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1. O debate com os comunistas

2.2 As promessas não-cumpridas

2.2.1 Democracia direta e democracia representativa

Um tema que gerou amplo debate na deliberação dos indivíduos foi o modo como as decisões seriam em última instância tomadas, ou diretamente pelo povo sem intermediários, ou por representantes. A atualidade do problema hoje já não faz menção a uma escolha, segundo Bobbio, do tipo ou...ou, ou seja, não existe uma democracia que seja apenas representativa, ou apenas direta, mas formas intermediárias que variam de acordo com cada Estado. Todavia, a exigência de cada vez mais democracia, para Bobbio, mudou a maneira de perguntar, do quem vota? para o onde se vota? É a exigência da democratização da sociedade civil. Uma democracia política pode não coincidir com uma democracia da sociedade. Na extensão do poder para a sociedade à solução não recai para um novo tipo de democracia, mas para os lugares onde o poder ascendente tende cada vez mais a ocupar espaços.

Primeiramente é oportuno falar um pouco sobre a democracia direta. Rousseau admitia que “uma verdadeira democracia jamais existiu nem existirá”. Isto é fato, inclusive dadas as exigências para esta maneira de decidir, como um Estado pequeno, a simplicidade dos costumes, uma igualdade de fortunas. Agora, com os Estados cada vez maiores, esta forma ideal, nas palavras de Rousseau, só pode ter aceitação numa democracia de deuses. Bobbio nos adverte, de que se, por democracia direta, entendemos a participação dos cidadãos em todas as decisões, a

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BOBBIO. O futuro da Democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2000, 8ª edição.

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“proposta é insensata”. Não é insensata apenas porque hoje uma tal forma é impossível, mas também porque é eticamente e intelectualmente não desejável. O cidadão total, de acordo com Norberto Bobbio, é a outra face do Estado Total. É a questão da redução de tudo à política, a “eliminação da esfera privada na esfera pública”79.

Passamos para a democracia representativa. Por democracia representativa devemos entender que as deliberações que dizem respeito a toda a coletividade são tomadas não pelos cidadãos com direitos políticos, mas por representantes, isto é, por pessoas eleitas para esta finalidade. A forma representativa, portanto, inclui tanto o parlamentar quanto o presidente, como legítimos representantes dos cidadãos. Além disso, devemos nos deter nos dois substantivos, “democracia representativa” (democracia + representativa), pois existiram Estados representativos que não foram democráticos.

A crítica à democracia representativa, por não representar de fato os anseios do povo, segundo Bobbio, não nos leva imediatamente à democracia direta. Existem várias maneiras de alguém ser representado. O debate em torno da representação política gira sobre dois temas: o primeiro, em relação aos poderes do representante, e o segundo, ao conteúdo da representação80.

Em relação ao “Como representa?”, o representante pode representar ou como delegado, ou como fiduciário. Como delegado, o representante é um porta-voz, um embaixador de seus representados, e seu mandato estará muito limitado e pode ser revogado. Se for um fiduciário, pode, através dos interesses dos representados, agir livremente com escolhas pessoais, não existindo vínculo de mandato. Quanto ao segundo tema, “Que coisa representa?”, o representante, ou representa os interesses gerais do cidadão, ou os interesses particulares de alguém, ou de alguma classe. Geralmente, o representante como delegado e a representação dos interesses particulares estão juntos, assim como o representante como fiduciário e a representação dos interesses gerais81. No sistema democrático, em sua maioria, no qual não há

mandato imperativo, a representação é fiduciária e representa os interesses gerais.

Quando comumente se critica a democracia representativa em favor de uma democracia mais completa, estão, pois, em jogo estes dois temas: uma crítica à proibição do mandato imperativo e, portanto, à representação fiduciária, tendo em vista uma ligação mais estreita entre representante e representado; e outra crítica referente à representação dos interesses gerais, feita em nome da representação funcional dos interesses particulares. Estas críticas fazem parte da tradição socialista, que teve o objetivo de fazer oposição à ideologia burguesa.

79 Ibid. p. 54-55. 80 Ibid. p. 58. 81 Ibid. p. 58-59.

Contudo, segundo Bobbio, as propostas para modificar o sistema representativo não transformam a democracia representativa em democracia direta. E também não é consenso qual destas alternativas seja mais democrática. Os argumentos contra essas propostas caminham para uma incredulidade na deliberação em favor dos interesses particulares egoístas em troca dos interesses gerais. Bobbio deixa claro que a representação orgânica às vezes é necessária, como nos conselhos escolares e nos conselhos dos operários, onde não caberia uma representação por partidos políticos. Não obstante, observa ele: “ Mas já quando se passa ao bairro, onde os interesses em questão são os interesses dos cidadãos e não os interesses desta ou daquela categoria, os cidadãos devem ser representados por cidadãos, que se distinguirão entre si não à base das categorias que representam mas à base das diversas visões globalizantes dos problemas que conseguirem formar”82.

Se admitirmos que a democracia por mandato revogável está mais próxima da democracia direta, não podemos dizer que se trata de democracia direta. Há um intermediário que, mesmo vinculado, terá certa liberdade de ação. Não podemos revogar um mandato a todo instante.

Bobbio, porém, nos adverte, que entre a democracia representativa e democracia direta não há um salto qualitativo, ou seja, a escolha não pode ser feita por uma alternativa em detrimento de outra, na medida em que não existe forma pura de democracia direta ou representativa. Há alternativas intermediárias, e uma democracia integral pode utilizar todas de acordo com a situação. A democracia direta, por exemplo, possui duas formas de deliberação: a assembléia dos cidadãos sem intermediários e o referendum. No Estado moderno estes mecanismos mesmo em conjunto são insuficientes.

Assim, avanço da democracia não significa passagem para a democracia direta, mas aumento de espaços em que o poder ascendente contribui para uma decisão. A pergunta não é quantos deliberam, mas onde se delibera, ou seja, os locais políticos na sociedade onde é possível uma contribuição por parte dos indivíduos, sejam operários ou estudantes. Acontece que esta democratização social ainda possui um futuro incerto. Uma excessiva participação, por exemplo, poderia levar à apatia política, ao indiferentismo, a partir de um cansaço gradual dos participantes, ou da demora na tomada das decisões.

Esta democratização da sociedade civil desloca o centro do poder do Estado para outros centros, o que leva Bobbio a insistir que nossa sociedade é uma sociedade policrática. O pluralismo destes centros, seja no plano econômico, político e ideológico, é favorável à democracia. A democracia dos modernos é pluralista e luta contra o poder concentrado. Através

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de grupos de poder concorrentes entre si, a democracia representativa admite mais uma forma contra o abuso do poder, pelo fato de que não pode apenas contar com o controle a partir de baixo, que é indireto. Apesar de apontar para o defeito da democracia representativa, que permite a formação de pequenas oligarquias, este somente poderá ser sanado quando existir uma pluralidade de oligarquias em concorrência entre si. E quando os indivíduos participam “o poder não é apenas distribuído mas também controlado”83.