Pedro Malina
1ORCID - 0000-0002-2719-4875
Resumo: Neste artigo, procuro relacionar a desigualdade e a competição, entendidas como elementos centrais da governamentalidade neoliberal, e a democracia, compreendida como governo político de ampliação de participação na política e como forma do Estado no Ocidente. Além disso, busco mostrar como as relações de políticos neoliberais com grupos historicamente conservadores viabilizaram as políticas neoliberais de Estado, buscando exemplos nos governos de Jair Bolsonaro, no Brasil, e de Donald Trump, nos EUA.
Palavras-chave: Neoliberalismo. democracia. governamentalidade.
conservadorismo.
1 Professor nas áreas de Sociologia e Ciência Política; doutor pelo Programa de Estudos Pós-Gra-duados em Ciências Sociais, da PUC-SP, na área de concentração Política, com bolsa do CNPq.
Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestre pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, na área de concentra-ção Política, com bolsa CAPES e, posteriormente, CNPq. Atua, principalmente, nos seguintes temas: Tecnologia; Neoliberalismo; Democracia; Governamentalidade. Pesquisador do Núcleo de Estudos de Arte, Mídia e Política (NEAMP). E-mail: [email protected]
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Abstract: This article establishes the connection between inequality and competition, understood here as central elements of the neoliberal governmentality, and democracy, understood here as a political government that broads the participation in politics and as a kind of State in the western world. Besides, it shows how the connection between neoliberal politicians and conservative groups historically allowed neoliberal State policies, looking for examples in the administration of Jair Bolsonaro in Brazil and Donald Trump in the USA.
Key-words: Neoliberalism. democracy. governmentality. conservatism.
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Resumen: En este artículo trato de relacionar la desigualdad y la competencia, entendidas como elementos centrales de la gubernamentalidad neoliberal, y la democracia, entendida como un gobierno político para ampliar la participación en la política y como una forma de Estado en Occidente. Además, busco mostrar cómo las relaciones de los políticos neoliberales con los grupos conservadores históricamente han viabilizado las políticas de Estado neoliberales, buscando ejemplos en los gobiernos de Jair Bolsonaro en Brasil y Donald Trump en Estados Unidos de América.
Palavras-clave: Neoliberalismo. democracia. gubernamentalidad. conservantismo.
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Neste artigo, discutiremos a relação entre a governamentalidade neoliberal2 e a democracia, buscando entender como a desigualdade, a antipolítica e a aliança com os novos conservadores estão fortalecendo essa governamentalidade e enfraquecendo a democracia. Aqui, buscamos entender de que forma a governamentalidade neoliberal, em suas diversas facetas, ataca a democracia. Para isso, o texto inicia com uma rápida exposição conceitual, para depois discutir os efeitos da desigualdade promovida pela governamentalidade neoliberal; mostrar a relação entre essa governamentalidade e a visão antipolítica; e, por último, mostrar as atuais relações entre neoliberais e neoconservadores.
Para iniciarmos uma discussão sobre qualquer assunto precisamos deixar claro do que estamos falando, especialmente quando se trata de conceitos polissêmicos. Por essa razão, abordaremos aqui dois conceitos que se encaixam nessa definição: democracia e neoliberalismo. Ambos são largamente utilizados em trabalhos acadêmicos, imprensa tradicional (jornais, revistas, televisão e rádio), além de redes sociais e conversas do dia a dia. Tudo isso dificulta a discussão a ser tratada aqui, mas não a impossibilita.
A governamentalidade neoliberal se baseia na desigualdade e na competição. Essa desigualdade se estende além do econômico, ela existe na subjetividade individual, na visão que temos de sociedade, ocupando espaços e levando a duras consequências para nós e para a vivência em nosso planeta (DARDOT e LAVAL, 2016).
Na análise de Michel Foucault (2008), a substituição da troca pela concorrência que os autores ordoliberais fazem em relação ao liberalismo clássico, além da desnaturalização do mercado e, posteriormente, o desenvolvimento da teoria do capital humano, é fundamental para o funcionamento da governamentalidade neoliberal. Para que a competição entre os atores no mercado ocorra, a desigualdade se faz necessária como elemento de estímulo, como forma de dividir ganhadores e perdedores nesse jogo e para trazer o risco na concorrência.
Para que isso ocorra passam a acontecer mudanças na subjetividade dos indivíduos
2 Para tratar do neoliberalismo iremos abordá-lo como governamentalidade, conceito criado por Michel Foucault. Governamentalidade, para Foucault, trata-se da conduta das condutas, ou seja, daquilo que estabelece como serão geridas e moldadas as condutas individuais e coletivas, passan-do pelo Estapassan-do, mas não se atenpassan-do a ele. Essa não é uma novidade nos estupassan-dos sobre neoliberalis-mo. Além do próprio Foucault, outros autores (BROWN; LEMKE; DARDOT; LAVAL; DEAN) já trouxeram essa abordagem.
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que precisam se ver como competidores autônomos e livres, aceitar o risco dessa disputa e, com isso, aceitar a desigualdade.
Diversos autores fazem uso da palavra democracia (RANCIÉRE, 2010) para designar o sistema de governo dominante no mundo ocidental, e outros para designar um sistema utópico que nunca foi posto em prática. Aqui, optamos por trabalhar com um conceito que não está em nenhum desses dois grupos, já que não consideramos serem os melhores para a abordagem da democracia que teremos neste artigo e sua relação com o neoliberalismo. A democracia não é nem o realismo cético e somente formal, em que é difícil estabelecer o limite do que é ou não uma democracia, dos autores que pensam somente em como a democracia moderna funciona (muitas vezes como a única opção de modelo de governo ou a melhor forma de governo entre opções ruins); nem é o governo do povo pelo povo, em sentido utópico, um sistema de governo que nunca aconteceu e que talvez nunca acontecerá, compreendido por autores que buscam um sistema perfeito.
O conceito de democracia proposto por Jacques Rancière não considera a democracia como um sistema formal de governo, nem como uma forma de viver, mas como um governo cuja distinção entre mandantes e mandados não advém de um critério anterior, buscando aumentar a abrangência de quem pode participar da política.
Jacques Rancière em seu texto “Does democracy means something?”
(2010) inicia discussão sobre o que é democracia a partir de uma questão de disputa nas definições: se a democracia é um modo de vida ou um sistema de governo. A análise da democracia como modo de vida a vê como um governo do povo e para o povo, um autogoverno da população, em que suas demandas devem ser respondidas pelo governo. De acordo com o autor, essa forma é idealista, já que enxerga a democracia como um governo radical do povo que não foi visto nem na democracia moderna nem na democracia dos antigos.
Já a visão da democracia como sistema de governo entende que este deve mediar e organizar demandas dentro de uma estrutura política formal de representação. O representante serviria como moderador entre a vontade do povo e a realização dessa vontade, ou seja, o sistema de governo serviria para limitar as demandas do povo, colocando prioridades e formas nessas demandas.
É no encontro dessas duas visões que o autor encontra o paradoxo da democracia: modo de vida de autogoverno do povo com um sistema que deve
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limitar essa demanda diante das possibilidades colocadas na conjuntura existente.
Por um lado, o povo deve mandar; por outro, sua autoridade precisa ser controlada.
Alguns autores neoliberais, inclusive, baseiam-se nessa necessidade de controle das demandas como um dos papéis do Estado (SLOBODIAN, 2018).
Rancière aprofunda ainda mais a questão dizendo que o paradoxo da democracia é o paradoxo da política: “In other words, the standard way of stating the democratic paradox, according to which democracy is a form of life that democratic government has to repress, suggests a more radical paradox. This paradox, I submit, is that of politics itself.” (2010, p. 50). Esse paradoxo da política vem da compreensão de que a política estabelece a base para o exercício do poder, o critério para que o poder institucional possa ser exercido. E a democracia nos traz uma resposta singular para essa pergunta:
Why a paradox? Because the institution of politics seems to provide an answer to the key question as to what it is that grounds the power of rule in a community. And democracy provides an answer, but it is an astonishing one: namely, that the very ground for the power of ruling is that there is no ground at all. (RANCIÈRE, 2010, p. 50)
Os tipos de regime político definem quem vai mandar e quem vai obedecer, a partir de um critério prévio. A democracia não tem critério prévio, o que pode permitir que todos participem da política. Por não colocar um critério de quem pode praticar a política, a democracia não é nem um modo de governo idealista, nem um sistema de governo específico, mas um “governo político” (RANCIÈRE, 2010), pois é a política o que amplia o limite de si, e a democracia faz esse papel de aumentar os números de sujeitos inseridos na política, recrudescendo as possibilidades de atores políticos, por meio de, por exemplo, o sufrágio universal, o estímulo à participação política, as possibilidades de autogestão etc.
Então, a democracia aqui é entendida como um processo que expande o político, misturando o social e a política, abrindo mais oportunidades para diversos sujeitos participarem de temas a serem deliberados, um aumento também da esfera pública. Essa diversificação de sujeitos e pautas traz para o jogo político o dissenso, característica importante para a política de acordo com o autor, pois para ele a política é uma forma de lidar com o dissenso e com o outro, e o processo democrático é radical nisso por ser uma maneira de lidar sempre com o outro que se inclui na política.
62 In my own work, I have tried to conceptualize democratic practice as the inscription of the part of those who have no part - which does not mean the ‘excluded’ but anybody whoever. Such an inscription is made by subjects who are
‘newcomers’, who allow new objects to appear as common concerns, and new voices to appear and to be heard. In that sense, democracy is one among various ways of dealing with otherness. (RANCIÈRE, 2010, p. 60)
A democracia é um modo de lidar com o outro, um processo que deve ampliar cada vez mais os limites da participação política e decisória. Durante o século XX, vimos diversas lutas para que grupos que não tinham voz na política começassem a ser incluídos, tais como os não proprietários, as mulheres, negros, homossexuais, transsexuais etc. Esse não é um processo finito. O processo democrático deve ampliar cada vez mais seus limites, já que outros sujeitos surgirão ou já estão presentes como sujeitos de fora da política, no sentido da participação e da deliberação, mas não são excluídos em relação aos efeitos e às consequências da política e do Estado.
Vamos agora à relação entre a democracia, não como sistema de governo ou modo de vida, e a governamentalidade neoliberal, a partir de dois eixos centrais: a desigualdade e a antipolítica. A desigualdade é uma das bases para o funcionamento do neoliberalismo, já que é por ela que a competição entre os agentes acontece e é a partir dessa competição que passamos a perceber a sociedade como pequenos núcleos independentes e autônomos. De acordo com Wendy Brown:
(...) inequality, not equality is the medium and relation of competing capitals. When we are figured as human capital in all that we do in every venue, equality ceases to be our presumed natural relation with one another. Thus, equality ceases to be an a priori or fundament of neoliberalized democracy. (2015, p. 38)
Agora, de que forma essa desigualdade interfere no funcionamento do processo democrático descrito por Rancière?
Vimos como a democracia é um processo de expansão da política, incluindo, cada vez mais, grupos dentro dela e levando à possibilidade de negociação a partir do dissenso e do outro. A desigualdade faz com que os sujeitos não possam participar da vida política e separa a classe política do resto da sociedade, gerando
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um abismo entre os que têm boa parte do poder deliberativo dentro do Estado e os que não têm acesso a ele.
A relação entre desigualdade e democracia pode ser pensada a partir de vários ângulos. Aqui, vamos nos centrar na desigualdade econômica, que interfere diretamente na capacidade de influenciar as decisões do sistema político e fecha as portas para uma ampliação da participação que define a democracia.