PLANO BÁSICO DE TRABALHO PARA
2. Depósito 2: a adaptação de um galpão pré-existente
A reforma do Depósito 2 (n.º 12 na planta) que abrigaria o acervo de filmes em suporte de acetato de celulose pretendeu uma intervenção mais simples. A reforma deste local visou nivelar e adequar o piso para grandes cargas, reforçar a estrutura do telhado e substituir eventualmente as telhas em pior estado. Logo no início das obras, descobriu- se que passava por baixo do galpão, que seria transformado em depósito, uma série de encanamentos de esgoto vindos das residências vizinhas. O terreno cedido à Cinemateca ocupa quase o quarteirão inteiro e somente uma faixa de sobrados, contígua a este depósito, ocupa o fundo do terreno. Pensando no tempo museológico, a possibilidade de vazamentos e consequentes infiltrações pelo piso era um risco muito concreto e, portanto, não poderiam ser mantidos no trajeto original. Numa tentativa frustrada de solucionar o problema, Rudá de Andrade procurou os proprietários das casas na esperança de que eles providenciassem a mudança destes encanamentos, desviando-os para a rede de esgoto da rua do Otonis, que passava na frente destes sobrados. A maioria das casas, segundo relatou Rudá de Andrade na época, era ocupada por pessoas idosas e/ou sem recursos suficientes para esse tipo de obra e, consequentemente, a Cinemateca precisou resolver a questão com seus próprios recursos. A solução foi captar e desviar os esgotos, construindo um interceptador de esgoto ou “aqueduto” (como se apelidou esta obra na época), que contornou o perímetro do depósito e canalizou as águas para a rede de esgotos que passava por baixo de uma rua interna que atravessava a Área Técnica, no lado oposto do ponto de captação. Essa canalização passou rente a uma das paredes laterais, a que se ligava aos sobrados, e avançou cerca de um metro adentro do depósito. Acompanhando o percurso, foi construído um corredor fechado com a dupla função de proteger o depósito da umidade que pudesse advir de um vazamento e de permitir a inspeção necessária para identificar, com a devida antecedência, algum vazamento e os possíveis problemas de infiltração (veja desenho ilustrativo a seguir).
Este depósito tinha vantagens e desvantagens. A maior vantagem era seu tamanho: aproximadamente 35m de comprimento, por 15m de largura e 5m de pé direito. Estas dimensões representam cerca de 2.600 metros cúbicos, o que é uma massa de ar grande o suficiente para que as condições climáticas externas demorem algum tempo para conseguir alterar significativamente o ambiente interno. Quando os filmes foram alocados nas estantes – o que aconteceu em 1993 – a massa física volumosa que representava o acervo ajudou a criar alguma inércia climática, pois a circulação do ar ficava dificultada pelas estantes repletas de pilhas de filmes. Era uma via de mão dupla, pois, uma vez que as condições climáticas internas estivessem impróprias, também demoraria algum tempo para baixar os níveis de umidade e temperatura internos, quando o clima externo se tornava mais frio e seco. Ainda assim, a inércia climática ajudava para que não houvesse alterações muito bruscas, o que era um fator favorável mesmo com os parâmetros fora dos níveis adequados. Como se sabe, os materiais contraem com o frio e expandem com o calor; assim como ganham volume quando
absorvem umidade e perdem volume quando secam. Este movimento de contração/expansão e aumento/diminuição do volume provoca o stress dos materiais e acelera diversos processos degenerativos. Se lembrarmos que a película cinematográfica é composta por camadas de naturezas diferentes (suporte plástico, emulsão de gelatina e elemento formador de imagem em prata ou corantes), e que cada uma destas camadas reage com índices diferentes de contração/expansão e aumento/diminuição, podem-se compreender defeitos como, por exemplo, o desprendimento da emulsão, entre outros.
Uma das desvantagens deste depósito era o tamanho do telhado, que acumulava grande volume de água da chuva e, por esse motivo, as calhas originais foram substituídas por outras, mais profundas, e os canos para o deságue foram refeitos. Apesar disso, por causa do comprimento deste depósito, a calha central possuía emendas e, com o desgaste natural do tempo, goteiras surgiram nestas emendas. Pela falta de recursos na época da reforma, não houve condições de substituir as telhas originais em amianto (foram substituídas somente as que estavam quebradas) e este telhado apresentava problemas de goteiras em diversos outros pontos. Em alguns períodos, notadamente nos verões muito chuvosos, foi preciso deslocar as pilhas de filmes, ou encapar algumas estantes com plástico-lona, para que não chovesse sobre os materiais. Dentro deste depósito havia um mezanino cuja escada de acesso estava dentro do depósito, e ainda havia três portas que davam passagem para outras áreas de trabalho, duas das quais eram utilizadas diariamente. Portanto, os funcionários destes setores obrigatoriamente passavam por dentro do depósito para acessar seus locais de trabalho e, consequentemente, as duas portas permaneciam abertas o dia todo – o que comprometia a estanquidade do arquivo e acelerava a contaminação do ar interno pelo ar externo.
Os documentos mais antigos que encontramos da monitoração desta área, referem-se ao ano de 1999 e são as planilhas onde se registravam as leituras feitas no termohigrômetro, semelhante ao usado no depósito da Conceição, preenchidas manualmente por funcionários que faziam a leitura de duas a três vezes ao dia: pela manhã, no meio do dia e no final da tarde. Assim como no caso dos depósitos de nitrato, esses gráficos servem de base para demonstrar uma tendência das condições de armazenamento, e não como prova definitiva das condições climáticas do local. A título de exemplo e para facilitar a compreensão, transportamos para os gráficos abaixo as leituras realizadas no meio do dia (por volta das 13:00 horas), durante o mês de março