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O desabamento vivido como oportunidade de resgate de si

V. ARREPENDIMENTO: UMA LEITURA DO FILME "A CANÇÃO DOS

2.3. O desabamento vivido como oportunidade de resgate de si

A última parte do filme, que se iniciou com a queda de Karim da pilha de entulhos, dedica-se a apresentar uma transformação vivida pelo personagem em sua maneira de ser e de se relacionar com os outros. A maior característica dessa transformação parece ser a perda de seu controle onipotente e a aceitação da diversidade como elemento constitutivo da vida.

Se a intenção do personagem até aqui foi a de tentar proteger-se dos percalços da vida, agora ele é colocado em uma situação em que irá assistir a vida organizar-se sem a sua participação. Karim torna-se pura vulnerabilidade e não tem como dela defender-se. É como se sua estratégia anteriormente adotada tivesse sido derrotada e se mostrado ineficiente diante das exigências da existência.

O protagonista está fraco física e animicamente, incapacitado para manter sua luta defensiva. Esse estado de fraqueza acaba sendo um presente para ele, uma vez que descobre novas possibilidades de relacionar-se com sua família. O estado de dependência em que se encontra proporciona-lhe a experiência de ser cuidado, encontrando o carinho de seus próximos como veículo de reencontro com o a dimensão do afeto. Todo esse cenário auxilia Karim a descobrir novos valores em sua vida e acessar um sentimento de decepção em relação às escolhas que fizera no passado. Começa a reconhecer sua má conduta e os efeitos prejudiciais que essa trouxe para todos. Consegue nesse estado perceber que é parte de uma linda família e que os projetos que cada um dos seus cultivava eram extremamente válidos.

O desabamento de Karim cria uma abertura na sua consciência, que o faz conceber uma nova forma de viver. Um novo comportamento humilde surge a partir dessa sua

experiência, que o leva a aproximar-se dos demais. A cena final, em que ele está junto às crianças decepcionadas por terem perdido seu cardume de peixes, comprova essa afirmação. Se até então seu comportamento foi sempre o de reprovar o que seus filhos e amigos faziam, e criticar seus sonhos, dessa vez Karim consegue aproximar-se do sofrimento alheio e colocar- se diante dos meninos de uma forma compassiva. Aqui Karim é um homem que conseguiu "des-identificar-se" com os problemas do mundo e porta certa serenidade.

Parece que toda a lição que o filme tenciona ofertar ao protagonista, está em fazê-lo alcançar a serenidade. Essa última consiste em uma posição existencial diante dos eventos da vida, pela qual o ser humano consegue atravessar certas dificuldades sem perder excessivamente estabilidade emocional. O que vemos no começo do filme, é Karim envolvendo-se demasiadamente com suas preocupações e acabando por ser definido por elas, ou seja, não consegue criar um espaço de distanciamento interno entre si e seus problemas, sendo como que tragado por eles. Ao final, o mesmo personagem, que teve a oportunidade de perceber o alto custo para sua vida desse tipo de postura, proclama para as demais crianças que "o mundo é uma mentira", quer dizer, que os problemas que vivemos não têm a importância que costumamos dar para eles e que a vida constantemente está se reconfigurando, não deixando nada permanecer da mesma forma por muito tempo. A transformação que vive ensina-o a poder viver as diversas dificuldades inerentes à vida, sem desespero e sempre em horizonte de transcendência.

É interessante a maneira com que Karim compartilha seus aprendizados com as demais crianças, pois o faz por meio de uma poesia musicada. Aqui ele é capaz de acessar aquilo que Winnicott (1971) denominou de área transicional, o lugar intermediário em que a faceta artística da vida pode ser encontrada pelo homem. Notamos que o protagonista no início do filme, é incapaz de sonhar ou até mesmo de brincar. Isso se confirma pela maneira com que reage ao projeto de seu filho de reabilitar o poço imundo e fazê-lo moradia de peixes. Esse projeto soa como absurdo a Karim, uma vez que ele tem dificuldades para sonhar e ter esperança no imprevisível. Ao final de seu percurso, o personagem consegue tocar a dimensão do sonho, da arte, daquilo que está como que descolado da realidade mesma e que penetra de forma misteriosa a vida humana. Notamos que a experiência transformativa (a qual chamamos de arrependimento) torna-o capaz de viver seu cotidiano e os problemas inerentes a ele, com certo distanciamento saudável, ou seja, com maior liberdade.

Outra descoberta que o protagonista faz consiste em que, a melhor forma de viver é fazê-lo em companhia de quem se ama e em contato íntimo com o outro. Todo esse processo

de transformação o auxilia a conseguir apropriar-se de sua generosidade e vir a expressá-la de forma mais livre.

Há uma simbologia interessante por detrás das aves escolhidas pelo diretor, que revela as qualidades que elas possuem e de que maneira o protagonista pode ser identificado com essas qualidades ao longo do filme. Um de seus comentaristas diz:

Existem muitos temas simbólicos significativos em 'A Canção dos Pardais'. Avestruzes têm sido por muito tempo imagens de importância icônica no Leste da África e no Oriente Médio. Seu tamanho enorme, como as aves de maior tamanho, e sua aparência amedrontadora, têm sem dúvida sido inspiração para imagens míticas de monstros alados e deidades. O tamanho enorme dos ovos de avestruz trazem a conotação de um poder de renovação e renascimento durante a época da primavera e portam seu significado icônico. Ao longo do filme, quando Karim vê avestruzes e seus ovos, parece ser lembrado de algo que transcende as próprias circunstâncias imediatas daquilo que está vivendo. Esses momentos de reflexão ocasionados pela visão dos avestruzes, ocorrem quatro vezes no filme, especialmente quando ele surpreendentemente leva a geladeira de volta para a loja. Em todos os casos, o avestruz parece sugerir o poder tocante e amedrontador da vida, e mais ainda, o poder da morte. Pardais, em contraste, são o oposto extremo no ramo das aves - pequenos e conhecidos por serem individualmente insignificantes. Mas os pardais também refletem os prodígios sempre-presentes e vitalidade da natureza. Após os meninos terem limpado a água do poço, alguns pardais fizeram ali seus ninhos. Quando Karim liberta o pardal de seu quarto no final do filme, isso reflete sua recém adquirida sensibilidade ao pequeno e ao ritmo diário da vida. Se avestruzes sugerem individualidade, pardais sugerem comunidade.95

A última frase citada acima, grifada por nós, parece definir com muita precisão o tipo a transformação que o personagem sofre ao longo da narrativa: Karim, que desde o início do filme procura resolver suas questões por meio de uma estratégia individual - tipo de atitude que faz lembrar as características do avestruz -, termina seu percurso encontrando valor nas relações e na ajuda comunitária, aproximando-se assim da natureza própria do pardal. Se inicialmente, o personagem é um admirador daquilo que é grandioso e procura sanar sua situação com a aquisição excessiva de objetos, fortalecendo-se de entulhos (uma tática de engorda); no final do filme, nota-se a aquisição de uma nova postura sua diante da vida, marcada pela serenidade e pela capacidade de estar mais próximo dos demais, e por fim, pelo apreço às coisas simples que compõem a vida e um certo despojamento material (que é antes um despojamento de defesas internas contra a dor).

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Pela maneira com que o diretor conduz o caminho de seu personagem, podemos ver que Karim vai sendo "descascado" ao longo de seu percurso. Parece dessa maneira que a vida trabalha sobre ele, a fim de que viesse a alcançar uma pequenez própria do pardal - e também própria da condição humana. O sonho pela grandiosidade e pela vitória sobre a imprevisibilidade da existência embriaga o personagem em um mundo próprio, tornando-o encerrado em seu "castelo" de ferro-velho. O desabamento desse "castelo" é também o desabamento das defesas que Karim constrói, e a oportunidade de tornar-se mais uma vez em contato íntimo e próximo com o outro, e em última instância pequeno de si mesmo. Há aqui um acolhimento da precariedade de sua condição humana.

Essa não é apenas uma lição que o protagonista tem que aprender, mas também seu filho, que com a ânsia de criar o maior número possível de peixes, fica disperso em excitação. A sabedoria da vida também cuida do pequeno garoto, que é levado a reconhecer o valor de apenas um (peixe). Há, portanto uma concepção existencial do diretor em relação ao homem e em relação a sua tarefa ao longo da vida, que se apresenta aqui como a de cuidar de seus ímpetos de dominação e conquista sobre os elementos que o cercam, e vir a relacionar-se com eles a partir do respeito e da gentileza, como um verdadeiro pardal o faz, que se satisfaz com o pouco que lhe cabe. Todo o filme parece defender a idéia de que o ser humano tem uma tendência a ser atraído pelo que é majestoso, pela grandeza e pela força (atributos do avestruz), mas que seu lugar originário realiza-se apenas na pequenez. Assim, o homem reformado é aquele que se assemelha a um pardal. O canto poético que Karim faz por meio da múscia, é o que nos parece ser o canto do pardal - um canto que proclama o encontro.

Outra função importante que o pardal cumpre no filme, é permitir com que Karim possa colocar a experiência de perda "sob o domínio do ego" (WINNICOTT, 1960c). O avestruz, que é um animal com vontades próprias e um tanto rebelde, promove um desequilíbrio na vida do protagonista, por meio de sua fuga. Karim não participa desse ato do avestruz, e dessa maneira fica excluído, impotente, perdido e confuso com essa situação. Vive então uma ruptura. Já o pardal, quando está preso no quarto do personagem, frágil e atrapalhado, debatendo-se entre as paredes, dá a oportunidade para Karim realizar um gesto de libertação. Se o avestruz o assalta com sua fuga, o pardal faz com que o personagem possa vir a participar de sua soltura e dessa forma refaz a experiência de perda, mas agora com o aval do homem.

E curiosamente, logo após Karim ter liberto o pardal, recebe a notícia do resgate do avestruz: só recebe algo que perdeu, após ter realizado um gesto de libertação.