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7. A PSICOLOGIA E AS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV/AIDS (PVHAs)

7.3 Demandas reprimidas e dores invisibilizadas

Buscando compreender se esse escutar as pessoas está sendo mais ou menos, identificamos algumas demandas reprimidas e dores invisibilizadas na/pela psicologia, as quais tem gerado intenso sofrimento aos colaboradores, sendo elas: necessidade de suporte para revelação do diagnóstico no âmbito de relações sorodiscordantes; trabalho no sentido de resgatar a autoestima; suporte para lidar com possível homossexualidade; auxílio para elaborar a morte dos pais; ajuda para lidar com os preconceitos, buscando ajudá-los a não sucumbirem a eles e produzir enfrentamentos que não seja o isolamento.

Essas demandas parecem ser reprimidas para eles e invisibilizadas no cuidado em psicologia.

Na cena construída por Mandacaru emergiu uma necessidade de cuidado muito própria da experiência soropositiva: como revelar-se HIV positivo diante de pessoas que gostamos?

Porque ele sentiu firmeza nas palavras dela [da profissional] e era tudo que ele gostaria de dizer pra uma pessoa que ele gostava, que ele escutou da profissional (...). Era como se fosse uma mesa, sofá, muito espaçosa, ele se deitava, e aí ele conversava com ela [pausa] no sofá, aí ele se deitava, relaxava, começava a contar da menina e o profissional foi dizendo a ele, dizendo como é que ele deveria reagir com ela pra chegar e dizer que era soropositivo. O profissional pedia que ele trouxesse ela também pra conversar a respeito (Fragmento de cena projetiva de Mandacaru).

Como desejo de ajuda para lidar com essa questão desafiadora, Mandacaru verbalizou que o profissional orientou como esse homem imaginário deveria agir para fazer essa revelação, disponibilizando-se, inclusive, a receber a pessoa da qual ele gostava no atendimento para que pudesse conversar com ela a respeito disso. Projeta na cena o seu desejo, a sua necessidade não cuidada.

A comunicação do diagnóstico positivo para o HIV é avaliada como um evento, geralmente, traumático para o sujeito, implicando impacto emocional e sofrimento psíquico caracterizado por pensamentos, sentimentos e comportamentos de conotação preponderantemente negativa. O diagnóstico produz repercussões e alterações nas relações familiares e sociais, na sexualidade, nas condições psicológicas, no trabalho e na espiritualidade das pessoas. O elo que conduz as repercussões do diagnóstico diz respeito à revelação da sorologia para as pessoas da rede familiar e social (Rabuske, 2009).

Além da dificuldade no tocante a revelação do diagnóstico, a cena de Mandacaru torna nítida sua necessidade de estabelecer uma relação sorodiscordante. “Saio com uma, uso camisinha. Não consigo ter ninguém pra morar”. Essa frase, contida em sua

entrevista, demonstra sua necessidade em relacionar-se afetivo sexualmente e, simultaneamente, sua dificuldade quanto a se fixar em uma relação sorodiscordante.

Pensando as relações sorodiscordantes e as políticas governamentais, o estudo de Lago, Maksud e Gonçalves (2013) sobre repercussões acerca das recomendações e diretrizes do Ministério da Saúde com relação às políticas públicas que se referem à sorodiscordância mostrou que essas relações não são encorajadas nem vistas como positivas pelos profissionais de saúde. Nesse sentido, o parceiro soronegativo não é atendido como paciente formal do sistema (nem tampouco como parte da rotina do serviço ambulatorial), fato que, de acordo com os autores, contradiz a lógica da prevenção.

Apesar das relações sorodiscordantes constituírem uma realidade dentro dos serviços de saúde, os estigmas, a desinformação dos profissionais, a carência de protocolos claros e objetivos fomentam a manutenção da invisibilidade das demandas desses casais no âmbito dos serviços (Lago, Maksud & Gonçalves, 2013).

O suporte para lidar com as relações interpessoais pós-diagnóstico positivo para o HIV figura como uma dentre as tantas ações de cuidado psicológico possíveis no atendimento a pessoas soropositivas (Carvalho & Paes, 2011), como ilustrou o desejo de Mandacaru.

Sobre autoestima e escuta de dores diversas no contexto da soropositividade

Ainda no contexto da mencionada cena projetiva, para o homem imaginado por Carnaúba encontrar o serviço de psicologia:

Foi bom porque ele pode se abrir, né? O que fez esse atendimento ser tão bom? [questiona a pesquisadora]. Poder conversar um pouco, tirar um pouco do sofrimento dele e escutar os conselhos né, e a psicóloga. Ele se sentiu à vontade

pra falar sobre seus sentimentos em relação a viver com HIV? [questiona a pesquisadora]. Sentiu. O que ele gostaria de conseguir falar com o profissional de psicologia para ser ajudado e se sentir melhor? [questiona a pesquisadora]. Acho que ser orientado, né, pra se dar mais com a doença, né? O quê que ele pode fazer pra melhorar a autoestima dele. O que ele já falou com o psicólogo nesse primeiro momento? [questiona a pesquisadora]. Eu acho que a doença, né? E também como ele se relaciona com outras pessoas. Como o profissional o ajudou nesse primeiro momento? [questiona a pesquisadora]. Dando a mão e orientando ele. Como ele saiu do atendimento? [questiona a pesquisadora]. Feliz,

né? Que pode, pode se contar com outra pessoa ali que escute ele(Fragmento

de cena projetiva de Carnaúba).

Nesse diálogo também surgiram algumas necessidades de cuidado emocional. No imaginar dele, o homem soropositivo concebido na cena pôde, através do atendimento com o psicólogo, conversar sobre sua vida, minimizar um pouco o sofrimento que vivia, ser escutado e orientado para lidar melhor com a doença, além de receber auxílio sobre o que poderia fazer para melhorar sua autoestima.

Aqui emergem necessidades de trabalhar a autoestima diante de um adoecimento crônico, que pode alterar consideravelmente o corpo e a subjetividade das pessoas, e a necessidade de orientação para lidar com a aceitação da doença, além da carência em dispor de um espaço seguro para poder se abrir e expressar o sofrimento vivido no percurso com a patologia. Revelando, portanto, suas necessidades não trabalhadas.

A escuta qualificada, profunda, que compreende a história de vida da PVHA e que busca descobrir recursos pessoais que possam ser atualizados para o resgate da autoestima e reinvenção de outros recursos pode ajudar na construção ou reconstrução de melhores níveis de autoestima. Isso é possível em um processo psicoterapêutico com continuidade (Nogueira da Silva, 2019).

Ainda com relação a demandas encobertas e dores não acessadas, ao narrar qual seria a maior dificuldade enfrentada pelo homem imaginário de sua cena naquele momento, Carnaúba expressou a dor de não revelar a homossexualidade, expressada ali na projeção do personagem:

Não poder falar que gosta de outro homem. Poder se expressar [referindo-se a não poder expressar esse sentimento]. No caso, esse homem que está indo buscar o atendimento, ele é homossexual? [questiona a pesquisadora]. É (Fragmento de cena projetiva de Carnaúba).

O trecho acima exemplifica uma das demandas silenciadas no atendimento a esses homens. A narrativa desse colaborador denota a necessidade de discutir sobre as sexualidades no contexto do cuidado em saúde, possibilitando ao usuário uma melhor compreensão sobre seus próprios desejos afastados de perspectivas (hetero) normativas e moralizantes.

Foucault (1988) nos apresenta a sexualidade como um dispositivo histórico, uma construção social que se constitui através de vários discursos sobre o sexo: discursos que regulam, normatizam, instauram saberes e que produzem verdades.

Percebemos, ainda hoje, que a sexualidade é tratada como assunto privado, algo que se deve falar apenas com alguém muito íntimo (Louro, 2018). Esse imaginário acaba por reforçar o silêncio das pessoas em torno de sua sexualidade, reprimindo (muitas vezes) suas demandas nessa seara, como nos sugere a cena de Carnaúba – uma que vez que o homem que lá figura sente por não poder falar que gosta de outro homem.

Outra necessidade vivida por Carnaúba e não cuidada pela psicologia diz respeito ao sofrimento decorrente da morte de seus pais.

O meu sofrimento mais foi a perda do meu pai e da minha mãe. Porque eu sofri mais no dia que eu vi eles tendo a parada cardiorrespiratória na bomba lá, e cansando, cansando, dando os últimos suspiros. Eu acho que foi o meu maior sofrimento. Não foi da doença, foi ali. Vendo meus pais nas últimas (Fragmento de entrevista de Carnaúba).

Apesar de ser um assíduo usuário dos serviços ofertados pelo SAE do HGT, vale destacar que Carnaúba não estava sendo acompanhado pela psicologia no momento da

entrevista (2018). Ele nos informou que esteve em tratamento psicológico apenas durante sua infância, quando era levado por sua mãe.

As questões emergidas em suas cenas e narrativas desvelaram necessidades (de resgatar a autoestima, de elaborar a morte dos pais e trabalhar possível homossexualidade, por exemplo) que não vem sendo trabalhadas há bastante tempo, implicando em sofrimentos que marcam sua vida, promovendo distanciamento, dor e isolamento.

No tocante a necessidade de suporte psicológico frente aos sofrimentos emocionais decorrentes do viver com HIV/Aids o estudo de Neves (2017) com pessoas soropositivas revelou dificuldades emocionais delas para lidar com um vírus impregnado de representações sociais negativas: “minha grande dificuldade é emocional, isso atrapalha o tratamento (p. 25)”, “o remédio não supre as carências emocionais (p. 26)”.

Nessa perspectiva, considerou-se que as experiências do acompanhamento psicológico prestado aos pacientes no serviço em que se desenvolveu o mencionado estudo (SAE do Centro de Saúde Santa Marta, no Rio Grande do Sul), aliadas aos resultados obtidos no acompanhamento, sugerem a urgência na priorização do cuidado com as questões emocionais das PVHAs.

Os relatos acerca do que significa viver com um vírus como o HIV demonstraram a ocorrência de um sofrimento psíquico significativo, que muitas vezes influencia e impossibilita substancialmente o tratamento de forma integral, demandando, portanto, acompanhamento psicológico que contemple o sofrimento emocional dessas pessoas (Neves, 2017). Esse acompanhamento pode auxiliar a PVHA a “se dar mais com a doença”, conforme desejo expresso na cena projetiva de Carnaúba.

Sobre o medo do preconceito

Eu tô sentindo assim [pausa na fala] com tudo que tá acontecendo né, eu tô me sentindo muito é [nova pausa]. Tipo discriminação né, eu tenho medo né, dessa discriminação que é causada [referindo-se a discriminação causada pelo olhar dos outros] (Fragmento de entrevista de Juazeiro).

O medo do preconceito permeou a narrativa de todos os colaboradores em função de terem seu viver marcado por discriminações em todas as esferas da vida.As narrativas revelaram que eles sucumbiram ao olhar preconceituoso e discriminante construindo estratégias de isolamento, mas em algumas falas e cenas também surgiram sinais do desejo de que possam viver suas relações de afetividade sem esconderem a sorologia, imaginando a psicologia os ajudando nesse contexto. Por isso, arriscamos dizer que apesar da representatividade desse medo no universo das PVHAs (e na experiência dos homens desse estudo) e das repercussões negativas dele na vida de pessoas soropositivas, essa foi uma demanda que parece não ter sido trabalhada pela psicologia junto a eles, estando invisibilizada para esse saber/fazer e reprimida para esses homens.

A psicologia tem muito a contribuir com os colaboradores, podendo acolher tanto as demandas explicitadas por eles quanto as que ficam subentendidas em suas falas e ações. Ela pode cuidar das dores desses homens e ajudá-los a encontrarem caminhos para lidarem com os sofrimentos decorrentes das implicações do viver com HIV/Aids, (des)cobrindo e criando seus projetos de felicidade.

Para isso, é urgente e imprescindível que esse saber/fazer esteja atento e sensível as necessidades dessas pessoas, buscando exercitar um olhar mais amplo sobre o contexto de atuação, aprimorando a escuta para além do que está relacionado imediatamente a soropositividade dos que chegam ao serviço e atuando de maneira efetiva também em outras frentes dentro dos serviços especializados (chamando para o diálogo a sociedade

civil e as ONG’s, propondo grupos educativos, rodas de conversa, ambientes de cuidado

coletivo, dentre outras ações possíveis nesse campo).

7.4 A psicologia e o compromisso diante do desafio entre o fazer viver e o