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3 O EXERCÍCIO PROFISSIONAL NOS ESPAÇOS DE ACOLHIMENTO PARA

3.1. DEMANDAS SOCIOINSTITUCIONAIS DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL NOS

Neste item, na busca de contemplar os determinantes socioinstitucionais presentes nas demandas postas à profissão, buscaremos analisar como nos dias atuais o exercício profissional do assistente social nos espaços de acolhimento, na cidade de Natal, vem sendo trabalhado e planejado pelos profissionais que nele atuam, enquanto profissão que ocupa um espaço na divisão sociotécnica do

trabalho e desenvolve uma prática profissional que encontra respaldo para atuação na sociedade e, ao estabelecer relações próprias do seu processo de intervenção que são específicas ao seu campo de ação, conecta-se e constrói vínculos com a população e a instituição na qual está inserido.

Acreditamos ser de fundamental importância reiterar inicialmente que a dinâmica da configuração dos espaços de acolhimento institucional, no município de Natal, pelas condições de implementação115 e consolidação do trabalho de assistentes sociais nos serviços de acolhimento, estão fortemente vinculadas à própria história da constituição do tecido econômico, social e político de Natal que coloca demandas para os assistentes sociais em vários espaços sócio-ocupacionais. Uma cidade que em sua malha urbana, conforme França (2004), esconde outra face reveladora de uma feiura social nos quais torna-se invisível o fenômeno da favelização, da violência urbana e doméstica, do desemprego, da exploração infanto-juvenil através do sexo turismo e do trabalho infantil.

Com efeito, a agenda profissional no território natalense se constrói onde essas expressões da questão social explodem com repercussões no campo dos direitos, no universo da família, da criança e dos adolescentes entre as diversas formas de violação dos direitos, na contradição da realidade por onde se movimentam as necessidades sociais transformadas em demandas, e que precisam de repostas do Estado e intervenção das profissões, considerando suas particularidades e competências.

Já procuramos demonstrar que essa realidade traz várias alterações para o exercício profissional no cotidiano dos assistentes sociais. É fato que, nos anos 2000, com a aprovação do SUAS e as NOBs que dele derivaram, ocorre no

115 A construção das ações do Serviço Social nos serviços de acolhimento em Natal passou por

conformações bastante diversificadas para que se pudesse chegar à configuração atual. Nos anos 1990, os poucos assistentes sociais envolvidos com essa problemática no âmbito da esfera estatal eram vinculados e terceirizados por programas da Fundação Estadual da Criança e do Adolescente (FUNDAC), criados com a pretensão de substituir as FEBEM estadual, presentes na capital e no interior, inicialmente, para acolher crianças e adolescentes em situação de rua. Apenas em 27 de março de 1997, na modalidade Casa de Passagem, esse serviço começou a atender uma faixa etária de 0(zero) aos 12(doze) anos, não apenas em condições de acolhimento provisório como deveria ser, mas como suporte as demandas de longa permanência referente às mais diversas situações de risco social e pessoal de crianças e adolescentes. Posteriormente, com a municipalização do Núcleo de Atendimento à Criança e ao Adolescente (NUP) – FUNDAC, em março de 2000, passa a atender faixas etárias diferentes: Casa de Passagem I, crianças de 0(zero) a 6(seis) anos; Casa de Passagem II, idade entre 7(sete) a 11 (onze) anos e Casa de Passagem III, adolescentes com 12 (doze) a 18 (dezoito) anos, buscando uma aproximação à observância dos princípios contidos no ECA, como o atendimento personalizado e em pequenos grupos, a manutenção dos grupos de irmãos, a excepcionalidade e provisoriedade da medida de acolhimento. (SOUZA, 2009).

município de Natal também novo estímulo da organização e gestão do trabalho, do modelo centrado no profissional, como se a estruturação dessa política dependesse exclusivamente da capacitação do profissional, em detrimento da sua vinculação com o capital, dos interesses políticos, do orçamento dispensado, das condições objetivas de sua realização e da racionalidade adotada pelo gestor.

Isto, num espaço ocupacional em que o Serviço Social tem uma trajetória de participação, de modo que as instituições de acolhimento nas quais os assistentes sociais foram inseridos acabaram sendo regidas por esta racionalidade, qual seja: por contratos de gestão, administrada por objetivos, estruturada por estratégias e programas baseados em metas quantitativas, ao mesmo que se obstaculizaram as contratações por concurso público e ampliaram-se aquelas por contratos temporários. Em parte, reafirmamos, razões pelas quais nosso universo empírico de pesquisa foram as demandas e respostas do exercício profissional, no âmbito desse contexto da profissão nos serviços de acolhimento na Assistência Social.

Observamos que o legado da gestão de serviços de acolhimento em Natal, sobretudo, através da modalidade de acolhimento provisório denominada Casa de Passagem, passou por novas configurações e diretrizes que regulamentam a Politica de Atendimento à Criança e ao Adolescente no Brasil, o que possibilitou o reordenamento da participação de assistentes sociais, seja em equipes interdisciplinares116, seja executando serviços específicos, vinculados à Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMTAS). Mas, na mesma medida em que esse reordenamento resultou na expansão do mercado de trabalho profissional, ainda prevaleceram: a precarização do trabalho, em forma de novos empregos criados no âmbito do SUAS para essas instituições, sem vínculo permanente com a Política de Assistência Social; e as relações com uma visão puramente instrumental do Estado, que não permite captarem o jogo das contradições que a maioria dos indivíduos se encontra submetida à desigualdade social, e a sua lógica subjacente: a de que a situação de risco na qual as crianças e adolescentes se encontram tem sua causa nos comportamentos inadequados dos próprios sujeitos.

116 Os serviços acolhimento são orientandos pelos parâmetros NOB-RH/SUAS (2009), a ter uma

composição de Equipe de Referência para atendimento psicossocial, vinculada ao órgão gestor que deve ser formada por assistente social e psicólogo, para que possam trabalhar questões pertinentes as diferentes demandas que chegam a instituição através desses segmentos. Pelo menos 1 (um) profissional para atendimento a, no máximo, 20 (vinte) usuários acolhidos em até dois equipamentos da alta complexidade para pequenos grupos.

O que parece significativo relacionarmos ao exercício profissional do assistente social no âmbito do modelo dessa política social oriunda da gestão do Estado, é que evidentemente os esforços para levarem as instituições de acolhimento a estarem comprometidas como modalidade de Proteção Social Especial de Alta Complexidade, de fato, não incorporaram a experiência nem a cultura crítica de afastar as ações interinstitucionais mediadas por possibilidades restritas e as armadilhas ideológicas do controle moral e social dos sujeitos usuários e das famílias. Afinal, como o profissional está assujeitado nesse processo social, é parte integrante dessa engrenagem, no cotidiano profissional e institucional.

Vale repisar que se tais manifestações não são novas, adquirem novos ingredientes que nos confundem, a ponto de obscurecer sua substância, como as chamadas “parcerias” com organizações não-governamentais, que ainda atendem algumas demandas de acolhimento do município de Natal, fazendo que o significado dessas relações seja “encoberto e, se possível, esquecido pelas classes assalariadas”. (IANNI, 1976, p.71).

Fica claro, a partir das entrevistas realizadas e das observações empíricas, que o conteúdo e o modo de enfrentamento da problemática do acolhimento como uma expressão da questão social – os segmentos de crianças e adolescentes a que se destinam as políticas e os serviços sociais; as demandas que são atendidas; o modo de operacionalização – se conectam com as contradições que emanam do modo de ser da sociedade capitalista, e ocupam terrenos do exercício profissional do assistente social, tendo muitas vezes seu desempenho profissional controlado e aferido pelo número de procedimentos que realiza, o qual não pode ser interpretado senão na relação intrínseca com o modelo econômico e pela mediação do Estado como uma das personificações do capital, tudo isso já problematizado neste estudo. Em verdade, a realidade socioeconômica e política em que a profissão se encontra na conjuntura contemporânea do município de Natal, continua permeada por diversos tensionamentos, e portanto, as indagações formuladas ao trabalho profissional no campo das políticas sociais na sociedade capitalista, especialmente da neoliberal, podem se apresentar não somente como fazer da intervenção na assistência social um espaço de mediação para a luta da igualdade de condições, mas também de promover os valores, atribuições e competências ético-profissionais que devem dar direção e intencionalidade à política de assistência social e suas demandas no acolhimento.

É possível, mesmo nesse quadro complexo e aparentemente insuperável, mas incapaz, por si só, de enfrentar as demandas materiais e socioculturais da população trabalhadora, o profissional exercitar a sua capacidade teleológica no exercício pequeno de suas atribuições e competências profissionais. Propondo-lhe outro sentido, outra finalidade, uma alternativa ao quadro conjuntural. Disputando, nos espaços contraditórios desse exercício, as requisições que nos são apresentadas por sujeitos e instituições que permanecem em luta.

Neste caso, criando possibilidades que contribuam para a apreensão de suas demandas sociais e institucionais, tanto no desvelamento das mediações histórico-ontológicas que se colocam entre a análise teórica e a realidade material- objetiva na qual a profissão se insere quanto na análise crítica dos fundamentos da profissão, de modo a tornar real e concreta sua capacidade de construir no cotidiano respostas socioprofissionais e política. Nesse emaranhado de contradições e perspectivas, em que direitos humanos e sociais são ignorados e /ou cancelados, somos inclinados a observar Netto (1999) quando se refere que a possibilidade do projeto profissional reafirma a imprescindibilidade do enfrentamento político- ideológico à ordem vigente, às condições e relações de trabalho, em especial àquelas que se referem ao exercício profissional de assistentes sociais.

Assim, debruçamo-nos sobre o campo da intervenção profissional nos serviços de acolhimento, procurando detectar e apreciar algumas dessas particularidades que se estabelecem no cotidiano dos assistentes sociais, indicando, as relações com as demandas sociais e institucionais, postas ao exercício profissional por orientação da política e lógica dos serviços, mas também personificadas com o referencial construído pelos profissionais diante do que consideram ser suas demandas socioprofissionais.e políticas no trato com a problemática do acolhimento de crianças e adolescentes.

Para fornecer maior alcance representativo e com a finalidade de categorizar os dados de maneira mais didática da análise das demandas socioinstitucionais, inicialmente, a partir da amostra de 9 (nove) assistentes sociais que trabalham nos serviços de acolhimento institucional, vinculados ao Departamento de Proteção Social Especial de Alta Complexidade117, traçamos um perfil desses sujeitos que participaram da pesquisa, identificado no quadro 04 a seguir:

117 Unidade administrativa que orienta o trabalho profissional nos serviços de acolhimento institucional

Quadro 4

Perfil das assistentes sociais entrevistadas nos serviços de acolhimento Entrevistadas Faixa Etária Ano de Conclusão/ Universidade Titulação atual Função Vínculo Assistente Social 1 41 e 50 anos

1999 – Pública Especialista Técnica Temporário Assistente Social 2 21 e 30

anos

2010 – Privada Especialista Coordenação Temporário Assistente Social 3 21 e 30

anos

2011- Privada Especialista Técnica Temporário Assistente Social 4 21 e 30

anos

2009 – Pública Especialista Técnica Temporário Assistente Social 5 Mais de 51

anos

1999 – Pública Especialista Coordenação Temporário Assistente Social 6 31 e 40

anos

2006 – Pública Especialista Técnica Temporário Assistente Social 7 31 e 40

anos

2003 – Pública Especialista Assessoria Cargo em Comissão Assistente Social 8 21 e 30

anos

2011 – Pública Especialista Técnica Temporário Assistente Social 9 31 e 40

anos

2008 – Pública Especialista Coordenação Temporário

Fonte: Elaboração própria com base na pesquisa de campo realizada com os assistentes sociais dos

serviços de acolhimento institucional da SEMTAS, em Natal (2016).

Sobretudo, a compreensão da dinâmica da vida desses sujeitos contribuiu sobremaneira para uma análise de suas demandas e especialmente o exercício profissional desenvolvido por eles nos espaços de acolhimento, em um contexto socioeconômico e histórico com particularidades importantes articuladas à totalidade da política de acolhimento, de modo a clarificar inclusive as atribuições que lhe são privativas118, como também competências119 que também estão previstas no art. 5° da Lei de Regulamentação da profissão – Lei n.8.662, que estabelece os parâmetros legais que asseguram as competências do assistente social e ampara as suas prerrogativas exclusivas a cada profissional que precisa, então, ter ciência de seu teor para lançar mão desse aparato legal.

118 Reforçamos que as atribuições privativas são prerrogativas exclusivas, privilégio de uma área,

direito e poder de realizar algo, é exclusiva e designada como atribuição. (IAMAMOTO,2002)

119 Competências s

ão genéricas e expressam capacidade para apreciar ou dar resolutividade a determinado assunto, não sendo exclusiva de uma única especialidade profissional, mas a ela pertencem em função da capacitação dos profissionais (IAMAMOTO, 2002)

Para se ter uma ideia, foi possível aferir que até o início do ano de 2016, prevalecia o gênero feminino (100%), confirmando a tendência histórica da profissão, na categoria de assistentes sociais, ainda ser predominantemente feminina. Isso demonstra que, no Serviço Social, tem-se um contingente profissional, hoje, com um nítido recorte de gênero: uma profissão de mulheres (IAMAMOTO, 2005). A condição feminina é um dos selos da identidade desse profissional, o que não implica desconhecer o contingente masculino de assistentes sociais com representação nitidamente minoritária no conjunto da categoria profissional no país, como demonstra o perfil de assistentes sociais no Brasil. (CFESS, 2015)

Nessa linha, com base no quadro 04, ao fazermos o cruzamento dos dados relativos à faixa etária e ao tempo de conclusão da graduação, é possível analisar que a maior parte das assistentes sociais dos serviços de acolhimento, em Natal, tem uma formação acadêmica em consonância com o currículo originário das novas Diretrizes Curriculares, datadas de 1996, e parametrada pelo Código de Ética Profissional vigente desde 1993. Percebemos em relação à idade, um conjunto heterogêneo que contempla uma faixa média de 34 (trinta e quatro) anos de idade. A questão geracional indica diversidade no tempo de formatura, mas, por conseguinte, predomina a formação atual pós-graduação lato sensu, pois todas são especialistas.

Por um lado, como expressão da formação continuada dos profissionais, sendo um dever e um direito conforme o código de ética do assistente social. Dever relativo à prestação de serviços com qualidade, pois a profissão possui uma dimensão social ao passo que o exercício profissional se volta aos interesses coletivos; e direito no sentido de renovar a atualizar os saberes obtidos na graduação mantendo-se antenado aos temas e discussões que no momento presente são de interesse da categoria profissional dos assistentes sociais.

De outro, traços associados aos tempos de mercantilização e expansão do ensino superior que propagam o aperfeiçoamento de procedimentos, técnicas e instrumentos para serem utilizados no processo de elaboração de diagnósticos sobre a situação social, e pela própria personalidade do indivíduo buscando o controle técnico do atendimento prestado, em meio às novas concepções de trabalho baseadas na flexibilidade e reconversão permanente, noções que apontam para o questionamento ao conceito de qualificação e do processo de formação profissional especialmente técnica. (FLEURY, 2001; RAMOS; 2001, 2008).

No que concerne à precarização do trabalho profissional, em se tratando das relações empregatícias atuais nos serviços de acolhimento, a referência salarial é em torno de R$ 2.099,00 (dois mil e noventa e nove) com variações, já que 5 (cinco) das assistentes sociais entrevistadas nesta pesquisa exercem responsabilidades de suporte técnico e 4 (quatro) de assessorar ou coordenar os espaços de acolhimento, possuindo diferenças salariais por meio de gratificações.

Salientamos que destas, apenas 01 (uma) possui vínculo por cargo em comissão, as demais foram aprovadas em processos seletivos de contratação temporária da Prefeitura até meados de 2016, visando em caráter complementar a composição das equipes dos serviços de acolhimento para operacionalização das ações socioassistenciais continuadas da proteção social especial do Sistema Único de Assistência Social, sinalizando as variadas modalidades de terceirização, tal como explica Raichelis (2009), em que as ações desenvolvidas passam a ser subordinadas a prazos contratuais e aos recursos financeiros destinados para esse fim, implicando descontinuidades, rompimento de vínculos com usuários.

Outros destaques que chamam a atenção nos limites do aludido horizonte interventivo, são alusivos às condições de trabalho de que dispõem e impõem sérias restrições ao cotidiano do exercício profissional, e logo, nestes últimos anos não só permanecem, mas se aprofundam diante de uma lógica de atendimento às novas requisições do contexto neoliberal. Dentre as principais dificuldades, destacam-se: profissionais cada vez mais tensionados pela ampliação de serviços e de demandas, mas sem a correspondente designação de recursos materiais, financeiros e humanos necessários à manutenção da qualidade do que é prestado à população, contrariando, por exemplo, a meta n.5 da NOB/RH/SUAS, o que contribui para fragilizar a Política de Assistência Social, posto que deveriam ser assegurados equipes suficientes, espaço físico, material de consumo e permanente (como equipamentos e veículos) para Casas de Passagem. (NOB-RH/SUAS, 2006, p.6)

Continuando nossa análise, não podemos deixar de citar que essas dificuldades impostas ao exercício profissional nas unidades de acolhimento são inúmeras e abarcam, entre outras, a lógica de organização dos serviços de alta complexidade para a segurança de acolhida, em articulação com as demais políticas de proteção. A estruturação das redes revela fragilidades técnicas e de gestão, comprometendo a redução das violações, a exemplo da relação dos serviços de

acolhimento institucional com a estrutura precária do sistema sociojurídico, que também não conta com equipes permanentes e qualificadas em números suficientes para atender comarcas e varas especializadas do Poder Judiciário, que, em geral, não considera as violações de direito como expressão da questão social, e sim como demanda individual tratada no endurecimento penal. Nisso reside também a precarização de sistemas unificados de notificação para todas as ocorrências.

A gente tenta passar, pra todo mundo ficar ciente de quantas pessoas tem acolhidas, qual o motivo do acolhimento. Existe um documento que ele é padronizado, que toda semana é preenchido: adolescentes evadidos, adolescentes acolhidos, adolescentes desacolhidos e dentro desse relatório vai um breve relato do caso, com a foto, a data de nascimento, o dia de acolhimento, o número do processo (se tiver) pra poder todo mundo ficar atualizado tanto a própria Secretaria quanto os órgãos de proteção, também e da rede. Nós enviamos através de e-mail, nós temos o e-mail cadastrado e aí nós enviamos. (Entrevista 1 – Assistente Social, Função Técnica) Nesse caminho adverso, das condições concretas para o exercício da profissão, compreendemos que toda forma de gestão, colocada pelas instituições de acolhimento, que são também empregadoras, está carregada de concepções de mundo, estratégias e objetivos muito bem definidas, conformando determinados espaços de atuação e perfis necessários para implementá-las. Nelas manifestam-se diferentes modalidades de racionalidades e de conhecimentos procedimentais acerca de serviços, políticas, programas e projetos a serem implementados.

Nessas condições, qualquer que seja a posição dos sujeitos na hierarquia, seus discursos questionam, de forma recorrente, e apontam para o movimento pelo qual as instituições, nos processos de trabalho que as caracterizam, e determinam às relações que os profissionais constroem com a política pública em seu cotidiano de atuação nos espaços de acolhimento. Uma das assistentes sociais afirma:

Aqui em relação à instituição nós temos os prazos pra cumprir, nós temos que relatar, semanalmente, o que acontece dentro da unidade com os adolescentes, através de documentos, existe o relatório semanal, que é tanto para a própria Semtas como para a própria Rede de Proteção, Conselho Tutelar, CREAS, a Vara da Infância, até os outros Serviços de Acolhimento também. E assim, nós temos a elaboração do PIA, a elaboração dos relatórios sociais, relatórios psicossociais, tudo isso é demanda do assistente social, a realização de visitas domiciliares, as vezes fazemos mais de três visitas, quatro, cinco, dependendo de cada situação de caso, nós vamos à família diversas vezes, assim como recebemos as famílias também nas visitas aqui. (Entrevista 3 – Assistente Social, Função Técnica)

Nessas circunstâncias, nos serviços de acolhimento, as possibilidades do assistente social intervir nas expressões da questão social se configuram como um dos seus principais objetos de intervenção, mas não o fim único do trabalho. Outras possibilidades são e/ou podem ser construídas para além da determinação e/ou do desejo da gestão, mediante a correlação de forças presentes e as relações construídas no cotidiano do seu trabalho, e mediações fundamentais para a participação no atendimento das demandas incorporadas pelas políticas sociais.

Assim, podemos afirmar que, se por um lado, esses elementos parecem propiciar a materialização de algumas ações profissionais concentradas mais em