CAPÍTULO 1 PERSPECTIVA SOCIOCOGNITIVA DA LEITURA
1.3 DIMENSÃO SOCIAL DA ATIVIDADE DE LEITURA
1.3.2 DEMANDAS SOCIAIS DE ESCRITA E LEITURA PROFICIENTE
O aprendizado da leitura, especificamente, é uma exigência das demandas sociais com as quais convivemos diariamente. Nas nossas práticas cotidianas estão presentes atividades que exigem dos sujeitos habilidades de escrita, e principalmente, de leitura – e é claro, da compreensão do material lido. Como afirma Kleiman (1995, p. 7): “Ela [a escrita] integra cada momento de nosso cotidiano, constituindo-se numa forma tão familiar de fazer sentido de nossa realidade que seu uso passa despercebido para os grupos letrados”. Por fazermos parte de uma sociedade letrada, deparamo-nos, ou antes, estamos imersos em diversos espaços da escrita, que em muito, não nos damos conta.
Nesse sentido, Lajolo (2000) destaca a essencialidade do domínio da leitura, seja numa perspectiva mais sofisticada de uso da escrita (na arte literária, na ciência, na filosofia), seja numa perspectiva educacional:
Assim, no contexto de um projeto de educação democrática vem à frente a habilidade de leitura, essencial para quem quer ler jornais, assinar contratos de trabalho, [...] enfim, para todos aqueles que participam, mesmo que à revelia dos circuitos da sociedade moderna, que fez da escrita seu código oficial. (LAJOLO 2000, p. 106)
Para atender a essas demandas sociais da escrita, a leitura deve se efetivar de maneira proficiente, isto é, de maneira plena, autônoma, uma vez que temos de compreender a realidade que nos contextualiza, posicionar-nos, criticar os acontecimentos, a história. Como destaca Silva (2011, p.74):
A leitura (ou a resultante do ato de ato de se atribuir um significado ao discurso escrito) passa a ser, então, uma via de acesso à participação do homem nas sociedades letradas na medida em que permite a entrada e a participação no mundo da escrita; a experiência dos produtos culturais que fazem parte desse mundo só é possível pela existência de leitores.
Desse modo, partilhamos da perspectiva da leitura enquanto uma necessidade humana, necessidade de participar das práticas sociais, de
partilhar suas experiências, de se reconhecer como ser social, pois “ ao ler (compreender), compartilho daquilo que o outro viu – é nesse situar-me contínuo que se coloca toda a busca do meu SER. Sou mais ser-ao-mundo através da comunicação e, portanto, da leitura” (SILVA, 2011, p. 77). A leitura é, assim, uma forma de se sentir no mundo, de se colocar frente aos acontecimentos, uma vez que essa atividade consciente e autônoma possibilita a participação efetiva nas práticas socioculturais e na história do homem.
No contexto escolar, a formação de leitores - de leitores críticos, deve ser uma das tarefas primeiras da escola, considerando-se que, conforme Silva (2011, p. 93), “a leitura crítica é condição para a verdadeira ação cultural que deve ser implementada nas escolas”. Para essa formação no espaço de sala de aula, faz-se necessário que se perceba o sujeito aprendiz enquanto um leitor em potencial, que tem todas as capacidades de tornar-se leitor proficiente, pois, uma vez inserido na sociedade letrada, já possui experiências de leituras, trazendo consigo histórias e aprendizados proporcionados pelo convívio com a escrita. Tendo em vista que, como destaca Lajolo (2000, p.7): “Ninguém nasce sabendo ler: aprende-se a ler à medida que se vive. Se ler livros geralmente se aprende nos bancos da escola, outras leituras se aprende por aí, na chamada escola da vida”.
Em relação a essa tarefa desafiadora, formar cidadãos leitores críticos, concordamos com o posicionamento de Freire (1989), que atribui à leitura um importante papel no processo de aprendizagem do sujeito, bem como nas suas relações com a sociedade. Postula que a leitura deve estar contextualizada, relacionada ao mundo em que está inserido o sujeito que lê, isto é, acredita que a leitura deve ser uma prática feita de forma a acrescentar algo novo e, ao mesmo tempo, deve partir das experiências do leitor, daí a sua conhecida frase “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (p.FREIRE,1989, 13). O processo de ensino deve ser pautado em propostas de leitura e escrita que tenham relações com a realidade do sujeito aprendiz. Nesse sentido, acreditamos que o trabalho a partir de gêneros textuais está inserido nessa perspectiva contextualizada da prática de leitura no espaço de sala de aula.
Dessa forma, em meio à atividade de mediação, é relevante que se reconheça a função da leitura, que se perceba como incentivá-la, que se
aprenda a fomentar a sua prática. Quanto a essa questão, SILVA (2009, p.28) destaca algumas funções da leitura na nossa sociedade:
Em sociedade, são múltiplos e diversificados os usos da leitura. Lê-se para conhecer. Lê-se para ficar informado. Lê-se para aprimorar a sensibilidade estética. Lê-se para fantasiar e imaginar. Lê-se para resolver problemas. E lê-se também para criticar e, dessa forma, desenvolver um posicionamento diante dos fatos e das ideias que circulam por meio dos textos.
Diante desses objetivos é relevante que, nas práticas escolares, o processo de formação de leitores seja realizado de maneira consciente, com objetivos bem claros, ultrapassando as práticas mecânicas e superficiais de leitura. Sendo assim, esse processo se configura numa tarefa desafiadora, quando se intenta realizá-lo plenamente.
Considerando, dessa forma, os aspectos cognitivo e social, a leitura, de acordo com Boso e outros autores (2010, p.29),
não pode ser mais vista como simples meio de decodificação de mensagem, pois é elemento essencial no avanço de uma sociedade em pleno desenvolvimento. A compreensão de textos faz com que as pessoas tenham acesso a novas experiências e novas informações que ajudam a ampliar seus conhecimentos intelectuais e sociais. Por fim, reconhecemos que a leitura envolve processos sociais e individuais. Para a compreensão, percorre-se, como já descrito, um longo processo, envolvendo elementos cognitivos, para além da decodificação, numa interdependência com a dimensão social da leitura - o contexto sócio histórico, as relações interacionais. Essa interdependência é vital para a realização da leitura proficiente, e é condição para inserção nas práticas sociais, haja vista que a compreensão (num sentido mais critico) da escrita instrumentaliza os sujeitos, dando-lhes subsídios para efetiva participação social.