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8. A “POBREZA E O PBF” COMO PRÁTICAS DISCURSIVAS

8.4 A dependência do PBF e o medo a perdê-lo

Esta categoria vai estar composta por citações que se relacionam tanto com alto grau de dependência que algumas famílias têm do benefício do PBF como ao sentimento de medo de perder esta renda. Especificamente, o estado de dependência vai se observar mais fortemente nas mulheres que não têm outra renda fixa. Seus relatos vão estar carregados emocionalmente e ser referidos à própria situação, mostrando um posicionamento com “modalidade subjetiva” (FAIRCLOUGH, 2001a, p. 200). O fato de ser uma renda fixa e previsível vai dar certa segurança a estas famílias, sendo o beneficio fundamental para “se virar no dia a dia”. A alta dependência de estas transferências de renda já foi observada em outras pesquisas empíricas (CAMARDELO, 2009). Duas citações para exemplificar:

Je: Bolsa Família ajuda muito, não é? Para quem não tem uma renda fixa, ela é a única no caso da gente, a gente se vira com isso no dia a dia, para adquirir algum dinheiro, fora mais, não é? Mas no momento ela está sendo a única.

El: É, só depende dela, porque não somos assalariados, agricultor não tem nenhum assalariado, depende mais da Bolsa Família, o que paga para vestir os filhos, na alimentação também, é a Bolsa Família. A Bolsa Família é o negocio muito bom sabe?

No caso das outras entrevistadas, o sentimento de dependência é menor ou inexistente, mostrando um relato “distanciado” com “modalidade objetiva” (FAIRCLOUGH, 2001a p. 186), descrevendo uma realidade que não lhes afeta diretamente, como problema um “externo”. Por exemplo, as mulheres comentam: “têm famílias que dependem muito dele” ou “têm mães sozinhas que não têm marido que dependem totalmente do Bolsa Família”. As mulheres, percebendo em seu entorno muitas famílias que dependem do benefício, vão utilizar estes casos

para sustentar argumentos a favor da existência de uma dependência generalizada do PBF. Nas falas se cita um caso paradigmático, o da mulher-mãe sozinha abandonada pelo marido, que deve criar seus filhos e só depende do PBF. Um exemplo:

Ju: Muitas famílias, às vezes, muitas mulheres são separadas, têm filhos, mas os pais não o sustentam, ai sabe que têm esse dinheirinho ai para botar o alimento dentro de casa, não é? Sustentar, porque no colégio, a maioria da gente assim, sempre tem, não falta, mas é um complemento, é uma coisa para a criança. Não, aqui é um complemento, para chegar em casa e dar o complemento todo o mês, mas, sei lá, o que eu queria é que muitos entendessem que se é uma coisa que as mães têm, que é uma verba que serve muito, que muitas mães as vezes não têm um esposo, não têm quem ajude, para todo adquirir é com aquele dinheiro, pouco mais serve.

A maior dependência do PBF provavelmente vai aumentar o medo de perder o beneficio. Este sentimento observado em todas as participantes da pesquisa. Muitos sentimentos se associam à possibilidade de perder esta renda, como “medo”, “incerteza”, “insegurança”, “agonia” ou “pavor”. A ameaça de perder o benefício é outro fator externo incontrolável que vai se juntar às outras incertezas próprias da condição de pobreza. Desta forma, as entrevistadas expressam: “não sei como será o próximo mês”, já que só se pode pensar no “hoje”, pois amanhã “ninguém sabe”. Esta insegurança vai atentar contra as possibilidades de fazer um planejamento de gastos a futuro e adquirir dívidas para o melhoramento das condições materiais de vida. As mulheres vão afirmar que faria muita falta esta renda e as ameaças de corte do benefício reavivam o medo ao “fantasma da fome”.

A percepção de um ambiente generalizado de insegurança se sustenta nas observações de situações na própria família, comunidade, ou casos que chegam aos ouvidos das mulheres, em que o benefício tem sido perdido ou drasticamente reduzido. A partir de suas próprias vivências e destes casos, as mulheres vão perceber um estado de ameaça generalizado e imprevisível, que pode atingir a qualquer um em qualquer momento. Dois exemplos:

Cr: Sempre no dia 24 estou indo lá, não é? A buscar (...) a arriscar, não é? Se está lá ou não, não é? (risos).

P: (risos) Rezar que esteja, não é?

Cr: É, graças a Deus quando chega lá (...).

P: Tu estás com muito medo de perder? Tu sentes medo, estas com medo? Cr: Eu sinto medo de perder, eu sinto, porque eu tenho muito filho, porque cada coisa que eu compro é com o dinheirinho deles, não é? El: É difícil, às vezes eu chego na rua mesmo, ai vejo as mulher conversando, “não tenho nada”, pedindo a Deus o dia chegar para receber a Bolsa Família, é todo isso, se cortar não é uma tristeza? Vai fazer o que? Vai ter as crianças morrendo de fome? Ou chegar o dia que não vai para o colégio porque não tem?

Subjetivação da incerteza > medo, ansiedade, insegurança, incerteza, dia a dia, não planejamento > comida filhos (dinheirinho deles)

Exclusão do self empre > valor promovido, até aceitado de certa forma adaptada as condições próprias (luta), mais impossível de conseguir? > PBF recria a insegurança

(recadastramento – perder o

beneficio) > sociedade da insegurança- risco

O medo a perder o benefício se relaciona com a falta de controlabilidade sobre a própria vida. Com frases como “não está em nossas mãos”, “não posso fazer nada” ou “a gente vai fazer o que?”, as mulheres vão deixar clara esta situação, que está nas mãos do Estado. Os pedidos, orações e incluso o “pagamento do favor” a igreja por manter o benefício são retratos da influencia de outros fatores externos na vida das mulheres. Dois exemplos:

Cr: (...) Ai teve uma noticia que cortaram, e eu vou fazer o que se cortaram? Ah? Eu não posso fazer nada, a gente viu pela televisão aquele desespero, mas não adianta a pessoa se desesperar (...) o dia que chegar o tempo de cortar a gente vai fazer o que? Nada, não é?

P: Ai quando eu lhe falo a palavra e, e, (...) não perdão, falando assim um pouquinho do Bolsa Família agora, que você me falava que, que você me falava um pouquinho que estava com medo de perder, não é?

Am: Foi meu filho, eu recebi em nome de Jesus, em nome de Jesus eu orei tanto, meu (inaudível) que eu preciso, não é? Eu pago na mão dele todo o mês, com o Bolsa Família eu pago, eu pago, (...) eu recebo 147, eu pago 22 reais.

A alta dependência e o medo de perder a renda do PBF são dois aspectos que representam a tensão paradoxal na situação de pobreza dos binários autonomia/dependência e certeza/incerteza. Por uma parte, o beneficio é a única renda fixa para muitas famílias, o que marca uma alta dependência dela para a consecução de certo grau de previsibilidade do futuro. Mas, ter o benefício do PBF está determinado por fatores externos, o que traz um alto grau de incerteza para as mulheres, já que em qualquer momento esta renda pode ser perdida.

A grande dependência do PBF, a falta de controlabilidade sobre a própria vida e a imprevisibilidade do futuro, são elementos que estão “na contra mão” das prescrições da ideologia do “self empreendedor” (ROSE, 1998) e sua norma da autonomia. Os elementos dependência e incerteza que o PBF também traz junto a ajuda que dá as famílias, vão corroendo a possibilidade de viver uma “vida como luta” dependente do individuo, já que o controle não lhe pertence, configurando-se como “self empreendedor fragilizado”. Assim, o PBF também contribui a configurar a situação de “inclusão social fragilizada”, recriando certas condições de insegurança próprias da situação de exclusão social. Este fato pode relacionar-se às reflexões de Castel (2005, p. 9) quem afirma que:

As sociedades modernas são construídas sobre o terreno da insegurança, porque são sociedades de indivíduos que não encontram, nem em si mesmos, nem em seu entorno imediato, a capacidade de assegurar sua proteção. Se é verdade que estas sociedades estão ligadas à promoção do individuo, elas também promovem sua vulnerabilidade, ao mesmo tempo que o valorizam.

Podemos relacionar este fato aos paradoxos observados na forma de vida das “mulheres batalhadoras rurais”, as quais, apesar de incorporar os valores da sociedade neoliberal através da “vida como luta”, não conseguem, nem por si mesmas nem com o apoio “mínimo” do Estado através do PBF, fugir de uma vida marcada pela influencia de uma série de fatores externos que geram insegurança, instabilidade e imprevisibilidade. Uma versão de self empreendedor “vulnerável” é criada pela incorporação nas classes populares da “ideologia do mérito” (SOUZA, 2009), grupos que não conseguem atingir o ideal da autonomia e responsabilização por suas próprias vidas.

Isto é explicado por Castel (2005, p. 17) afirmando que “a insegurança é consubstancial a uma sociedade de indivíduos”, sociedades que geram um processo de “frustração securitária”, em que as políticas de proteção social aplicadas pelos “Estados mínimos” (CASTEL, 2005, p. 19) jamais podem ser plenamente cumpridas, já que sua eficácia em controlar os riscos sociais é relativa, e porque sua própria ação pode fazer estes ricos emergir novamente. Os Estados mínimos entregam uma assistência focalizada às famílias tentando incrementar seu capital humano e monetário para competir no mercado, mas “os pobres” se encontraram numa situação de constante risco de voltar facilmente ao mundo dos “excluídos”. A situação de pobreza se caracteriza por fragilidade, falta de estabilidade e dependência de fatores externos. Também estará definida pela restrição das possibilidades de escolha e autonomia, situação paradoxal e frustrante na sociedade neoliberal, que estimula a responsabilização do sujeito por seu próprio projeto individual e familiar.

8.5 Condicionalidades e atividades complementares do PBF: Os deveres da “mulher-