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CAPÍTULO III – POBREZA E TURISMO NO BRASIL

III. 3.1 Demanda turística: principais características

A análise do comportamento do consumidor de turismo é influenciada pelas características pessoais dos consumidores e pelas condições econômicas, demográficas, sociais, técnicas e fatores psicográficos, ou seja, um desejo, uma necessidade de evasão que se materializa em uma viagem (TALAYA, 2004, p.1-2 e ALEGRE E POU, 2006, p.1343).

A demanda por turismo possui algumas especificidades, entre as quais destacamos algumas das principais. No processo de decisão do turista há, em nível macro, a escolha entre destinos alternativos, mas este não pode ser consumido. O que realmente é consumido são os produtos e serviços oferecidos neste destino, ou seja, o que motiva a escolha do turista, a busca por uma experiência em um local não habitual, não é o que efetivamente é consumido (PAPATHEODOROU, 2006, p. 76 e 84).

Esta característica possui algumas implicações como uma propensão a se pagar mais no destino turístico por um produto ou serviço cujo similar que custa menos no país/região de origem. Este comportamento é conhecido como efeito Veblen que demonstra que o turismo é um bem de luxo, consumido apenas por aqueles cuja renda é alta o suficiente para exceder as necessidades básicas de consumo.

Song e Turner (2006, p. 95-96), em sua análise das pesquisas prospectivas em turismo, concluem que há evidências que a demanda internacional por turismo é um bem de luxo (elevada elasticidade renda da demanda) e que as viagens de longa distância são mais renda elásticas do que as viagens de curta distância, ou seja, as viagens internacionais de longa distância são mais sensíveis a variações de renda.

Em relação à elasticidade preço da demanda, os autores concluem esta é menos elástica do que a elasticidade renda da demanda, isto implica que uma variação no preço dos serviços turísticos provoca menos variação na demanda do que uma variação na renda.

A satisfação do turista depende de uma série de bens e de serviços ofertados pelos setores público e privado, incluindo fatores mais intangíveis, como a cultura local. Estes bens e serviços que fazem parte da cadeia produtiva do turismo são ofertados de forma independente, mas do ponto de vista do turista avaliado de forma comum, ou seja, o produto final considerado pelo turista é o destino turístico.

Diferentemente de outros serviços e produtos que são consumidos onde estão os consumidores, para consumir turismo os turistas devem se deslocar para o destino desejado. Por isso o custo de transporte do turista é um fator de grande importância na análise da demanda. Além disso, os efeitos territoriais da atividade decorrem dos processos de produção e consumo, e não apenas do primeiro, como na maioria das atividades econômicas (PAPATHEODOROU, 2006, p.85). Por isso, seus impactos, potenciais e efetivos, se dão sobre uma base territorial bem definida.

Outra característica do consumidor de turismo é ser risco averso, ou seja, ele busca decidir com base em informações precisas e geralmente busca segurança (PAPATHEODOROU, 2006, p.82 e SONG E TURNER, 2006, p.92).

A demanda turística tem sido alvo de diversas pesquisas no campo da economia. Lim32 (2006) destaca que a demanda turística é geralmente estimada a partir das seguintes

32 A produção acadêmica sobre a demanda turística analisa, quase exclusivamente, a demanda internacional que, apesar da notória importância, não se sobrepõe ao turismo doméstico. A importância deste é notável no Brasil como veremos na quarta seção deste capítulo. Além disso, estas pesquisas não distinguem o turismo internacional de longa distância, que possui características muito específicas, e o turismo internacional de curta distância, principalmente entre alguns países europeus, o que torna os estudos viesados quando comparados os dados dos países europeus e latino-americanos, por exemplo.

variáveis: (i) renda no país origem j; (ii) custo de transporte entre a origem e o destino; (iii) preços relativos (relação entre preço no destino e preços em na origem e nos destinos alternativos); (iv) taxa de câmbio (da moeda no destino por unidade monetária da origem); (v) fatores qualitativos do destino.

No Brasil, Divino et al (2006) avaliaram a demanda e a oferta turística por município. Foram utilizadas para a determinação da demanda variáveis tradicionais como o preço, os custos de transporte e a presença de atrativos e serviços turísticos, e outros de cunho social como o número de homicídios por 100 mil habitantes no ano anterior, para medir o papel da violência na determinação da demanda turística, e o número de crianças entre 10 e 14 grávidas, como forma de medir o papel da exploração sexual infanto-juvenil.

Os resultados demonstram que, conforme esperado teoricamente, o preço e os custos de transporte afetam negativamente a demanda e que a presença de atrativos, notadamente de praias, e de serviços turísticos, como leitos e bancos, afetam positivamente a demanda. No que diz respeito às variáveis sociais, os autores afirmam que a violência possui um efeito negativo sobre a demanda e presença de turismo sexual possui um efeito positivo sobre a demanda, o que revela o perfil do turista que visita o país.

Divino et al. (2006) concluem que a demanda turística é elástica a preço, ou seja, uma variação positiva nos preços turísticos implica em uma queda mais do que proporcional na demanda por turismo no Brasil.

Além das especificidades da demanda turística vistas até o momento, é importante observar que o perfil do turista está em constante mudança e considerar estas mudanças na análise. Talaya (2004) afirma que está ocorrendo uma mudança no perfil da demanda turística. O perfil tradicional, marcado por uma forte concentração espacial e temporal, grande pressão sobre os atrativos culturais e naturais mais relevantes e o crescimento limitado de destinos maduros, representado na figura III.1, estaria mudando.

Figura III.1 - Perfil tradicional dos turistas.

Fonte: Talaya (2004)

Esta representação mostra que os turistas intermediários e conformistas, grande maioria da demanda, se concentram em destinos turísticos tradicionais, concentrando, também, os efeitos positivos, como investimentos e atração de renda, e os negativos, como a pressão sobre a infra-estrutura local e as interferências indesejadas na cultura e no meio ambiente. São exemplos deste tipo de turismo tradicional a Disneyworld, Las Vegas e Cancun.

No outro extremo do gráfico, se encontram os turistas de interesse especial, que demandam nichos/segmentos específicos, como o ecoturismo, o turismo de aventura, o turismo de pesca, entre outros, e os impulsores, que demandam destinos exóticos e que abrem novas áreas e novas formas de viajar. Estes dois perfis de turistas seriam residuais, o que determina também a forte concentração de investimentos em determinados territórios.

Todavia, o autor mostra que as tendências atuais do turismo envolvem mudanças significativas no comportamento do turista. As principais tendências do turismo moderno são: um ócio mais ativo e polivalente; a busca de experiências; a fragmentação das viagens - mais freqüentes e mais curtas; os canais de venda mais diretos, principalmente via internet; uma maior demanda por produtos personalizados, definidos pelos próprios turistas; uma maior necessidade de informação e segmentação de mercados e destinos. Estas características implicam em maior interesse por ambientes natural e culturalmente preservados, fazendo parte do movimento crescente de consumo consciente, principalmente dos países centrais.

A figura III.2 reflete estas novas tendências do turismo em que há uma minoria de turistas com características de impulsores ou conformistas, sendo a grande maioria formada por turistas intermediários, com experiência em viagens e interesses especiais.

Figura III.2 – Novo perfil dos turistas.

Fonte: Talaya (2004)

A transição do perfil do turista ocorre de forma desigual entre as regiões e os países, mas indicam claramente prioridades de investimento e promoção diferentes das tradicionais, pois atender os interesses especiais envolve uma série de investimentos específicos e sua concorrência ocorre em nível global. Esta mudança poderia levar a crer que os turistas estão se tornando menos risco aversos, buscando novos destinos e segmentação específica. Este fenômeno pode ser explicado pela mudança no perfil psicográfico do turista, que possui cada vez mais experiência de viagens, pela melhoria estrutura e acesso a informação em destinos antes considerados de risco ou alternativos e alterações nos custos das viagens, como o barateamento das passagens de avião internacionais.