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As primeiras ferramentas

2.2 Deriva Natural, Determinismo estrutural/Fechamento operacional,

Acoplamento estrutural e Autonomia

Não sei se cada um de nós tem um destino, ou se apenas flutuamos sem rumo, numa brisa, mas acho que são as duas coisas, talvez as duas coisas aconteçam ao mesmo tempo.

Forrest Gump de Robert Zemeckis*

O que justifica a suposição de que a órbita da lua provoca as marés, de que o consumidor é a causa do mercado e de que o pesquisador é a causa do comportamento de suas cobaias?

Pois ficou estabelecido que as marés da Terra refreiam a órbita lunar, que o mercado é manipulado pela indústria dos vendedores e que em larga medida os diferentes comportamentos das cobaias determinam os procedimentos do pesquisador.

(Rupert Riedl, 1981, A realidade inventada)

Suponhamos que eu veja uma bola que se move em linha reta em direção a uma outra; imediatamente, concluo que a segunda se porá em movimento. Este é o raciocínio da causa ao efeito; e são dessa natureza todos os raciocínios que fazemos no desenrolar da vida; nele se funda toda a nossa crença na história e dele deriva toda a filosofia.

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* Retirado da dissertação de mestrado em educação da UFBA, O insustentável peso dos genes, 1995, Charbel Niño El-hani

Ora, se um homem fosse criado, como adão, no pleno vigor da sua inteligência, seria capaz de prever o movimento da segunda bola sem nunca ter vivido essa experiência? Respondo: não. Não existe na causa nada que a razão veja e que nos faça concluir qual será o efeito.

(D. Hume, 1739, Tratado da natureza humana)*

Exponho uma forma de entender o mundo biológico possuidora de movimento, dinâmico, dançarinos num palco irregular.

Será que você considera a autonomia das coisas?

Se sim, então necessariamente você deve considerar que não pode dar-lhe ordens. Ele é autônomo! Obvio?

Vamos trabalhar a autonomia um pouco então.

O que a unidade admite como uma perturbação depende de sua estrutura nesse momento. E as conseqüências que tem uma perturbação recebida por essa

unidade nessa dinâmica de encontro com seu mundo depende de sua estrutura nesse momento.

O que acabo de dizer está longe de ser trivial.

Estou dizendo que se tomamos uma pedra e a atiramos contra uma vidraça e a vidraça se quebra, o que se passa com a vidraça depende da estrutura da vidraça, não depende da pedra.

Não é o agente perturbante que determina a mudança que a unidade sofre na interação. Olhamos a pedra e dizemos: ―A pedra é a causa‖. Mas se aceitarmos

tratar essa situação de acordo com o determinismo estrutural, temos que aceitar que a transformação da vidraça tem haver com a estrutura da vidraça. (Mpodozis, 1993, O conceito de organismo)

A pedra foi apenas uma perturbação, se o vidro fosse a prova de bala a perturbação seria mínima, e não causaria a quebra do vidro, por exemplo. Se fosse bem fininha ao ponto do primeiro vento que batesse a quebrasse, seria o vento que quebrou? O vento seria a causa? Se sim, você não a considera como uma unidade estruturalmente determinada, ela não possui autonomia, que é o jeito que tem se tratado na biologia, os organismos foram tratados como passivos ao meio que lhe especificam e selecionam informações. E se o vidro fosse minimamente grosso para suportar o vento, como a maioria é feita, então o vento seria uma perturbação mínima.

Esse foi o primeiro problema que eu tive que ficar matutando, pois é realmente difícil reconhecer as diversas autonomias, entender o mundo como nunca na vida me tinha sido solicitado.

Pergunta da audiência: Não consigo aceitar que a pedra não cause a quebra da vidraça.

A situação da pedra e da vidraça partida, é um exemplo da situação causa- efeito. Segundo o que digo, essa maneira de falar é muito enganadora. Ela

implica que a causa tem a propriedade de ―causar‖ o efeito. Toda vez que

falamos assim estamos violando o determinismo estrutural [autonomia]. Se nos

referimos a ―causa‖ e ―efeito‖ apenas em termos de antecedente e

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*Retirado do livro de Ubaldo Nicola de 2007 chamado Parece Mais Não É, o qual li até a metade. Agradeço o meu amigo Japa (Renan) por ter tido a paciência te ter me emprestado por mais de um ano e meio.

conseqüência, em termos de que isso se passará nessa seqüência, sim, isso se passa assim. Freqüentemente, porém, falamos de ―causa‖ como se a causa

tivesse a propriedade de especificar o efeito.

(Mpodozis, 1993, O conceito de organismo)

Por exemplo, se você chegar a uma máquina de lavar, pôr a roupa dentro e gritar – Inicie! Ou Comece a lavar agora! Obviamente ela não vai começar a lavar, você tem que ver no manual ou já conhecer como está especificado pelo sua estrutura, como está estruturalmente determinada para começar a lavar. E se ela possuir um comando, no qual a sua voz inicia a lavagem, o que acho muito provável nessa incrível modernidade atual, é porque já tem especificado em sua estrutura e pode ser então desencadeada, e por mais que você ache que está dando-lhe um comando direto, ela não pode fazer algo que não está especificado em sua estrutura.

Com o telefone a mesma coisa, você não escuta a minha voz propriamente dita se eu estiver conversando com você, você escuta a perturbação que eu causei no sistema telefônico que nos conecta, eu desencadeio falando e perturbando assim o zunido constante que o telefone, um sistema operacionalmente fechado possui.

Com um computador a mesma coisa, você pode escrever o que for no MS- DOS, no Word, dentro de qualquer pasta do Windows, que se você não realizar o exato comando que desencadeia o processo nada acontecerá. Para os que chegaram a mexer no MS-DOS por exemplo, para ver os diretórios do Windows era necessário escrever – cd windows, e para sair de qualquer diretório tinha que se escrever –> cd..

Recordar é viver!

A história das mudanças estruturais de um lado ser vivo é sua ontogenia. Nessa história todo ser vivo começa com uma estrutura inicial, que condiciona o curso de suas interações e delimita as modificações estruturais que estas desencadeiam nele. Ao mesmo tempo, o ser vivo nasce num determinado lugar, num meio que constitui o entorno no qual ele se realiza e em que ele interage, meio esse que também vemos como dotado de uma dinâmica estrutural própria, operacionalmente distinta daquela do ser vivo.

Isso é crucial. Como observadores, distinguimos a unidade que é o ser vivo de

seu pano de fundo, e o caracterizamos com uma determinada organização. Com isso, optamos por distinguir duas estruturas, que serão consideradas operacionalmente independentes entre si – o ser vivo e o meio – e entre as quais ocorre uma congruência estrutural necessária (caso contrário, a unidade desaparece). Nessa congruência estrutural, uma perturbação do meio não

contém em si uma especificação de seus efeitos sobre o ser vivo. Este, por meio de sua estrutura, é que determina quais as mudanças que ocorrerão em resposta. Essa interação não é instrutiva, porque não determina quais serão

seus efeitos. Por isso, usamos a expressão desencadear um efeito, e com ela queremos dizer que as mudanças que resultam da interação entre o ser vivo e o meio são desencadeadas pelo agente perturbador e determinadas pela estrutura

do sistema perturbado. O mesmo vale para o meio ambiente: o ser vivo é uma

fonte de perturbações, e não de instruções.

Quando você ia pedir alguma coisa pros seus pais/avós/familiares, você entendia que dependendo do dia e humor dos seus queridos entes, era mais possível desencadear um presente. Você sabia que não podia causar/dar uma instrução a eles, porém tem muitos “pais” que parecem que sim. O humor, no caso foi para exemplificar a questão importante do momento no qual a perturbação acontece, e como a estrutura dos entes queridos está determinada no momento do:

- Por favor, compra esse jogo para mim? - Não!!!

- Ah vai...

- Já disse que não! - Que saco...

Porém, aposto que se você estivesse em outro contexto, por exemplo no hospital porque um carro acabou de quebrar a sua perna, e dissesse: - Por favor, compra aquele jogo para mim?

- Tudo bem meu filhinho querido...

Com os olhos e ouvidos da imaginação, vamos projetar um móbile, com peças delicadas de vidro penduradas, como folhas em galhos, os quais, por sua vez pendem de outros galhos e assim sucessivamente. Qualquer sopro de vento fará o móbile tilintar e toda a estrutura mudar sua posição, seu ritmo, a torção de seus galhos etc.

É claro que os sons do móbile não são determinados ou orientados pelo vento ou por qualquer leve toque dado por nós. A forma como ele soa está mais ligada aos tipos de configurações estruturais – que ele tiver quando sofrer uma perturbação ou um desequilíbrio. Cada móbile terá timbre e melodia típicos, apropriados à sua constituição.

Em outras palavras, é óbvio neste exemplo que, a fim de compreendermos o

tipo de som que estamos ouvindo, devemos observar a natureza dos címbalos e não o vento que os atinge.

(Varela, 1990, Gaia, uma teoria do conhecimento)

Num sistema dinâmico estruturalmente determinado, já que a estrutura está em contínua mudança, seus domínios estruturais também sofrerão variação, mas a cada momento sempre estarão especificados por sua estrutura presente.

Essa incessante modificação de seus domínios estruturais será um traço próprio da ontogenia de cada unidade dinâmica, seja ela um toca-fitas ou um leopardo. Enquanto uma unidade não entrar numa interação destrutiva com o seu meio, nós, observadores, necessariamente veremos que entre a estrutura do meio e a da unidade há uma compatibilidade.

Enquanto existir essa compatibilidade, meio e unidade atuarão como fontes de perturbações mútuas e desencadearão mutuamente mudanças de estado. A esse processo continuado, demos o nome de acoplamento estrutural. O acoplamento

estrutural é sempre mútuo; o organismo e meio sofrem transformações.

(Maturana e Varela, 1984, A árvore do conhecimento)

Se falarmos que o ambiente é uma causa para alguns processos, então será que com isso o organismo não perde sua autonomia?[seleção natural?] Isto é, se dissermos que a temperatura causa, em vez de desencadear, processos que diferenciam o sexo, então o organismo se torna refém do ambiente.

Nesse contexto eu acho que o determinismo estrutural resolve o problema. Se um organismo é determinado por sua estrutura, então o ambiente não molda de forma aleatória, mas apenas desencadeia mudanças que o organismo lhe permite. (Botelho, 2006, A deriva Natural dos sistemas de desenvolvimento)

No livro Ecossitêmica, Samuel Murgel Branco exemplifica otimamente o problema de tomar o princípio de causa-efeito muito a sério, e aqui faço uma extensão para o eventuais extremismos do raciocínio Neo-darwinista.

O princípio da causalidade, embora tenha - ao longo da história – produzido frutos magníficos, principalmente no campo científico e, mais ainda, nas suas aplicações tecnológicas, parece, entretanto, ter cometido alguns excessos.

São os nossos processos mentais que dão configuração lógica ao universo, fazendo com que vejamos sempre uma finalidade em qualquer processo em desenvolvimento, em conseqüência do raciocínio causalistico a que estamos habituados como decorrência da observação dos fenômenos que se repetem em nosso dia a dia.

[...]Pensemos, agora, em outro exemplo. Uma chuva passageira, no alto de um morro, origina um tênue filete d‘água que ―procura‖ seu trajeto por entre os seixos de uma encosta suave, desenvolvendo lentamente um caminho tortuoso ao longo desta, até atingir um ―determinado‖ ponto de um regato que corre pelo fundo do vale. O conceito grosseiro de finalidade de falei acima, seria derivado de uma identificação indevida deste caso com o anterior. Partindo-se do local atingido pelo filete d‘água, seríamos, por analogia, levados a admitir a existência de uma finalidade naquele percurso que era de atingir exatamente

aquele ponto do regato: e que todas as etapas do trajeto poderia ter causado

uma séria alteração no destino final do filete d‘água, dando a impressão de que todos aqueles acidentes do terreno haviam sido meticulosamente projetados em

seus mínimos detalhes.

O conceito é grosseiro. Mas muitas das concepções finalistas originadas da observação dos fenômenos da natureza como simples fenômenos de causa-efeito, tem essa origem. Quanto mais tortuosos e acidentados os caminhos seguidos por uma espécie animal ou vegetal ao longo de sua história, mais eles se tornam demonstrativos do ―maravilhoso plano seguido pela natureza em seus desígnios

finalistas‖.

Bergson critica o finalismo radical (sustentado por Leibnitz, por exemplo) segundo o qual todas as coisas se realizaram segundo uma espécie de programa previamente traçado, sem oportunidade ao imprevisto, à inovação ou à criação, pois esse ponto de vista também considera o tempo ineficiente, substituindo apenas o impulso do passado, do conceito mecanicista, pela atração do futuro, permanecendo a sucessão como pura aparência e não como realidade. Mas afirma que a doutrina finalista – como necessariamente oposta à mecanicista –

jamais poderá ser totalmente rejeitada. [e sim expandida]

(Branco, 1989, Ecossistêmica, uma abordagem integrada dos problemas do meio ambiente)

Qualquer causa que você localize, com um pouco mais de esforço poderá ver que existem vários fatores ligados, uns possivelmente mais atuantes, e outros menos, como uma teia de aranha.

Tem um único motivo?

Sim, você elege um, mas você pode se esforçar um pouco mais e ver que um espectro mais amplo pode ser interessante, se isso for interessante para você.

Se desejarmos reconhecer alguma forma de determinismo nos fenômenos da natureza, esta tem que ser derivada dos leis probabilísticas. Se o trajeto do filete

d‘água foi determinado pelos acidentes do terreno que se interpuseram à tendência de seguir ―para baixo‖, em função da lei da gravidade, e se esses acidentes surgiram ao acaso (não tendo sido colocados deliberadamente por um ser consciente) o local a ser atingido poderá ser previsto, com razoável precisão,

a partir da análise e ponderação dos inúmeros fatores, embora puramente

acidentais, que intervieram no processo.

Assim como, ao lançarmos um número de vezes uma moeda para o ar, poderemos afirmar, com um grau de confiança tanto maior quanto maior for o número de lançamentos, que ele cairá, metade das vezes, deitada do lado de cara e metade do lado da coroa, também o estudo de fenômenos mais complexos nos leva a um grau de certeza probabilística que se confunde com a pré- determinação ou deliberação.

Do mesmo modo os físicos conseguiriam determinar, com precisão, a posição