• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 4 O CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE PARA OS

4.4. Desafios e Dificuldades na execução do curso

Para compreender os desafios e as dificuldades na implantação do curso, faz-se necessário compreender o cenário da educação nos assentamentos em questão. Segundo o Senhor Antônio Carlos Pereira, aluno do curso, em entrevista a esta pesquisa, “a população do Sul do Estado do Amapá sempre sofreu com o descaso do Poder Público, em atender o mínimo possível da legislação, principalmente o que constava na Carta Magna de 1988". Ele afirma que quem quisesse seguir com os estudos, era obrigado a mudar-se para a capital Macapá, muitas vezes, para não deixar os filhos sozinhos, toda a família mudava. Quem não tinha condições de mudar-se para a cidade, parava de estudar.

Se observarmos a área territorial dos assentamentos, as que têm mais facilidade para deslocamento dos moradores até a área urbana é o assentamento casulo Nazaré Mineiro, que se localiza no perímetro urbano de Laranjal do Jarí e Foz do Mazagão, sendo que o último, mesmo estando próximo a Macapá e Mazagão, o acesso é fluvial. Os assentamentos Maracá e Água Branca do Cajari são os mais distantes, em torno de 100 a 200 quilômetros de distância da capital. Isso em uma estrada de terra, sem iluminação, sem transporte escolar, sem segurança, torna-se fator principal para a desistência e até mesmo pela opção de não estudar e permanecer no assentamento.

FIGURA 27: CONDIÇÕES DE ACESSO DOS ASSENTAMENTOS. BR 156, PRÓXIMO A LARANJAL DO JARÍ.

Fonte: Fotografia do acervo do autor.

Dessa forma, uma das maiores dificuldades no assentamento está ligada ao acesso. As estradas não são pavimentadas, (muito embora o principal acesso seja por uma Rodovia Federal, a BR 156) e sofrem com as condições climáticas da Amazônia que dificultam o

trabalho, o escoamento dos produtos coletados. A ação de políticas públicas é praticamente inexistente e grande o descaso do poder público. É comum encontrar ao longo dos assentamentos, diversos moradores realizando a manutenção das estradas após um período chuvoso.

O curso Técnico em Meio Ambiente foi uma conquista dos assentamentos do Sul do Estado do Amapá, bem como a garantia de política pública a aqueles que dela necessitam para a continuidade dos estudos. Em entrevista o aluno do curso Senhor Antônio Carlos Pereira explica que o PRONERA foi uma reivindicação de muito tempo das comunidades assentadas e que quando o projeto se concretizou, todos apoiaram, pois viram neste curso a possibilidade de continuidade de estudo, de ter uma profissão, sem ter que sair do assentamento, haja vista estarem situados em área de Reserva e com grandes possibilidades de atuação profissional na área ambiental, conforme descrito no trecho abaixo:

“O curso se preocupa com o Meio Ambiente, principalmente com a Amazônia. Os assentamentos agroextrativistas da Amazônia precisam de Técnicos da região para Trabalhar no Meio Ambiente. Teve uma época que viram Técnicos de fora (mandaram buscar no Rio de Janeiro) para trabalhar num projeto muito bacana da reserva, isso era um absurdo.” (Antônio Carlos Pereira, entrevista realizada em 06/07/2016).

Fica evidente, a partir da fala do Senhor Antônio Carlos Pereira, o interesse e motivação pelo curso, o que confirma o cumprimento do que é estabelecido no Manual de Operações do PRONERA, na escolha do curso a partir da real necessidade dos assentamentos. A afirmação feita pelo Senhor Antônio é confirmada pelos demais alunos entrevistados, que apontam ainda que o curso tem ampliado o conhecimento quanto à sustentabilidade, técnicas de colheita e conservação dos produtos extraídos da natureza, reaproveitamento de alimentos transformando-os em adubo orgânico e conscientização da importância da preservação do meio ambiente para toda comunidade assentada.

Na percepção dos alunos, a maior dificuldade para permanecer no curso Técnico em Meio Ambiente, está associada ao deslocamento, tanto dos assentamentos até a cidade de Laranjal do Jarí, onde ocorreu o Tempo Escola, como no deslocamento da cidade de Laranjal do Jarí até o campus do IFAP.

FIGURA 28: AULA INAUGURAL DO CURSO TÉC. EM MEIO AMBIENTE

Fonte: Fotografia do acervo do IFAP campus Laranjal do Jarí.

Pela proposta apresentada pelo IFAP ao INCRA, as aulas do Tempo Escola aconteceriam na sede da Escola Municipal Nazaré Mineiro, localizada no assentamento casulo Nazaré Mineiro. O local serviria também de alojamento para os alunos que residem nos assentamentos Água Branca do Cajari, Maracá e Foz do Rio Mazagão. Entretanto, conforme descrito no relatório de acompanhamento e fiscalização do INCRA/PRONERA, de 20 de julho de 2015, a escola não apresentava infraestrutura adequada para o funcionamento do curso, motivo pelo qual o curso foi remanejado para as dependências do IFAP. Já para a hospedagem daqueles que não residiam em Laranjal do Jarí, os mesmos se organizaram para hospedar-se em casa de parentes ou alugando casas durante o Tempo Escola. Esta é apontada por todos os alunos como a maior dificuldade, e pode ser confirmada na fala da aluna Edna dos Santos:

Não são pontos negativos, são dificuldades, barreiras, mas, que a gente tem que enfrentar pra gente conseguir chegar ao nosso objetivo. É a questão do deslocamento. A gente vem pra cá, não sabe onde vai ficar. Não tem um lugar próprio pra gente ir contando. Tem que chegar e alugar. Ter de deixar nossos familiares pra lá e viver pra cá. Nem sempre o dinheiro já está disponível nessas contas pra gente fazer o que tem que fazer. (Edna dos Santos, entrevista realizada em 06/07/2016)

No que diz respeito à metodologia, o curso aconteceu por meio da Pedagogia da Alternância. O Tempo Escola aconteceu nos meses de julho de 2015, janeiro e julho de 2016 e janeiro de 2017, divididos em 04 (quatro) módulos, com aulas em tempo integral das 07h30min às 18h30min de segunda – feira a sábado. Tanto os alunos como os professores queixaram-se da carga horária extensa. Para os professores, se o Tempo Escola fosse durante dois meses e com a interação entre os professores, ficaria mais fácil para os alunos assimilarem os conteúdos.

Segundo o Professor Breno Henrique Pedroso Araújo, que ministrou as disciplinas na área de Meio Ambiente, o volume de conteúdos exigidos pelo Plano de Curso e o tempo corrido para ministrar as disciplinas comprometeu o aprendizado, principalmente porque a maior parte dos alunos não possuía base teórica, os “pré-requisitos”, para os conteúdos.

Esta afirmação corrobora o que nos ensina Monica Molina (2009, p.22), quando diz que o campo não é somente um local onde o modo de vida é baseado no trabalho braçal e para a existência imediata, mas também é um local onde a necessidade do trabalho intelectual se instala aos poucos. Isso devido a luta constante dos movimentos sociais que vêem na educação uma forma de se auto afirmarem como participantes da sociedade, mas essa educação tem e deve ser diferenciada. Assim a educação do campo deve ser,

Uma educação especifica, diferenciada, isto é alternativa. Mas, sobretudo deve ser educação, no sentido amplo do processo de formação humana, que constrói referencial cultural e politicas para a intervenção das pessoas e dos sujeitos sociais na realidade, visando uma humanidade mais plena e feliz. (KOLLING, NERY e MOLINA, apud RODRIGUES e RODRIGUES 2009, p.52).

Desta forma, as pessoas que vivem no campo devem ter uma educação que seja condizente com suas realidades, com aquilo que é vivenciado em seus cotidianos. A educação do campo deve ser pensada como uma política pública; desta forma deve-se repensar a referência que temos de educação como política pública, fora dos parâmetros dos projetos que contemplam apenas realidades localizadas. Assim não mais teremos problemas no prosseguimento de estudos dos sujeitos do PRONERA.

Na mesma medida, os alunos do curso Técnico em Meio Ambiente queixaram-se da carga horária do Tempo Escola. Segundo eles a carga horária diária é muito alta, e por ser uma rotina muito diferente da que eles têm, o aprendizado no turno da tarde era comprometido. Eles sugeriram que o Tempo Escola fosse maior, com duração de dois meses ao invés de um, como indica o aluno Laudevaldo Monteiro Dias:

Poderia ser mais um pouquinho de tempo pra absorver os conteúdos. Ao invés de ser em um ano e meio serem dois anos, por exemplo. Mais um tempo escola, porque quando você se prepara profissionalmente, tiver vários conteúdos, tiver bastantes leituras, facilita mais na sua vida profissional quando você for colocar em prática no futuro. (Laudevaldo Monteiro Dias, entrevista realizada em 06/07/2016)

Ainda que alunos e professores tenham sinalizado como ponto negativo o curto tempo do Tempo Escola, ambos mostraram-se satisfeitos com o curso, pois segundo os alunos, todos

os conteúdos foram muito bem repassados pelos professores e trouxeram novidades que contribuirá no dia a dia na comunidade. Já para os professores, o contato com alunos oriundos dos assentamentos da reforma agrária foi um grande desafio e uma oportunidade de aprendizado. Segundo a Professora Teresinha Rosa de Mescouto, que ministrou a disciplina de Português Instrumental, a valorização dos saberes dos alunos foi muito importante; os relatos de experiência que os mesmos apresentaram nas produções de texto sinalizavam que eles não possuíam a técnica, mas um profundo domínio sobre a vida na Amazônia e a preocupação com sua preservação.

Segundo a Professora Teresinha, se houvesse integração dos professores das diferentes disciplinas do Tempo Escola entre eles, bem como com os professores do Tempo Comunidade, a dinâmica do curso seria melhor e com certeza alunos e professores aproveitariam muito mais deste momento de troca de saberes.

Percebe-se que o curso Técnico em Meio Ambiente para os assentados agroextrativistas do Sul do Estado do Amapá, por ser um projeto pioneiro tanto pra o IFAP como para o INCRA alcançou seus objetivos, apesar de seus limites, e tornou-se uma possibilidade de qualificação profissional para aqueles que se não por esta oferta não a teriam, como fica evidenciado na fala da aluna Edna dos Santos:

Meu projeto sempre foi de estudar, e se eu pudesse eu estudaria a distância, eu não sei como é que eles vão fazer comigo só pra eu ter meu tempo na minha comunidade, gosto muito do que faço na minha comunidade. Como diz o pessoal, sou como uma secretária da associação. Eu que fico no lugar do presidente quando ele não está. O presidente viaja muito. Então na ausência dele, quando ele não está, quem resolve os problemas da comunidade sou eu. (Edna dos Santos, entrevista realizada em 06/07/16)