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Demanda de serviço e sobrecarga no trabalho

5. Resultados

5.6. Demanda de serviço e sobrecarga no trabalho

A percepção de sobrecarga no trabalho, quanto ao esforço e ao tempo subjetivo, foi aspecto comum nas falas de carteiros e de gerentes com relação à demanda de serviço. Carteiros e gerentes relatam ainda que o volume da carga varia diariamente, o que dificulta prever a demanda de serviços. Essa variabilidade está sujeita às

características dos objetos e aos períodos específicos do mês e do ano.

C1 - Tem dia que é mais agitado no registrado porque tem muita multa... Gd - O serviço do carteiro oscila demais...amanhã pode dar...o dobro de

correspondência...

A meta estipulada pela ECT e perseguida no CDD é a distribuição total da carga diária. Em função da variabilidade, gerentes dos CDDs e seus carteiros têm que

programar a distribuição de forma que não haja sobras para o dia posterior, cumprindo a meta e evitando o efeito bola de neve. Gerentes reforçam seu papel no sentido de

assegurar que carteiros entreguem toda a carga do dia.

C5 - Se voltar serviço, a gente vai sair no outro dia...com a carga mais pesada.

C10 - Ontem eu voltei com um resto, aí vai juntar com o de hoje, aí vai só acarretando acúmulo de trabalho.

C3 - Quando não consegue entregar tudo... tem o resto...que é entregue no outro dia... Vira uma bola de neve.

Ocorrendo aumento da demanda, falta de pessoal ou adversidades externas, devem ser adotadas estratégias gerenciais para que a carga seja distribuída. A função do gerente, neste caso, é criar alternativas para que a distribuição ocorra sem prejuízo à produtividade do CDD. Esse é um dos maiores desafios diários dos gerentes.

Gb - Eu sou obrigado a anunciar a carga da unidade de manhã... Eles sabem que tem...que trabalhar com dezesseis mil objetos e você coloca no quadro lá trinta e cinco... eles olham no quadro: “caaara!, vou gastar mais tempo!”... então começa aquela reclamação...

Ga - Se receber uma carga muito acima da dimensionada... tem que ter uma atuação minha e do supervisor...pra que o resto siga no dia seguinte.

Carteiros relatam que atualmente o volume de serviços é pesado e que a carga diária tem aumentado. A situação é agravada pela escassez de trabalhadores. Queixam- se de que, apesar do esforço diário, nem sempre é possível cumpri a meta de entrega, em virtude do volume de entrega e do pouco número de trabalhadores. Os próprios gerentes reforçam o grande volume de serviço que o carteiro precisa dar conta todos os dias, indicando que este problema não ocorre excepcionalmente, tem sido uma realidade diária.

Gd - Você já viu a quantidade de correspondência que aquele local recebe todos os dias? É muita coisa... e o número de correspondências só vai aumentando nos últimos anos...

C10 - A gente fica sobrecarregado...Eu acho que do jeito que tá hoje, entrego na faixa dumas 500 cartas por dia!

C3 – Vinte e quatro ruas...eu entrego, de oitenta e poucas casas...essa faixa...tá um horror de coisas, muito peso!

C13 - Essa parte operacional é muito sofrida, porque é carregar o serviço nas costas, não é sentido figurado! Quando falta pessoal você sente porque a carga aumenta.

A primeira alternativa visando atender a demanda excessiva é a priorização da

entrega conforme grau de urgência atribuído aos objetos. Neste caso, carteiros e gerentes relatam que os objetos registrados são priorizados.

C9 - Se você vê que não dá tempo de entregar tudo... aí você dá prioridade ao SEDEX, depois à carta registrada, que têm prazo pra ser entregue...

Ga - Se a carga for muito alta, não adianta tentar que ele não vai conseguir entregar...ele vai fazer o seguinte, ó... vou deixar essa quadra aqui, esse conjunto aqui...e vai levar só o qualificado (registrado)...

A dobra ou compartilhamento aparece como outra alternativa para amenizar os prejuízos associados a insuficiência de pessoal. O teor desta alternativa é percebido de forma diferente por carteiros e gerentes. Os gerentes reforçam que ‘dobra’ é a expressão informal utilizada pelos carteiros para se referir ao termo técnico ‘compartilhamento’, ou

seja, compartilhar com colegas o serviço na ausência de carteiros. Em geral, configura- se como alternativa adequada para suprir momentaneamente a carência de

trabalhadores.

Gd - O carteiro faltou...põe em prática o plano de compartilhamento...Esse pedacinho vai pra esse, esse ... pra esse. De forma que, na prática, não fica nada aqui sem entregar.

Os carteiros se referem à dobra no sentido de sobrecarga de trabalho gerada ao assumir o distrito do colega ausente, representando acúmulo e prejuízo para seu

trabalho. Inclusive, são orientados a priorizar o distrito do colega, para evitar acúmulo do serviço.

C10 - Hoje mesmo eu vou fazer a dobra de um setor que eu não

conheço...vai prejudicar o meu serviço, porque aí eu vou ter que dá prioridade na dobra (a do colega).

A última alternativa comumente associada ao problema de sobrecarga de

demanda e falta de contingente é a hora-extra. A hora-extra é vista de forma polêmica e diferenciada por carteiros e gerentes. Por um lado, os carteiros reclamam da

arbitrariedade e freqüência com que essa estratégia tem sido adotada. Por outro, os gerentes assumem que a ocorrência é deliberação dos Correios, prevista em contrato de trabalho, ou seja, já estipulada e de conhecimento de todos. Os gerentes reforçam que, em situação de necessidade de hora-extra, buscam conciliar interesses pessoais dos carteiros e demanda de serviço. No entanto, para os gerentes as demandas

organizacionais se sobrepõem às necessidades pessoais, quando não há possibilidade de negociação. Também reconhecem que a liberação de hora-extra tem se tornado rotineira quando, na verdade, deveria ser adotada como medida contingencial.

Gd – Hora-extra...a gente sempre tenta usar o bom senso... a gente vê a parte dele (do carteiro) sem prejudicar a parte dos Correios também, quando a gente consegue conciliar isso é ótimo, quando não, é determinação.

C11- A empresa, ela bate em cima que hora-extra é obrigação legal...é uma cobrança rígida... tem carteiro aí, que tá fazendo hora-extra desde... o ano passado...

Tanto carteiros como gerentes, diante do alto volume de objetos a serem triados e entregues diariamente, apresentaram que o tempo para o cumprimento da demanda parece ser menor do que na realidade é o turno de trabalho, nos fazendo perceber a existência de tempo subjetivo. Há o entendimento de que o tempo é corrido. A demanda de serviços e a agilidade exigida para cumprimento da meta diária favorecem à

percepção de não ter tempo ou não ver o tempo passar. O carteiro, em particular, refere- se a isso como ritmo intenso impregnado diariamente. Para eles, a possibilidade de não acelerar o ritmo é considerada escassa. Estão sempre ocupados. Para os gerentes, essa percepção é devida não só a problemas da demanda em si, mas à agilidade dos meios de comunicação atuais e a expectativa do cliente quanto aos prazos. Cada vez mais as pessoas exigem rapidez nos serviços prestados pelos Correios.

Gd – Tempo é dinheiro!... A notícia corre muito rápido. O que a pessoa mandou ontem, quer receber hoje...

C5 - A gente não tem tempo. O tempo que tem é só pra almoçar e depois sair...

Além da alta demanda de serviços, existem dificuldades e riscos percebidos por carteiros e gerentes como problemas decorrentes do trabalho. Esses elementos foram agrupados na categoria a seguir.