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Capítulo 3. Educação em direitos humanos na educação básica: propósitos e

3.1. Fundamentos para a Educação em Direitos Humanos

3.1.2. Democracia e Educação em Direitos Humanos

A concepção de democracia apresentada como princípio constitucional, do regime de governo oriundo da soberania popular, vinculada aos direitos políticos, está aquém do amplo campo de aplicabilidade que a permite. Pode ser considerada “direito objetivo e direito subjetivo, com titularidade respectiva e concomitante no povo e no cidadão: o povo, ente universal, expressão da humanidade, e o cidadão, ente particular, expressão de personalidade” (BONAVIDES, 1998, p. 16).

90 Como expressão da humanidade e da personalidade, a democracia pode ser considerada um modo de conduzir as vidas, uma proposição ética e moral, ou seja, constitui base para a formação da plena personalidade do indivíduo, e das relações coletivas em um ambiente de cooperação. De acordo com Dewey, a democracia é associada a uma prática de vida do tempo presente, e dentro do ambiente escolar deve reger toda as relações sociais. Nesse sentido,

temos de ver que democracia significa a crença de que deve prevalecer a cultura humanística; devemos ser francos e claros em nosso reconhecimento de que a proposição é uma proposição moral, como qualquer ideia referente a dever ser. (DEWEY, 1970, p. 212)

Educar o indivíduo envolto em um ambiente escolar democrático é propiciar experiências concretas de vida e de educação, cujos resultados serão, muito possivelmente, de aproximação de relações sociais democráticas. Em busca de melhor alcançar a dimensão da democracia como fundamento de uma EDH, recorra-se à obra, Educação para a democracia: introdução à administração educacional, de Anísio Teixeira (1997), segundo o qual, com a liberdade e a emancipação humana é possível defender um projeto educacional com independência e qualidade: a “democracia sem educação e educação sem liberdade são antinomias, em teorias, que desfecham, na prática, em fracassos inevitáveis” (TEIXEIRA, 1997, p. 57). Para o referido autor, políticas públicas de fomento à pesquisa científica e projetos com visão crítica, garantida a inviolabilidade da produção intelectual, livre de censuras e partidarismos, aberta e acessível ao público, são ações educativas para a difusão e propagação de uma cultura democrática.

A democracia assim pode ser considerada para o PNEDH: a) um fundamento para a efetivação dos direitos humanos; b) um dever dos Estados que se proclamam democráticos; c) um projeto de sociedade e de política pública; d) um correlato à soberania popular e; e) uma concepção de cultura democrática. Como método de ensino, os documentos referenciais abordados nessa pesquisa consideram que, para uma formação humana destinada à ordem democrática e ao fortalecimento dos direitos humanos, é necessário conjugar ações, uma inserindo os temas correlatos a uma EDH nos componentes curriculares, e outra destinando o espaço escolar como campo de experiências e vivências democráticas.

Em vista disto, expomos no quadro abaixo a democracia como um fundamento para uma EDH nos referenciais do PNEDH, das DNEDH e da BNCC, exclusivamente, para a educação básica, na perspectiva do modo de fazer e do espaço de aplicação.

91 Quadro XII – Análise categorial da democracia como fundamento da EDH para o PNEDH, as

DNEDH e para a BNCC

Documentos Objetivação do Fundamento Democracia na Educação Básica para uma EDH

1 - Plano Nacional de Educação em Direitos humanos (BRASIL, 2006)

Método: com a inclusão da educação em direitos humanos nos Projetos Político Pedagógicos das escolas, adotando as práticas pedagógicas democráticas presentes no cotidiano (BRASIL, 2006, p. 33);

Espaço: todos os espaços sociais, e na escola em razão do caráter coletivo de vivência (BRASIL, 2006, p. 32).

2 - Diretrizes Nacionais para

Educação em

Direitos Humanos (BRASIL, 2013)

Método: elaborar os Projetos Político-Pedagógicos com base nos princípios, valores e fundamentos da EDH, dentre eles, a democracia, cujos conteúdos deverão transversalizar os currículos (BRASIL, 2013, p. 507);

Espaço: Na escola e em “todos os espaços e relações que têm lugar no ambiente educacional devem se guiar pelos princípios da EDH e se desenvolverem por meio de processos democráticos, participativos e transparentes” (BRASIL, 2013, p. 504).

3 - Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017)

Método: competência geral da própria BNCC; competência específica da área de conhecimento de linguagem, e nos componentes curriculares de língua portuguesa e educação física; competência específica do componente curricular de matemática; competência específica da área de ciências da natureza; fundamento da área de ciências humanas, e competência específica dos componentes curriculares de geografia e história; e, fundamento da área de conhecimento de ensino religioso;

Espaço: Na escola, como espaço de aprendizagem e de democracia inclusiva, deve se fortalecer na prática de não discriminação, não preconceito e respeito às diferenças e diversidades (BRASIL, 2017, p. 14).

Elaboração da autora a partir de Brasil (2006; 2013; 2017).

Uma das preocupações das Diretrizes é com a operacionalização do ensino de direitos humanos dentro dos PPP, de modo que “no currículo escolar, sejam incluídos conteúdos sobre a realidade social, ambiental, política e cultural, dialogando com as problemáticas que estão próximas da realidade desses estudantes” (BRASIL, 2013, p. 507). Os PPP a serem desenvolvidos dentro das escolas, com a participação dos profissionais da educação dentro de um amplo processo de debate sobre as realidades e questões específicas da comunidade escolar, deverão conter propostas de ações a serem executadas em um período determinado, no qual

92 estarão dispostas as atividades pedagógicas necessárias ao processo de ensino e aprendizagem, com a definição de metas.

Para viabilizar os PPP, a LDBEN/1996 entende que a “integralização curricular poderá incluir, a critério dos sistemas de ensino, projetos e pesquisas envolvendo os temas transversais” (BRASIL, 1996), dentre eles, a educação em direitos humanos e seus temas correlatos, tais como a democracia. A transversalidade dos conteúdos, portanto, surgem como uma resposta às dúvidas sobre como fazer uma educação na perspectiva humanizadora. Com isso pretende-se, a incorporação de ações democráticas, participativas dos agentes envolvidos no processo educacional dentro do espaço escolar.

Cite-se, como exemplo, a proposta integralizadora da BNCC para o tema democracia para a área de conhecimento de linguagem, no componente curricular de língua portuguesa do 6º ao 9º ano do ensino fundamental:

LÍNGUA PORTUGUESA – 6º AO 9º ANO:

CAMPO DE ATUAÇÃO NA VIDA PÚBLICA – Trata-se, neste Campo, de ampliar e qualificar a participação dos jovens nas práticas relativas ao debate de ideias e à atuação política e social, por meio do(a):

- reconhecimento da importância de se envolver com questões de interesse público e coletivo e compreensão do contexto de promulgação dos direitos humanos, das políticas afirmativas, e das leis de uma forma geral em um

estado democrático, como forma de propiciar a vivência democrática em várias instâncias e uma atuação pautada pela ética da responsabilidade

(o outro tem direito a uma vida digna tanto quanto eu tenho) (BRASIL, 2017, p. 145, grifos nossos).

Para o fortalecimento de cultura democrática dentro do ambiente escolar, os três documentos verificados em comparação (cf. Quadro X), consideram este espaço como aquele adequado a uma educação plural e integrada aos princípios e valores democráticos que a sociedade exige. Para o PNEDH, uma ação concreta a ser desenvolvida pelas escolas, no âmbito da educação básica, como espaço propício ao desenvolvimento de uma cultura democrática é “incentivar a organização estudantil por meio de grêmios, associações, observatórios, grupos de trabalhos entre outros, como forma de aprendizagem dos princípios dos direitos humanos, da ética, da convivência e da participação democrática na escola e na sociedade” (BRASIL, 2006, p. 34).

Com idêntica argumentação, e na proposta de ser um documento derivado do PNEDH, as DNEDH também consideram a vida escolar como momento privilegiado para a busca e defesa dos direitos e responsabilidades coletivas. A escola seria o espaço no qual as crianças e jovens aprenderiam o fazer democrático, exercitando tais condutas por intermédio da organização estudantil, cuja finalidade é preparar o aluno para a autonomia, para que ele pense

93 e conduza-se por si, em um ambiente escolar democrático, em todas as suas instâncias, e promotor dos direitos humanos. A BNCC, por fim, entende que o compromisso da escola é propiciar uma formação integral, balizada pelos direitos humanos e nos princípios democráticos.

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