«A
primeira operação que manifestou a intenção de reduzir, muito consideravelmente, o aluguer dos capitais, dar crédito ao Estado e minorar os seus encargos, foi o empréstimo dos 4.000 contos,com
o juro de6,85 por cento. Ainda que estejuro sepossa chamar forte, absolutamente considerado, não se deixará de convirem
que era muito módico relativamente aos lucros que deixavam as transacções anteriores.«Mas
não bastava fazer o empréstimo dos 4.000 contos: esta quantia foi absorvida pelas antecipações que se reuniram, enem
para todas chegou: o Estado carecia de novos recursos extraor-dinários. Para evitar que o
Governo
se lançasse outra vez nas ope-rações que tanto haviam embaraçado as finanças, e que por seus grandes lucros entreteriam a carestia dos capitais, aCompanhia
Confiança fêz quantiosos suprimentos ao Governo, unicamenteem
dinheiro, e não lhe levando mais cousa alguma que o juro de—
48—
6 por cento ao ano.
íNão
seria isto querer reduzir o preço dos ca-pitais, dar crédito ao Estado, e diminuir os seus encargos? Afora os empréstimos do Banco de Lisboa, queem
1835 foi quási esgo-tado, dhaviaalgum exemplode empréstimos aoGoverno
Português por tal preço?iOnde
estão aqui as operações lesivas, os lucros enormes daCompanhia
Confiança de que tanto setemfalado?«Além do empréstimo dos 4.000 contos, e desses suprimen-tos
—
aopar— em
dinheiro e sócom
ojuro de 6 por cento ao ano—
pode dizer-seque estaCompanhia
não fêz outras operações senãoum
suprimento àCompanhia
das Obras Públicas,também com
esse juro, alguns empréstimos sobre penhorescom
omesmo
juro, e descontos de recibos aos servidores do Estado. Somente houve,
em
Abril de 1846, jáquando
aCompanhia
tinha suspendido os seus empréstimos ao Governo, a reforma deum
de 300 con-tos, nosmesmos
termosem
que oGoverno
contrataracom
par-ticulares.
«Quanto aos descontos,
também
se não dirá que foium
ne-gócio lesivo.Os
directores daCompanhia
Confiança viram que os recibos sofriamum
rebate enorme, que contrariava os esforços feitos para dar crédito ao Estado e diminuir o preço do dinheiro;e, prosseguindono seu sistema, reduziram o desconto portal
modo
queem
Lisboa era de ^/s por cento aomês —
quer dizer à razão de 7\/2 por cento ao ano. íHouve
outro algum tempoem
que os vencimentos dos servidores do Estado tivessem estedesconto?—
Ainda
uma
vez, se isto são factos notórios, e quepodem
serconfirmados à face dos livrosedocumentosdaCompanhia,ipoderá dizer-se que ela fazia negócios lesivos para o Estado, e tirava lu-cros enormes de suas operações?
«As diligências por baixar o aluguer dos capitais, surtiram o
efeito desejado: a
Companhia
Confiança chegou a obter dinheiroem
Lisboa a 5 e 5^'^ por cento, e no Porto a A^J-i; os particulares o achavamtambém
poruma
taxa muito reduzida.No
crédito do Estado houve igualmenteum
melhoramento espantoso: os títulosde dívida fundada tiveram
em
poucos mesesum
acréscimo de va-lor de que não havia exemplo.«ciMas poderia ser durável estasituação?^Haveria capitais que bastassem para suprir as necessidades do Tesouro público, e para as fortíssimas despesas das obras projectadas? íSe os não hou-vesse, não SC perderia o crédito?
iNão
se voltaria às operações ruinosas de agiotagem?íNão
subiria o preço do dinheiro?tNão
se abririam os olhos à verdade?
dNão
desabaria, emfim, todo o edifício levantado?«Para logo foi evidente qne os accionistas da
Companhia
Confiança Nacional e os daCompanhia
das Obras Públicas não podiam, por si sós, e tão prontamentecomo
era mister, fornecer os capitais para todas as necessidades ocorrentes. Foi por isso quea
Companhia
Confiança Nacional, fazendo uso do crédito,tomou
a juro, sobre a emissão de notas promissórias, quantias conside-ráveis. Havia a idea de fazer contribuir para a grande empresa os capitais que os accionistas pudessem ir entregando,
sem
vexame,nem
prejuízo de outros empregos úteis, e aomesmo tempo
os ca-pitais que se conservam disponíveis fora das empresas mercantis, agrícolas ou industriais.^«Contava-se, além disso,
com
os capitais que viriam doBra-sil.
É
constante que, desde 1845, teem vindo daquele império para Portugal muitos milhares de contos de réis; e, se isto assim temsido, apesar de graves transtornos na
ordem
pública e da perda de tantas esperanças, ninguém pode duvidar de que, se a tranqui-lidade se tivesse mantido e opaís houvesse oferecido empregose-guro e fácil dos capitais, muito maior
número
de portuguesesteria regressado à sua pátria
com
todas as suas riquezas; emesmo
não teriam ido buscar emprego a países estrangeirosfortes somas pertencentes a tantas pessoas que vieram residir ou já residiam
em
Portugal. São incalculáveis os capitais que do Brasil afluiriam às empresas de viação e aos diversos ramos industriais, se o país continuasse a apresentar o aspecto de 1845.«Contava-se, finalmente,
com
o ingresso de capitais estran-geiros, ou por meio de empréstimos, ou pela sublocaçãodal-guma^das grandes obras a cargo da
Companhia
das ObrasPúbli-cas. Ultimamente, estava-se
em
negociações paraum
empréstimo na Holanda, e para a cedência do caminho deferro auma
compa-nhia inglesa, que oferecia sólidas garantias. Estaasserção pode ser satisfatoriamente comprovada.«Apurado, não por
uma
guerranem
por qualquer crise social,mas
unicamente pelas consequências da própria temeridade, o Go-verno de 42-46, que foi para Portugaluma
espécie de Law, pre-cipitava-se a si e o paísnum
abismo.«Devorada por
uma
verdadeira penúria que a insensatez das medidas adoptadas agravava, complicando-se todos os dias, ten-tando criaruma
suposta riqueza sobre o balofo alicerce da agio-tagem, e tornando assim a inópiaem
crise eem
ruína, a admi-nistração cartista, não só fomentava a expansão desses bancos anónimos (Confiança, União) ou ilimitados (Folhosa, Jun-queira&
C.^J,mas
consentia que o Banco de Lisboa,exclusi-vamente encarregado da emissão, se deixasse arrastar no fatal
pendente da agiotagem, tornando-se solidário
com
as companhias especuladoras.«A
emissão do Banco de Lisboa, criadaem
1822 e que nesse ano apresenta asoma
de 1.057 contos, cresce constantemente,com
a lentidão própria das instituições que se apoiam na popula-ção e no rendimento.O
período agitado de 1828 a 1834 poucoinfluiu na
soma
de 2.500 contos de 1827: a diminuição é de—
50—
450 contos; e
em
1833 a emissão aprcsenta-seem
4.550 contos;daí para cá até 1846, a constância do aumento não falha, e antes da crise atingiu,
como
vimos, asoma
de 10.000 contos.Quem
olhar para a normalidade
com
que anualmente a emissão cresce, verá que estasoma
não deve atribuir-se a condições análogas às que provocavam da parte doGoverno
o apoio à agiotagemban-cária; verá que não foi forçadamente emitida; e, se alguma cousa admira, é que, sobreexcitadas
como
estiveram as operaçõesban-cárias, desconhecidos ainda os instrumentos que hoje nelas substituem a moeda, a emissão não apresente acréscimo exces-sivo e anormal».
A
crise prosseguia, os decretos sobre curso forçado das no-tas por falta de sanção eram letra morta. Daí o Decreto de 14 deNovembro em
que se puniacom
a multa de 50 a 500 mil réis e atécom
degredoquem
se recusasse a receber notas, por elas pedisse ágio ou estabelecesse preços diferentes conforme amoeda em
que fosse feito o pagamento e determinava nulas todas as disposições contrárias que determinassemuma
certa espécie de moeda.Era
uma
atmosfera artificial que assim se criava ao Banco de Lisboa ecomo
tal este organismo pouco poderia durar.Assim a 15 de
Novembro
oGoverno
decretava a fusão daCompanhia
de Crédito Nacionalcom
o Banco de Lisboa resul-tando dessa híbrida conjunção, o Banco de Portugal.O
longo e interessante relatório que precede o Decreto de IQ deNovembro
de 1896 procurando demonstrar a conveniência da solução proposta—
a fusão bancária a que já aludimos—
dizia:que a revolução de Abril havia determinado
uma
corrida a que os bancos não puderam satisfazer por terem emprestado ao Te-souro mais de 7.000 contos; que o curso forçado provisório era causa de incertezas e desordens urgindo, pois, torná-lo perma-nente e definitivo; que vista a falta de espécies para satisfazer as necessidades da circulação, as notas a deviam substituir; que as receitas adjudicadas ao instituído fundo especial de amortização eram insuficientes para solver seis a sete mil contos de dívida flutuante; que o curso legal de 5.000 contosem
notascom
amor-tização fixa habilitaria a solver gradualmente a dívida flutuante:que para distribuir as vantagens desta emissão legal pelos credo-res do Estado, o Banco fundir-se-ia
com
a Confiança e, fundidos, distribuiriam aos demaisportadoresdedívidaflutuanteasvantagens equivalentes; que o Bancotomando
a si todos os créditos flutuan-tes no valor de 13.000 contos constituindo o seu activocom
o capitalsomado
das duas instituições fundidas no valor de 10.000 contos ecom
a emissão legal de 5.000, teria a sobra de 2.000 contos para as operações ordinárias; que o excesso dospaga-mentos cobrados do Tesouro por nota dos seus débitos sobre a
soma
fixa da amortização legal das notas seriaum
aumento fu-turo de recursos; e que não havendo meios de pagar as promis-sórias da Confiança, envolvidas agora estas no passivo do Banco, continuariam,em
moratória, vencendo o juro de 5 7" pago trimes-tralmente.Nestas condições o
Governo tomou com
o aludido Decreto as seguintes disposições:1.0
—
Criarum
novo Banco que se denominaria Banco de Portugalcom
o capital de 11.000.000$000 réis constituído por 5.000 contos do Banco de Lisboa, 3.800 contos daCompanhia
de Confiança Nacional, 1.200 contos a receber dos accionistas da Confiança e 1.000 contosem
promissórias da Confiança ou detítulos de notas do Banco de Lisboa capitalizadas.
2.0
— O
novo Banco teria o exclusivo da emissão fiduciária até 187Ó, salva a autorização concedida ao Banco Comercial do Porto.3.0
—
Teria a seu cargo a guarda dos depósitos judiciais ou administrativos.4.0
—
Teria igualmente o exclusivo de caixas económicas.5.0
— O
limitemáximo
de emissão legal,com
curso forçadoem
todos os pagamentos, na totalidade até 30 de Junho de 1847 e por dois terços até 31 deDezembro
de 1848, fixadoem
5.000 contos,com
amortizações mensais de 18, a contar de Janeiro de 1847.6.0
— O
abono de juro de 50 "/o trimestralmente pago às promissórias da Confiança.7.0
— O
empréstimo de mais 300 contos ao Tesouro.8.0
— A
confirmação do decreto que criara o fundo de amor-tização, devendo a receita correspondente ser entregue ao Banco para êle daí satisfazer os créditos sobre oTesouro adquiridos por este decreto e os próprios.9.0
— O
pagamento dos credores de dívidaflutuantepor meio de acçõescom
juro e amortização fixa sobre o fundo de amorti-zação, as quais acções o Banco trocaria por inscrições ao títulode 62.
Publicamos a seguir as contas que demonstram a forma
como
se fizeram os cálculos das verbas de 5.000 contos do Banco de Lisboa e de 3.800 contos e 1.200 da Confiança, verbas estas que serviram para a formação do capital do Banco de Portugal.
—
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54—
Em
20 deNovembro
de 1846publicou-seum
curioso balanço demonstrando a situaçãoem
que ficou o Banco de Portugal após a junção do Banco de Lisboacom
aCompanhia
de Con-fiança Nacional.Em
29 deDezembro
a comissão organizadora do Banco de Portugal publicou o novo Balanço que nos merece especial inte-resse pelo que se refere a circulação fiduciária. Esta era nessa época a seguinte:Notas de ouro e prata
96.823 de 4$800 réis 464.750$400
53.296 » 19$200 » 1.023.283$200
45.445 » 48S000 » 2.181.360$000
1.978 » 96$000 » 189.888S000
4.800 » 1$200 » 5.760$000
Total réis 3.865.041$600
Notas de cobre
6.000 de 2$400réis 14.400$000
115.705 » 4$800 » 455.384$000
28.274 » 19$200 » 542.860$800
553 » 48$000 » 26.544$000
Ordens
10 de 9$600réis 96$600
4 » 14$400 y> 57$600
1.003 » 48$000 » 48.144$000
1.087.487$000
A soma
destas quantias—
escreveu Oliveira Martins (O—
dava o pequeno excesso quefoi amortizado paralimitara emissão forçada ao total de 5.000 escudos (decreto de 19 de
Novembro
de 1846).(') Circulação Fiduciária, p.284.