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2 DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO: PREMISSAS E PRESSUPOSTOS NAS

2.9 Democracia e neoliberalismo: um paradoxo?

O panorama mundial do século XX colocou em evidência algumas propostas de sociedade. É preciso lembrar que o século XX marcou um contraponto em relação ao anterior, pois os conflitos que existiam no passado em relação às disputas imperialistas foram unilaterais, já nesse século uma palavra motor para uma explicação dos fatos históricos chama-se guerra (HOBSBAWN, 1995).

Hobsbawn (1995) denominou esse momento tenso do século XX como Era da Catástrofe devido a Primeira Grande Guerra Mundial que solapou os Impérios construídos no passado, a Segunda Guerra Mundial que colocou em disputa programas fascistas contra os grupos políticos liberais e socialistas, a Crise de 1929 que afetou das mais fortes economias mundiais as mais fracas e mostrou a derrocada do capitalismo liberal, além de outros problemas da ordem de rebelião e revoluções que colocavam o mundo em alerta.

Nesse sentido, a ebulição catastrófica da guerra durante esse ―período de crises múltiplas gerava uma ampla desconfiança em relação a uma doutrina econômica que pregava liberdade total aos atores do mercado‖ (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 53). A partir disso, o Estado de bem-estar social vinculado a uma social democracia ou o denominado Welfare State17 vigorou na Europa após a Segunda Guerra Mundial e foi um verdadeiro anteparo para

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Iniciada no território estadunidense expandiu-se pelo mundo afetando o cenário econômico, social e político. Período em que as reservas internacionais secaram e os investimentos caíram, o desemprego em massa virou realidade, as bolsas de valores quebraram e a atividade industrial e agrícola que vinham produzindo e vendendo em grande escala também reduziram. Acrescenta-se a isso a grande desorganização do sistema bancário norte- americano. (HOBSBAWN, 1995).

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Período que vai do fim da Primeira Guerra Mundial em 1918 até o início da Segunda Guerra Mundial em 1939. Vários eventos históricos marcaram esse momento como: a Crise de 1929, a ascensão do fascismo e a Guerra civil espanhola.

17 ―A definição de Welfare State pode ser compreendida como um conjunto de serviços e benefícios sociais de

alcance universal promovidos pelo Estado. A finalidade era de garantir uma ―harmonia‖ entre o avanço das forças de mercado e uma relativa estabilidade social, suprindo a sociedade de benefícios sociais que significam segurança aos indivíduos para manterem um mínimo de base material e níveis de padrão de vida. Por fim, a

as camadas sociais mais aviltadas pelo terror da guerra e pelas relações capitalistas extremas. Assim, o período após a Segunda Guerra Mundial serviu para amarrar questões geopolíticas, buscando evitar um novo conflito e também assegurar que a economia mundial não entraria numa queda vertiginosa como a que aconteceu após a crise de 1929 (HARVEY, 2008).

Com isso presume-se que a social democracia segundo Chauí, seria baseada em três elementos:

1) O fordismo na produção, isto é, grandes plantas industriais realizavam a atividade econômica, desde a produção de matérias-primas ate sua distribuição no mercado de meios de consumo, controlando por meio do planejamento e da chamada ―gerencia cientifica‖ a organização do trabalho, a produção de grandes estoques e a formação dos preços; 2) inclusão crescente dos indivíduos no mercado de trabalho, orientando-se pela ideia de pleno emprego; 3) monopólios e oligopólios que, embora transnacionais ou multinacionais, tinham como referência reguladora o Estado nacional (CHAUÍ, 2011, p. 311).

O conceito da social democracia navega por uma prática de esquerda que não compreende a revolução como ponto médio e máximo de transformação da sociedade. Pelo contrário, compreende ser possível conviver e atuar nos limites deixados pela democracia burguesa, pois o Estado seria o grande regulador das ações em meio ao poderio das grandes empresas. Por isso, nesse modelo político, os acordos entre o Legislativo, o Judiciário, o Executivo e os órgãos sindicais deveriam legitimar uma forma de governo com caráter assistencialista.

O cenário pós-guerra era alarmante para os países europeus, porém dos anos 1950 até a crise do petróleo em 1973 ocorreu um avanço econômico com práticas aliadas a social democracia, comprovando uma característica vitoriosa dessa prática de governo. Entendendo a crise relacionada ao petróleo como uma problemática, surge à defesa de novos ideais que apoiavam uma prática estatal mais enxuta, o neoliberalismo.

Apesar de uma construção vitoriosa num contexto de crise do pós-guerra, observamos que o Estado da social democracia que atuava fazendo medidas paliativas para as grandes massas, acabou acobertando os problemas de uma sociedade em que as medidas burguesas dominariam de forma efusiva os meios de produção. Podemos compreender que tal processo faz parte do como se representa o Estado na sociedade. É um Estado implantador de reformas vinculadas a melhoria dos direitos quando questões do período como a pressão popular o levam àquilo, assim como se torna um Estado impositor das contrarreformas quando o capital exige tal posição. Assim, as ações no plano econômico e social de um tentativa era de enfrentar os efeitos deletérios de uma estrutura de produção capitalista desenvolvida e excludente‖ (GOMES, 2006, p. 203).

modelo baseado no Welfare State acabam sendo marcantes pela cooperatividade e o assistencialismo, mas carecem de uma transformação total da sociedade.

Outra característica marcante desse período foi que a partir dos anos 80 do século XX, admitimos que a queda do modelo do leste europeu, com força central na União soviética, foi mais um motivo para a abordagem neoliberal ganhar força, pois a amostra do socialismo real de contraposição econômica e social a ordem vigente foi engolida por uma lógica que careceu de radicalização democrática das instituições que comandavam as ações. Precisamente, tem-se que:

[...] a crise do socialismo real resultou do seu êxito em promover, num lapso temporal extremamente apertado, o que seriam as pré-condições para a transição socialista-aquelas inerentes a uma sociedade urbano-industrial. Quando logrou criar tais condições, o arcabouço sociopolítico em que assentava colidiu com as exigências da lógica de uma economia de que fora suprimida a elementar mediação societal do mercado (NETTO, 2012, p. 79).

Assim, a análise é que para que consigamos atingir o estágio de liberdade socialista a busca por medidas sociais democratizantes pela ótica comunista deveria ser desenfreada, porém isso não foi o marco da URSS, que no meio do seu período de existência e no fim, sucumbiram a ideais ligados às instituições do mundo burguês (NETTO, 2012). Tal fato só demonstra que por motivos diferentes o Welfare State e o modelo ligado ao leste europeu, deixaram campo aberto para os ideais neoliberais saírem da gaiola.

É nesse contexto de transformações no cenário mundial que a teoria neoliberal ganha robustez. Um marco de defesa de uma teoria de mercado livre e com a redução do Estado nas diversas ações é apresentado principalmente nos EUA, no Reino Unido e depois se propaga como uma relação de domínio em nações periféricas. Após a crise dos anos 70 do século XX, a combinação de inflação alta, desemprego e recessão econômica assustou a elite mundial, até porque não sabiamos o futuro das ideias socialistas ainda, a partir disso a saída dos entes que moldam o capital foi escolher um modelo que comprovadamente acentuou a desigualdade social, pois concentrou a renda na camada mais elitizada (HARVEY, 2008).

As aspirações neoliberais têm raízes no modelo liberal do século XVII e XVIII, na Europa Ocidental, em que o antiabsolutismo era uma máxima entre os pensadores. Tal máxima compreende o livre mercado como garantidor da liberdade e igualdade e o capitalismo como elemento natural do desenvolvimento do indivíduo (SMITH, 1996).

O neoliberalismo tem amparo em autores marcantes como Ludwig von Mises (1881-1973), Friedrich von Hayek (1889-1992) e Milton Friedman (1912-2006). Hayek no seu livro ―O caminho da servidão‖ traz apontamentos clássicos sobre o ideário neoliberal,

além disso, foi um dos fundadores e comandantes da primeira reunião de pessoas ligadas ao ideário neoliberal na Sociedade do Mont Pèlerin18. Na obra citada anteriormente o foco do austríaco foi abordar que o Estado de bem-estar social que vigorava no mundo não poderia interferir na liberdade individual econômica e também política, pois seria evidenciada aí uma espécie de servidão moderna (ANDERSON, 2008).

Tal modelo encontra dois expoentes para propagá-lo na segunda metade do século XX, Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990, e Ronald Reagan, presidente norte-americano de 1981 a 1989. Quando Margaret Thatcher entoou após uma entrevista famosa a frase: "A economia é o método. O objetivo é mudar o coração e a alma", as diversas correntes econômicas talvez não esperassem uma espécie de profecia que ganhou força e apresentou uma miscelânea de representações nas relações sociais atuais. Para além de um Estado menos interventor e um mercado comandante das ações, o neoliberalismo aplicou mudanças nos elementos subjetivos de cada ser humano como o aspecto egoísta, a lógica meritocrática e aplicação da competição. Além disso, praticou reformas fiscais para sanear as despesas dos países e potencializar mudanças em busca de estabilidade financeira para o mercado como forte atuação na supressão das ações sindicais.

Focando na ação de Thatcher, temos um exemplo de como no Reino Unido as medidas neoliberais ganharam corpo com a prática das privatizações, o ataque à atuação sindical, a fuga de uma política coletiva minimamente solidária, pois ela poderia afetar a competitividade do mercado e por fim, seria um Estado e um indivíduo marcadamente empreendedor (HARVEY, 2008).

Em resumo, o neoliberalismo é baseado no fim dos investimentos estatais na produção, no fim do controle do Estado das questões financeiras e na contrariedade em relação às manifestações sindicais por direitos, para isso os preceitos defendidos são:

1) um estado forte para quebrar o poder dos sindicatos e dos movimentos operários, para controlar os dinheiros públicos e cortar drasticamente os encargos sociais e os investimentos na economia; 2) um estado cuja meta principal deveria ser a estabilidade monetária, contendo os gastos sociais e restaurando a taxa de desemprego necessária para formar um exercito industrial de reserva que quebrasse o poderio dos sindicatos; 3) um Estado que realizasse uma reforma fiscal para incentivar os investimentos privados e reduzir os impostos sobre capital e as fortunas, aumentando os impostos sobre a renda individual, portanto sobre o trabalho, o consumo e o comercio; 4) um Estado que se afastasse da regulação da

18 Foi uma grande reunião em 1947 que marcou o início de uma marcha neoliberal para tomar o rumo das ações

políticas e econômicas do mundo no futuro. Reunindo 38 pensadores, a Mont Pélerin Society traçou um plano para que as universidades, futuros governantes e os diversos órgãos da sociedade civil pudessem receber os ideais neoliberais. Dentre as práticas impostas tem-se a defesa de um mercado regulador das ações, a privatização e a terceirização.

economia, deixando que o próprio mercado, com sua racionalidade própria, operasse a desregulação (CHAUÍ, 2011, p. 311).

Assim, diversos órgãos começaram a impor as práticas neoliberalizantes para os países que estavam com dificuldades financeiras. Daí tem-se como ponto maior da estratégia neoliberal o Consenso de Washington (1989) 19 que articulou, na capital norte-americana, um plano de recomendações neoliberais para os países da América Latina. A partir disso, surgem dois órgãos que irão ter atuação de destaque no cotidiano dos países ditos de Terceiro Mundo, o FMI20 e o Banco Mundial21. Com isso, observamos o esforço estratégico neoliberal para influenciar as diversas nações através de órgãos com poder plural em busca da superação da proposta social democrata e num ataque a ordem socialista.

Dentre as críticas que fazemos ao modelo defensor do ―Estado mínimo‖, temos a de que é notório que as políticas impostas pelo neoliberalismo aumentaram a desigualdade na sociedade atual, porém o mercado trata de normalizar as situações caso as questões econômicas o favoreça. Assim, por mais que a participação na democracia representativa seja reafirmada após uma eleição ou pelo seguimento de uma ordem constitucional, as democracias têm se fragilizado na ordem atual do mundo. Estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (2018) no quadro abaixo confirma o nível de desigualdade no mundo a partir da renda familiar:

A figura 1, organizada pela OCDE, traz estimativas baseadas na persistência dos ganhos entre pais e filhos. Observemos que o Brasil aparece empatado com a África do Sul no segundo lugar do ranking, como um dos piores países para que aconteça uma mobilidade social. Com efeito, precisaríamos de noves gerações para que a camada pobre obtenha uma renda adequada.

19 O Consenso de Washington (1989) reafirmou ideais neoliberais baseados no Estado Mínimo e na afirmação do

mercado como meio insuperável para o crescimento da sociedade. Na reunião inicial reuniu sete potências capitalistas que defendiam soluções de ajuste fiscal, junto com reformas e desregulamentação nas atividades estatais, além disso, propôs uma abertura para o mercado privado.

20 O FMI foi criado durante a Conferência de Bretton Woods com objetivo de empréstimo de dinheiro em troca

do cumprimento de uma rígida política econômica pelos países.

21 O Banco Mundial foi criado durante a Conferência de Bretton Woods e atua no financiamento de projetos

Figura 1 - No Brasil, podem ser necessárias nove gerações para que os descendentes de uma família de baixa renda atinjam a renda média (Número esperado de gerações).

Fonte: Disponível em: http://dx.doi.org/10.1787/888933761910

Como adotamos no decorrer dessa pesquisa uma defesa pelo método de Marx temos que compreender que causa e consequência de algum período histórico atuam de maneira unificada. A partir disso, defendemos que o modelo econômico é responsável pelas questões sociais mais afligentes da sociedade e vários grupos atuam no mercado internacional para que tais medidas sejam acionadas.

Vale destacar que um elemento que solidifica as críticas à democracia neoliberal e afasta a população algumas vezes da classe política que a defende é a flagrante falha dos ajustes propostos pelos organismos internacionais. O que se percebe é a existência de desajustes que não resolvem os problemas sociais, inclusive combinando com o aumento da desigualdade social. É aí que a democracia liberal não se mostra para toda a população, mas sim para grupos privilegiados. Como migalhas para a camada sofrida iniciamos uma espécie de filantropia com campanhas de ajuda que mais servem de marketing para os donos do capital e atuam na domesticação dos seres para não buscarem revoltas que possam romper a ordem neoliberal da sociedade (BEHRING, 2003).

De maneira não coincidente, a desigualdade estar no topo dos problemas mundiais não determina uma lição imprevisível, pelo contrário, devido o discurso do custo excessivo do trabalho para os empresários, as reformas trabalhistas chegam para retirar os mínimos direitos ainda existentes do trabalhador. Outro elemento são as reformas previdenciárias implantadas com a desculpa de oxigenar a economia em crise e reaver algum déficit, porém pensando na classe trabalhadora será um grande problema por ser uma renda básica perdida para grupos sociais de idade elevada, tendo como principal consequência o aumento da pobreza. Toda essa degradação dos direitos visa cumprir a missão de reduzir os gastos sociais que culmina num

processo de privatização dos serviços, pois o discurso pronto é o de que a ineficiência das atividades estatais deve dar lugar à ordem de excelência privada. Assim, percebemos que ―há uma mercantilização e transformação de políticas sociais em negócios‖ (BEHRING, 2003, p. 64).

Wood (2011) revela que o ideal de trabalho na sociedade é sempre guiado pelas predileções burguesas:

A concepção de ―trabalho‖ como ―melhoramento‖, produtividade e qualidade, que pertencem menos aos trabalhadores que ao capitalista que as aciona, está no centro da ―ideologia burguesa‖ e se reproduz constantemente na linguagem da economia moderna, na qual os ―produtores‖ não são os trabalhadores, mas os capitalistas. Ela denuncia uma ordem econômica em que a produção se subordina a imperativos de mercado e em que o mecanismo motor é a competição e maximização do lucro [...] (p. 172).

O dono da fábrica não vê o proletário como o produtor máximo do sistema capitalista, pelo contrário ele mesmo sente-se como peça maior nessa engrenagem. Assim, as medidas que demarcam a maximização dos ganhos, sempre aparecem entrelaçadas de uma retirada dos direitos da camada mais sofrida no processo de trabalho. Dessa maneira, ―os meios de produção convertem-se imediatamente em meios para a sucção de trabalho alheio. Não é mais o trabalhador que emprega os meios de produção, mas os meios de produção que empregam o trabalhador‖ (MARX, 2017, p. 264).

Como citado anteriormente, no que concerne à reforma previdenciária brasileira, a desculpa que tem grande circulação na mídia é de uma busca de equilíbrio devido o envelhecimento populacional constante nas últimas décadas em algumas regiões do mundo. Porém, estudos consistentes apontam elementos graves como a elevada renúncia fiscal a grandes corporações, a retirada de recursos da Seguridade social por meio da desvinculação de receitas, além de um sistema tributário que é escancarado pela facilidade de sonegação (SALVADOR, 2010).

Percebemos assim que o Estado brasileiro está voltado para uma elite rentista que o utiliza em seu benefício. O déficit propalado que justificaria a dita reforma da seguridade, em muitos casos, não passa de uma artimanha neoliberal ideológica e matemática para justificar medidas que sufocam as políticas públicas fundamentais que atingem a camada que mais necessita (BEHRING, 2003).

Ainda trabalhando num viés crítico a doutrina neoliberal, objetivamos ressaltar a desfaçatez das intenções liberais nas formações democráticas que marcam os países nos dias atuais. Inicialmente, por pressuposto básico para a discussão, ressaltamos que:

A grande burguesia monopolista e a oligarquia financeira, em todas as latitudes, apreenderam minimamente as experiências do desenvolvimento capitalista neste século: nenhum grande burguês (e/ou seus executivos mais responsáveis) tem a menor ilusão acerca do abstencionismo estatal ou do mercado ―livre‖; nenhum deles imagina que a crise é uma invenção marxista; nenhum deles pretende erradicar mecanismos reguladores que contenham qualquer componente democrática de controle do movimento do capital. O que desejam e pretendem não é ―reduzir a intervenção do Estado‖, mas encontrar as condições ótimas (hoje só possíveis com o estreitamento das instituições democráticas) para direcioná-la segundo seus particulares interesses de classe (NETTO, 2012, p. 88).

O que se questiona é se a burguesia comandante do capital no fundo está com seu ideal direcionado de fato para o Estado mínimo, pois a intenção maior, em diversos momentos, é direcionar todos os interesses do capital para o seu próprio desejo. Tais elementos afirmados são perceptíveis em momentos marcantes de crises e escândalos de corrupção que mostram que o apoio estatal é de grande importância para o desenvolvimento de setores da economia.

Além disso, o indivíduo na sociedade neoliberal percebe que as relações trabalhistas viram um objeto que o faz sofrer com a exploração do capital. É a mais-valia ao máximo na exploração que o trabalhador sofre. Sofrer é a palavra no modelo neoliberal, pois os seres competem num mercado que não dá emprego para todos e ainda propaga a ótica do sujeito ―empreendedor‖ para sair da condição que o capitalismo mesmo implanta. A intenção no fim é sempre a mais sórdida, a de explorar ainda mais o suor e o sangue da classe proletária. Nesse sentido, o historiador Losurdo (2004) alertava:

O processo de emancipação que, os últimos dois séculos, conquistou o sufrágio universal [...], contestou o monopólio[...], associou direitos políticos a direitos sociais e econômicos, viu e celebrou a democracia como emancipação das classes, das ―raças‖ e dos povos mantidos em condição de subalternidade – tal processo parece ter sofrido uma grave interrupção. Neste sentido, estamos diante de uma fase de des-emancipação, uma daquelas que caracterizaram o caminho longo e tortuoso da democracia, mas cuja superação por ora não se consegue entrever (p. 333). Assim, o horizonte neoliberal caminha por sombras que demarcam a redução das medidas assistencialistas e o fortalecimento do mercado a diversas atuações. Tais fatos só comprovam que uma democracia plena, ou seja, que contemple as diversas classes da forma mais igualitária possível é irreal nesse modelo. Aliás, fatos recentes comprovam que a feroz intenção natural ou mecanicamente articulada é colocar o jogo democrático em risco na sociedade atual.

Mas a saída para uma democracia pura, isto é, vinculada essencialmente a participação popular passa pela mudança do sistema que comanda a sociedade. Apesar de alguns setores da esquerda compreender que é possível a melhoria do modelo atual através de