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4 A INFLUÊNCIA DO GRADIENTE HIDROLÓGICO SOBRE A DENSIADADE

4.4 Discussão

4.4.2 Densidade Planctônica

A atividade do fitoplâncton, como todo organismo planctônico, em ambientes aquáticos é controlada por fatores físico-químicos (salinidade, temperatura, nutrientes etc.) hidrológicos (tempo de residência, descarga de água, etc.), e biológicos (herbivoria e competição) (SCHERWASS et al., 2010). Em ambientes tropicais, a assembléia fitoplanctônicas pode ser tão informativa para a classificação do estado trófico quanto os indicadores anteriormente mencionados. Nesse estudo, a densidade do fitoplâncton variou de 1425 à 35085 cel/L. Da mesma forma que a clorofila-a, as maiores densidades fitoplanctônicas ocorreram nos pontos 3 e 4, provavelmente devido ao maior teor de nutrientes oriundos do aporte continental, visto que o fosfato, nitrito, nitrato e silicato tiveram suas maiores concentrações nesses pontos. Esses valores e padrão de maior densidade à jusante do rio corroboram com o encontrado no estuário do rio São Francisco-AL (BARBOSA, 2011) e no estuário do rio Curuça-PA (COSTA, 2010). Na baía de Aratu (FORTE-NETO, 2014) foi verificado uma densidade menor do que a encontrada nesse estudo e Borges (2011) também encontrou valores menores de densidade do fitoplâncton na desembocadura do rio Massangana-PE (máximo de 4280 cel/L), mas o padrão de maior densidade nos pontos mais próximos ao desague também ocorreu. De acordo com Riley (1967), nos estuários existe uma tendência do fitoplâncton apresentar uma alta densidade e uma baixa diversidade com poucas espécies dominantes, o que pode explicar a grande densidade encontrada na BTS, especialmente nos pontos mais próximos da saída do Paraguaçu.

Era esperado que os valores de biovolume e densidade do zooplâncton fossem menores nos meses onde ocorreu apenas a presença da massa de Água Tropical (que apresenta um caráter oligotrófico), durante fevereiro e abril, porém esses valores não apresentaram variabilidade temporal significativa. O biovolume do zooplâncton encontrado nesse estudo variou entre 0,2 a 17 ml/m3. Uma amplitude maior foi encontrada na costa de Salvador (CONCEIÇÃO, 2014) com o biovolume variando de 0,01 até 24,5 ml/m3, enquanto que uma menor amplitude dessa variável foi vista no litoral norte de Salvador (SOUSA, 2013), com valores de 0,01 a 6 ml/m3.

A densidade total do zooplâncton foi relativamente alta em quase todas as campanhas, indo de 192 a 8148 org/m³. Resultados semelhantes foram vistos na costa de Salvador (CONCEIÇÃO, 2014), no litoral norte de Salvador (SOUSA, 2013), na baía de Aratu (FORTE-NETO, 2014) e na baía de Suape-PE (PESSOA et al., 2009). Para a região do

Arquipélago de São Pedro e São Paulo (DÍAZ, 2007) e no estuário Guajurá-Miri, no Pará (RAMOS, 2007), os valores de densidade foram maiores, chegando a 131964 org/m³ e 30.273 org/m³, respectivamente. Já na foz do Rio São Francisco a densidade encontrada foi menor, variando entre 21 e 210 org/m³ (NEUMANN-LEITÃO et al., 1999).

As maiores densidades zooplanctônicas foram encontradas nas campanhas 1 e 3, provavelmente devido aos maiores teores de nitrito e nitrato, visto que uma maior disposição de nutrientes no ambiente, devido a um maior aporte fluvial e/ou de efluentes domésticos, provoca um estímulo no aumento da produtividade primária (fitoplâncton) e consequentemente também do zooplâncton. Além disso, o MPS (boa parte de origem orgânica) também tem sido uma fonte importante de alimento para o zooplâncton estuarino (DAY et al., 1989), sendo encontrado os maiores valores de turbidez na campanha 1. Espacialmente, como era o esperado, os maiores valores de densidade foram encontrados nos pontos 3 e 4, seguindo as maiores densidade fitoplanctônicas, causadas pela maior concentração de nutrientes nesses pontos. O padrão sazonal de densidade do zooplâncton na BTS varia muito, de forma que esta falta de padrão é uma característica de muitos estuários tropicais e subtropicais, e são importantes na estruturação da comunidade (BUSKEY, 1993).

A disposição de nutrientes pode controlar a dinâmica dos organismos aquáticos por meio de interações tróficas em cascata, ou seja, alterações no topo da cadeia, como a redução da população de peixes que se alimentam do plâncton, pode causar um aumento na abundância zooplanctônica e consequente redução fitoplanctônica. Essa mudanças indicam efeitos tróficos descendentes (controle top-down), afetando comunidades aquáticas de níveis tróficos menores, ou seja, população de peixes controlando o zooplâncton que regulam o fitoplâncton. No inverso (controle bottom-up) a base da cadeia impacta os níveis tróficos mais elevados, em um controle pelos recursos (nutrientes, luminosidade, etc), por exemplo (FRAGOSO et al., 2009; PETTIGROSSO; POPOVICH, 2009). Na BTS, as modificaçõess nas densidades da comunidade fitoplanctônica coincidem com alterações nos teores da maioria dos nutrientes e é seguida por mudanças nas densidades zooplanctônicas.

A densidade de ovos de peixes apresentou elevada amplitude, com valores entre 0 e 7430 ovos/100m3, sendo compatível com as densidades encontradas em outros estudos realizados no litoral norte da Bahia (MAFALDA JÚNIOR et al., 2004b; MALTEZ, 2010), na baía de Todos os Santos (KATSURAGAWA et al., 2011; MAFALDA JÚNIOR et al., 2008) e na baía de Aratu (FORTE-NETO et al., 2014; MALTEZ et al., 2014). Estes valores foram bastante superiores aqueles verificados na zona oceânica entre Salvador e Aracaju por Silva (1997) que registrou valores muito baixos de densidade, oscilando entre 0 e 36 ovos/100 m3.

A densidade de larvas de peixes também apresentou uma grande amplitude, variando entre 0 e 490 larvas/100m3. No norte da baía de Todos os Santos, Mafalda Júnior et al. (2008) encontraram densidades menores, entre 0 e 57 larvas/100 m3. Estes valores de densidade de larvas de peixes encontrados são semelhantes aos verificados no litoral norte da Bahia, com registros máximos de 400 larvas/100m3 (MALTEZ, 2010) e 300 larvas/100m3 (MAFALDA JÚNIOR et al., 2004).

A densidade de ovos e larvas observadas foi compatível com o verificado em outras zonas costeiras tropicais do nordeste do Brasil, indicando o uso desta área da baía de Todos os Santos como sítio de desova e crescimento (MAFALDA JÚNIOR et al., 2008) para muitas espécies de peixes com importância comercial e ecológica. Devido à importância, tanto ecológica, quanto sócio-econômica, estes ambientes aquáticos despertam grande interesse na sua proteção, conservação e monitoramento (JORDAN; SMITH, 2005).

A análise de Redundância revelou o gradiente sazonal geoquímico, influenciando a densidade planctônica. As estações de amostragem vinculadas as Campanha 1 e 2 (fevereiro e abril de 2013), foram dominadas pela Água Tropical, apresentando os maiores valores de turbidez, clorofila-a, temperatura, salinidade e nitrato, vinculados a menores concentrações de plâncton. Era esperado que, devido a elevada precipitação no mês de abril, a campanha 2 apresentasse massa de água Costeira. Possivelmente, esse aporte pluvial ocorreu nos dias antes da coleta, que aconteceu no final do mês, dia 25/04. As campanhas 3 e 4 (junho e agosto de 2013), apresentaram os valores mais elevados de biovolume de zooplâncton, densidade zooplanctônica, densidade de ovos e larvas de peixes e densidade fitoplanctônica, associados as maiores concentrações de pH, oxigênio dissolvido, nitrito e fósforo. Já as campanhas 5 e 6 (outubro e dezembro de 2013), apresentaram os valores mais elevados de transparência e sílica, bem como valores elevados de densidade fitoplanctônica e densidade de ovos de peixes.

Através da análise do diagrama de ordenação fica evidente que a campanha 4 representa um período de desova na BTS, visto os maiores valores de densidade do fitoplâncton e dos ovos de peixes, e que as campanhas 3 e 6 evidenciam um momento onde ocorre criação dos organismos, uma vez que houve maiores densidades do zooplâncton e das larvas de peixes, além de maiores valores do biovolume do zooplâncton.

As baixas densidades do plâncton nas campanhas 1 e 2 podem ser consequência de uma elevada carga de material em suspensão (JONGE, 1983; NEUMANN et al., 1998; SILVA et al., 2004), onde a elevada carga de nitrato poderia favorecer o aumento da densidade fitoplanctônica, mas a turbidez limita a produção primária (KOENING et al., 2002;

SILVA et al., 2004). Ramos (2007) também verificou que uma maior densidade zooplanctônica estava associada a menores valores de turbidez e salinidade.

Os maiores valores de biovolume do zooplâncton e da densidade de zooplâncton e larvas de peixes estão associados aos menores valores das variáveis hidrológicas e dos nutrientes, exceto o nitrito, reforçando o caráter oligotrófico intenso da massa de água Tropical. Esta massa de água esteve presente em todas as campanhas do estudo, sendo tal comportamento já observado na costa nordeste brasileira por Neumann-Leitão (1999) onde os menores valores de densidade corresponderam às águas oligotróficas presentes na região.

Em águas estuarinas tropicais, a maior concentração de clorofila-a pode acontecer no período chuvoso (SANTIAGO et al., 2005;BASTOS et al., 2011), como foi na campanha 2, ou em meses mais quentes (COSTA et al., 2009; CLOERN; JASSBY, 2008; GAMEIRO et al., 2011), como observado na campanha 1. Nesse estudo, como já foi constatado na baía de Aratu (FERREIRA et al., 2012; FORTE-NETO et al., 2014; MALTEZ et al., 2014), houve um aumento da densidade do fitoplâncton estimulado pela elevada concentração de fósforo. Os resultados deste estudo demonstram haver uma variabilidade temporal na densidade do fitoplâncton na BTS, em resposta às mudanças meteorológicas, oceanográficas e nutricionais.

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