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Demarcação do conceito e desenvolvimento histórico

CAPÍTULO 2: O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO E A DETERMINAÇÃO DAS

2.2 A determinação das políticas sociais no capitalismo contemporâneo

2.2.1 Demarcação do conceito e desenvolvimento histórico

Enquanto a pobreza e a desigualdade constituem manifestações presentes em todos os modos de produção antecedentes, o fenômeno da política social, por assim dizer, surge somente no modo de produção capitalista, especificamente, no seio da formação sócio- econômica burguesa e, desde sempre, com algumas variações importantes, assumi ao longo da história uma ideologia predominantemente liberal conservadora.

Sob o ponto de vista formal, a expressão “política social” é originária entre os pensadores alemães de meados do século XIX, os quais instituíram, em 1873, uma associação especial para o seu estudo15.

O conceito de política social difere do de política pública, pois engloba as iniciativas do setor privado voltadas para duas esferas - as internas, que focalizam o público interno da empresa, isto é seus empregados e dependentes, e as externas que correspondem ao desenvolvimento das atividades sociais empresariais que beneficiam a comunidade.

No estudo, incorre-se, exclusivamente, ao plano das políticas sociais públicas, e todas as políticas públicas são sociais, o que se possibilita usar diferentes combinações - política social e política pública - como sinônimos.

15 Toda a história do conceito e ainda uma limitada resenha de seus matizes contemporâneos podem ser encontrados em Werner Cahnman e Carl M. Schimitt, “The Concept of Social Policy”, Journal of Social Policy, 8, n°1, janeiro, 1979. Na Alemanha, vale destacar, a legislação bismarckiana de fomento a “política social” apenas dava seus primeiros passos, vindo somente a se consolidar em fins do século XIX.

Partindo de uma avaliação concreta das políticas sociais e adotando uma perspectiva histórica e dialética, se estabeleceu como hipótese central, que as políticas sociais devem ser entendidas como um aspecto constituinte do modo de produção capitalista, centrada na participação do Estado, no processo de acumulação do capital, por um lado, e na contrapressão permeada pelos movimentos políticos, de luta da classe trabalhadora à conquista e garantia efetiva de direitos sociais, por outro lado.

No plano histórico, o avanço da produção e da organização capitalista dotou a principal via de regulação social como sendo a proletarização, que faz do salário o elemento central de sobrevivência. Daí decorre a concentração da população em centros urbanos e todos os demais elementos que constituem o mundo moderno. Com efeito, este avanço também fomentou - e isso se estende até os dias de hoje - as lutas pela garantia da satisfação das necessidades sociais vitais, tais como: educação, saúde, habitação e alimentação. Por essa razão, a “questão social” se transformou em fato político e, remeteu ao plano estatal, a viabilidade de medidas e instituições que objetivam o bem-estar e os serviços sociais.

No século XIX e, no início do XX, ganharam destaque as grandes lutas na tentativa de organizar uma sociedade em marcos distintos aos preconizados pelo capitalismo. Até 1910 na Europa existiu uma social-democracia que exprimia um regime político-social com potencial revolucionário. Na América Latina, mais ou menos a partir de 1910, no México, também se inauguraram as revoluções sociais de ruptura da ordem social16.

No entanto, depois de 1910, a social-democracia rumou cada vez mais para um projeto reformista que preconizava um conjunto de medidas que, por sua vez, conduziriam, no futuro, ao socialismo. Tudo isso fica claro, sobretudo, após a 2° Guerra Mundial quando a teoria keynesiana começa a predominar na Inglaterra e nos EUA.

Mas é necessário lembrar que, ainda na década de 30, os social-democratas não dispunham, realmente, de nenhuma política econômica própria. Para PRZEWORSKI (1988, p.52): “a única teoria econômica da Esquerda era aquela que criticava o capitalismo, afirmava

a superioridade do socialismo e conduzia a um programa de nacionalização dos meios de produção”.

Logo que os social-democratas descobriram as idéias de Keynes – na Teoria Geral – acharam algo de que necessitavam com urgência, “uma teoria econômica para a gestão de economias capitalistas”. Assim, deve-se considerar que a chamada revolução keynesiana “forneceu aos social-democratas um objetivo e, com isso, a justificativa para seu papel no governo simultaneamente transformando o significado ideológico de políticas distributivas que favoreciam a classe trabalhadora” (PRZEWORSKI, 1988, p.52).

O autor, em destaque, ressalta ainda que:

Os social-democratas suecos descobriram que o desemprego podia ser reduzido e a economia inteira revigorada se o Estado instaurasse políticas anticíclicas, permitindo déficits para financiar obras públicas produtivas durante as depressões e saldando as dívidas nos períodos de expansão. A sociedade não estava à mercê dos caprichos do mercado capitalista, a economia podia ser controlada e o bem-estar dos cidadãos continuamente intensificado pelo papel ativo do Estado – essa era a nova descoberta dos social-democratas. (PRZEWORSKI, 1989, p.53). A partir dessas considerações, pode-se afirmar que o modelo keynesiano aparecia, enquanto projeto econômico adotado historicamente pelos governos social-democratas.

Uma vez assimilada as idéias keynesianas, os social-democratas viram-se levados a desenvolverem uma ideologia abrangente do “Estado de bem-estar”, instaurando, por assim dizer, um projeto que “na verdade implicava um compromisso fundamental com aqueles que ainda eram denunciados como exploradores, mas era economicamente viável, socialmente benéfico e, talvez mais importante, politicamente praticável sob as condições democráticas” (PRZEWORSKI, 1989, p.55).

Através do relatório Beveridge, de 1942, o “Welfare State” ganha espaço definitivo, principalmente, depois que passa a ser assumido pelo Partido Trabalhista Britânico, fundado no início do século XX, o qual, se empenha na construção de um Estado com amplos serviços sociais baseados em dois princípios keynesianos: a busca do pleno emprego e o

desenvolvimento acelerado pelo investimento do Estado em consonância com o investimento privado e com a poupança popular.

Esse regime, em tese, foi percebido, em maior ou menor proporção, nos países capitalistas, como a Grã-Bretanha, nos países da Escandinávia; em alguns momentos, na França e, também, na Alemanha Federal.

Vale adiantar aqui, que ele se “esgota” praticamente em fins dos nos 70, com a desaceleração do crescimento que repercutiu na crise sistêmica do capital. Na verdade, é preciso entender que, o regime de bem-estar social conseguiu assegurar, apenas, certa qualidade e continuada no crescimento, mas não o próprio crescimento. Diante do aprofundamento do processo de modernização capitalista apoiado no paradigma microeletrônico, as economias do globo são atingidas duramente. Enquanto nos EUA, o fordismo literalmente desaba, na Europa, a Social-Democracia ainda resiste, mas sob as duras condições de um desemprego crescente e de um “razoável” bem-estar que, com certeza, será redefinido neste século.