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1.1. CLASSIFICAÇÃO DAS DERMATOMICOSES

1.1.2. DERMATOMICOSES COM INVASÃO DO TECIDO VIVO

1.1.2.1. DERMATOMICOSES DA PELE

A infecção da pele caracterizada por lesões circulares vermelhas, causadoras de comichão é designada por “ringworm”. As manifestações clínicas decorrentes das dermatomicoses resultam quer da colonização e da multiplicação dos fungos dermatófitos na camada córnea da pele, quer da consequente reacção do hospedeiro. Os fungos permanecem restritos ao estrato córneo e como resultado da actividade queratinofílica são produzidos metabolitos que provocam inflamação. Simultaneamente, a camada espinhosa torna-se escamosa (Hoog e Guarro, 1995).

Tradicionalmente, a classificação das lesões de “ringworm” depende da localização anatómica das mesmas no corpo humano. A denominação de cada tipo de dermatomicose que afecta a pele é efectuada adicionando-se um nome latino que designa o local do corpo humano afectado à palavra “tinha” (Hoog e Guarro, 1995; Pinheiro, 2007).

• Tinea pedis

Infecção que se localiza nos pés e nos espaços interdigitais dos pés e que é, geralmente, conhecida por “pé-de-atleta”. Existem três quadros clínicos de dermatofitose dos pés: a) eczematóide: caracterizada por vesículas plantares e digitais; b) intertriginosa: afecta as pregas interdigitais, em especial, dos terceiros e quartos espaços, provocando fissuras e maceração, sendo frequente a sua associação com uma infecção bacteriana; e c) crónica: provoca lesões eritemato-descamativas em toda a região plantar, acompanhadas de inflamação discreta ou com ausência de inflamação. O agente etiológico causador mais comum é Trichophyton rubrum (Hoog e Guarro, 1995; Ramos-e-Silva, 1995; Pinheiro, 2007).

• Tinea manum

Pequenas lesões entre os dedos das mãos, podendo estender-se por toda a mão. O agente etiológico causador é, na maior parte das vezes, Trichophyton rubrum (Hoog e Guarro, 1995).

• Tinea corporis

Este tipo de dermatomicose tem localização preferencial nos braços, face, pescoço e tronco, e, em geral, é acompanhada de prurido. Causa lesões eritemato-descamativas, circinadas, isoladas ou confluentes, de crescimento centrífugo, podendo observar-se vesículas ou pústulas em sua borda. Os principais agentes etiológicos causadores são: Microsporum canis,

Trichophyton mentagrophytes, Trichophyton verrucosum, Trichophyton tonsurans e Trichophyton violaceum (Hoog e Guarro, 1995; Ramos-e-Silva, 1995; Pinheiro, 2007).

• Tinea imbricata

Trata-se de uma forma clínica especial de tinea corporis, causada por Trichophyton

concentricum. As lesões caracterizam-se pela formação de círculos concêntricos de

descamação que atingem grandes áreas do corpo. Ocorre principalmente em certas regiões da Polinésia e do Brasil (Hoog e Guarro, 1995; Ramos-e-Silva, 1995; Pinheiro, 2007).

• Tinea cruris ou dermatofitose marginada

Lesões em zonas pilosas rodeando os órgãos genitais, podendo também atingir os próprios órgãos genitais, as virilhas, as nádegas e as coxas. Os agentes etiológicos causadores destas lesões são, principalmente, Epidermophyton floccosum, Trichophyton mentagrophytes e

Trichophyton rubrum (Hoog e Guarro, 1995; Ramos-e-Silva, 1995; Pinheiro, 2007).

• Tinea barbae

As lesões são localizadas na face, na zona com barba, e podem ser superficiais ou profundas. Um dos agentes etiológicos causadores destas lesões é Trichophyton rubrum (Hoog e Guarro, 1995; Pinheiro, 2007).

• Tinea capitis

Lesões na pele do couro cabeludo e nas sobrancelhas. Pode causar alopecia e pelada definitiva. É causada principalmente por Trichophyton verrucosum, Trichophyton gourvilii,

Trichophyton yaoundei, Trichophyton soudanense, Trichophyton tonsurans, Trichophyton violaceum, Microsporum audouinii, Microsporum canis e Microsporum ferrugineum (Hoog e

Guarro, 1995; Ramos-e-Silva, 1995; Pinheiro, 2007).

1.1.2.2. DERMATOMICOSES DAS UNHAS

• Tinea unguium ou Onicomicose

Infecção eminentemente crónica da unha e de todo o tecido envolvente. Ocorre na maior parte das vezes nas unhas dos pés. Expande-se da periferia para o centro, num processo pelo qual a unha pode cair. Pode ocorrer descolamento da unha, hiperqueratose subungueal e destruição parcial ou total da unha. O termo tinea unguium refere-se a onicomicose provocada por fungos dermatófitos, enquanto que o termo onicomicose designa qualquer micose nas unhas. Os dermatófitos reconhecidos como causadores de tinea unguium são, principalmente,

Trichophyton rubrum e Trichophyton mentagrophytes. Alguns fungos não dermatófitos, Candida spp. e Scopulariopsis brevicaulis, são reconhecidos como causadores de

onicomicoses, quer nas unhas das mãos como nas dos pés, com frequente inflamação no tecido em redor (paroniquium) (Hoog e Guarro, 1995; Ramos-e-Silva, 1995; Pinheiro, 2007).

1.1.2.3. DERMATOMICOSES DOS CABELOS E PÊLOS

Segundo Badillet (1991), citado por Martins (1993), é possível distinguir cinco tipos de parasitismo capilar. Esta informação é muito útil para a identificação dos principais grupos de dermatófitos, através do exame directo de cabelos parasitados.

Em alguns casos, quando as hifas intrafoliculares atingem a zona queratogénea, emergem novamente à superfície da haste pilosa, fragmentando-se em artrosporos secundários que envolvem o pêlo e, através do crescimento deste, vão dar origem à formação de uma verdadeira bainha de esporos – parasitismo do tipo endoectotrix :

• Tipo micróide

Caracteriza-se pela existência de filamentos micelianos pouco numerosos no interior do cabelo. À superfície deste existem cadeias de pequenos esporos com cerca de 2 a 3 μm de diâmetro, envolvendo o cabelo. O agente etiológico causador deste tipo de parasitismo é

Trichophyton mentagrophytes (Badillet, 1991 citado por Martins, 1993; Badillet, 1995);

• Tipo megaspórico

Muito semelhante ao anterior, caracteriza-se pela existência de filamentos micelianos pouco numerosos no interior do cabelo. À superfície deste existem cadeias de esporos grandes com cerca de 4 a 6 μm. Os agentes etiológicos causadores deste tipo de parasitismo são

Trichophyton verrucosum, Trichophyton megninii e Trichophyton equinum (Badillet, 1991

citado por Martins, 1993; Badillet, 1995);

• Tipo microspórico

Caracteriza-se por apresentar filamentos micelianos no interior do cabelo muito difíceis de observar. Em redor do cabelo, existem muitos esporos pequenos com 2 μm de diâmetro, muito ligados uns aos outros, organizando-se em mosaico. Os agentes etiológicos causadores deste tipo de parasitismo são Microsporum canis e Microsporum audouinii (Badillet, 1991 citado por Martins, 1993; Badillet, 1995).

Noutros casos, as hifas intrafoliculares não emergem à superfície do pêlo ao atingirem a zona queratogénica. Fragmentam-se em artrosporos até preencher todo o lúmen do cabelo, fragilizando-o a tal ponto, que este se quebra logo acima da sua emergência – parasitismo do tipo endotrix:

• Tipo endotrix

Caracteriza-se pela existência de numerosos filamentos micelianos no interior do cabelo, podendo também existir grandes cadeias de artrosporos de 3 a 4 μm de diâmetro e que

ocupam a totalidade do cabelo. O cabelo fica repleto de escamas, completamente disforme e contorcido. Os agentes etiológicos causadores deste tipo de parasitismo são Trichophyton

tonsurans e Trichophyton violaceum (Badillet, 1991 citado por Martins, 1993; Badillet,

1995);

• Tipo fávico

Caracteriza-se pela existência de muitos filamentos micelianos intrapilares. A acção do KOH liberta bolhas de ar que ficam aprisionadas no interior do cabelo. O agente etiológico causador deste tipo de parasitismo é Trichophyton schoenleinii (Badillet, 1991 citado por Martins, 1993; Badillet, 1995).