Capítulo 1 – Internet, Sociedade em Rede e Democracia
1.5 Democracia e Internet
Lévy (2002) afirma que quanto mais comunicação mais liberdade. E, dessa forma, segundo ele, os destinos da democracia e do ciberespaço estão intimamente ligados, pois ambos implicam aquilo que a humanidade tem de mais essencial: “aspiração à liberdade e à potência criativa da inteligência criativa” (p.32). Assim, “a violência” do processo de mudança cultural não diz respeito apenas às questões materiais e mensuráveis da economia e da técnica, também, e principalmente, implica nas questões de aprendizagens fundamentais da mente humana.
“Os grandes avanços da emancipação humana há quatro séculos (e, particularmente, desde o final do anos 80 do século XX) têm a mesma natureza, imprevisível, implanificável e incoercível: progresso da noção
de direitos do homem, abolição da escravatura, descolonização, desmoronamento dos totalitarismos e das ditaduras, difusão do sufrágio universal e da democracia, emancipação das mulheres e das minorias oprimidas. (...) Esta aceleração da emancipação dá sentido a todas as outras. A capacidade de comunicar e circular tem um estreita relação com o desenvolvimento da liberdade” (Lévy 2002, 23).
O autor faz ainda retrospecto da importância do desenvolvimento da opinião pública, fundamento essencial nas democracias modernas, que não teria sido possível sem o desenvolvimento da imprensa. Ele cita o exemplo das ideias liberais inglesas dos séculos XVII e XVIII, assim como as revoluções americanas e francesas, os períodos de revolução e criação política na Europa, todos movimentos alicerçados pela imprensa.
Nos dias atuais, a diferença do papel da comunicação para a realização de revoluções, mudanças e protesto ganha muito mais força. Uma vez que os cidadãos não precisam mais aguardar que grandes meios de comunicação veiculem fatos. A influência dos grandes meios ainda é inegável, contudo as notícias e os fatos também partem dos cidadãos. Como afirma Lévy (2002), “a rede permite a todos tornarem-se jornalistas, de si mesmos, mas também de tudo quanto é possível testemunhar com uma câmara digital, um gravador ou um teclado em mãos” (Lévy 2002, 52).
Assim, com a Internet, as ideias passam a ser expressas por pessoas que produzem e pensam, não apenas por jornalistas que são forçados a simplificar, e até caricaturar, por falta de tempo e, de acordo com o autor, competência.
Lévy (2002) ressalta ainda que já não são os agentes da vida pública que entram na vida das pessoas, por intermédio da televisão, do rádio e da imprensa. Mas a iniciativa dos cidadão que são convocados à tela do computador. Nas palavras dele, “cada um de nós torna-se o encenador original do espetáculo do mundo cujos atores, sempre disponíveis, podem voltar à representação, e podemos comparar uns aos outros com todo vagar” (Lévy 2002, 50). Segundo o autor, a relação com a esfera pública já está profundamente modificada por este artifício.
Bentele e Nothhaft (2010) fazem um retrospecto das pessoas que tiveram voz e influência na esfera pública através dos tempos, desde as ágoras gregas até o super conectado mundo globalizado dos dias atuais. Segundo os autores, a sociedade moderna está aberta de tal forma que, com pressão ou argumentos suficientemente bons, qualquer grupo pode estar no centro da esfera pública. Os grupos para serem percebidos precisam que seus temas sejam
divulgados e debatidos. Até a década de 1980 só pessoas em posições centrais na sociedade e nos governos ou detentores de acesso aos grandes meios de comunicação de massa conseguiam ter seus debates em foco na esfera pública. A dinâmica hoje é diferente. Segundo os autores, “a ideia de que toda a gente importa é muito nova” (Bentele e Nothhaft 2010, 95).
Ainda de acordo com Bentele e Nothhaft (2010), o que temos de perceber é que a esfera pública é historicamente um lugar para aclamação e também mecanismo de controle, (de iguais por iguais). Ela, a esfera pública, é democrática na sua natureza, mas não democrática, no sentido moderno da palavra. Ao longo dos diferentes momentos da história, a esfera pública não foi o lugar onde todos puderam se reunir, mas a esfera para aqueles que “importam” na cultura, na política, economia ou na sociedade.
Por isso, dizem Bentele e Nothhaft (2010), a característica dominante da espera pública no Século XXI não é sua virtualidade, mas a comunicação, que colapsa esses constrangimentos estruturais e históricos sobre quem importa e tem voz na esfera pública. Além de outras barreiras de acesso, como tempo, distância, limitações técnicas e deficiências físicas de pessoas. Segundo eles a grande diferença na nova esfera pública é que ela não é mais um campo de força da mídia constituído por atores limitados, mas uma rede de pontos de interesse.
Castells (2007) ao falar de Internet, democracia e política ressalta a grande crise de legitimidade política e a falta de confiança dos cidadãos por seus representantes. No entanto, segundo ele a Internet, um canal interativo e multidirecional, tem proporcionado poucos sinais de ligação entre esses dois extremos.
“Os políticos e as instituições publicam os seus anúncios oficiais e respondem de forma burocrática, excepto quando se aproximam as eleições. Os cidadãos sentem que não faz muito sentido gastarem as suas energias em discussões políticas, excepto quando se vêem afectados por um determinado acontecimento que desperta sua indignação ou afecta seus interesses pessoais. A Internet não pode proporcionar uma solução tecnológica para a crise da democracia” (Castells 2007, 188).
Porém, o autor afirma que a Internet desempenha um papel fundamental na nova dinâmica da política – que ele denomina como “política informacional –, pois a comunicação dos governos com a sociedade está baseada principalmente na mediação pelos meios de comunicação, que, ainda mais, contam com um poderoso sistema de informação que pode gerar apoio ou rejeição na cabeça das pessoas, influenciando resultados eleitorais. Como observamos atualmente, na Era da Internet, é bastante difícil guardar um segredo político, logo que este saia
de um reduzido círculo confidencial. Com a rapidez da difusão de informações, os meios de comunicação devem estar atentos, saber reagir a boatos e avaliar como e o quê informar diante da enxurrada de informações que recebemos todos os dias. O limite entre os rumores e a informação política útil está cada vez mais difícil de ser identificada, criando obstáculos na utilização da informação política privilegiada (Castells 2007).
Na opinião de Castells, nesse momento, no lugar de fortalecer a democracia, por meio da difusão da informação aos cidadãos e da sua participação, a utilização da Internet tende, na verdade, a aprofundar a crise da legitimidade política, ao proporcionar uma plataforma mais ampla para a política do escândalo. O autor salienta, no entanto, e mais uma vez, que o problema não é a Internet, mas sim o tipo de política que existe em nossas sociedades e que elas continuam a gerar. De acordo com ele, uma política que não se preocupa em moldar o poder do Estado num momento em que os Estados enfrentam uma transformação do ambiente no qual conseguem agir em segurança (Castells 2007).
“Esperava-se que a Internet pudesse ser um instrumento ideal para fomentar a democracia (e ainda pode sê-lo). (...) Em vez de o Governo vigiar as pessoas, as pessoas poderiam viajar o seu Governo, algo que deveriam ter direito, já que em teoria o poder reside no povo. No entanto, a maior parte dos estudos e relatórios descrevem um panorama bastante negativo, com a possível excepção das democracias escandinavas, Os governos, a todos os níveis, utilizam a Internet principalmente como um quadro de publicidade eletrônica para divulgar sua informação, sem realizar um verdadeiro esforço de interacção social” (Castells 2007, 186).
Na senda do pensamento de Castells, sobre o verdadeiro esforço de interação por parte dos governos com seus cidadãos, o capítulo segundo será desenvolvido. Para isso, falaremos sobre as redes sociais, políticas públicas e marketing político. Como os governos se utilizam dessas ferramentas para formulação de sua imagem e como as utilizam para dialogar com o cidadão.