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5.2.1 Dermatopatias

Como a maioria das crianças estava em uso de fraldas a dermatopatia mais prevalente foi a dermatite da região das fraldas, seguida pelo estrófulo e os problemas alérgicos cutâneos não especificados. A maior prevalência de dermatite das fraldas também foi citada por Fernandes, Machado e Oliveira (2008).

Por outro lado, um estudo europeu descreve de forma geral as principais dermatopatias da infância e adolescência: dermatite atópica, hemangiomas, genodermatoses, dermatoses infecciosas e genericamente as doenças do adolescente (STALDER, 2007). No

Brasil, as dermatopatias mais prevalentes na infância passíveis de uso de medicamentos são as infecções bacterianas, virais, seguidas das condições alérgicas (LACZUYNSKI; CESTARI, 2011; PIZZOL, 1989; SANTOS et al., 2004).

Observou-se uma dificuldade no entendimento dos responsáveis para caracterizar os problemas dermatológicos como atuais e crônicos, visto que estas variáveis foram relatadas por eles, não condizendo necessariamente com o diagnóstico médico. Em alguns momentos a mesma dermatopatia era descrita como atual e crônica, levantando a hipótese de reagudização de uma doença crônica ou então a dificuldade para avaliá-la como aguda ou crônica.

5.2.2 Uso de produtos dermatológicos

Sem levar em conta a delimitação temporal na prática de automedicação, muitos responsáveis admitiram fazer uso de medicamentos e/ou outras alternativas terapêuticas para condições dermatológicas por meio da automedicação como creme para a região das fraldas, protetores solares, repelentes de insetos e outros produtos como hidratantes.

Quanto aos protetores solares, destaca-se que nenhuma criança abaixo de seis meses fez uso destes produtos. Recentemente o Food and Drug Administration (FDA) classificou as loções de protetores solares como medicamentos isentos de prescrição (MIPs) os quais eram descritos anteriormente como Over the Counter (OTC), registrando nas embalagens que os mesmos não devem ser aplicados em crianças abaixo de seis meses sem a orientação de um médico (FDA, 2011).

Sabe-se que a pele do neonato apresenta alta vascularização, uma relevante hidratação do estrato córneo e uma maior superfície cutânea relativa, o que contribui para aumento na absorção das substâncias aplicadas por via tópica (RAMOS et al, 2009), sendo os protetores solares formalmente contraindicado antes dos 6 meses de idade.

Com relação aos repelentes de insetos, segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC, 2008) o ativo com maior eficácia é conhecido como composto químico: N,N-dietil-3-meta-toluamida (DEET), contraindicado em crianças abaixo dos dois meses de idade em função dos riscos de toxicidade. Da mesma forma, os compostos com óleo de limão e à base de eucalipto não devem ser utilizados abaixo dos três anos de idade. Neste estudo 49,4% (91/184) da amostra fez uso de repelente de insetos sendo que destes, 74,7% por automedicação. Não foi avaliada a composição dos produtos, não sendo possível descrever a segurança e efetividade da aplicação dos mesmos, contudo, ressalta-se a importância desta avaliação.

Observou-se que a exposição das crianças aos produtos dermatológicos por automedicação ocorre de forma diferente (p<0,05) sendo que os prescritores exercem influência decrescente na utilização de cremes para a região das fraldas, protetores solares, repelentes e outros produtos de uso tópico como, por exemplo, os hidratantes, talcos e óleos corporais, respectivamente. No entanto, cabe destacar que mesmo estes últimos produtos não são isentos de riscos.

5.2.3 A automedicação em condições dermatológicas

Os dados apontados neste estudo demostram que a automedicação é uma prática frequente, e quando realizada por meio de medicamentos e/ou outras alternativas terapêuticas administrados por via tópica muitas vezes é ignorada pelos pais e/ou responsáveis.

Inicialmente ao abordar-se a prática da automedicação para condições dermatológicas nos últimos 30 dias apenas 12,5% dos responsáveis responderam que o fizeram. Contudo, ao especificar-se que deveria ser citado qualquer medicamento e/ou alternativa terapêutica utilizada com o objetivo de tratar ou prevenir problemas cutâneos este valor passou para mais da metade da amostra (56,5%). Como anteriormente mencionado, este fato pode repercutir a definição abrangente utilizada no presente estudo para automedicação nas condições dermatológicas. Neste caso, esta forma de abordagem pode interferir nos maiores valores encontrados de prevalência em relação a outros trabalhos (OLIVEIRA et al., 2010; DU; KNOPF, 2009).

A diferença nos valores descritos entre automedicação para condições dermatológicas e o que as pessoas inicialmente reconhecem como automedicação, levanta duas possibilidades plausíveis: a) os medicamentos e alternativas terapêuticas tópicas não são lembrados em primeiro momento como intervenção terapêutica real e; b) muitos produtos não medicamentosos, mesmo que possivelmente danosos não são considerados como terapêuticos, quando utilizados para este fim, sendo também passíveis de eventos adversos.

Como já descrito no estudo de Ramos et al. (2009), a pele da criança apresenta peculiaridades que facilitam a absorção de substâncias e medicamentos aplicados por via tópica, potencializando eventos adversos, muitas vezes desconhecidos da população geral.

A automedicação para condições dermatológicas na faixa etária de zero a dois anos de idade no estudo alemão de Du e Knopf (2009) foi a segunda mais prevalente entre as meninas e a terceira entre os meninos. Contudo, não foi encontrado na presente pesquisa diferenças estatisticamente significativas em relação ao sexo da criança.

Quando avaliado o período recordatório dos últimos 30 dias, foram utilizados medicamentos e outras estratégias terapêuticas destinadas à pele em maior parte pertencentes aos grupos anatômicos da ATC: Dermatológico, Sistema Hormonal, Sistema Nervoso e Sistema Respiratório. O aparecimento de outros grupos anatômicos além do dermatológico deve-se ao fato de serem considerados quando o uso destes medicamentos de uso sistêmico foi motivado para o tratamento de problemas de pele. Isto pode ter contribuído para a relevante prevalência de uso de medicamentos nas condições dermatológicas, uma vez que não se considerou apenas o grupo anatômico dermatológico (D). Neste sentido observa-se a falha da ATC que classifica corretamente os medicamentos de acordo com cinco níveis, mas os motivos de uso dos medicamentos nem sempre estão relacionados ao seu sistema na ATC. O que, por vezes dificulta a interpretação dos dados de outros estudos.

No presente estudo as alternativas terapêuticas mais utilizadas foram os emolientes e protetores, representados pelos cremes de barreiras para as regiões das fraldas, seguido dos antifúngicos.

Dos medicamentos tarjados utilizados por automedicação nas condições dermatológicas ressaltam-se na presente pesquisa o uso dos antifúngicos e corticosteroides tópicos. Estes medicamentos também foram os mais prevalentes em uma revisão sistemática sobre automedicação nas condições dermatológicas (CORRÊA-FISSMER et al., 2013). Para Ylinen et al. (2010) ao avaliarem a automedicação em crianças abaixo de 12 anos na Finlândia observaram que nas crianças de até dois anos de idade, dos medicamentos prescritos, os corticosteroides tópicos ocuparam o terceiro lugar em frequência. Dentre os MIPs utilizados por automedicação os dermatológicos para tratamentos de úlceras e feridas também ocuparam a mesma colocação do anterior (YLINEN et al. , 2010). Por outro lado, no estudo de Du e Knopf (2009) destacou-se principalmente a utilização das preparações para úlceras e feridas, além dos antipruriginosos.

Por fim, observou-se que as crianças que fazem uso de protetores solares são também mais expostas a automedicação dermatológica (p=0,005), este fato pode ser atribuído ao autocuidado, ou seja, os responsáveis que protegem os filhos da exposição solar também aderem a outras medidas de cuidado. Da mesma forma, verificou-se que o uso de outros produtos para a pele como os hidratantes sem delimitação temporal, também estiveram associados à automedicação dermatológica (p=0,004), além de automedicação geral (p=0,001) e não dermatológica (p=0,024).

Não foi objeto deste estudo, mas verifica-se que os estoques domiciliares podem ser responsáveis em alguns casos por aumentar a prevalência de automedicação. Um estudo

que avaliou a presença de medicamentos em estoques domiciliares apontou que 93,5% das famílias entrevistadas apresentavam pelo menos um medicamento em estoque. Dos moradores, 14% eram crianças abaixo de 10 anos, passíveis portanto da prática da automedicação por utilização dos medicamentos do estoque domiciliar (RIBEIRO; HEINECK, 2010).

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