Neste capítulo temos por objetivo fechar nossa discussão acerca dos pequenos satélites abordando determinados pontos ainda não considerados e que são fundamentais para vislumbrarmos algumas respostas para as perguntas que orientam esta dissertação.
Trataremos, portanto, das questões referentes ao desenvolvimento econômico promovido pelo setor aeroespacial (com foco nos cubesats); à regulação do uso do espaço sideral; e à geopolítica que perpassa este tema, jamais perdendo de vista o aspecto nacional. Dessa maneira, espera-se concluir o trabalho satisfatoriamente e construir um quadro completo da situação para aqueles interessados no estudo desta temática ou daquelas que lhe são correlatas.
3.1 – Os cubesats e a mudança estrutural competitiva na indústria de satélites
Neste momento, como dito, compete visualizar a questão dos satélites cúbicos por meio do prisma econômico, algo ainda não realizado no escopo deste texto. Todavia, não é possível – nem desejável – destacar a parte sem compreender o todo visto que ambos mantêm uma relação de complementaridade. Por esta razão será necessário elucidar também os resultados apresentados nos últimos tempos pelo setor de satélites em geral (o qual é parte integrante do setor espacial global). Para esta tarefa nos voltaremos agora.
Os dados mais recentes disponibilizados pela Satellite Industry Association (SIA – órgão estadunidense que congrega e confere voz às indústrias de satélites daquele país), em seu relatório anual intitulado State of the Satellite Industry Report118, referente ao ano de 2015, revelam que o setor em questão movimentou um montante equivalente a US$ 208,3 bilhões, um acréscimo de 3% na comparação com 2014, quando a renda obtida foi de US$ 203 bilhões (SIA, 2015, p.4; SIA, 2016, p.4).
A indústria espacial é composta em sua totalidade pelos ramos de satélites e “não- satélites”, conforme denominação da própria SIA (que não chega a explicitar o que compõe esta última categoria). Sendo assim, a soma das duas partes é equivalente ao valor total produzido em um ano. A referida indústria, em 2015, valia US$ 335,3 bilhões, 4% a mais que os US$ 322,7 bilhões de 2014. O mercado de satélites, foco da nossa atenção, se não cresce
118 O documento mais atual foi divulgado em junho de 2016 e traz dados referentes a 2015. Aqui usamos as informações das publicações de 2015 e 2016. Vale ressaltar que tais documentos são preparados por uma empresa de consultoria especializada chamada The Tauri Group.
espetacularmente (como fizera no passado com taxas de dois dígitos119), entretanto, mantém suas taxas em uma média respeitável se considerarmos o cenário de crise atualmente vivenciado. Nesse sentido, a já citada expansão de 3% foi superior ao desempenho mundial (+2,4%) e ao próprio PIB norte-americano (+2,5%) (SIA, 2015, p.7; SIA, 2016, pp. 5 e 7).
Os Estados Unidos são donos da mais desenvolvida indústria satelital do mundo, tanto em termos qualitativos como em termos quantitativos. Sozinhos, logram obter participação de 43% neste mercado (pouco mais de US$ 89 bilhões), o qual, por sua vez, consiste em 62% de toda a indústria espacial. Em outras palavras, e a despeito do fato de sua participação estar desde 2010 (até onde se estende a análise da SIA) estagnada na faixa dos 43%, o Estado norte-americano e as empresas estadunidenses correspondem a pouco mais de um quarto de tudo o que se refere a tecnologia espacial (26,7%) (SIA, 2016, pp. 6 e 7). Por esta razão os temos como um exemplo máximo daquilo que já se alcançou neste ramo. Ainda que seja necessário diferenciar o caso estadunidense do brasileiro (a respeito do qual não podemos, até a presente data, afirmar que possua uma indústria de satélites plena) para não incorrer no erro de estabelecer associações inverídicas, o estudo dos dados da SIA pode revelar aspectos de interesse para a discussão que pretendemos realizar.
Feita a devida ressalva, parte-se agora para entender o que compõe a indústria de satélites. Prosseguindo na análise do mesmo documento, constata-se que quatro são as subdivisões do referido setor: serviços satelitais, produção de satélites, indústria de lançamentos e equipamentos de solo.
Os serviços satelitais correspondem a serviços de consumo (TV, rádio e banda larga via satélite), serviços fixos (transponders e serviços de rede, incluindo voos espaciais), serviços de telefonia celular e serviços de observação terrestre. Em 2015, confirmando a tendência estabelecida nos anos anteriores, esse subsetor foi a fatia mais robusta da indústria de satélites, gerando US$ 127,4 bilhões (uma alta de 4% em relação a 2014), dos quais 42% (ou US$ 53,5 bi) pertencem aos Estados Unidos (SIA, 2016, p.11).
Um fato importante, diretamente relacionado a este trabalho, chama a atenção: o papel cada vez maior dos pequenos satélites no tocante à observação terrestre. Estes objetos, dadas as características técnicas que lhes são intrínsecas, devidamente explicitadas em oportunidade prévia, permitem a diversificação do setor por meio de novos entrantes e novas parcerias que podem ser estabelecidas mais facilmente. Quanto a isso não deixam de ser sintomáticos os dados da própria SIA de que em 2015, 59 países possuíam ao menos um satélite em órbita,
119 Apenas para citar alguns números: 2006 (+19%), 2007 (+15%), 2008 (+18%) e 2009 (+11%). Cf. SIA, 2016, p.5.
mesmo que para tanto alguns deles tivessem de recorrer a consórcios, bem como de que o custo de construção de todos os pequenos satélites que adotam o padrão cúbico feitos desde 2005 não tivesse ultrapassado a casa dos US$ 100 milhões (SIA, 2016, pp. 8, 15 e 21).
A intensificação de parcerias no ramo espacial é um dos efeitos que podemos atribuir à onda de satélites miniaturizados presenciada nos últimos dez/quinze anos. Mesmo que os casos com os quais tivemos contato apontem geralmente para países em desenvolvimento procurando a ajuda de países desenvolvidos a fim de produzirem e colocarem um artefato no espaço, não se pode excluir a possibilidade de que no futuro alguns dentre aqueles que até então vinham sendo ajudados passem a fornecer ajuda.
O Brasil é uma das nações que poderá vir a se encaixar nesse cenário caso a política desenhada pela AEB logre sucesso. A trajetória tecnológica baseada em componentes miniaturizados torna-se ainda mais interessante para os países e povos do Terceiro Mundo na medida em que suscita a expansão da cooperação sul-sul por uma vereda nunca antes imaginada. Não deixa de servir de consolo o fato de que, em meio a um momento tão conturbado de crise, no qual os projetos supranacionais se encontram seriamente ameaçados por retóricas conservadoras e pela própria ausência de pensamento estratégico por parte de
policy makers de índole duvidosa, haja uma janela de oportunidade que, por menor que seja,
aponte na direção contrária.
Não é nenhum segredo que o advento dos cubesats possibilitou um aumento significativo no número total de satélites lançados por ano (tema discutido no item 1.6 e sobre o qual voltaremos a tratar mais a frente). Quanto a isso temos que 2015 terminou com 1381 satélites operacionais em órbita, 120 a mais do que o ano anterior, predominantemente alocados no ramo de comunicações (37% em comunicações comerciais e 14% em comunicações civis e militares). A quantidade de satélites colocados em órbita foi, contudo, de 202, 108 dos quais eram satélites cúbicos (com praticamente um quinto destes se perdendo devido a falhas de lançamento) (SIA, 2016, pp. 8, 18 e 21).
Tendo, portanto, adentrado o ramo da produção de satélites, devemos salientar alguns fatos. Essa subdivisão gerou um valor da ordem de US$ 16,6 bilhões em 2015 (acréscimo de 4%), destes, US$ 10 bilhões pertencem apenas aos Estados Unidos (60%), revelando o teor da concentração do mercado nas mãos de um ator somente (mesmo se considerarmos que ultimamente esta fatia tem sido diminuída, visto que era 70% em 2013 e 63% em 2014, quase voltando ao nível de 2012, quando era 56%) (SIA, 2016, p.17).
Se os Estados Unidos abocanham 60% do market share da produção de satélites, é importante ponderar que, desta fatia, 73% provêm de contratos governamentais, ou seja, o Estado norte-americano é, sozinho, responsável por quase 44% do valor gerado neste ramo. Outro dado, agora envolvendo a iniciativa privada daquele país, também salta aos olhos: as firmas estadunidenses, se não fizermos restrições de formato e tamanho, foram responsáveis pela construção de 64% de todos os satélites lançados em 2015 (sem contar os cubesats, tal participação cai para 32%) (SIA, 2016, p.19).
No tocante à indústria de lançamentos tem-se que o ano de 2015 significou um revés no valor total que lhe é atribuído. A queda foi da ordem de 9%, indo de US$ 5,9 bilhões (2014) para US$ 5,4 (valor idêntico a 2013). De acordo com a SIA, o resultado negativo é explicado pela menor quantidade de lançamentos comerciais (65 contra 73 do ano anterior, eminentemente direcionados para LEO e GEO). O que se notou, contudo, foi o aumento da participação de países como China, Índia e aqueles pertencentes à União Europeia em detrimento de Estados Unidos e Rússia, que experimentaram problemas com alguns de seus veículos lançadores. Se antes os estadunidenses eram responsáveis por 41% do valor gerado, agora passaram a responder por apenas 34% (SIA, 2016, pp. 23 e 24).
Os governos, apesar de ligeira baixa, são os principais demandantes de lançamentos (69% em 2015, 72% em 2014). A despeito do resultado econômico frustrante do subsetor como um todo, o número de encomendas feitas em 2015 superou a cifra do ano anterior, indo de 22 para 33 (o que certamente trará lucros no futuro próximo assim que esses projetos maturarem). Deste total de 33, 15 correspondem a contratos firmados com companhias norte- americanas. Em 2014 haviam sido 11. Todavia, o market share dos Estados Unidos decresceu de 50% para 45% tendo em vista o crescimento da participação da Arianespace (UE), que com suas 16 encomendas (49%) ultrapassou o poderio estadunidense e recolocou a Europa na dianteira (tal como fora dentre os anos de 2011 a 2013, época na qual sua fatia de mercado fora, respectivamente, 46,7%, 44% e 56,25%) (SIA, 2016, pp. 24 e 25).
Estes dados apenas corroboram aquilo que em certa medida já sabíamos: o setor espacial é altamente oligopolizado e, ao que parece, mesmo os cubesats não logram sucesso absoluto em romper esta realidade. Pelo contrário, aquilo que é fonte de inspiração para nações em desenvolvimento e até mesmo uma alternativa para inicia-las em atividades deste naipe, serve também para reafirmar o poderio dos países que de longa data já são capacitados para disputar o controle do espaço.
A trajetória tecnológica fundada em artefatos miniaturizados a serviço das potências do ramo torna-se algo ainda mais factível quando, no próprio documento da Satellite Industry
Association, encontramos a afirmação de que na atualidade são desenvolvidos “ao redor do
mundo” 17 lançadores de pequeno porte. Entretanto, analisando as empresas que se propuseram a criar tais objetos constata-se que a grande maioria é norte-americana ou está sediada naquele país (SIA, 2016, p.26). Construções como o VLM-1, portanto, não são uma exclusividade do Brasil, o que torna imperativo que o país aperte o passo, faça o voo-teste em 2019 e não perca mais esta oportunidade de ter um veículo seu e de poder adentrar em um mercado comprovadamente lucrativo.
Por fim, os equipamentos de solo renderam US$ 58,9 bilhões em 2015 (+1%), dos quais 41%, como no ano anterior, foram dos Estados Unidos. A maior parte dos lucros deste subsetor (53%) provém do chamado GNSS (Global Navigation Satellite System) (SIA, 2016, p.29). Este, por sua vez, compreende a base técnica dos sistemas de posicionamento geográfico via satélite que permeiam nossas vidas a despeito do fato de terem sido concebidos para cumprirem com propósitos de natureza militar: GPS (EUA), GLONASS (Rússia), GALILEO (UE, o único exclusivamente civil), COMPASS/BEIDOU (China) e IRNSS/NAVIC (Índia). Tornaremos a abordar este tema crucial mais adiante, por ora nossa atenção se volta para um último detalhe que o exame dos documentos da SIA permitiu entrever.
Se a indústria de satélites cresce a taxas estáveis e compreende um setor que movimenta bilhões em moeda forte todos os anos, a sua participação na geração de postos de trabalho nos EUA é cada vez mais precária. Em 2015, contando apenas até o terceiro quarto, foram quase 11.000 postos a menos, com a grande maioria das perdas concentradas no setor de produção de satélites (-24%, ou 5.529 demissões/aposentadorias/mortes, pois a SIA não faz a devida distinção), que foi de pouco mais de 23.000 para algo em torno de 17.500 trabalhadores empregados (SIA, 2016, p.31). Ao tomar ciência destes dados, a pergunta que inevitável e necessariamente nos fazemos é: haveria alguma relação entre este desempenho negativo e a aposta cada vez maior justamente na produção de pequenos satélites? De forma categórica: os satélites miniaturizados eliminam postos de trabalho por serem versões simplificadas dos grandes modelos?
Longe de ser uma indagação fútil e descabida, a pergunta em questão nos força a pensar a situação de forma holística. Várias podem ser as explicações para o decréscimo no número de funcionários neste setor como um todo: aposentadoria, enxugamento de recursos,
instabilidade proveniente de riscos de investimento e avanços tecnológicos poupadores de mão de obra (que aqui é nada menos do que altamente qualificada) estão entre algumas delas. O advento dos pequenos satélites certamente desvia o foco que até então recaía exclusivamente sobre os artefatos maiores e, temporariamente, pode forçar um reajuste do setor: novos entrantes absorvem parte da demanda, que agora pode também se deslocar a favor de objetos miniaturizados (gerando sua parcela de empregos), enquanto antigas empresas buscam se adaptar aos novos tempos.
No Brasil, que conta com uma indústria nascente, numericamente pequena (condensada em algumas regiões) e em constante luta para se firmar, não há dúvidas de que a construção de pequenos satélites trará mais benefícios do que malefícios se adequadamente institucionalizada dentro de uma estratégia coerente. No tocante aos Estados Unidos, como visto no parágrafo anterior, a questão assume contornos mais profundos: trata-se de uma indústria madura e ampla que não pode imputar a responsabilidade por maus resultados a apenas um aspecto dentre tantos outros. Notícias recentes (outubro de 2016) de que a Casa Branca pretende lançar um projeto voltado para o fomento de atividades envolvendo cubesats (Harnessing the Small Satellite Revolution) com o potencial de impulsionar a indústria espacial naquele país tornam ainda mais difícil acreditar que os pequenos satélites possam ser inimigos dos trabalhadores do setor (GRUSH, 2016). Na opinião do diretor da DSAD, pelo contrário, a geração de empregos ficaria ameaçada sem a presença deste tipo de atividade, pois produzir dez satélites de 100 kg cada, como ele mesmo supõe, pode fazer muito mais pela questão do emprego e da renda do que concentrar esforços em apenas um objeto de uma tonelada (ENTREVISTA COM MEMBROS DA AEB, 2016).
O impulso dado por esta política estadunidense, a primeira no mundo a ser fruto de uma iniciativa deliberada de um Estado (sem ter o meio acadêmico como ponto de origem), certamente contribuirá para desenvolver uma indústria de satélites miniaturizados naquele país, traduzindo, novamente na opinião do diretor, a vontade dos norte-americanos de serem líderes nesse mercado (ENTREVISTA COM MEMBROS DA AEB, 2016).
Tendo discorrido sobre a estrutura da indústria de satélites, faz-se necessário agora entender quais são os mercados atualmente abertos para a categoria de satélites estudada e nos quais a mesma pode efetivamente se inserir. Esta será a tarefa que irá nos guiar pelos próximos parágrafos.
No artigo If you build it who will come? Identifying markets for low-cost small
satélites miniaturizados, separando aqueles nos quais tais artefatos possuem maiores chances de sucesso daqueles onde muito provavelmente fracassariam devido ao fato de representarem uma tecnologia nascente, mais custosa (em relação a outras soluções passíveis de serem encontradas) e ainda desconhecida do público. Para tornar mais dinâmica a explicação e irmos direto ao ponto de maior interesse discriminaremos aqui somente os nichos que se encaixam no primeiro caso. No entanto, antes de começarmos propriamente é preciso dividi-los em quatro ramos para evitar confusões. São eles: militar, comunicação civil/comercial, sensoriamento remoto (doravante, SR) civil/comercial e outros mercados.
No tocante às aplicações militares, os autores ressaltam as seguintes possibilidades:
blue-force tracking (BFT), que consiste na identificação e comunicação de/entre forças
aliadas em um campo de batalha; intelligence, surveillance and reconnaissance (ISR), ou sensores e plataformas empregados para produzir imageamento, captar sinais e realizar medições, lócus de aplicação no qual os cubesats, dado o contexto de enxugamento de custos, podem ser favorecidos; defesa contra mísseis baseada em ativos espaciais e sistemas de alerta (parte daquilo que os autores chamam de Operationally Responsive Space – ORS) que, todavia, dependem ainda do amadurecimento da tecnologia dos satélites cúbicos; demonstração tecnológica, um mercado por excelência para os pequenos satélites visto que contribui para aumentar a confiança em componentes desenvolvidos para missões com tais máquinas, aumentando também, por conseguinte, a confiabilidade dos próprios cubesats;
space surveillance and situational awareness (SSSA), compreendendo o uso das referidas
máquinas miniaturizadas para mapear – com maior eficiência do que estações de solo – objetos capazes de colocar missões espaciais em risco, distinguindo-os ainda entre naturais e artificiais (man-made) e servindo até mesmo para diferenciar uma ameaça natural de um ataque intencional; “preenchedores de lacunas” ou “ampliadores de sistemas” (gap-
fillers/system augmentation), condição na qual os satélites miniaturizados podem funcionar
como substitutos temporários de satélites maiores avariados ou em processo de degradação para não permitir que a função que estes exerciam seja interrompida afetando a disponibilização dos serviços em solo (como satélites de comunicação, por exemplo) ou, no segundo caso, ampliar a capacidade existente de um sistema de satélites; e monitoramento de condições oceânicas, ainda que sobre esse ponto específico os autores do texto aqui utilizado como base não tenham total certeza dado a existência de tecnologias competidoras mais baratas e que não precisariam estar no espaço para exercerem suas funções (FOUST et al, 2008, pp. 3 a 6).
O ramo das comunicações civis/comerciais possui dois nichos de maior destaque. O primeiro deles é o uso de pequenos satélites para integrar redes de sensores em localidades remotas, que não podem contar com a presença humana por serem inóspitas ou, quando não, perigosas. Neste caso específico, como bem pontuam os autores, os principais clientes seriam os governos, interessados em cortar custos e na possibilidade que tais máquinas oferecem para equipes em solo de reprogramarem seus sensores à distância, sem terem, como costuma acontecer, de se deslocarem fisicamente até o local onde estão os sensores. O segundo corresponde à comunicação com locais remotos e serviços de dados, cujos principais clientes seriam, novamente, os governos. A iniciativa privada (empresas do ramo de energia e, até mesmo, do ramo turístico) por estar sujeita a “padrões imprevisíveis de atividades de exploração e perfuração”, não vê vantagem em manter satélites próprios que podem enfrentar períodos de desuso de duração incerta. Para ela a melhor saída é contratar este tipo de serviço
vis-à-vis suas necessidades ao invés de ser dona do mesmo (FOUST et al, 2008, pp. 6 e 7).
Em relação ao SR civil/comercial três são os nichos que podemos elencar. O primeiro é o de monitoramento de condições marítimas, uma aposta dos autores do texto aqui empregado tendo em conta a evolução da tecnologia dos cubesats. Como visto, essa aplicação pode privilegiar tanto civis quanto militares, ampliando a percepção de embarcações a respeito do que irão encontrar pela frente. A produção de imagens de alta resolução é o segundo nicho, podendo ser aplicada para mapeamento, planejamento urbano, segurança nacional, defesa e situações emergenciais. Se as constelações de pequenos satélites lograrem produzir imagens mais baratas, de qualidade superior e em maior quantidade àquelas dos grandes satélites darão um grande e decisivo passo para conquistar mais um mercado120. O terceiro e último nicho é o das imagens de média resolução, que compreendem o monitoramento de ecossistemas, níveis de poluição, condições oceânicas e de/reflorestamento. Atualmente, no que tange aos Estados Unidos, essa tarefa cabe aos satélites da série Landsat, desenvolvidos pela NASA, e a forma pela qual se dará a continuidade da missão permanece em aberto, podendo ainda recair sobre satélites de menor porte dado o seu custo reduzido (FOUST et al, 2008, p.8).
No que tange a outros mercados, tem-se que o nicho de maior potencial vislumbrado é o da exploração por meio de pequenos satélites (SR, comunicações e reconhecimento), uma aposta que a NASA, aparentemente, tem levado a sério (FOUST et al, 2008, p.10).
120 O diretor da DSAD esclarece que já existem satélites de pequeno porte capazes de produzir imagens de alta resolução tão ou até melhores do que aquelas de artefatos convencionais. No caso ele cita um cubesat 3U da empresa Planet Labs capaz de realizar imageamento de até 5 metros de resolução, desempenho superior ao do CBERS, que é de grande porte. Cf. ENTREVISTA COM MEMBROS DA AEB, 2016.
Ironicamente, o ramo intitulado “outros mercados” soa praticamente como uma repetição daquilo já discriminado nos outros três. Não é por acaso que isso ocorre: tudo está diretamente ligado à maneira como evoluirá a tecnologia dos cubesats, percepção esta que levou os autores do texto a associar a aceitação dos satélites miniaturizados em aplicações potencialmente lucrativas com o “dilema do ovo e da galinha”. O trecho a seguir, ainda que voltado para o caso específico das comunicações em locais remotos, esclarece o problema enfrentado por estes artefatos de forma geral: