento da interlocução por parte do pesquisador, de sorte que se estabelece um particular “colóquio entre pesquisador e narrado, a direção que é dada pelo pesquisador, onde se tem um roteiro previamente estabelecido ou não, mas implica necessariamente “um colóquio entre pesquisador e narrador” (Idem, ibidem,

p.20). Na autobiografia é o narrador quem discorre sobre sua própria existência, enquanto numa biografia a história de alguém é contada por outrem, havendo uma dupla intermediação, qual seja, a do pesquisador e a do relato escrito posteriormente.

Para Kofes (1994), os relatos de vida só podem ser utilizados de forma mais profunda quando apresentam três dimensões: entrevista, narrativa (como o entrevistado constrói a narrativa) e as possibilidades analíticas (para o investigador). Essas três dimensões valeriam como fontes de informação, evocação e reflexão para o pesquisador. Essas três dimensões não podem ser vistas separadamente, sob o risco de fragmentação da análise e da produção de posições opostas. A autora propõe ainda o intercruzamento entre histórias de vida a fim de evitar essas fragmentações.

11a diferença entre biografia e história de vida é que a última busca a relação entre o indivíduo e a coletividade, de

modo que o objetivo do pesquisador seria apreender a coletividade a partir das relações do indivíduo com a mesma, buscando justamente o que transcende o individual. (QUEIROZ,1988)

12 Autoras como (PACHECO, 2008); (BOUZÓN, 2010); (GIACOMINI, 2006); (SOUZA, 1983), empreendem

um esforço de compreensão das relações, corpo, identidade, emoção de mulheres negras utilizando histórias de vida e narrativas como metodologia.

13Ao considerar o contar da experiência e de vivências em seu aspecto dinâmico, esta tese coloca em evidência

tanto a minha subjetividade como a de minhas interlocutoras, reconhecendo que todo o diálogo pressupunha a construção conjunta de uma trama empática. isto é, a tessitura de trocas intersubjetivas que extrapolavam a mera, distanciada e objetiva obtenção de informações, implicando, ao invés disso, um jogo de reciprocidades mais amplo e complexo, é ponto de partida e condição de possibilidade desta tese.

O foco das narrativas eram as emoções, sensibilidades expressas em diversas linguagens– palavras, gestos, silêncios etc – e reelaboradas a partir do tempo, da memória afetiva e de acontecimentos diversos. Era um contar sobre si, o outro, as relações estabelecidas e situações vividas. Com as interlocutoras que não estavam em situação de encarceramento, eu ainda as acompanhava em diversos espaços, mediante seus convites, fiz parte de grupos de amigas, fui à eventos familiares e observava, além de ouvir e gravar suas narrativas.

Uma característica de nossas conversas era a troca, o compartilhar da experiência, no qual me coloquei tanto nas conversas como no texto desta tese, também me silenciei muitas vezes e em tantas outras elas interagiram comigo, fazendo-me perguntas e dando-me a opinião delas sobre o que compartilhávamos, comigo também opinando. Compartilhei também as formulações analíticas que foram surgindo. No geral, isso acontecia nos últimos encontros, mas por diversas vezes fui demandada a opinar, a corresponder. Essa postura dialógica fez com que o vínculo fosse estabelecido de forma mais rápida e os momentos em que estávamos dialogando sobre o trabalho ganhassem a forma semelhante às conversas com as quais elas estavam habituadas a ter em seu dia-a-dia. Essa troca e a escuta sensível gerou a possibilidade de mergulho de ambas, eu e minha interlocutora.

Nos textos das histórias que seguem nos capítulos, o leitor irá se defrontar com a descrição de dois momentos em que diante de contradições eu as confrontei em suas versões. Faço isso, não em busca de uma verdade, mas para que de forma coerente com a proposta metodológica, qual seja, de uma conversa profunda, de diálogo e de uma construção etnográfica e teórica delas, contida nas histórias, elas pudessem dialogar e confrontar minhas posições analíticas sobre aquela situação em que me deparava com versões e contradições narrativas. O compartilhar analítico era feito por mim em uma linguagem mais próxima do coloquial, no entanto, considerando meu lugar de fala e a impossibilidade de me destituir dessa linguagem, observo um ato de insubordinação de minhas interlocutoras ao se relacionar com essa linguagem não curvando-se a ela em algumas situações, adaptando-se em outras e um esforço de colaborar comigo para a tradução de ideias em algumas outras.

O padrão nos diálogos estava apenas na primeira entrevista e em algumas temáticas e espaços que eu visitava em suas memórias. A estrutura metodológica do trabalho posto em prática seguiu da seguinte forma: com todas elas, conversei sobre família e relacionamentos,