2. O impacto da TI sobre a empresa e o negócio
3.2. Os principais indicadores do mundo dos negócios
3.2.8. Demonstrativos contábeis - comparabilidade x utilidade
A contabilidade e a análise econômico-financeira das empresas priorizaram, ao longo da maior parte do século XX, a comparabilidade das informações entre as empresas, com o objetivo principal de facilitar a prestação de contas aos credores e investidores. A obsessão pela comparabilidade prejudicou a utilidade dessas informações para o gerenciamento interno das empresas.
O enfoque contábil considera que o valor de alguma coisa está associado tão somente ao seu custo de aquisição e à correção monetária ao longo do tempo. Esta forma de avaliar valor é objetiva, comparável e acessível, mas de validade muito discutível, porque custo e valor podem não apresentar absolutamente nenhuma correlação. A rigor, a única afirmação que se pode fazer relacionando custo a valor, em um mercado competitivo, é que o último deve ser maior do que o primeiro. Caso contrário, não há motivação econômica para que ocorra qualquer tipo de transação, quer entre fornecedor e empresa, quer entre empresa e cliente.38 Percebe-se que objetividade e comparabilidade possuem o seu trade off, normalmente associado à perda de utilidade da informação contida no indicador em questão, devido à deterioração da sua validade (ver o item 3.1).
38 Mercados menos competitivos permitiam a prática indiscriminada do mark up, ou seja, apuração dos custos e, a partir deles, determinação de um preço capaz de proporcionar à empresa a lucratividade pretendida. O aumento da concorrência tem feito com que as empresas atuem de forma inversa: primeiro avaliem quanto o mercado está disposto a pagar por seu produto (o valor para o cliente) e depois traba-lhem sobre sua planilha de custos para adequá-la à situação, viabilizando o negócio. Se o custo superar o valor do produto, o projeto é abortado, porque não vai haver aceitação pelo mercado.
A perda de utilidade é tão mais acentuada, quanto menos tangível for o valor do que se está avaliando. Isto prejudica sobremaneira a utilização dos indicadores contábeis na avaliação de investimentos mais complexos, que afetam mais profundamente a organização, dentre os quais, os investimentos estratégicos em TI.
O fato de as empresas estarem percebendo, mais recentemente, que o conceito de valor está intimamente ligado à sua percepção pelo cliente tem provocado mudanças significativas na forma de se estruturar a contabilidade gerencial, passando-se a dar menos ênfase à comparabilidade e enfatizando-se a utilidade das informações como subsídio para a tomada de decisões gerenciais na empresa.
Em parte, isto se deve à existência de capitais abundantes para financiar os investimentos, neste fim de século, o que faz com que as empresas se preocupem menos com a prestação de contas aos credores e investidores. Mas o fator decisivo para esta mudança de foco da comparabilidade para a utilidade parece estar relacionado às profundas transformações no ambiente competitivo, causadas pela globalização da economia. As empresas precisam de um controle mais rígido dos seus custos e processos internos para fazer frente à acirrada concorrência em escala mundial e, para que a escrituração contábil possa ser utilizada com fins gerenciais, auxiliando neste controle, é preciso que ela passe a expressar, de forma mais eficaz, a verdadeira situação da empresa, permitindo que os executivos se baseiem nela para definir suas ações.
A tendência da contabilidade passar a ter um enfoque mais gerencial melhora a sua utilidade para fins de avaliação interna das empresas. Ainda assim, as medidas contábeis apresentam uma grande limitação: elas se preocupam apenas com o desempenho passado da empresa, desprezando o potencial de lucratividade futura do empreendimento. Greg Berry, gerente de negócios da USM&R, em entrevista à revista ACROSS THE BOARD (1996) afirmou que "a empresa possuía uma infinidade de dados financeiros, que diziam tudo sobre o que tinha acontecido no passado, mas não forneciam a menor pista sobre que botões apertar para criar valor no futuro".
Embora os relatórios contábeis representem uma forma razoavelmente consistente de comu-nicar resultados para o mercado financeiro e para as autoridades, eles deixam a desejar como ferramentas de apoio para os executivos tocarem seus negócios. Dentre suas deficiências, pode-se destacar algumas limitações já identificadas nos outros indicadores financeiros, principalmente a falta de poder de previsão e a inabilidade para capturar o valor de ativos
intangíveis, tais como o capital de conhecimento (ver o item 1.11), e a eficácia da cadeia de valor e dos processos do negócio (ver o item 3.3.2). A própria capacidade de fornecer uma idéia da situação da empresa para o mercado financeiro é relativamente restrita. Basta observar que a maioria das empresas da era da informação cotadas em bolsa vale mais no pregão do que o custo de reposição dos seus ativos, o que aponta para a existência de fontes de valor intangível escondidas39. O mercado parece entender que empresas que baseiam seus negócios em tecnologia e na informação precisam ser avaliadas pelo seu potencial de lucro futuro e não pelos resultados passados discriminados na sua escrituração contábil. Muito do seu valor está embutido nas perspectivas de resultados de pesquisa e desenvolvimento, em sua marca, no know-how da empresa, nas suas redes de experiência, na sua integração com clientes e fornecedores etc. O gerenciamento das idéias da empresa, e outras vantagens intangíveis, passa a ser pelo menos tão importante quanto o gerenciamento do seu capital.
Quando as empresas realizam avaliações puramente financeiras para determinar seus investimentos, esses benefícios não são levados em consideração e não há garantias de que os investimentos estejam alinhados com os objetivos estratégicos de longo prazo da organização.
Os investimentos em tecnologia são realizados freqüentemente com vistas a proteger as opções estratégicas da empresa e dotá-la de flexibilidade para introduzir produtos e serviços com maior rapidez, aumentando os níveis de integração internamente à empresa e com seus clientes e fornecedores.
As contribuições da TI precisam ser avaliadas, portanto, por indicadores capazes de captar o futuro e, mais especificamente, a forma como a TI consegue diminuir riscos e ampliar o potencial de crescimento e a flexibilidade estratégica da empresa, o que definitivamente está fora do alcance dos indicadores contábeis e financeiros. Tais indicadores funcionaram muito bem para empresas típicas da era industrial, mas não são adequados para empresas baseadas no conhecimento, nas quais os processos suportados pela TI podem ser os
39 Segundo HANDY (1995), o valor de mercado das 200 principais empresas cujas ações são negociadas na Bolsa de Valores de Londres é em média três vezes superior ao valor dos seus ativos fixos visíveis. Quando se trata de empresas de alta tecnologia, o valor das ações muitas vezes supera em vinte vezes os ativos do negócio.
principais geradores de valor. Grande parte deste valor não pode ser facilmente quantificada ou medida através dos indicadores tradicionais.