Na teoria contemporânea da democracia, segundo Norberto Bobbio46,
confluem três grandes tradições do pensamento político: 1) a teoria clássica, aristotélica, das três formas de Governo, segundo a qual a democracia, como Governo do povo, de todos os cidadãos, isto é, de todos os que gozam dos direitos de cidadania, se distingue da monarquia, como Governo de um só, e da aristocracia, como Governo de poucos; 2) a teoria medieval, de origem romana, amparada na soberania popular, na base da qual há a contraposição de uma concepção descendente da soberania conforme o poder supremo deriva do povo e se torna representativo ou deriva do príncipe e se transmite por delegação do superior para o inferior; 3) a teoria moderna, cunhada como teoria de Maquiavel, nascida com o Estado moderno na forma das grandes monarquias, segundo a qual as formas históricas de Governo são essencialmente duas: a monarquia e a república, e a antiga democracia nada mais é que uma forma de república (a outra é a aristocracia), que dá origem ao intercâmbio característico do período pré-revolucionário entre ideais democráticos e ideais republicanos e o Governo, fundamentalmente, popular é denominado de república, em vez de democracia. Portanto, é antigo o problema da democracia, suas características, sua relevância. Tão antigo e complexo como a reflexão sobre as coisas da política, alvo de análise e reformulação em todas as épocas.
A democracia constitui um dos conceitos mais básicos e polissêmicos no âmbito da política moderna, é uma das mais importantes e criativas instituições geradas pela inteligência humana, por viabilizar o desenvolvimento de novos e relevantes fenômenos no âmbito da sociedade e do Direito.
O verbete democracia tem origem na Grécia Antiga, há mais de dois milênios,
notadamente, em Atenas, e é assim constituído dêmos – povo + kratía – força,
poder. Porém, democracia como método e institucionalização de gestão da sociedade política e da sociedade civil, com base na firme garantia das liberdades públicas, liberdades sociais e liberdades individuais, com participação ampla das diversas camadas da população, sem restrições decorrentes de sua riqueza e poder
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BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicola & PASQUINO, Gianfrancesco. Dicionário de política. Trad. Carmen C.Varriale et alii. 8ª ed. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 1995, v.I, p.319-320.
pessoais, dotada de mecanismos institucionalizados de inclusão e de participação dos setores sociais destituídos de poder e de riqueza, é fenômeno que ganha força na História a partir da segunda metade do século XIX na Europa Ocidental.
Pode-se afirmar que o fenômeno da democracia se apresenta como uma das maiores construções da civilização, a partir de várias perspectivas: política, social, econômica, cultural e institucional, analisadas em conjunto ou isoladamente.
Via de regra, os manuais de Teoria do Estado definem democracia como regime político, mediante o qual se assegura, em contexto de garantia das liberdades públicas, a participação ampla da população institucionalmente qualificada (cidadãos) na gestão do Estado e de seus organismos, seja pela representação, seja por veículos de participação direta. Nessa medida, a democracia se antepõe às autocracias, que correspondem a regimes ditatoriais de exercício de poder político. Tais definições são insuficientes, pois muito embora a natureza de regime político da democracia seja inegável, ela não se circunscreve apenas a um temário e a uma realidade ligada à sociedade política. Ela vai além disso, ao abranger os vários aspectos da vida social, alcançando, cada vez mais, a seara econômica; nessa medida o conceito ultrapassa sua estrita dimensão política e institucional, o que evidencia a natureza multidimensional do fenômeno
democrático. Consequentemente a participação ampla da população
institucionalmente qualificada, na democracia, não se circunscreve apenas à gestão do Estado e de seus organismos. O conceito contemporâneo de democracia,
segundo Canotilho47, invade a esfera da sociedade civil, a qual de maneira geral, em
alguma extensão, também tem de se subordinar aos ditames democráticos.
A importância da democracia, como construção civilizatória, consiste no grande vértice do constitucionalismo contemporâneo. A partir da plena incorporação da ideia e da dinâmica democráticas, tanto na esfera da sociedade política, como na esfera da sociedade civil, é que o constitucionalismo pôde encontrar a base para alçar a pessoa humana e sua dignidade ao topo das formulações constitucionais; portanto, nesse sentido não se constrói cidadania, nem soberania, sem a dignidade da pessoa humana.
Ressalte-se que em uma sociedade e em um Estado autoritários, torna-se simples simulação imprimir centralidade à relevância da pessoa humana, dignidade
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CANOTILHO, J.J. Gomes, Direito constitucional e teoria da Constituição. 5ªed. Coimbra: Livraria Almedina, 2002.
da pessoa humana, direitos individuais, coletivos e sociais de caráter fundamental; em síntese, dar centralidade a notável matriz do constitucionalismo das últimas décadas do século XX e início do presente século. A noção ampliada do seu conceito e a prática crescente da democracia no que há de mais substantivo conferem vida e dinamismo às mais relevantes constituições do mundo contemporâneo.
O primeiro marco do constitucionalismo, construído em torno do Estado Liberal Primitivo (também denominado de Estado Liberal de Direito), a partir da segunda metade do século XVIII, não possuía elementos que permitissem seu enquadramento dentro do conceito e da realidade da democracia. Tratava-se de sistemática manifestamente excludente, voltada apenas às elites proprietárias da economia e da sociedade, que mantinha na segregação a larga maioria da população dos respectivos países. No entanto, foi esse marco que fixou, com
objetividade e clareza, alguns pressupostos decisivos para o ulterior
desenvolvimento da democracia.
Foi a partir do segundo marco do constitucionalismo (Estado Social de Direito) e, essencialmente, no interior do marco mais recente do constitucionalismo (Estado Democrático de Direito), que a democracia encontrou força e estrutura harmônica à sua real relevância.
A arquitetura institucional da experiência democrática está ainda em construção, por isso mesmo, é preciso considerar a institucionalidade da vivência democrática sob uma perspectiva de multidimensionalidade, a partir de três dimensões, a primeira é relativa ao sistema representativo, a segunda dimensão alcança as instituições participativas e a terceira se expressa no sistema de controles da burocracia. Dispondo cada uma delas de princípios, de conjunto variado de processos e procedimentos, de formas organizacionais e mecanismos operativos específicos que atuam reciprocamente, que informam e são informados pelos demais à medida que, historicamente, avança a experiência democrática.