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5 A POLÍTICA PÚBLICA BAIANA DE ECONOMIA SOLIDÁRIA

6.2 O DESAFIO DA EFETIVIDADE: O ALCANCE DE UMA POLÍTICA DE

Uma primeira questão, de cuja resposta depende a continuidade de qualq uer discussão sobre as possibilidades da economia solidária enquanto política pública, diz respeito ao caráter que a própria iniciativa estatal carrega consigo: qual o alcance desse meio de transformação social? Trata-se de opção que, em longo prazo, irá se constituir em resposta alternativa e efetiva às contradições, condições e efeitos do modo de produção capitalista, ou, numa visão ainda ideologicamente subordinada, a economia solidária permanecerá restrita a iniciativas e grupos localizados, inserida funcionalmente no espaço não explorado pela economia capitalista?

A questão colocada tem uma primeira resposta evidente que decorre do próprio caráter de política em construção, bem acentuado por França Filho (2006c e 2006d) que caracteriza as iniciativas estatais no atual estágio de desenvolvimento da economia solidária. As possibilidades da economia solidária fomentada por uma política pública surgem, nessa forma de pensar, como diretamente vinculadas ao próprio processo de construção em si mesmo, o que envolve as ações concretas de

apoio a iniciativas solidárias, mas à criação de um ambiente social favorável ao seu progresso.

As intenções do governo do Estado da Bahia, expressas no PPA-2008-20011, documento que orienta a ação governamental pelo menos durante um quadriênio, não deixam dúvidas da opção real pela economia solidária como meio relevante de superação das condições de exclusão social, através da geração de trabalho e renda e, até, como fator potencial de crescimento econômico. Assim, a economia solidária é reconhecida como força transformadora

As escolhas feitas pelos governos passados privilegiaram, quase que exclusivamente, os grandes empreendimentos empresariais, na crença ilusória de que eles bastariam para assegurar o desenvolvimento da Bahia e a melhoria da qualidade de vida da sua população. Sem desconsiderar a importância da implantação de grandes empreendimentos produtivos, a política adotada pelo atual Governo considera essencial assegurar decidido apoio à agricultura familiar, ao micro e pequeno empreendedor e às práticas da economia solidária. Corrigindo, assim, uma grave lacuna da política anterior que deixou ao largo o grande potencial de crescimento econômico e de inclusão social oferecidos por estes segmentos. (Governo do Estado da Bahia – PPA 2008-2011, p. 11).

e, por esta razão, trazida ao Estado como política pública:

A expansão do nível de ocupação e elevação da renda da população é prioridade absoluta do Governo. Para isto estão sendo privilegiados os investimentos capazes de prom over maior absorção da força de trabalho. O apoio à agricultura familiar se inscreve nesta estratégia, por meio do acesso à terra, à tecnologia adaptada e à regularização fundiária, bem como a oferta de microcrédito e o fomento à economia solidária. Em articulação com o Governo Federal implantaremos a Política Pública de Economia Solidária. (Id., p.13)

A disposição do Governo do Estado, manifestada em documento oficial de planejamento de ações de longo de prazo, reforça a ideia de que a política pública pretende, de fato, adotar a economia solidária como vetor de transformação social. O desafio que aqui se coloca é o da inserção de empreendimentos, apoiados dentro desta política, num ambiente econômico dominado pela lógica e relações capitalistas.

Como salientou Singer (2002) e outros autores, a economia solidária é um modo de produção e distribuição alternativo ao capitalismo; e embora tenha surgido em grupos da sociedade civil, conta com a interferência estatal para reforçar a sua afirmação mediante a multiplicação de iniciativas e experiências organizativas de

atores envolvidos, com políticas públicas propiciadoras da inclusão de cada vez mais pessoas marginalizadas em trabalhos gerados por empreendimentos solidários.

A difusão dos empreendimentos solidários, a ponto de ganhar visibilidade e relevância e de permitir a formação de redes de produção, comercialização, trocas e crédito próprios, dependerá de uma atuação estatal afirmativa em termos de preferências e base legal.

A questão aqui colocada quer ressaltar duas condicionantes que caminham juntas e desafiam a política de economia solidária: a primeira diz respeito à necessidade de a política pública de economia solidária dar resultados, ser efetiva ; a segunda diz que isto tem de ocorrer dentro de uma política que segue os princípios da economia solidária. A efetividade da política de economia solidária não poderá ser medida apenas pelo alcance de seus resultados na geração de trabalho rentável, mas também pelo grau de dinâmica própria e independência do Estado que os empreendimentos vão adquirindo ao longo do tempo, resultado do seu adensamento e difusão. Além disso, o ambiente e a lógica dos empreendimentos solidários têm de inspirar-se no ideário da solidariedade e cooperação, de forma que o seu avanço se dê sob outras bases, incorporando a sustentabilidade econômica e novo ideário de relações sociais. Ou seja, a efetividade e a coerência com os princípios solidários justificarão as ações e lhes darão identidade de economia solidária; ao mesmo tempo, as afastarão da lógica da ação social prevalecente, subordinada ao que permite hegemonia capitalista.

A ascensão da economia solidária ao status de política pública traz consigo o risco de ser encarada como um modismo ou uma iniciativa mais retórica do que efetiva; a coerência entre as ações desenvolvidas e os princípios dessa concepção alternativa e os resultados reais de sua aplicação apresentam-se como condições indispensáveis a que ela se torne, de fato, uma política consolidada no âmbito estadual.

Outro risco presente é de a economia solidária, como política pública, vir a ser tratada (como, de resto, não é assim nas suas concepções nucleares, como movimento surgido na sociedade civil) como uma solução economicista a um problema de fundo econômico, político e social. Há um campo de atuação a ser explorado e desenvolvido que diz respeito a relações sociais sob uma visão mais ampla, que engloba a dinâmica social e cultural típica de cada território.

Por outro lado, a ação pública, se encarada apenas como uma ação meramente técnica, cirúrgica até, como instrumento de intervenção pontual e localizada, com vistas à correção de determinada situação social inadequada, terá ação limitada em relação aos objetivos de transformação a que se propõe. A ação pública visa à criação de estruturas que criem condições de avanço em busca de uma nova realidade idealizada. Nesta forma de ver, os fins e as estruturas são resultados de consenso ou admissão pelas forças sociais em jogo. Assim, os caminhos escolhidos são tanto objeto de disputas político-ideológicas quanto os próprios objetivos. O papel do Estado (e aqui é necessário tornar à mente o conceito de Estado e sua instrumentalização classista observados por Gramsci) - (COUTINHO, 1989), ainda que definido aprioristicamente pela relação de forças sociais concretas, pode pender para determinada direção segundo o circunstancial exercício do poder formal por determinado grupo político-ideológico.

A oportunidade – se a expressão de uma política governamental tende a buscar a transformação da realidade segundo um ideário que costumamos identificar como progressista – requer que o exercício do poder, para além de elementos técnico-administrativos, assuma um papel de intervenção que afirme a opção escolhida e busque neutralizar o histórico domínio de forças quantitativamente minoritárias, mas economicamente mais poderosas e propicie, nos territórios em que atue, efetivas e reais transformações econômicas e sociais. Neste caminho, é necessário que as iniciativas incorporem determinados valores imateriais que sirvam de suporte ideológico, conceitual, ético e filosófico às transformações. Um primeiro e grande desafio, portanto, é a busca da transformação da realidade social, através do exercício do poder estatal em suas instâncias executórias inspirado ideologicamente pelas novas ideias.

Dentro dessa visão, ainda que aqui se trate de uma abordagem mais ampla do papel do Estado, ganha destaque o caráter de solidariedade reciprocitária preconizada por França Filho e Laville (2006) e a necessidade de articulação entre política e economia sob uma ótica redistributiva, condição em que, tipicamente, cabe ao implementador das políticas um papel central de articulação. Há, apesar da tendência de direcionar para a sociedade civil as ações que são típicas de governo e da histórica independência da economia solidária em relação ao Estado, um papel importante a ser cumprido por este não apenas no incentivo financeiro e logístico e

da capacitação técnica, mas na criação de um ambiente voltado para a difusão das ideias da economia solidária e para o desenvolvimento, pela formação, de atores comprometidos com a solidariedade.