5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.4 Demandas percebidas pelos sujeitos do território
A Secretaria de Habitação do Recife informou que o Conjunto Habitacional Vila Brasil será ocupado por famílias já cadastradas das comunidades Favela do Papelão e da Vila Brasil.
Um termo de referência está sendo elaborado para a abertura de nova licitação. A previsão era de que as obras fossem iniciadas até junho de 2013, com prazo de entrega de 15 a 18 meses (ALBUQUERQUE, 2013).
Diante da denuncia de possíveis irregularidades decorrentes de um obra iniciada próximo ao Fórum Joana Bezerra, a Secretaria Nacional de Habitação - Ministério das Cidades – informou que a Caixa Econômica Federal, mandatária da União, realizou o distrato da operação em 14/05/2013, encaminhando a documentação pertinente. Conforme relatório, no que tange aos recursos federais, não há irregularidade no contrato de Repasse nº 0192.847-65, firmado entre a União – Ministério das Cidades, e o Município do Recife-PE, intermediado pela Caixa Econômica Federal, visto que, ocorreu o distrato do contrato de repasse e a devolução integral dos recursos repassados aos cofres da União. O distrato tem por finalidade extinguir as obrigações estabelecidas em um contrato/convênio celebrado anteriormente (BRASIL, 2013b).
A habitação para população de baixa renda está assegurada pela Lei 11.124/05 que instituiu o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), objetivando viabilizar para a população de menor renda o acesso à terra urbanizada e à habitação digna e sustentável (BRASIL, 2005b). Contudo, a viabilização de moradias populares não parece ser prioridade dos prefeitos, como se observa na situação acima exposta. A moradia adequada, digna, uma das principais demandas das comunidades da Microrregião 1.3 é um direito assegurado em lei e um dos fatores determinantes da saúde. No entanto, para a sua efetivação torna-se necessária a participação ativa da população por meio da mobilização e controle social. Para tanto, é fundamental o empoderamento social através de ações de educação, informação e participação política da população nas decisões.
(alunos do EJA) e do grupo dos idosos. No esboço do mapa da comunidade identificamos os problemas da comunidade, alguns potenciais mediadores facilitadores e mediadores inibidores que interferem na solução dos problemas.
5.4.1 Problemas, necessidades, demandas e possíveis soluções
Os diversos problemas, necessidades e demandas percebidas no primeiro encontro dos grupos de EJA, contemplando vários aspectos da comunidade, foram apresentados no encontro seguinte, de forma sistematizada por temas, objetivando a seleção dos problemas mais relevantes para a comunidade. A organização por temas, condicionantes macrossociológicos, objetivou facilitar a escolha pelos participantes: - Saúde/doença/acesso aos serviços de saúde (dengue, filariose), falta de médicos no Posto de Saúde, péssimo atendimento ou não tem bom atendimento, se vai para um hospital, manda para outro, descaso nos hospitais, Posto de Saúde péssimo, falta de atendimento; - segurança: falta policiamento;
- moradia: falta de moradia, retirada das casas para construção de ponte; - desemprego:
retirada do feirão; - limpeza pública: muita porcaria, calçadas com entulhos, muita sujeira, poluição, esgotos cheios de lixo, lixo pelas ruas e dentro dos canais; - esgotos: estourados, ruas alagadas, cheias de insetos que fazem mal a saúde; - fome; falta comida, pessoas estão passando fome; - poluição / falta de cooperação das pessoas; - animais vetores de doenças:
muitos ratos, baratas, insetos, todo tipo de bichos; - falta de água.
Os quinze participantes do Módulo V do EJA poderiam escolher três problemas de qualquer tema ou condicionante macrossociológico ou acrescentar outros problemas. Dessa forma, foram escolhidos além de alguns dos problemas citados no encontro anterior, outros problemas que foram organizados por temas/condicionantes macrossociológicos e analisados por meio do DSC.
Durante as discussões foram esclarecidos alguns pontos, como a retirada do feirão de carros. Este apenas mudou de lugar, mas continua próximo à comunidade. Não está associado ao desemprego na comunidade, mas favorece a venda de alimentos em barracas. Foram colocadas, também, as sugestões elencadas no encontro anterior, demandas e necessidades, como medicamentos, escolas profissionalizantes e vulnerabilidades, como o problema do preconceito com as pessoas que moram no bairro na ocasião preencher vaga de emprego.
As demandas específicas de saúde ambiental foram discutidas com a turma do EJA Módulo IV. Foram elencados os seguintes problemas e soluções: retirada das casas; falta de água; esgotos cheios de lixo; limpeza pública precária; entulho nas calçadas; lixo nos canais
e ruas; aprovo a retirada das casas dos canais, pra a água fluir bem e evitar cheia; empresa de reciclagem em local errado; poluição sonora; bastante insetos, mosquitos; ratos e escorpiões, sujeira nas ruas; muita poeira; na nossa comunidade deveria ter mais saneamento pelo canal; deveria ter limpeza todo mês; é muito lixo acumulado; é muito lixo nas calçadas, deveria ter mais uma limpeza pela comunidade; é muito ruim esgotos estourados porque fica o mau cheiro; na comunidade deveria ter mais organização sanitária.
Quanto às ações de Vigilância e Saúde Ambiental, nas discussões percebemos que a maioria dos participantes desconhece o PSA, só referindo-se ao trabalho do ASACE quando houve referência à visita desse profissional às residências. Os participantes referem-se aos ASACE como o agente de saúde que coloca remédio para dengue nas águas dos recipientes (toneis, caixas d' água, baldes, etc), evidenciando-se a priorização das ações de controle da dengue pelo PSA, como constatado por Albuquerque (2005) e Lyra (2009). A persistência da presença de insetos, ratos e escorpiões evidencia que as demandas tradicionais abordadas pela velha Saúde Pública, também, não estão sendo atendidas de forma adequada.
Observamos que as demandas de Saúde Ambiental estão relacionadas, prioritariamente, ao déficit do saneamento ambiental nas comunidades. O atendimento às demandas das comunidades depende da viabilização de ações intersetoriais, indo além do espaço do setor saúde (AUGUSTO, 2003; CORDEIRO J, 2008) e que promova a participação e a democracia.
Os problemas identificados pelo grupo de idosos do bairro dos Coelhos foram os seguintes: rua alagada por conta dos resíduos sólidos; som muito alto na comunidade durante toda semana, chegando, em alguns dias, até às 03:30h; fossas estouradas; bueiros feitos pela COMPESA; esgotos entupidos; a COMPESA veio sábado e domingo para desentupir os esgotos; falta de creche; banheiro do Mercado Público exala mau cheiro; problemas de acúmulo de resíduos sólidos: só não bota lixo no lugar certo quem não quer; o carro passa e recolhe todos os dias: de manhã a carroça e de noite o caminhão. Depois que o caminhão passa o povo bota o lixo (participantes da oficina); foi sugerido desratizar o depósito de material reciclável que fica ao lado da USF. O depósito não pode ficar na comunidade, conforme participantes da oficina. Os debates desse grupo foram transcritos e analisados por meio do DSC.
5.4.2 Discurso do Sujeito Coletivo (DSC)
A análise dos produtos (textos e transcrições dos debates) das oficinas foi realizada com a utilização da técnica DSC. Para construção do DSC utilizamos trechos selecionados literalmente dos depoimentos individuais, inserindo-os em categorias de análise temáticas.
Estas englobaram os problemas e soluções gerais e os problemas e soluções específicos:
dificuldade de acesso aos serviços de saúde; visita do agente de saúde ambiental; dificuldade de acesso à educação de qualidade, dificuldade de acesso à Educação de Jovens e Adultos de qualidade; demanda por creche, poluição sonora; saneamento básico; determinantes microssociológicos da saúde.
5.4.2.1 - Problemas e soluções gerais
Algumas falas são ilustrativas da falta de confiança nos tomadores de decisão das políticas públicas. Há clareza na demanda por políticas públicas necessárias à promoção da saúde e à melhoria das condições de vida.
O discurso do quadro 1 mostra a indignação do usuário diante do sentimento de descaso dos governantes para resolução dos problemas ambientais e de acesso aos serviços de saúde, educação, saneamento básico e de lazer nas comunidades de baixa renda. Trata-se de um significante de descrédito nos políticos e governantes para resolução dos problemas que deveriam ser prioridade. Percepção da exclusão e da discriminação social e consciência de direitos não respeitados, ficaram evidentes a partir do discurso, como observado em outras comunidades por Lacerda e Martins (2011) e Martins, Bezerra e Nascimento (2011).
As demandas expressas no discurso evidenciam a falta ou deficiência de diversos serviços essenciais à Promoção da Saúde e traduzem os anseios das comunidades pela efetivação dos direitos sociais. Esses aspectos foram referidos por Franco e Merhy (2010) e Carvalho (2007) no processo de construção das demandas.
Quadro 1 - Problemas e soluções gerais
ANCORAGEM 1 DSC DA ANCORAGEM I
O prefeito só lembra dos ricos, só os ricos são prioridade. Os pobres são esquecidos pelos prefeitos, pelos governos, por todos que governam o Brasil.
Sou moradora do Coque. Mas sou muito insatisfeita com tantos problemas. O prefeito não lembra das pessoas pobres, só lembra dos ricos, são prioridade, isso é um absurdo. Nós estamos esquecidos pelos prefeitos, pelos governos, por todos que governam o Brasil e roubam nosso dinheiro.
Nós pobres é quem sofre. Nada presta no Coque, falta tudo. Precisa melhorar.
São muitos problemas, tanto ambiental como na saúde pública, esta é uma negação, o governo constrói muito hospital, mas cadê os médicos, além de médico, falta a ética.
Fora a saúde, meu Deus, são muitas irregularidades, o governo só quer ganhar dinheiro pra si próprio. Falta área de lazer, Falta escola, boa educação, curso profissionalizante, Ensino Médio no bairro e saneamento básico.
Há empresa de reciclagem em local errado, poluição sonora, bastantes insetos, ratos e escorpiões, praça quebrada, cheia de cavalos e a maior imundice.
Depois da retirada das casas de tábua ficou faltando moradia na comunidade. Falta comida, pessoas estão passando fome.
Há violência no dia a dia, preconceito com o bairro onde moramos.
Segurança tem, mas falta mais profissionalismo da parte dos policiais que tratam qualquer jovem como se fosse bandido, fora isso é tranquilo.
Eu queria uma comunidade com menos violência, com menos maloqueiros; com limpeza; melhoria na educação e na saúde.
Fonte: elaborado pela autora a partir das oficinas MARES, 2013.
5.4.2.2 Problemas e soluções específicas: dificuldade do acesso aos serviços de saúde
Analisando os aspectos microssociológicos da integralidade da APS, observamos que a população entrega a responsabilidade por sua saúde nas mãos dos profissionais de saúde, especialmente, dos médicos e dos ACS. A visão de saúde é curativa, refletindo o modelo médico assistencial (TEIXEIRA; PAIM; VILAS BOAS, 1998; MACHADO; PORTO, 2003), ainda presente na concepção de saúde dos usuários do SUS. Há um predomínio das atividades assistenciais em detrimento da vigilância e da promoção da saúde (DIAS et al, 2009), impedindo os usuários de reconhecerem sua corresponsabilidade na práxis públicas e de todos os atores envolvidos no processo (MARTINS, BEZERRA; NASCIMENTO, 2011).
Por outro lado, evidenciamos através do DSC (Quadro 2), que os serviços públicos de saúde não estão atendendo de forma satisfatórias todas as demandas das comunidades da Microrregião 1.3. Os postos de saúde (USF) não dispõem de profissionais suficientes para atender as demandas de saúde/doença das comunidades. A universalidade do acesso não
acontece como preconizada pelo SUS. O que se observa é um acesso restrito e competitivo, sem garantia de atendimento a todos que se dirigem a USF.
A integralidade da assistência à saúde na perspectiva do cuidado médico, priorizando a articulação entre diferentes níveis da atenção à saúde (MONNERAT; SOUZA, 2011), embora considerada restrita à racionalidade da oferta de serviços, se voltando ao atendimento da demanda espontânea (TEIXEIRA, 2002), não acontece. O acesso aos serviços de saúde de média e alta complexidade é muito limitado, dificultando a realização de exames e o atendimento em clínicas especializadas, como referido em outros estudos (MARTINS;
BEZERRA; NASCIMENTO,. 2011), o que causa descrédito e invalida o esforço despendido na ponta para acolher e cuidar das pessoas (DIAS et al. 2009). A operacionalização da integralidade no SUS é considerada insuficiente por Monnerat e Souza (2011), por não contribui de maneira efetiva para mudar a organização fragmentada das políticas sociais brasileiras.
Quadro 2 - Dificuldade do acesso aos serviços de saúde
ANCORAGEM II DSC DA ANCORAGEM II