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1. A TECNOSSOCIEDADE DO COMPUTADOR E DA REDE: UM

1.5 DESAFIOS DO EDUCADOR DIANTE DA TECNOLOGIA

O uso da tecnologia digital na educação é um processo irreversível por se tratar de uma evolução histórica e de uma revolução tecnológica. Dentro da terceira revolução técnico- científica em que vivemos (a primeira foi a revolução agrária; a segunda, a revolução industrial), resistir ao uso da tecnologia digital (e de outras tecnologias) na educação é retroceder na própria história ou não pegar o “trem bala” da evolução tecnológica.

Quando nos referimos ao desafio do educador, não estamos com a ideia de confronto do tipo educador vs tecnologia. De modo diferente, pensamos na necessidade e na capacidade do educador de perceber, entender e significar as tecnologias no processo educativo.

Chagas, Brito e Ribas (2008) acreditam que no espaço escolar o desafio que se coloca é a incorporação das tecnologias da informação, presentes na vida dos seres humanos. Acrescentam a importância de se compreender esse processo de incorporação das tecnologias da informação pela escola, particularmente pelo professor, pois defendem que essas tecnologias podem contribuir para uma vinculação entre os contextos da escola, da vida do jovem aluno, do mundo do trabalho e da cultura contemporânea.

Precisamos refletir sobre o impacto da tecnologia na vida dos educadores e dos alunos. Reconhecidamente os educadores não são mais o único meio de acesso às informações. Por sua vez, os alunos não aprendem apenas com os educadores, mas ampliam suas possibilidades de aprendizagem, como nos mostra a citação seguinte:

[...] alunos estão acostumados a aprender através dos sons, das cores; através das imagens fixas das fotografias, ou em movimento, nos filmes e programas televisivos [...] As novas gerações têm um relacionamento totalmente favorável e adaptativo às novas tecnologias de informação e de comunicação e um posicionamento cada vez mais aversivo às formas tradicionais de ensino (KENSKI, 2001, p. 133).

Com o desenvolvimento das tecnologias, acreditamos que os educadores devem refletir sobre suas práticas e dar conta de que seus alunos vivem na era digital, desenvolvendo estratégias pedagógicas que produzam efeitos significativos nos espaços educacionais e na vida dos aprendizes.

Está ocorrendo um processo de transformações no mundo, que torna indiscutível a introdução do computador nas escolas. A questão é quem vai conduzi-la. Se os educadores não a assumirem, outros o farão, e os educadores, novamente, ficarão como observadores de um processo conduzido por quem tem iniciativa, sem direito de lamentar. A questão tem que ser enfrentada com realismo e inteligência. As tecnologias da informação e comunicação são um fenômeno social e tecnológico. É necessário conhecer seu impacto na coletividade. Os jovens devem estar preparados para viver numa sociedade altamente informatizada [...] (ROMAN, 2009, p. 47).

Os desafios são múltiplos e variam de acordo com cada situação. Por isso, não temos como enumerar e discutir todos os desafios que se apresentam ao educador do século XXI. Em linhas gerais, vamos discutir os desafios que são postos ao educador na era digital.

1. Apropriação da tecnologia digital - Na sociedade em que vivemos, é

essencial que o educador se aproprie das diferentes tecnologias da informação e comunicação, aprendendo a ler e a escrever nas linguagens que elas apresentam.

Embora a apropriação da tecnologia digital pelo educador seja um aspecto importante, não é o bastante. Entendemos que, mais do que se apropriar, o educador precisa significar essa tecnologia digital da qual se apropriou.

2. Compreensão da tecnologia digital – Sabemos que o papel do educador é de

grande importância na inserção das tecnologias em sala de aula para dar um sentido ao uso das tecnologias e produzir conhecimento em meio a um labirinto de possibilidades.

Exemplificamos que o educador pode dar sentido ao uso da tecnologia digital na escola ao o orientar a utilização de jogos virtuais para estimular o raciocínio dos alunos, a

criação de páginas na web para produção e publicação de textos dos alunos, a produção de gêneros textuais com o objetivo de desenvolver a oralidade e a escrita dos alunos, bem como o planejamento de atividades com a utilização de redes sociais como o orkut, MSN, facebook,

twuitter, blogs e outras.

3. Desenvolvimento de uma competência tecnológica – O uso do computador requer

educadores preparados, dinâmicos e investigativos, pois as perguntas e situações que surgem em sala de aula podem não se limitar ao que estava previsto. Assim, os educadores precisam desenvolver uma competência tecnológica para tomar conhecimento da existência das tecnologias, familiarizar-se com elas e saber usá-las para orientar os alunos a usá-las.

O desenvolvimento de uma competência tecnológica pelos educadores é uma necessidade para acesso a uma grande quantidade de informações de forma rápida, múltipla, em rede, alterando a nossa relação com o espaço e o tempo e levando-nos a praticar novas linguagens.

As possibilidades comunicativas da Internet surgem como novos suportes das relações e dos conhecimentos (grupos de discussão, páginas de sites, bancos de dados, etc.), permitindo uma tripla analogia: com a biblioteca (extração de informação, leitura, reanálise, comentários,etc.); com um laboratório (ligado à idéia de descoberta, reencontros, trocas de informação, etc.); e com uma praça pública (comunidade,diálogo, intervenção política, etc.) (ROMAN, 2009, p. 48).

Os educadores devem ter competência, mediante acompanhamento e gerenciamento da aprendizagem, para incentivar os alunos à autoaprendizagem pela exploração do ciberespaço, investigando, fazendo descobertas, resolvendo problemas e transformando informação em conhecimento.

4. Inclusão das pessoas – A velocidade da difusão da tecnologia geralmente é

seletiva, tanto social quanto funcionalmente. Como tem ocorrido em relação a outras tecnologias, em se tratando da tecnologia digital delineia-se uma lógica de exclusão: pouco espaço para os não iniciados em computação, para os grupos de menor poder aquisitivo e que consomem menos e para as regiões menos desenvolvidas.

De certo modo, quem participa mais do acesso à tecnologia digital são as pessoas dos países desenvolvidos e as classes mais favorecidas dos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, ficando uma grande massa excluída desse processo.

Entendemos que o educador pode colaborar de maneira decisiva com a inclusão digital, primeiro tornando-se um incluído digital, mesmo trabalhando em várias instituições, ganhando mal e não sendo valorizado. Depois pode contribuir enormemente para a inclusão dos alunos, mediante o uso humanizado e racional da tecnologia digital no contexto escolar, possibilitando aos discentes desfrutar dos benéficos que essa tecnologia pode oferecer.

5. Mediação do conhecimento - Qualquer que seja a tecnologia digital utilizada em

sala de aula, ou mesmo fora do ambiente escolar, o educador tem o desafio de ser mediador e estimulador dos alunos para a produção do conhecimento.

Para Gadotti (2002), o professor “deixará de ser um lecionador para ser um organizador do conhecimento e da aprendizagem [...], um mediador do conhecimento, um aprendiz permanente, um construtor de sentidos, um cooperador” (p. 32). Os educadores não são mais apenas “difusores do conhecimento”, até porque há meios tecnológicos que podem fazer isso com maior alcance e mais eficácia.

Portanto, constitui desafio dos educadores, em uma sociedade tecnológica, assumir atitudes motivadoras dentro de uma visão sistêmica e atuação interdisciplinar, com conhecimento, criatividade e capacidade de inovação para saber selecionar o que usar, como usar e para que usar.

A nossa reflexão sobre o desafio dos educadores na era digital leva-nos a uma analogia com o enigma da esfinge no Egito: a tecnologia digital parece falar para a consciência dos educadores a todo instante: “compreenda-me ou eu te excluo”.

Neste capítulo, buscamos traçar um panorama da sociedade tecnológica, na qual os educadores vivem e trabalham, discutindo aspectos relacionados aos conceitos e às concepções de tecnologia digital, mostrando que vivemos na era da revolução digital, caracterizada por uma sociedade em rede, possibilitando o surgimento das chamadas gerações digitais. Além disso, mostramos que atuar nessa sociedade constitui um desafio para os educadores, pois as gerações digitais, principalmente as Gerações Y e Z, fazem parte do público de nossas escolas. Assim, concluímos que a tecnossociedade do século XXI corresponde a uma vivência em que as relações com o outro passam necessariamente pelo computador e pela rede, ocorrendo uma transformação nas mediações sociais que leva a uma reorganização de nossa vida.

No próximo capítulo, vamos discutir a cognição incorporada e situada, vertente teórica que contribui para o entendimento das experiências vivenciadas pelos educadores na sociedade tecnológica e que nos serve de fundamentação para explicar as concepções desses educadores sobre tecnologia digital.

2 COGNIÇÃO INCORPORADA E SITUADA E CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA DIGITAL

No capítulo inicial do nosso trabalho, mostramos que vivemos em uma tecnossociedade que constitui um desafio para o educador na era digital. Neste capítulo, o nosso objetivo é discutir a cognição incorporada e situada como vertente teórica que vai nos subsidiar na compreensão das concepções de tecnologia digital dos educadores.

Contudo, antes de abordarmos a cognição incorporada e situada, acreditamos que é essencial fazermos uma discussão, ainda que sucinta, a respeito do surgimento, da interdisciplinaridade e das abordagens paradigmáticas da ciência cognitiva, enfatizando o conceito de cognição em cada paradigma.