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4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.3. Comportamento

4.3.2. Demais comportamentos

Os psitacídeos são aves excepcionalmente sociais, possuindo os comportamentos de voar, forragear e se reunir para dormir em grandes bandos (SICK, 1997; ENGEBRETSON, 2006). A privação da atividade social com indivíduos da mesma espécie em cativeiro pode levar ao desenvolvimento de anormalidades físicas e comportamentos incomuns (ENGEBRETSON, 2006).

Nos recintos D5 e D12 havia apenas um indivíduo de arara-canindé, que interagiam em baixa frequência com os indivíduos de outras espécies nesses recintos. Essas interações, na maioria das vezes, eram agonísticas. No recinto 20B, apesar de haver três araras-canindé, havia pouca interação do casal formado pelos indivíduos ZOO CVEL 012 e ZOO CVEL 143 com o indivíduo ZOO CVEL 141, em sua maior parte, interação negativa, o que desencadeia o estresse entre indivíduos não aceitos socialmente ou entre indivíduos dominantes e subordinados. Portanto, a correta combinação tanto intraespecífica quanto interespecífica deve ser levada em consideração para a redução de estresse em cativeiro.

O aumento na frequência do comportamento “Locomover-se” na etapa de enriquecimento e redução na etapa de pós-enriquecimento, e a redução do comportamento “Repousar” na etapa de enriquecimento e aumento na etapa de pós-enriquecimento na maioria dos recintos, podem estar relacionados com a interação com os itens de enriquecimento oferecidos.

O comportamento “Alimentar-se” também reduziu na etapa de enriquecimento, sugerindo que as aves apresentaram interesse pelos itens de enriquecimento alimentar, pois a riqueza de formas e tipos de alimentos oferecidos estimula a interação com essa categoria de enriquecimento (SANTOS et al., 2015).

Itens de enriquecimento alimentar, quando colocados em diferentes locais e com acesso mais difícil, podem estimular a atividade das aves, proporcionando a locomoção, a manipulação e a destruição dos objetos (PÉRON & GROSSET, 2013).

O estímulo do forrageio, exploração dos itens de enriquecimento, aumento da atividade e/ou locomoção das aves também foi registrado em tiribas-de-barriga-vermelha (Pyrrhura perlata) (VAN HOEK & KING, 1997), araras-azuis-grandes (PIMENTA et al., 2009), papagaios-verdadeiros (ANDRADE & AZEVEDO, 2011; MELO et al., 2014), gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) (GREJIANIN, 2011) e periquitões-maracanã (Psittacara leucophthalmus) (TELLES et al., 2015). Também foi registrada redução na ociosidade com o oferecimento de itens de enriquecimento ambiental nos trabalhos com gaviões (JIMENEZ, 2008), mutuns-de-penacho (DIAS et al., 2010), tucanos-toco (SILVA et al., 2010), canindé e arara-vermelha-grande (Ara chloropterus) (SANTOS et al., 2011) e calopsitas (Nymphicus hollandicus) (ASSIS, 2013). Jimenez (2008) ainda observou a diminuição do peso corporal com o aumento da locomoção proporcionada pela mudança física nos recintos estudados, sugerindo que houve redução de gordura e ganho de massa muscular devido à atividade física.

Diversos trabalhos com mamíferos também mostram redução de comportamentos de inatividade. Forthman et al. (1992) observaram o aumento da atividade e redução da passividade em ursos-de-Kodiak (Ursus arctos middendorffi), urso-negro-asiático (Ursus thibetanus) e urso-polar (Ursus maritimus), o mesmo observado por Corat (2009) em cachorros-vinagre (Speothos venaticus) e por Watters et al. (2011) em fenecos (Vulpes zerda).

Bashaw et al. (2003) verificaram que houve redução do comportamento de descanso em leões quando oferecidos itens de enriquecimento alimentar. Alves e Melo (2007) verificaram que, ao oferecer itens de enriquecimento ambiental para lobos-guará(Chrysocyon brachyurus), houve aumento da locomoção e do comportamento exploratório com redução do comportamento de descanso e aumento da inatividade no pós-enriquecimento. Também em lobos-guarás, Vasconcellos et al. (2009) verificaram aumento da locomoção e de atividades associadas ao forrageio. Aumento da atividade, locomoção e/ou exploração do recinto com a inserção de itens de enriquecimento ambiental também foram

verificados em ursos (CARLSTEAD et al., 1991), gatos-leopardo (CARLSTEAD et al., 1993), gatos-do-mato-pequeno e gatos-maracajá (MOREIRA et al., 2007), jaguatiricas (HASHIMOTO, 2008), onças-pintadas (Panthera onca) (SCORZATO, 2008), saguis-de-tufos-pretos (Callithrix penicillata) (BORGES et al., 2011), cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) (RODRIGUES, 2011), graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus) e suçuarana (Puma concolor) (DELAI, 2011), lontra-neotropical (Lontra longicaudis) (FERRARI et al., 2011), cachorro-vinagre (PEREIRA-JR et al., 2013), macacos-aranha (Ateles geoffroyi) (MÁRQUEZ-ARIAS et al., 2014), gorilas (Gorilla gorilla) (CHARMOY et al., 2015), guaxinins (Procyon cancrivorus) (SANTOS et al., 2015) e onças-pintadas (Panthera onca) (SILVERIO, 2015).

Esses resultados corroboram a ideia da importância do enriquecimento ambiental para redução da inatividade das aves e aumento da qualidade de vida, uma vez que a atividade traz benefícios à saúde dos animais.

Outro comportamento que diminuiu durante a utilização do enriquecimento foi o comportamento “Interagir com objeto”, o que traz benefícios não só às aves como também aos espaços onde estão lotadas. Em cativeiro, o desgaste do bico para evitar o crescimento excessivo é feito principalmente através do ato de “roer” grades e poleiros e, quando esse comportamento não é expresso em alta frequência, pode ser considerado indesejável devido aos prejuízos que podem gerar pela destruição causada às instalações (ASSIS, 2013). A redução de interação com poleiros e arame reduz a necessidade de trocas contínuas de telas e poleiros, o que evita a entrada de funcionários nos recintos, com consequente redução do estresse das aves.

Os psitacídeos passam grande parte do seu tempo na manutenção das penas, mas esse comportamento pode sofrer um crescimento no ambiente de cativeiro quando não há estímulos para reduzir o tempo ocioso das aves, causando automutilação através do arrancamento de penas (ASSIS, 2013). O arrancamento de penas é um problema que atinge aproximadamente 10% das aves em cativeiro (FAGUNDES, 2013), sendo considerado uma doença comportamental associada a problemas de estresse e manejo no cativeiro (BÉRGAMO et al., 2009), não ocorrendo em vida livre.

A frequência do comportamento “Manutenção” teve uma redução na fase de enriquecimento em todos os recintos estudados, seguido do aumento

na fase de pós-enriquecimento. Apesar desse comportamento não apresentar alta frequência no presente estudo, já foi verificado que baixas frequências (em torno de 1%) já são suficientes para gerar danos severos na plumagem (VAN HOEK & KING, 1997).

No recinto D12, durante a etapa de pré-enriquecimento, a arara N4 apresentava arrancamento de penas da cauda; na fase de enriquecimento, as penas começaram a se desenvolver e, novamente, na fase de pós-enriquecimento, o indivíduo arrancou as penas em desenvolvimento. A arara FAG 150 apresentou arrancamento de penas nas fases de enriquecimento e pós-enriquecimento; entretanto, a arara estava em período reprodutivo nessas fases, apresentando arrancamento de penas sazonal, uma condição temporária associada à preparação para a época reprodutiva (colocação de penas no ninho e criação de zona sem penas na região abdominal para acolher e aquecer os ovos e filhotes) (CARDOSO, 2010).

A redução na manutenção das penas e consequente melhora na plumagem ou estabilização dos problemas relacionados a esta em aves que receberam enriquecimento ambiental também foi verificada em tiribas-de-barriga-vermelha (VAN HOEK & KING, 1997), curicas (Amazona amazonica) (MEEHAN et al., 2003), papagaios-cinzentos (Psittacus erithacus) (LUMEIJ &

HOMMERS, 2008), araras-canindé e araras-vermelhas-grandes (SANTOS et al., 2011) e periquitões-maracanã (TELLES et al., 2015), pois os animais tiveram a oportunidade de manipular os itens oferecidos. Essa redução da manutenção de penas é de extrema importância para evitar automutilações.

Alguns autores sugerem que a falta de oportunidades de forrageio apropriado é o fator que mais provoca o arrancamento de penas (MEEHAN et al., 2003, VAN ZEELAND et al., 2009), pois os métodos de alimentação utilizados em cativeiro não permitem interação com o ambiente, o que reduz o trabalho e energia envolvida no forrageio e não contribui para o desenvolvimento neurológico (MEEHAN et al., 2003). Além disso, arrancar as penas pode ser considerado um “comportamento de forrageio redirecionado”, ou seja, o forrageio é direcionado para um estímulo substituto, nesse caso, as penas (HUBER-EICHER & WECHSLER, 1998). O isolamento social também é sugerido como causa desse comportamento (ROSENTHAL et al., 2004; VAN ZEELAND et al., 2009), e pode ser uma das explicações para a arara N4

apresentar arrancamento de penas. Assim, pode-se afirmar que o enriquecimento ambiental alimentar teve um efeito positivo sobre o arrancamento de penas observado no presente estudo.