Como não gostaria de ser escravo, também não gostaria de ser amo. É esta minha ideia de liberdade. Tudo o que diferir disso, na medida da diferença, não é democracia.111
Para apresentar algumas refl exões acerca da democracia, partiremos da modernidade, das teorias do contratualismo clássico. A concepção do contrato social tinha, evidentemente, como objetivo justifi car o nascimento da sociedade civil e da política. As três linhas principais surgem a partir dos jusfi lósofos Hobbes, Locke e Rousseau. O primeiro, Hobbes, se propõe a justifi car principalmente a dominação política, que apresenta como a única garantia de paz e estabilidade. Seu pacto social é de união civil e de dominação política mediante a coercibilidade do soberano. Diferente era o posicionamento de Locke que, invocando o direito natural, para marcar o mínimo de onde partir – direitos naturais já no próprio estado de natureza – se
propôs a justifi car a necessidade de limitar e controlar o poder político. Já Rousseau se baseou em um acordo consensuado - o contrato social – que permitia conservar a igualdade e a liberdade, características do estado de natureza, para construir uma sociedade civil de homens livres e iguais.112
Desde então, e até hoje, o acordo fundamental que se plasma neste contrato social foi concretizado, tanto nos antigos como nos modernos Estados em uma Constituição. A Constituição é o resultado de uma deliberação política – quando não uma simples negociação – em um momento histórico-social determinado, entre forças e valores desiguais, dentro de um amplo espaço democrático formal. Daí que o resultado de tais negociações e coerções, mais ou menos invisíveis, seja necessariamente parcial e induzido a uma ideologia, embora sufi cientemente válido e legítimo para fundar e dirigir um regime democrático, sancionado e, ademais, e isso é decisivo, referendado pelo povo (demos).113 Um cidadão republicano é o que confi gura uma democracia, porque os liberais carecem, inclusive, do conceito que é o primordial para os republicanos: o de comunidade política, existência comum, uma vez que, sem comunidade política, não há cidadãos, mas indivíduos liberais. Para os liberais o essencial é estar livre de vínculos, é o ideal da não interferência, tanto por parte do Estado como por parte dos demais indivíduos.
Representa a primasia do indivíduo sobre todos os demais, com a conseguinte conquista dos direitos civis e políticos. Os direitos civis justifi cam-se por serem os que garantem essa independência do indivíduo.
Os direitos políticos asseguram ao indivíduo planifi car sua vida como desejar: pode dedicar-se somente à vida privada (negócios, profi ssões liberais) ou pode optar por formar parte de uma classe política profi ssional através da representação política, o que não deixa de ser uma contradição já que, se o indivíduo liberal defende sua autonomia, como pode aceitar que outro
indivíduo represente seus interesses políticos? A resposta é bem posta por Carracedo que esclarece que tal desvirtuamento teria como objetivo burlar os interesses do proletariado o que somente se poderia conseguir através da burguesia. Isto é, os burgueses disporiam dos adequados contatos sociais, possuiriam cultura, recurso econômicos e demais condições para exercer o poder político. A preeminência política se completou quando se fi xou o modelo indireto de representação, com o qual se afastava o controle popular efetivo.114
Por tudo isso, o liberalismo não questiona programas de educação cívico-política; ao contrário, desencoraja toda e qualquer tentativa de participação política dos cidadãos, deixando-a nas mãos de profi ssionais e especialistas.
Mesmo depois das revoluções liberais os conceitos de democracia e de representação se distinguiam e, inclusive, se opunham. Depois se evoluiu até chegar à representação democrática por um lado e a democracia representativa, por outro.
O problema dessa transformação é que acabou manipulando também o legítimo sentido da representação. A representação indireta se diferencia da direta em quatro aspectos básicos:
a) Listas abertas de candidatos – o adequado seria que os partidos políticos apresentassem ao eleitorado listas abertas de seus candidatos, selecionados democraticamente e não designados pela cúpula burocrática. Como assim não ocorre, aos eleitores não resta outra alternativa que a de referendar a designação partidária já que não podem eleger realmente. Em uma lista aberta, elege o eleitor; em uma lista fechada, elege quem tem poder no partido.
b) O programa de governo – todo candidato apresenta aos eleitores um programa concreto e uma promessa implícita de que se for eleito atenderá a este programa. Geralmente se trata do programa do partido, com alguns matizes pessoais em atenção a algumas solicitações de eleitores. A diferença é que a representação
direta adota este contrato entre representante e representado, direta e abertamente, enquanto na representação indireta o faz como futura intenção, como propaganda eleitoral, já que o único propósito e o que importa é conseguir os votos necessários para ganhar; depois se verá a possibilidade de cumprir algumas das promessas. Em face aos fl agrantes descumprimentos sempre se pode invocar os interesses do Estado ou que eram inviáveis.115
c) Prestação de Contas- A representação indireta não se sente obrigada a prestar contas aos eleitores. Um deputado federal, por exemplo, representa a nação (ou o Estado), não necessariamente seus eleitores. A representação direta, ao contrário, leva em consideração direta seus eleitores. A representação nacional não ofusca sua vinculação com os eleitores, portanto se está mais disposto a prestação de contas.
d) Renúncia política – Pela lógica da representação direta, um representante deve abandonar seu cargo quando perde a confi ança de seus eleitores. (por ex. se não cumpriu o programa ou as ações a que se propôs). Na representação indireta isso não ocorre, pois o representante político deve lealdade ao partido, antes de dever aos eleitores. A lógica é: aqueles que estiverem descontentes com sua gestão que não o reelejam. O problema é que se deve esperar as próximas eleições e sequer tem-se garantia de que o mesmo vá concorrer.
Entretanto, qualquer que seja o seu modelo, não há nenhuma dúvida de que a democracia é o melhor sistema político que se encontrou até hoje. Como disse Sir Winston Churchill:
“A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que tem sido tentadas de tempos em tempos”. Basta vermos os resultados. Para Castillo, a prova está em ver “para onde se dirigem as balsas”. Essas frágeis embarcações transportam os imigrantes ilegais em sua maioria, em busca de melhores condições de vida.
A prova da direção dessas balsas é um indiscutível indicativo de onde se vive melhor e de qual o sistema político melhor contribui
para o bem-estar humano. As balsas não seguem da Espanha para o Marrocos, ou da Europa para a África; os balseiros não cruzam o Caribe para escapar dos Estados Unidos e refugiar-se em Cuba;
as escaladas no muro de Berlim não eram de Berlim Ocidental para Berlim Oriental. Um número infi nito de pessoas jogam sua própria vida, com uma alta probabilidade de perdê-la, para trocar de sistema político.116 Ocorre que a ideia de democracia está indissoluvelmente vinculada às ideias de dignidade, liberdade e igualdade entre os homens, constituindo-se em um corolário de tais princípios; portanto, somente em uma democracia os direitos humanos podem ser efetivamente concretizados. O respeito aos direitos humanos está indissociavelmente unido à democracia porque respeitar os direitos do homem signifi ca respeitar sua liberdade de opinião, de associação, de manifestação e todas as demais liberdades que somente uma democracia permite.
Quanto a seu modelo, considerando a impossibilidade prática da democracia direta nos Estados contemporâneos, Castillo aponta a democracia liberal como a mais adequada e apresenta suas características básicas:
1. Trata-se de uma democracia representativa, isto é, o povo não governa diretamente e sim através de seus representantes.
Isso obedece tanto a razões práticas, uma vez que o tamanho das sociedades atuais a tornaria inviável, como para evitar o risco de eventual manipulação de alguns cidadãos sobre outros.
2. Se baseia no sufrágio universal, livre, direto e secreto. O sufrágio universal foi introduzido tardiamente nas democracias ocidentais. Reconheceu-se o voto masculino no fi nal do séc. XIX e somente no sec. XX, o sufrágio feminino.
3. É um modelo de democracia baseado no império da lei.
4. No modelo de democracia ocidental vige o princípio da separação de poderes, tendo como base as teorias de Locke e Montesquieu. Divisão de poderes não tanto entre os três
tradicionais, mas entre dois poderes fundamentais: o poder de decisão das questões políticas em termos gerais, por um lado, e o poder da execução concreta dessas decisões gerais, por outro.
5. A democracia ocidental é uma democracia respeitosa com os direitos humanos; direitos humanos que, desde o princípio, são universais; os direitos coletivos são direitos instrumentais, a serviço dos indivíduos.117
Devemos reconhecer, contudo, que a democracia representativa, ante os novos desafi os do mundo contemporâneo, passa por difi culdades, abrindo caminho para a democracia participativa. Para Fernández e Sotomayor, um dos desafi os da democracia representativa, como sistema de governo, é o incremento de motes que ocorrem fora de nossas fronteiras e nos atingem diretamente (agressões ambientais, narcotráfi co, epidemias, deslocamento da produção, fl uxo de capitais, confl itos bélicos, etc.). Se a matéria que nos atinge se origina fora de nossas fronteiras, a democracia não pode fi car restrita ao Estado-nação. Outro desafi o da democracia representativa é sua própria debilidade para resolver a questão da participação cidadã na vida social. Embora seja evidente que o cidadão comum não conhece sequer o funcionamento da sua prefeitura, o rechaço e a insatisfação ao sistema é contundente, e abre caminho aos novos movimentos sociais.118
De qualquer maneira, a democracia, tal como a conhecemos hoje, é uma democracia representativa, baseada no sufrágio universal, livre, direto e secreto, no império da lei, na divisão de poderes e no respeito aos direitos humanos. Suas formas e procedimentos refl etem a evolução das sociedades, ao menos a ocidental.
Nino aborda também a questão moral, e, depois de uma série de questionamentos, conclui pela importância de um governo democrático e da democrática origem das normas. E isso porque as decisões democráticas gozam de uma presunção
de validade moral, o que signifi ca que temos razões morais para cumprir suas determinações. A origem democrática de uma norma nos leva a crer que há razões para cumprir seu conteúdo.
Em proporcionarmos essas razões reside a superioridade moral da democracia, já que teremos razões para fazer aquilo que temos razões para crer que temos razões para fazer.119
Então, como conclui Mosca, a democracia responde àquela necessidade natural do homem de governar e sentir-se governado, não pela força material ou intelectual, mas sobre princípios morais.120
2.3 É necessário um código de ética para a classe