CAPÍTULO 4 – ESTUDO DE CASO
4.5 Desafios e oportunidades do programa de intraempreendedorismo
A indústria financeira tem como característica marcante seu conservadorismo e solidez. A inovação é por vezes tratada como risco e os processos são mais longos e burocráticos, sem muito espaço para experimentação. Dessa forma, é de se esperar que um programa, com os objetivos e visões como o programa BETA, enfrente algumas barreiras e dificuldades. Por outro lado, os conceitos expostos na revisão de literatura deste trabalho apontam o intraempreendedorismo como uma prática que estimula e fomenta a inovação. Para Sarkar (2008), “aproveitar o conhecimento e a experiência de funcionários e colaboradores para inovar e estar à frente da competição é um dos recursos ainda pouco aproveitados pelas empresas.” (SARKAR, 2008, p.23)
Esta seção do estudo visa expor os desafios e barreiras enfrentados pelo programa BETA, assim como as vantagens e os primeiros impactos referentes a inovação gerados por ele. Para essa análise, foram utilizados documentos referentes aos resultados e lições aprendidas dos primeiros ciclos do projeto, assim como depoimentos extraídos de entrevistas feitas com dois gestores da empresa de consultoria, responsáveis pela criação e implementação do programa na instituição financeira.
Desafios e barreiras
O primeiro desafio identificado diz respeito à comunicação, divulgação e engajamento dos colaboradores no programa. No início, o plano de comunicação não foi muito claro e não alcançou muitas pessoas. Nem todos os stakeholders das áreas envolvidas tinha uma visualização clara do programa e tiveram dificuldade de entender os objetivos e o escopo da proposta.
Além disso, por vezes, mesmo as pessoas atingidas pela divulgação do programa não foram corretamente sensibilizadas. Por ser um programa novo, diferente de outras iniciativas já realizadas na área, houve dificuldades em deixar claro o funcionamento e benefícios do programa, o que inicialmente gerou pouco engajamento e participação. Essa falta de engajamento está relacionada não só com o plano de comunicação mas também com a cultura da empresa, e como ela lida com inovação.
A dificuldade inicial maior foi engajar as pessoas. Ainda existe um medo grande em se falar em inovação dentro de empresas tradicionais como essa. Existe o medo das pessoas de irem pra frente com suas idéias e elas falharem e também, por ser um empresa desse porte, medo de terem suas idéias “roubadas”. A gente teve que fazer uma campanha muito grande no ínicio pra todo mundo entender que o programa era estruturado e que eles seriam responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos até o final, e que a idéia era essa mesmo, testar várias versões e errar rápido (Gestor 2, 2018).
Outra dificuldade enfrentada diz respeito aos desafios propostos para a fase de ideação. O programa prevê que gerentes das áreas de negócios proponham desafios para serem trabalhados em diversos workshops de ideação. Os facilitadores da empresa de consultoria, responsáveis por conduzir esses workshops trabalhavam junto com esses gerentes para desenvolver os desafios. O problema encontrado é que, na maioria das vezes, esses gestores focavam em desafios muito amplos ou sem o enquadramento adequado que, quando trabalhados no workshop, resultaram em ideias generalistas e com pouco potencial inovador.
Como barreiras para geração de inovação através do programa de intraempreendedorismo, os gestores identificaram problemas diretamente relacionados à cultura da empresa. As metodologias e abordagens utilizadas nas fases do programa requerem agilidade e ciclos rápidos, onde as ideias são testadas e descartadas ou melhoradas, em um processo iterativo. A cultura da empresa, de um modo geral, sempre foi mais voltada para projetos longos e completos, com melhorias contínuas, o que traz estranhamento à essa nova mentalidade.
No geral o maior desafio sempre foi a mudança do mindset, principalmente em um programa onde o foco é errar rápido para aprender rápido. Ainda mais se tratando de um banco. A mentalidade é de entregas de projeto completas e funcionais, e a idéia do programa é experimentação. As pessoas têm dificuldade de entender o conceito de MVP [mínimo produto viável] e já querem fazer algo muito sofisticado na primeira rodada (Gestor 2, 2018).
Tem que mudar também o modo como as pessoas encaram esses projetos. Ideas first [ideias primeiro] é sempre ruim. Os mais proativos já chegam muito apegados à sua idéia e muitas vezes nem sabem a quem aquilo vai atender. A gente precisa trabalhar muito com eles até eles entenderem que o certo é pensar no problema primeiro, e a partir daí idear. A estrutura do programa tenta colocar essa abordagem. Os projetos que partem de idéias dificilmente são radicais ou disruptivos (Gestor 1, 2018).
Por fim, um dos gestores citou “tempo e budget” (Gestor 1) como uma das principais barreiras para geração de inovação e sucesso do programa BETA. Isso se deve ao fato de que apesar de 20% do tempo de trabalho do colaborador poder ser dedicado ao seu projeto empreendedor, muitos têm dificuldades em encontrar o balanço entre o que é pedido no programa e suas atividades diárias.
Em relação a orçamento, foi citada a dificuldade de se conseguir verba para a ampliação de projetos que passam da fase de “Crescimento’. O orçamento previsto pelo programa BETA cobre os custos do projeto até essa fase. A partir daí cabe aos intraempreendedores buscarem dentro de suas áreas de origem a verba para ampliação e lançamento em escala do produto ou serviço, o que pode causar uma certa desmotivação ou até mesmo acabar com um projeto.
Depois que os projetos passam para aceleração ele depende da área do colaborador para financiar a ampliação. Eles tem que fazer a campanha, convencer os chefes, o programa só cobre até certo ponto. A não ser que a idéia seja muito inovadora e recebe investimento da área de VC [venture capital ou capital de risco], mas isso ainda não aconteceu (Gestor 1, 2018).
Vantagens e oportunidades
Apesar de algumas dificuldades e barreiras, o programa BETA tem muitas vantagens e oportunidades. Estrategicamente, a iniciativa tem o papel de promover a confiabilidade e credibilidade da área de inovação, trazendo visibilidade para o setor e provando o valor de negócio da inovação, através de contribuições concretas para a organização. Quando perguntado sobre as vantagens do programa sob o ponto de vista de estratégia de inovação, os gestores citaram o conhecimento do negócio por parte dos colaboradores e também a mitigação dos riscos:
Dentro da empresa é o melhor lugar para se criar novos produtos/serviços. Os funcionários conhecem o negócio, o que funciona, o que não funciona. Fora que um programa estruturado assim diminui os riscos. As idéias não aproveitadas servem de aprendizado e o dinheiro “perdido” já está previsto pelo programa. (Gestor 1, 2018)
Além disso. foi citado que o programa BETA “implanta métodos consistentes e ações mensuráveis para resultados inovadores tangíveis” (RELATÓRIO S17, 2017). Ou seja, é uma forma de se medir o processo de inovação da área, além de gerar insights estratégicos sobre o ecossistema. Dentro de um setor de inovação que procura se estabelecer como referência para toda a instituição, isso se torna um valioso indicador e artifício de divulgação.
Outro ponto positivo atribuído ao programa é o caráter colaborativo do processo de inovação: uma plataforma aberta, com iniciativa transversal, de cima para baixo (top down) e de baixo para cima (bottom up). Nesse contexto, as idéias e decisões inovadoras saem das mãos apenas da alta gerência ou áreas designadas e passam a abranger todo o sistema da organização. Reduzir níveis hierárquicos e as segmentações nas unidades organizacionais é considerado por Dornelas (2003) um fator de sucesso na implementação de um ambiente empreendedor nas empresas.
Ainda no aspecto cultural, foi apontado como indicador de sucesso o entusiasmo demonstrado pelos colaboradores durante o programa. Segundo o relatório, esse entusiasmo e a boa atmosfera durante o processo são uma importante métrica de validação do programa BETA, além de demonstrarem que “a compatibilidade entre a cultura interna e o intra- empreendedorismo é real, e também indica um forte apetite dos colaboradores em receber mais autonomia e confiança na contribuição para o futuro da organização.” (RELATÓRIO S17, 2017, p.89).
Segundo Pinchot e Pellman (2004), as empresas devem criar um clima favorável para a inovação nas organizações, fazendo com que todos os funcionários se sintam motivados a compartilhar seus conhecimentos a fim de gerarem novas ideias aplicáveis e aproveitáveis pela empresa em seus produtos e processos. Para os autores, esse é o caminho de se criar uma cultura intraempreendedora, objetivo do programa BETA.
Por último, foi citado como vantagem e oportunidade a exploração dos perfis empreendedores existentes dentro da empresa, assim como a capacitação de todos os participantes:
Com aquela questão dos perfis mais conservadores, o programa ajuda no gap. O programa tem muitos workshops, muitas palestras, eventos, e qualquer um pode participar. Tem palestras de startups, novas metodologias, ferramentas, isso
O envolvimento do colaborador traz um estímulo à criatividade e novos modos de se pensar em resolução de problemas. Além disso, o programa serve para destacar os talentos individuais dos envolvidos, que puderam se expressar de formas diferentes do habitual. Todos puderam ter acesso à meios e métodos para enriquecer suas habilidades, contribuir para o negócio e explorar um mundo em mudança. (BONACHE (2000); BARBIERI et all (2009))
Em um ambiente tão fechado e conservador como uma instituição bancária, o programa BETA também trouxe um pouco do mundo externo para dentro da empresa. Isso foi um fator crucial na construção de resultados inovadores e de alto valor agregado. A capacidade do programa BETA de se tornar um ativo estratégico fundamental para a organização está no centro da iniciativa e, com o tempo, ele alcançará esse objetivo com a ajuda de uma nova categoria de funcionários - os intraempreendedores - e sua capacidade de desenvolver, testar e construir rapidamente produtos e serviços inovadores.