Capítulo I. Sobre a democracia
3. Democracia, esfera pública e movimento social
Habermas define a esfera pública como um espaço em que cidadãos se encontram e falam uns com os outros de forma que garanta acesso a todos. Esse diálogo entre cidadãos incorpora uma série de características ideais, tais como: 1) o debate no espaço público deve ser aberto e acessível a todos; 2) as questões em discussão devem ser preocupações comuns; 3) desigualdades de posição são desconsideradas; e 4) os participantes devem decidir como iguais. O resultado de tal espaço público é considerado como um consenso adquirido através do livre debate
66 John Randolph Lucas, op. cit., 1985, pp. 210-211.
67 Dahrendorf considera que, colocando em oposição aos dirigidos pela tradição e aos dirigidos
por outros, o “homem autodirigido” de Riesman é o que reúne um máximo de igualdade de condições com um mínimo de igualdade de caráter e possui as melhores qualidades para o exercício da liberdade nas condições exigidas pela democracia política; Ralf Dahrendorf, op. cit., 1981, pp. 213-237.
sobre a vida em comum. O uso da razão para guiar o debate foi outra das novidades históricas do modelo liberal da esfera pública – através dele, a sociedade como um todo cria um saber sobre si mesma68:
“a esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões. Nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfaixadas em temas específicas69”.
Esse tipo de esferas públicas autônomas e capazes de ressonância, por sua vez, dependem de uma ancoragem social em associações da sociedade civil:
“As associações livres constituem os entrelaçamentos de uma rede de comunicação que surge do entroncamento de espaços públicos autônomos. Tais associações são especializadas na geração e propagação de convicções práticas, ou seja, em descobrir temas de relevância para o conjunto da sociedade, em contribuir com possíveis soluções para os problemas, em interpretar valores, produzir bons fundamentos, desqualificar outros70”.
Desta forma, a sociedade civil compõe-se de movimentos, organizações e associações, os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política. Assim, essas organizações são o sujeito da “opinião pública”: “O núcleo da sociedade civil forma uma espécie de associação que institucionaliza os discursos capazes de solucionar problemas, transformando-os em questões de interesse geral no quadro de esferas públicas71”.
Em outras palavras, elas formam o substrato organizatório do público de pessoas privadas que buscam interpretações públicas para suas experiências e interesses sociais, exercendo influência sobre a formação institucionalizada da opinião e da vontade.
68 Jürgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1984.
69 Jürgen Habermas, op. cit. vol. II, 1997, p. 92.
70 Jürgen Habermas, “Soberania popular como procedimento”, Novos Estudos CEBRAP, no 26,
Março, 1990, pp. 100-113, citação p. 110.
Neste construto teórico, os movimentos sociais são representados enquanto atores da sociedade civil, diferenciados, entretanto, analiticamente, do conjunto da associações peculiares a esta esfera. Eles situam-se um degrau analítico acima das demais associações da sociedade civil; eles apresentam um espectro temático e de conteúdos mais amplos que o destas72.
Ou seja, os movimentos sociais não só devem perceber e identificar as mensagens mas tematizá-las, problematizá-las e dramatizá-las de modo convincente e eficaz, para que sejam assumidas e elaboradas pelo sistema político. Conforme Tocqueville, o grande movimento político que agita sem cessar as legislaturas “não passa de um episódio e de uma espécie de prolongamento desse movimento universal que começa nas fileiras mais baixas do povo e conquista em seguida, pouco a pouco, todas as classes de cidadãos73”.
Esse espaço político na qual os movimentos sociais atuam é, portanto, além da distinção tradicional entre o Estado e a sociedade civil e sua função não é institucionalizar os movimentos nem transformá-los em partidos, mas sim fazer a sociedade escutar suas mensagens e colocá-las em processo de decisão política, enquanto os movimentos mantêm sua autonomia74.
Todavia, convém salientar que há apenas influência “fraca” da esfera pública, o que significa que há um longo caminho a percorrer até o sistema político, ou seja, do acesso e da subseqüente tematização para regulação. Geralmente é preciso envolver-se decididamente em encenações capazes de influenciar a opinião pública, antes que os assuntos, tidos inicialmente como “privados”, possam adquirir o status de temas politicamente reconhecidos. Somente após essa “luta por reconhecimento”, desencadeada publicamente, os interesses questionados podem ser tomados pelas instâncias políticas responsáveis, introduzidos nas agendas parlamentares, discutidos e, eventualmente, elaborados na forma de propostas e decisões impositivas75.
Cohen e Arato insistem, com razão, que a sociedade civil e a esfera pública
72 Sérgio Costa, “Esfera pública, redescoberta da sociedade civil e movimentos sociais no Brasil:
uma abordagem tentative”, Novos Estduos, no 38, Março, 1994, pp. 38-52, citação p. 46. 73 Alexis de Tocqueville, op. Cit., 1998, p. 283.
74 Alberto Melucci, “The symbolic challenge of contemporary movements”, Social Research,
Vol. 52, No 4, 1985, pp. 813-816.
75 Habermas, op. cit., Vol. II, 1997, p. 41; Claus offe identificou o mecanismo de seleção em pelo
menos quatro níveis – estrutura, ideologia, processo e repressão; Claus Offe, Problemas estruturais Estado Capitalista, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, pp. 140-177.
garantem uma margem de ação muito limitada para as formas não institucionalizadas de movimento e de expressão da política, cabendo ao sistema politico a elaboração de projeto, proposta e leis.
O sistema político, por sua vez, deve consolidar a base civil de seu próprio funcionamento racional, abrindo as fontes espontâneas das esferas públicas autônomas e se sensibilizando em relação ao fluxo de temas, contribuições, informações e argumentos, que flutuam livremente numa esfera pública.
Isso significa dizer que a esfera pública representa o nível onde se dá, num acirrado processo seletivo, confronto de opiniões que disputam o recurso escasso da tematização e da conseqüente atenção dos tomadores de decisões. Logo, a esfera pública é tida como a ante-sala do complexo governamental e parlamentar e como a periferia que inclui o centro político. Ela exerce influência sobre o estoque de argumentos, porém sem a intenção de conquistar partes do sistema político76.
Desta forma, há uma íntima relação entre os movimentos sociais e o sistema político. Conforme Tocqueville,
“Portanto, as associações políticas podem ser consideradas como grandes escolas gratuitas, em que todos os cidadãos vão aprender a teoria geral das associações. Ainda que a associação política não servisse diretamente ao progresso da associação civil, seria prejudicá-la destruir a primeira. Quando os cidadãos só podem se associar em certos casos, eles consideram a associação um procedimento raro e singular, e nem pensam em se associar. Quando os deixam associar-se livremente em todas as coisas, acabam vendo, na associação, o meio universal e, por assim dizer, único, que os homens podem utilizar para atingir os diversos fins que se propõem. Cada nova necessidade desperta imediatamente a idéia de se associar. A arte da associação se torna, então, como disse acima, a ciência-mãe77”.
Assim, podemos verificar a inter-dependência entre a democracia direta e a representativa:
“A complementaridade entre representação tradicional (eleição de representantes no Executivo e no Legislativo, principalmente) e formas de participação direta (votação
76 Habermas, op. cit., Vol. II, 1997, p. 186. 77 Alexis de Tocqueville, op. Cit. 2000, p. 143.
em questões de interesse público) configura um sistema que pode ser denominado democracia semidireta. Segundo seus defensores, tal sistema é bem-sucedido quando propicia equilíbrio desejável entre a representação e a soberania popular direta; o Parlamento divide com o povo o poder constituinte (no caso da possibilidade de emendas e referendos constitucionais) e o poder legislativo. As autoridades estão, efetivamente, sujeitas ao controle e ao veredito do povo78”.
Desta forma, compreende-se que, entre democracia direta (entre as várias formas de democracia direta) e democracia representativa, não existe uma divisão nítida, pelo contrário, existe um continuum, no sentido em que se passa de uma para a outra gradativamente e que a esfera pública forma uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o sistema político, de um lado, e os setores privados, de outro lado.
As instituições do Estado de direito devem cultivar e promover um exercício efetivo da autonomia política de cidadãos socialmente autônomos, através da auto- organização política autônoma de uma comunidade, para que o poder comunicativo de uma vontade formada racionalmente possa surgir, encontrar expressão em programas legais, circular em toda a sociedade.
▲▲▲
Para que haja democracia, é necessário que os cidadãos utilizem seus direitos de comunicação e de participação num sentido orientado para o bem comum, ou seja, liberdades políticas ou comunicativas para fins do “uso público da razão”. Isso significa dizer que é necessário que os cidadãos troquem seu papel de sujeitos privados do direito e assumam a perspectiva de participantes em processos de entendimento que versam sobre as regras de sua convivência na sociedade. Nesta medida, a democracia depende de motivos de uma população acostumada à liberdade.
Decerto, a “soberania popular” assim processada não poderá operar também sem a retaguarda de uma cultura política que lhe venha em apoio, sem as maneiras de pensar de uma população habituada à liberdade política e de um espaço público autônomo e independente.
Portanto, tudo isso nos leva a considerar a relação entre a democracia e os
78 Maria Victoria Benevides, A cidadania ativa: referendo, plebiscito e iniciativa popular, São
movimentos sociais como indispensável e maior importância para entendimento das sociedades contemporâneas.
“Em nossa opinião, a combinação das associações, do público e dos direitos, na medida em que for sustentada por uma cultura política onde as iniciativas e os movimentos independentes mantêm uma opção política legítima e suscetível de ser renovada a todo momento, representa um conjunto eficaz de baluartes edificados ao redor da sociedade civil, em cujos limites é possível reformular o programa de uma democracia radical79”.
A democracia, nesta análise, mais do que um projeto necessário é um processo: processo de conquista e consolidação de organizações e práticas democráticas na chamada sociedade política, e processo de ampliação da participação e de autonomia da sociedade civil, criando condições de maior igualdade econômica e política, enfim, processo de criação de uma nova legalidade. A democracia é vista, portanto, como um produto social, como um processo inscrito na condição conflitiva do social e os movimentos sociais como possíveis práticas constitutivas da democracia.