2 CARACTERÍSTICAS GERAIS DA ÁREA DE ESTUDO (SUPERFÍCIE ) 3.2 O ambiente de encosta 3.2.4 Depósitos de encosta Para BIGARELLA (1985) a erosão passa por três etapas que atuam conjuntamente. Primeiramente, haveria a retirada do material, e em seguida, o transporte e posteriormente a sua deposição. Quanto aos minerais, assim como os fragmentos de rocha, quando transportados por um meio móvel e acumulados, formam-se os depósitos (CAMARGO, 2005). Segundo Bertran e Texier (1999), os processos deposicionais nas encostas estão associados ao escoamento superficial, ravinamento, voçorocamento e movimentos de massa. A análise da origem dos depósitos é de extrema relevância para a elucidação das evidências associadas aos processos formadores do relevo e consequentemente das incisões erosivas. Neste caso, o clima apresenta estreita relação com o desencadeamento de processos morfogenéticos deposicionais e, por isso, constitui elemento primordial para a compreensão da evolução do modelado terrestre durante o Período Quaternário. Neste contexto, os sedimentos depositados durante o Quaternário e seus modelados de acumulação resultantes tornam-se registros dos processos geomórficos que exerceram controle sobre a evolução da paisagem (MOURA et al., 2001). Considerando o ambiente de encosta, para FERREIRA (2009), grande parte das encostas é coberta por vários materiais que podem ser derivados do intemperismo da rocha matriz ou de materiais transportados. Sob perspectiva sedimentológica e/ou de alteração de materiais, as encostas podem constituir-se principalmente dos seguintes materiais: alúvio e colúvio. No caso dos depósitos aluviais, SUGUIO (1973) remete este termo a depósitos fluvial dentrítico (arenoso, argiloso ou cascalhento), de idade bem recente, respectivamente ao Período Quaternário. Segundo GUERRA (2002) os alúvios são detritos ou sedimentos clásticos de qualquer natureza, carregados ou arrancados das margens e das vertentes e levado em suspensão pelas águas e posteriormente depositados pelos rios, ou acumulados em bancos constituindo os chamados depósitos aluvionares. Na maioria das paisagens, os alúvios correspondem a depósitos fluviais dentríticos formados durante o Período Quaternário (SUGUIO, 1999). Já o termo colúvio possui diferentes conotações segundo cada autor. Para THOMAS (1994), o termo colúvio pode se referir tanto ao material quanto ao processo de formação para ele os colúvios recobrem mais da metade das superfícies úmidas, sub-úmidas e secas dos trópicos, estando localizados preferencialmente na média e baixa encosta. SILVA & CORRÊA (2009) optaram por utilizar o conceito para qualquer depósito sedimentar que se acumule ao longo de uma encosta em conseqüência do transporte gravitacional, a despeito do conteúdo original de água nesses materiais. BIGARELLA et al., (2003) cita a definição de PLAISANCE & CAILLEUX (1958), na qual o colúvio seria constituído por materiais transportados pelo escoamento superficial ao longo da vertente até o seu sopé e destacam que em seu sentido descritivo corresponderia aos materiais que descem a encosta. A designação colúvio se refere ao material que sofreu deslocamento na vertente, isto é, aquele resultante da movimentação do elúvio. Nesse contexto, o colúvio, apresenta espessura que varia de acordo com o grau de declividade da encosta, entrando em contato com os depósitos aluviais no fundo dos vales, recebendo então a denominação colúvio-aluvial. FAIRBRIGDE (1968) explica que o colúvio é uma parte do regolito, ou seja, do manto superficial inconsolidado de fragmentos de rochas e solos na superfície terrestre. Neste contexto, consistem de materiais heterogêneos de partículas de qualquer tamanho acumuladas nas partes deprimidas ou na base das vertentes. O colúvio é transportado por ação da gravidade, por rastejamento em regiões úmidas, por erosão superficial em lençol e fluxos de lama em áreas semi-áridas, entre outros meios. Os depósitos coluviais tem sido utilizados como fonte de dados para a interpretação e reconstrução da história geomórfica das paisagens. De acordo com SILVA & CORRÊA (2009) esses depósitos evidenciam eventos que ocorreram no passado que pode ser reconhecida pelo desenvolvimento de horizontes incipientes, estratificação ocasional do depósito ou sobrevivência de estruturas sedimentares, separação de depósitos por lentes de materiais de outras regiões e incorporação de materiais datáveis. No que se refere à formação dos depósitos coluviais, alguns autores ressaltam a associação dos processos de formação desse tipo às condições climáticas atuantes (FAIRBRIGDE, 1968) ou a mudanças climáticas (THOMAS, 1994; BIGARELLA, 2003). Para THOMAS (1994) os sedimentos coluviais geralmente resultam de rápida mudança climática ou acumularam em condições de clima seco ou úmido do passado. No entanto, eles também podem resultar de eventos de alta magnitude com o sistema climático contemporâneo em intervalo de tempo pequeno. Na literatura geomorfológica há vários termos associados as morfologias resultantes dos depósitos de colúvios. No Brasil o termo usado é rampa de colúvio empregado por BIGARRELLA e MOUSINHO (1965) para descrever formas suavemente inclinadas de fundo de vale constituídas de acumulações detríticas provenientes de vertentes que se interdigitam ou recobrem depósitos aluviais. Posteriormente essas rampas foram denominadas de rampas colúvio-aluvionares. O conceito “rampas de colúvio” ampliou o conceito de rampa de colúvio e colúvio-aluvionar na medida em que reconheceu segmentos erosivos, além das formas deposicionais. Este conceito também foi utilizado por MEIS & MONTEIRO (1979, apud MOURA & SILVA, 2001) para identificar as formas côncavas individualizadas, que resultam do recuo acelerado das encostas, cuja recorrência de processos erosivos, durante o Quaternário, produziu a formação de seqüência de rampas (MOURA & SILVA, 2001). As rampas de colúvio tornaram-se uma unidade morfológica mais ampla, ligada as atividades deposicionais e às atividades erosivas. Desse modo, MEIS & MOURA (1984, apud MOURA & SILVA, 1998) afirmam que os complexos de rampa constituem ambientes formados a partir de sucessivos episódios de coluviação convergentes em direção ao eixo das paleodepressões do relevo, envolvendo retrabalhamento parcial dos colúvios mais antigos e a regularização da topografia. Entretanto, apesar da dinâmica de evolução dos complexos de rampa sugere que a erosão e deposição atuam simultaneamente sobre vários setores da encosta e em taxas e direções variadas. A dinâmica da encosta é o principal mecanismo responsável pela formação de depósitos coluviais. Esse dinamismo é caracterizado por processos de remoção, transporte e deposição gerados principalmente por forças gravitacionais. Esses materiais podem ser transportados por um agente de transporte, especificamente a água, através de escoamento superficial canalizado e não-canalizado (CRUZ, 2006). No Nordeste brasileiro, este tipo de depósito não foi formado sob as condições atuais. Os colúvios parecem estar associados a condições de mudanças climáticas no início do Holoceno, ou em fases anteriores do Pleistoceno. Contudo, é necessário estabelecer quando e como eles se formaram (SILVA & CORRÊA, 2009). Os depósitos em ambientes de encosta revelam que em muitas encostas tem ocorrido sucessão de episódios de erosão e deposição sendo o resultado de períodos de estabilidade e instabilidade relacionados às mudanças climáticas. Nessa perspectiva, os depósitos de encostas são tratados estratigraficamente e interpretados em termos de fenômenos periódicos através dos quais as vertentes passariam por fases alternadas de instabilidade e estabilidade, resultante das mudanças climáticas que gerariam processos de erosão e deposição. No entanto, outras interpretações podem sugerir que esses episódios ocorrem devido às atividades neotectônicas ou até mesmo a variações espaço-temporais na dinâmica das vertentes (THOMAS, 1994; MOURA & SILVA, 2001), como é o caso dos registros estratigráficos encontrados até o momento no Planalto das Araucárias (PAISANI, et al., 2012; GUERRA & PAISANI, 2012). A compreensão dos depósitos de encosta em regiões tropicais úmidas é de difícil reconhecimento, pois os processos de intemperismo e pedogênese avançada acabam por destruir possíveis feições características. Diante disso, alguns processos possuem características específicas que podem resultar em feições diferenciadas. Normalmente, os materiais transportados em condições de escoamento superficial geralmente apresentam-se selecionados e, às vezes, estratificados, enquanto os materiais transportados por movimento de massa não são selecionados, não possuindo grande diferenciação entre os diversos tipos de movimento além da velocidade relativa do fenômeno (THOMAS, 1994). Os conceitos de alúvio e colúvio são importantes neste trabalho para a definição das unidades estratigráficas encontradas na seção estudada. Levando em consideração o exposto acima, os depósitos aluviais seriam formados por rios ou por corpos de água corrente, neste caso se relacionam com as paleovoçorocas. Segundo GUERRA (2003) tais depósitos são identificados, geralmente, pela ordenação granulométrica de sua sedimentação (formação de estratificação). Já os depósitos coluviais são formados pela ação da gravidade ou por movimento de massa relacionado à instabilidade ambiental das encostas, promovido por alteração climática ou mudança do nível de base. No entanto, tais materiais apresentam pouca ou nenhuma estratificação (SELBY, 1994; CASSET, 2005). Segundo SELBY (1994), a estratificação incipiente verificada em alguns colúvios seria diagnóstico da transição para alúvio. No documento UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS CCH PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA NÍVEL MESTRADO ANDRESSA FACHIN (páginas 45-49)