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EDUCANDO PARA PÁTRIA: AS REFORMAS EDUCATIVAS E O PROJETO POLÍTICO FASCISTA

2.4. A CARTA DELLA SCUOLA E A REFORMA BOTTAI

Giuseppe Bottai assumiu o Ministério da Educação Nacional (MEN) em quinze de outubro de 1936 e permaneceu no cargo até cinco de fevereiro de 1943, quando abandonou Mussolini assumindo uma postura antifascista. A escolha de seu nome para o ministério foi recebida com bastante entusiasmo, seja pelo prestígio que possuía dentro do governo, seja porque substituía De Vecchi213. A concentração de poder instituída pelo último ministro tinha causado ódio entre membros do governo, que esperavam se livrar dele o mais breve possível214.

Bottai era visto com bons olhos por sua cultura e inteligência, era jornalista, poeta, escritor, professor de Direito Corporativo e havia fundado duas importantes revistas fascistas:

Diritto del Lavoro e Critica Fascista215. Outra credencial para assumir o novo posto era a Carta

del Lavoro, instituída por ele quando ministro das Corporações em 1926. Neste documento, o

ministro tinha se mostrado sensível ao problema da instrução pública ao determinar que os sindicatos se ocupassem da educação dos trabalhadores216.

Além destas qualidades e competências, Bottai possuía uma personalidade organizativa, autoritária e gozava de simpatia no mundo juvenil, atraindo intelectuais para junto de si. No entanto, sua principal qualidade estava na disposição que tinha em ser um dos mentores do Fascismo, aplicando as diretrizes da ideologia sempre que convocado.

A atuação de Bottai no Ministério da Educação Nacional foi marcada, no campo organizativo, por três aspectos fundamentais. O primeiro se refere à mobilização de toda a nação para a reorganização do sistema escolar, o segundo, pela estreita relação do seu ministério com o

Ministero della Cultura Popolare (MINCULPOP), responsável pela propaganda do governo, e o

terceiro pelo programa educativo ambicioso e de cunho moralista pedagógico217.

Durante sua administração, Bottai promoveu uma série de debates e congressos sobre as leis educativas admitidas pelos ministros anteriores. Estes debates e congressos continuaram depois do ingresso da Carta della Scuola. No entanto, como assinala Mazzatosta, estas reuniões com pedagogos e professores eram um tanto demagógicas, pois no final Bottai não incorporava as reivindicações nas decisões do ministério218.

213MAZZATOSTA, Teresa Maria. Il Regime Fascista tra Educazione e Propaganda. Bologna: Cappelli Editore, 1978. p. 43. 214 Ibidem. 215 Ibidem. 216 Idem, p. 44. 217 Idem, p. 48. 218 Idem, p. 50.

A relação de Bottai com o Ministero della Cultura Popolare foi estabelecida de diversas formas, uma delas na organização das cerimônias de Estado em que as escolas e a Gioventù

Italiana del Littorio participavam.

A administração de Bottai foi tão burocrática e moralista, quanto à de Starace na secretaria do Partido Nacional Fascista. Durante sua gestão, a divisa do partido se tornou obrigatória para os funcionários do Ministério da Educação Nacional, que a deveriam usar todos os dias. Também impôs as determinações ministeriais com rigor, enviando circulares às escolas e afirmando que as diretivas deveriam ser aceitas sem hesitação219. Já o programa ambicioso estava por conta da implementação das leis racistas, impostas à população e à escola a partir de 1938, e da Carta della Scuola aprovada em 1939.

Em 1938, Mussolini publicou o Manifesto do Racismo, introduzindo as teorias raciais na Itália. Tal movimento acompanhava a crescente aliança diplomática entre seu país e a Alemanha de Hitler. Desde então, o discurso da superioridade racial ariana tomou conta da sociedade italiana, implicando em perseguições e exclusões sociais dos judeus. No entanto, diferente da Alemanha, na Itália a introdução do racismo não foi feita de forma tão violenta e garantiu aos grupos judeus estratégias de sobrevivência, pelo menos até o início da Segunda Guerra.

Bottai, como hábil promotor das questões do regime, imediatamente implementou novas diretrizes que incorporavam as teorias raciais. Os alunos hebreus foram excluídos das escolas e universidades públicas e privadas, enquanto os professores de origem judia perderam seus cargos. Os alunos que estavam terminando a escola superior e deveriam prestar exames para a faculdade ficaram impedidos de fazê-los. Apenas os que já estavam escritos no ano de 1938 ou houvessem sido aprovados nos exames do ano anterior poderiam dar continuidade ao ensino universitário220.

Para as crianças judias do ensino elementar, o ministério da Educação Nacional organizou escolas especiais, inclusive com professores hebreus. A algumas comunidades foi permitido estabelecer escolas elementares, mas desde que fossem sustentadas com recursos próprios221. No entanto, o Ministério da Educação Nacional manteve a influência sobre estas escolas obrigando-as a adotarem o livro de texto de Estado222.

219 Idem, p. 51.

220 Regio Decreto Legge 5 settembre 1938, XVI, n. 1390, art. 5.

http://www.olokaustos.org/archivio/documenti/italia/380905-1390.htm acesso 16/05/2007. 221 Regio Decreto Legge 23 settembre 1938 - XVI, n. 1630, artigos. 1 e 2.

http://www.olokaustos.org/archivio/documenti/italia/380905-1390.htm acesso 16/05/2007.

Para o Fascismo, a educação elementar era a mais importante, pois apostava na formação dos pequenos como instrumento de conquista das famílias. Além disto, considerava ser esta a idade em que se poderia exercer maior influência sobre a formação da personalidade.

Diferente do Estado Novo que investiu sua força educativa na educação secundária/média, o Fascismo investiu no ensino elementar. Também, esta diferença não se deu apenas por uma questão ideológica, mas sim estratégia. No Brasil, o governo federal tinha controle sobre o ensino secundário, enquanto o ensino elementar era responsabilidade dos municípios e estados.

As crianças judias, fruto de casamentos mistos, como por exemplo, entre católicos e judeus, encontraram uma outra forma de permanecerem na escola. Aos pais era permitido entrar com uma requisição à Secretária de Demografia e Raça solicitando uma carterinha de pureza racial. Esta carteira era entregue depois da análise da documentação pelas autoridades superiores, e ao recebê-la a criança poderia freqüentar os espaços sociais sem problemas e constrangimentos.

Edoardo Coen, filho de pai judeu com mãe católica, solicitou a análise de seu caso e, enquanto a carteirinha não chegava se manteve inscrito na escola e na Gioventù Italiana del

Littorio, como Balilla. No entanto, segundo suas memórias, a carteirinha nunca chegou, talvez

por desorganização da secretária ou pelo pouco caso dos fascistas com a questão223.

O campo educativo mais prejudicado com as leis raciais foi o universitário, pois um bom número de professores era judeu. Tannenbaum assinalou que entre doze catedráticos dos cursos de medicina, direito e das áreas da ciência um deles era hebreu224. Alguns cursos universitários, por exemplo, foram prejudicados não pela expulsão dos mestres, mas pela perda dos auxiliares. Este foi o caso do Prêmio Nobel de física, Enrico Fermi, que teve que abandonar o país depois de se ver sem ajuda de seus auxiliares, todos judeus225.

As leis raciais alteraram também o currículo dos cursos universitários e o programa das disciplinas nas escolas. Nas universidades, foram introduzidas disciplinas inspiradas no racismo e na superioridade racial226. Nas escolas, os professores foram obrigados a explicar aos alunos sobre a raça italiana e sobre os problemas da contaminação, também tiveram que introduzir a leitura da revista Defesa da Raça. Nos centros de educação técnica superior, os livros de história da década de 1940, também contribuíram para a divulgação das normativas raciais

223 COEN, Edoardo. Era Guerra...e eu um menino. Era Guerra...e io um bambino. São Paulo: Ctè editora, 2004. p. 31.

224 TANNENBAUM, E. R. Op. Cit. p. 222. 225

Ibidem.

as e explicando-as227. Com isto, as escolas, juntamente com os meios de comunicação, introduziram na sociedade italiana uma ideologia racista que até então havia sido pouco conhecida.

Nos filmes, as teorias raciais de superioridade ariana e da raça romana eram divulgadas através dos documentários sobre higiene, esporte e cerimônias cívicas. Os filmes de higiene chamavam a atenção para a necessidade de cuidar do corpo e do ambiente familiar como forma de manter a raça forte. Estes filmes também incentivavam a prática de ginástica como uma maneira de prepararem o corpo para o trabalho e para a guerra.

Já os documentários sobre esportes e cerimônias mostravam o quanto a raça italiana era forte através do desfile de corpos saudáveis e musculosos. A política racial também teve reflexo na imprensa italiana, na Rivista Film, de 1938, por exemplo, Domenico Paolella, solicitava ao LUCE que fizesse um filme de cunho racial, demonstrando a diferença somática e fisiológica das diferentes raças, e a continuidade física do tipo romano na raça italiana228.

A parte mais ambiciosa da administração Bottai foi a Carta della Scuola, um documento que reunia todas as novas diretrizes da educação aprovado pelo Grande Conselho Fascista em quinze de fevereiro de 1939. A Carta della scuola era, esta sim, “a mais fascista das reformas”, pois aproximava a escola da política e conferia a ela a função de educadora do novo homem fascista, como vemos na primeira declaração:

Na unidade moral, política e econômica da Nação Italiana, que se realiza integralmente no Estado Fascista, a Escola fundamento primeiro de solidariedade de toda a força social, da família a Corporação e ao Partido, forma a consciência humana e política das novas gerações. A Escola Fascista, por virtude do estudo, consentido como formação de maturidade, atua no princípio de uma cultura do povo, inspirada nos eternos valores da raça italiana e da sua vitalidade; e o transforma, pela virtude do trabalho, na concreta atividade dos ofícios, das artes, das profissões, das ciências, das armas 229.

Esta primeira declaração define a escola como um espaço de formação “integral” do novo

homem. A educação integral significava formar a consciência social, a personalidade e a

identidade nacional italiana com base na raça, no trabalho e nos ideais do fascismo. Esta formação passava pelo caráter político e militar.

227 TANNENBAUM, E. R. Op. Cit. p. 222.

228 PAOLELLA, Domenico. Film Razzisti. In. Rivista Film, ano I, n. 33, 10 de setembro de 1938, p, 1. Biblioteca Alessandrina.

229

La Carta della Scuola, edita a cura della Società Nazionale Dante Alighieri. Roma, 1939. p. 9. Biblioteca Storia Moderna e Contemporanea, Roma. “Nell’ unita morale, politica ed economica della Nazione italiana, che si realizza integralmente nello Stato Fascista, la Scuola fondamento primo di solidarietà di tutte le forze sociali, dalla famiglia alla Corporazione ed al Partito, forma la coscienza umana e politica delle nuove generazione. La Scuola fascista, per virtù dello studio, concepito come formazione di maturità, attua il principio di una cultura del popolo, ispirata agli eterni valori della razza italiana concreta attività dei mestieri, delle arti, delle professioni, delle scienze, delle armi.”

Tudo pelo Estado nada fora do Estado era o princípio político que permeava a Carta, garantindo a ascensão do Fascismo sobre o campo educativo. Isto dava à reforma um tom totalitário e corporativista, pois reorganizava a escola subordinando-a ao Estado, hierarquizando-a e introduzindo hierarquizando-a questão do trhierarquizando-abhierarquizando-alho em todos os níveis educhierarquizando-ativos. Esthierarquizando-a idéihierarquizando-a fichierarquizando-a clhierarquizando-arhierarquizando-a hierarquizando-a phierarquizando-artir da segunda declaração:

Na ordem fascista, idade escolar e idade política coincidem. Escola, GIL e GUF formam, juntas, um instrumento unitário de educação fascista. A obrigação de freqüentar estas instituições constitui o serviço escolar, que inclui os cidadãos da primeira idade aos vinte e um anos. Tal serviço consiste na freqüência dos quatro aos quatorze anos, da escola e da GIL e continua nesta até os vinte e um anos também para quem não segue os estudos 230. A primeira e a segunda declarações aproximam a escola do Partido através da criação do serviço escolar, que obrigava os alunos a participarem da Gioventù Italiana del Littorio como continuação do processo formativo educacional. Com isto, o Estado ampliava o controle sobre a formação dos jovens, inserindo-os cada vez mais no processo político.

Pela Carta, a Gioventù Italiana del Littorio continuou ministrando a educação física e militar aos jovens escolares, enquanto a escola doutrinava através das disciplinas e dos rituais cívicos. A transformação da participação da Gioventù em serviço escolar assinala para a totalitarização do processo educativo.

A união entre Gioventù del littorio e escola foi consolidada com a criação do libretto

scolastico personale, uma espécie de boletim onde o professor registrava toda a vida escolar do

aluno, incluindo sua participação na Gioventù Italiana del Littorio231. Antes de atribuir uma nota aos alunos, o professor deveria olhar no livrinho todas as atitudes e atividades desenvolvidas por eles. Este libretto não seria abandonado depois da vida escolar e universitária, continuaria sendo um instrumento de uso quando o jovem assumisse um emprego ou um trabalho, pois funcionaria como o currículo civil do italiano do tempo de Mussolini232.

Neste processo de politização escolar, o livro de texto continuou tendo uma singular importância, pois a sua imposição padronizava o ensino elementar e impedia a autonomia do professor. A declaração número XXVII da Carta confirmava a adoção obrigatória do livro de

230 Ibidem. Grifo nosso. “Nell’ordine fascista, età scolastica e età politica coincidono, Scuola, G.I.L. e G.U.F. formano, insieme, uno strumento unitario di educazione fascista. L’obbligo di frequentarli costituisce il servizo scolastico, che impegna i cittadini dalla prima età ai ventun´anni. Tale servizo consiste nella frequenza, dal quarto al quattordicesimo anno, della scuola della G.I.L. e continua in questa fine ai ventun’ anni anche per chi non seguita gli studi.”

231 MAZZATOSTA, Teresa Maria. Op. Cit. p. 93. Livrinho escolar pessoal. 232

Il Gran Consiglio presiduto dal Duce approva la Carta della Scuola. La Relazione Bottai. In. Corriere della Sera, ano 64, n. 40, 16 de fevereiro de 1939, p.1. Biblioteca Storia Moderna e Contemporanea, Roma.

texto no ensino elementar e determinava que todos os livros adotados no ensino médio fossem aprovados pelo Ministério da Educação Nacional233.

A permanência dos livros de texto no ensino elementar tinha motivos pedagógicos e ideológicos. A renovação dos livros e a revisão dos já existentes aparentavam uma modernização dos meios didáticos. A padronização do conteúdo também contribuía para esta falsa modernidade. No entanto, este motivo era um tanto demagógico já que na administração de Bottai foi criada uma comissão para escrever os livros e outra para revisar e aprovar os já existentes. Bottai também assinalou que a obrigatoriedade dos livros respondia a uma questão econômica, pois eram publicados pelo Estado e isto proporcionava uma queda nos preços, permitindo às famílias pobres o acesso ao material didático. Com isto, o governo mantinha o ideal “andar verso o povo”, reforçando a idéia do Fascismo como tradutor das necessidades da nação234.

No entanto, a existência do livro de texto no ensino elementar e o controle dos livros a serem introduzidos no médio tinham a ver com a crescente totalitarização da sociedade. A busca pelo consenso e a criação de uma imagem do Fascismo e de Mussolini como os verdadeiros salvadores da nação italiana estimulavam a manutenção destes livros na escola. Também com os livros se padronizava a formação do novo homem fascista, sem o risco dos alunos receberem uma informação não controlada235.

A preocupação em manter os livros de Estado no ensino elementar tinha a ver com a formação da personalidade infantil. Com base em estudos pedagógicos sobre a evolução intelectual da infância, consideravam que crianças entre os seis e os oito anos eram mais fáceis de serem influenciadas. Nestas idades, os pequenos começam a formar gostos, valores e conceitos de certo e errado. Sendo assim, chegaram à conclusão de que esta era a melhor fase para exercerem uma ação doutrinadora236.

As frases encontradas nos livros de Estado demonstram a preocupação de fazerem dos pequenos futuros fascistas: “melhor viver um dia como leão do que cem anos como cordeiro”237, “Obedecer porque deves obedecer”, ou, “Diante dos subversivos que criaram o caos depois de 1919, Deus não abandonou a Itália nem os italianos: o Duce da recuperação foi Benito Mussolini”238. As frases de ordem não estavam apenas nos livros, também eram encontradas nos

233 La Carta della Scuola, edita a cura della Società Nazionale Dante Alighieri. Roma, 1939. p. 19. Biblioteca Storia Moderna e Contemporanea, Roma.

234

“Andare verso il popolo” era uma das famosas frases de ordem pronunciadas por Mussolini, o significado da frase representava o ideal do Fascismo de se aproximar dos interesses do povo.

235 MAZZATOSTA, Teresa Maria. Op. Cit. p. 147.

236 VOLPICELLI, Luigi. Scuola e Lavoro. Roma: Angelo Signorelli editore, 1941. p. 248. 237

BERTONHA, João Fábio. Fascismo, nazismo, integralismo. São Paulo: Editora Ática, 2003. p. 22. 238 TANNENBAUM, E. R. Op. Cit. p. 224.

corredores das escolas e nas salas de aula ao lado do crucifixo e dos retratos de Mussolini e do Rei Vittorio Emanuele III.

Alguns filmes produzidos pelo LUCE seguiam a linha dos livros de texto ao mostrarem as frases de Mussolini ou o mesmo fazendo discursos entusiasmados. Um exemplo disto foi o filme, produzido em 1939, Credere, Obbedire, Combattere, que realizava um apanhado geral dos dezesseis anos de Fascismo e preparava o espírito do povo para a entrada na Segunda Guerra Mundial. Neste documentário, algumas frases de Mussolini aparecem como slogans misturados a imagens que revelavam os feitos do Fascismo.

A aproximação entre política e escola também se deu com a introdução do trabalho em cada nível de estudo. A Reforma de 1923 já havia introduzido o trabalho nas escolas de nível médio, com princípios vocacionais e formativos que visavam desenvolver atitudes técnicas e morais239. A concepção pedagógica do trabalho que encontramos nas escolas de Gentile era baseada na teoria da escola ativa. Esta teoria pregava a divisão entre escola do trabalho e profissional. Na segunda era aplicado o princípio formador da mão-de-obra com o ensino de uma profissão, enquanto na primeira predominava a concepção do trabalho como instrumento moral e social240.

No entanto, os princípios morais e sociais do trabalho estiveram longe de serem aplicados durante a gestão de Gentile ou mesmo antes de Bottai. Durante todo este período, a introdução do trabalho na escola foi feita com base em uma visão materialista e servil. Continuavam mantendo nas escolas o ideal burguês do trabalho como instrumento mecânico e não espiritual241. O máximo que se pensava era fazer do trabalho manual escolar um instrumento de mudança do pensamento, ou seja, como uma maneira de acabar com o preconceito.

Os ideais pedagógicos da escola ativa não foram abandonados completamente pela Carta

della Scuola, mas a ela foi incorporada uma outra noção educativa que estava ligada ao conceito

do humanismo moderno. Nesta perspectiva, o trabalho era encarado como resultado da junção entre técnica e cultura. Esta concepção era defendida por Luigi Volpicelli, um dos pedagogos mais importantes da Itália durante a década de 1930 e também na de 1960.

Volpicelli era jovem e, em 1935, havia recém assumido uma cátedra na universidade, no entanto, não era menos experiente. Com outros pedagogos de renome, entre eles Nazareno Padellaro, havia sido convidado a participar de uma comitiva, convocada por Bottai, para

239

Lo spirito della Scuola del Lavoro. In. La Scuola fascista, ano V, n. 17, 27 de janeiro de 1929, p. 1.

240 La scuola del lavoro o scuola attiva. Il concetto di scuola attiva. In. La Scuola Nazionale fascista, ano II, n. 9, 31 de junho de 1932, p. 13.

241 VOLPICELLI, Luigi. Commento Alla Carta Della Scuola. Quaderni Dell’istituto Nazionale Di Cultura Fascista Serie Decima I. Roma: Istituto Nazionale di Cultura Fascista, 1940. p. 50. Biblioteca Storia Moderna e Contemporanea, Roma.

discutir a introdução do trabalho nas escolas. Vale observar que Volpicelli não era fascista e que sua aproximação com o fascismo havia se dado pelo fato de ter visto neste movimento uma possibilidade de aplicar sua teoria sobre o trabalho nas escolas. Volpicelli, como tantos outros intelectuais, via no Fascismo um meio e não um fim242.

Durante as reuniões da comissão, Volpicelli apresentou sua teoria em que encarava o trabalho como instrumento educativo do espírito e da ética243. Para ele o trabalho a ser introduzido nas escolas não seria mecânico, como havia sido praticado até então, mas sim produtivo auxiliando no processo criativo e construtivo do espírito244. Sua teoria do trabalho produtivo implicava em um novo conceito de escola, que deixaria de ser entendida como uma escola que educa para a vida, para ser vista como uma escola que educa a vida245. Sendo assim, o trabalho como educador espiritual e da vida não poderia ser reduzido à mera educação profissional. Isto seria reduzir a potencialidade educativa dele.

A teoria pedagógica de Volpicelli era fruto da fusão de outras duas teorias. Uma que inseria o conceito de escola e de trabalho em uma filosofia da cultura, regida por Kerschensteiner, e outra, defendida por Dewey, que adotava uma visão acadêmica e anti-livresca da escola, que a encarava como concreto movimento da vida246.

Ao final dos debates da comissão ficou decidido que ao valor mental do trabalho,