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DEPOIMENTOS

No documento Livros Grátis (páginas 152-156)

ENCONTRO COM O ARQUITETO DATA: 20 DE MAIO DE 2004

DURAÇÃO: 3 H (APROXIMADAMENTE) LOCAL: HOTEL UNIQUE

Desta vez nos encontramos no Hotel Unique. Ruy Ohtake demonstra seu entusiasmo com a nova obra e faz questão de mostrar o edifício e explicá-lo em detalhes.

Primeiro a escolha da forma que se impôs no entorno apesar de respeitar o gabarito da região. O grande recuo frontal e a clareza da forma colaboram para este caráter de referencial. A escolha dos materiais foi feita pela intenção de demonstrar que o concreto pode ser utilizado com outros materiais de alta-tecnologia, como o cobre, usado na fachada frontal. Há um ponto onde os 3 materiais utilizados na composição externa convergem e se encontram, no encontro do semi-círculo, com as empenas de concreto.

Nesse ponto há o encontro da madeira, que faz o acabamento inferior do semi-círculo, do concreto e do cobre, em apenas 3 cm. Este detalhamento lhe custou algumas semanas até que fosse solucionado. Confessa ter um rigor, um preciosismo nestas questões, por acreditá-las fundamentais para a composição formal final. O jardim seco, assim como o interior, foram executados por outros profissionais, mas sempre orientado pelo arquiteto.

A experiência dessa vez foi feita nas paredes curvas do térreo, que atravessam a pele de vidro, como um elemento integrador com o externo. É o elemento gestual, que se contrapõe à rigidez formal do semi-círculo. Estes elementos são de concreto, pretos, mas aqui o concreto não foi pintado e sim pigmentado. Outro detalhe bastante interessante é a entrada de luz natural do átrium, realizada através de um espelho d’água no interior do restaurante, situado na cobertura. O resultado é que conforme a luminosidade do dia a combinação da luz com a água provoca reflexos que se movimentam nas paredes escuras do átrium, além de ser o único elemento responsável pela luz natural que atravessa todos os andares. A porta de entrada, com 9 m de altura e executada com material utilizado nas latarias de carro, foi colocada na lateral, um fator que também foi muito pensado pelo arquiteto que dizia acreditar que a porta deveria estar sempre visível na frente, mas esta decisão também comprometeria sua opção formal.Infelizmente não conseguimos visitar nenhum apartamento,principalmente as suítes das pontas, onde Ruy Ohtake primou em fazer com que a forma externa “conversasse” com o interior. Nos corredores internos dos apartamentos ele optou por formas sinuosas que rompessem

com o corredor linear habitual. Aqui os focos de luz natural são feitos pelos grandes círculos da fachada que trazem também a paisagem da cidade. Este passeio pelo Hotel Unique confirma o domínio do arquiteto em todas as decisões de suas obras.

Sobre as casas projetadas nos anos iniciais, diz se lembrar dos detalhes até hoje, como as dimensões de seus elementos, por ser um trabalho visceral e baseado em um conceito claro. Entre os seus preferidos estão a casa de Tomie, pela grande possibilidade de experimentação, a de Chyio Hama e de Rosa Okubo, que pela ausência de uma paisagem interessante se fecham para dentro, e a de José Egreja. A residência Nadir Zacarias também se insere entre estas. Os prismas são executados nos terrenos que oferecem uma paisagem para ser vista. A fundamentação desses seus projetos era total em Le Corbusier. Diz que até hoje costuma “conversar” com as plantas de Corbusier e, quando esteve em Paris, pouco depois da morte do arquiteto, tentou visitar seu escritório.

Negado o acesso pela “concierge” aproveitou uma oportunidade para dar uma espiada, escondido, no atelier do arquiteto. Frank Lloyd Wright naquela época era a imagem do imperialismo americano, portanto não era muito estudado. Hoje admira muito os trabalhos de Wright. Quanto à comparação de seus trabalhos com Mies van der Rohe declara não gostar do termo “mínimo”, propagado pelo arquiteto em sua frase “less is more”, pois lhe parece estar ligado ao sentido “quantitativo”. Para Ohtake o importante é a arquitetura

“essencial”.

Entre os arquitetos que admira atualmente estão Frank Gehry e Tadao Ando.

Gosta muito da relação alcançada pelo Gugenhein de Bilbao, instalado em uma área degradada e que reverteu a situação econômica da cidade através da arquitetura (gosta de citar este exemplo em suas palestras). Gosta muito de um arquiteto que japonês anterior a Kenzo Tange, que trabalhou com Le Corbusier (Sakakura ou Mayekawa?).

Em relação à arquitetura japonesa gosta muito de sua flexibilidade e de seu aspecto “clean”. Foram os inventores do “armário embutido”, tornando o espaço interno livre para outras funções que não armazenar objetos.

Concorda com a inclusão da luz como elemento importante para seus projetos.

Quanto ao mobiliário fixo, muito utilizado em suas residências, diz serem “pretextos” para orientar o uso das paredes de concreto.

Alguns destes assuntos surgiram baseados em comentários do arquiteto a partir da leitura deste trabalho, e outros ainda por questões suscitadas pela autora para esclarecer algumas informações. Sua relação com o arquiteto Carlos Millan foi uma delas.

Ruy Ohtake afirma ser outro arquiteto que procurava para aprimorar seus conhecimentos em arquitetura, costumava visitar seu escritório e observar seu método de trabalho. Conta que certa vez foi convidado pelo arquiteto a acompanhá-lo em uma reunião com clientes para quem o arquiteto estava desenvolvendo a proposta de uma residência e se lembra da atitude espantada com que estas pessoas receberam a idéia de fazer o piso interno de cimento. Os clientes tinham sua origem no interior de São Paulo e disseram que no sítio as casas eram assim, com os pisos ainda pintados de vermelho.

Arquitetura paulista ou carioca – o arquiteto acredita que esta discussão retrata um regionalismo nacional, sem a menor importância em um contexto internacional. A arquitetura brasileira como um “todo” deveria ser priorizada. E o Brasil é barroco, pleno de cores e gestos. Esta regionalização levou o concreto a ser aplicado como “modismo” na década de 70 e 80 e fez com que se esvaziasse o conceito anterior de sua utilização.

Novamente é destacada a influência de Artigas, que tinha características “rígidas” e apresentava influências explícitas de Le Corbusier, apesar de seu artigo crítico onde acusava o arquiteto suíço de imperialista. Mais uma vez afirma admirar os “cortes” da arquitetura paulista e os interiores de Niemeyer. Conhecia muito pouco do Brutalismo inglês na época.

Alguns esclarecimentos quanto a sua fase de “professor”: na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, dava aulas nas disciplinas de “Projeto” e na EADE de

“Composição”.

Ao ter lido o trabalho da autora sentiu falta da inclusão da música, quando se reconstrói o contexto cultural da década de 60. Conta que costumavam brincar que era muito mais fácil fazer música do que arquitetura, pois para ser músico bastava um banquinho e um violão.

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