• Nenhum resultado encontrado

Desafios e propostas para a Educação Profissional

CAPÍTULO V ANÁLISE COMPARATIVA DAS PROPOSTAS DE REFORMULAÇÃO

5.3 Desafios e propostas para a Educação Profissional

Essas instituições entendem que a focalização das ações na função educacional se faz necessária, no sentido de integrar as atividades e obter uma maior organicidade do sistema.

Tanto o SENAI quanto o SENAC defendem uma formação abrangente, geral, polivalente, sistêmica, com vistas à educação continuada, permanente, ao desenvolvimento de competências básicas e genéricas, uma vez que os atributos exigidos do trabalhador requerem novos posicionamentos das instituições voltadas a essa modalidade de ensino.

A formação profissional tem que ser polivalente, propiciando uma maior capacitação do indivíduo no ambiente de trabalho. A polivalência permite uma ocupação diversificada. A polivalência é uma proposta que surge como meio de sistematizar as mudanças almejadas. Aliás, aqui há uma diferença de concepção entre as duas instituições: enquanto para o SENAC a polivalência não propicia a “mobilidade ocupacional”, para o SENAI, ela favorece a ocupação diversificada nos postos de trabalho. A polivalência, para o SENAC, não tem por objetivo o preparo para o desempenho de diversos ofícios. Ela prepara o aluno intelectualmente para dominar a técnica. Para ele, uma formação polivalente visa favorecer a aquisição das “competências sócio-comunicativas” e a compreensão das relações econômicas, políticas e sociais que permeiam a realidade do trabalho.

Defendem uma prática pedagógica concebida pela psicologia cognitiva, que favoreça a capacidade de “aprender a aprender” e propicie desenvolver estratégias de metacognição. Cabe ressaltar que essa ênfase nos princípios do cognitivismo tem sido, também, um aspecto destacado nos discursos atuais de empresários, governos e Organismos Internacionais que falam na “Sociedade da Informação”, “Sociedade Aprendente”, “Sociedade do Conhecimento”.

As instituições de educação profissional anunciam preocupação em desenvolver as “habilidades básicas e educabilidade” e chega a impressionar a maneira como eles apóiam-se em autores da Escola Nova como Dewey, da Pedagogia Ativa, do aprender a aprender (Delors), para dar sustentação às suas afirmações. Falam também em propostas do ensino cuja abordagem privilegie a criatividade e a iniciativa, com vistas a formação polivalente. Porém, os atributos distintivos e enfatizados são os mesmos ressaltados pelas posições dos empresários e seus representantes como vimos em análise anterior e se referem, notadamente, às habilidades de caráter comportamental.

Abordam a necessidade de adotar uma postura pró-ativa, seletiva e progressiva. Resta saber o que elas entendem por atuação seletiva e progressiva. Por “seletiva” é possível imaginar os mecanismos utilizados para seleção de sua clientela pois, como vimos no Capítulo 2, nos últimos anos, os candidatos a ingresso nos cursos do SENAI já devem ser portadores de certificado do ensino fundamental, critério que outrora não existia.

Para essas instituições, há a necessidade de oferecer uma educação profissional que potencialize os indivíduos ao desempenho de novas práticas, em virtude da instabilidade do mercado. Uma formação que viabilize uma atuação autônoma, gerando condições de desenvolver atividades variadas. Esse discurso tende mais para a intenção de ampliar o espaço de atuação com vistas a expandir receitas do que propriamente por razões humanitárias. Essa justificativa parece mais plausível, na medida em que ambas apresentam preocupações em atender as demandas do mercado. Com que intuito seria, que não o de estender seu campo de ação, conquistando outras fatias de mercado?

Uma outra controvérsia de seus posicionamentos que identificamos é aquela onde elas dizem que as transformações no mundo do trabalho e o envolvimento dos trabalhadores nos processos produtivos exigem prioridades à ação educativa, devido a existência de novos padrões de qualificação e de requisitos de seleção e integração, onde o perfil demandado requer uma base ampla de qualificação e conhecimentos.

Essas instituições compartilham a idéia de que, a formação geral e técnica, ampla, possibilita o envolvimento no processo de trabalho. Nossa inquietação se baseia na seguinte questão: como pode isso ocorrer no interior dos sistemas produtivos? Seria possível envolver- se espontaneamente ou, ao contrário, a gestão participativa funciona mais como um engodo por induzir e, às vezes, até pressionar os indivíduos a participarem, sugerirem melhorias em seu ambiente de trabalho ampliando, assim, os ganhos de produtividade para o patrão? O item anterior fala que o ambiente de trabalho proporciona envolvimento. A contrapartida surge com a afirmação da necessidade de oferecer uma formação capaz de propiciar qualidades como essa. Ou seja, ao mesmo tempo que exigem uma formação que ofereça habilidades especiais para que o trabalhador obtenha condições de envolver-se no contexto de trabalho dizem que esses ambientes propiciam essa condição.

Elas entendem que a formação para o trabalho torna-se mais complexa tendo em vista, também, se tratar de uma clientela desprovida de educação básica; e que, a Educação

Profissional contribui para elevar o nível de eficiência da empresa e do trabalhador, favorecendo a qualidade dos produtos.

Um modelo consistente de formação profissional se preocupa com a ampliação e diversificação da clientela, incluindo aqueles com maior dificuldade de inserção nessa modalidade de formação, favorecendo o acesso dos “menos capazes”. Aliás, uma situação muito debatida atualmente tem sido a questão da diversidade que tem merecido destaque nos documentos de empresas e instituições voltadas à tão propalada Responsabilidade Social. Trata-se da questão da “inclusão”: digital, de gênero, deficientes, ou seja, inclusão dos tradicionalmente excluídos, “menos capazes”.35 Resta saber, no entanto, até que ponto essas iniciativas surtem os efeitos desejados pela população afetada por essas limitações.

Cabe aos modelos de formação profissional assumir um caráter de alta flexibilidade, que possibilite abranger todos os níveis e propiciar uma formação polivalente, promovendo a empregabilidade. Isso implica em não restringir a oferta aos trabalhadores do setor formal. Essa determinação tanto para as políticas, como para a diversificação da clientela parece ser uma condição importante para eles, tendo em vista que é a oportunidade de atender a uma multiplicidade de público, com oferta de cursos e serviços dos mais variados tanto em termos do tipo como do conteúdo, duração etc. Por outro lado, se as empresas adotam os princípios da flexibilidade com relação à contratação, demissão e gestão da mão-de-obra, por quê as instituições de Educação Profissional, também, não se comportariam nessa direção adotando tais práticas? Ou seja, se o trabalho atualmente tem sido encarado sob o ponto de vista da flexibilidade, como uma condição rotativa e instável, infere-se que as instituições de Educação Profissional queiram diversificar suas práticas e oferecer uma formação mais compacta, aligeirada, como ocorre nos grandes supermercados com os kits variados de mercadorias compostos por um conjunto de opções que possam “agradar” a todos os compradores e, ao mesmo tempo, suprir as lacunas causadas pela redução orçamentária.

A Educação Profissional, nessa perspectiva, assume uma condição de provisoriedade, na medida em que imbuída pela ideologia da educação continuada, a cada momento que o

35

Aliás, no Rio de Janeiro a Prefeitura construiu um prédio destinado a atividades de reabilitação e, junto com a Previdência Social, promove encontros com representantes de empresas responsáveis pelo encaminhamento de benefícios previdenciários dos funcionários, onde o SENAI participa como parceiro, disponibilizando técnicos especializados na área para proferir palestras de orientações de como as empresas podem contribuir com o assunto. Ele (o SENAI), inclusive, dispõe de uma unidade estruturada para o treinamento direcionado a pessoas deficientes ou com problemas de reabilitação profissional, com vistas à inserção/reinserção no mercado de trabalho.

indivíduo é pressionado a recorrer ao mercado para adquirir novos conhecimentos, elas estão sempre propensas a atendê-los e o apelo nesse sentido é intenso. A corrida pela formação continuamente conquista novos adeptos. Como nem sempre as promessas de sucesso são factíveis, a impressão que fica nas pessoas é a marca da (auto)incompetência, tendo em vista que, em última instância, são elas as responsáveis pelos acertos, mas também, pelos fracassos. Essa postura reflete bem a defesa nos documentos analisados, pelas teorias construtivistas que imprimem um teor de salve-se quem puder. Nelas, as condições são disponibilizadas e os resultados dependerão da criatividade e iniciativa de cada um. Portanto, a revisão das políticas e práticas institucionais e pedagógicas se faz necessária, a fim de atender aos novos requisitos das demandas diferenciadas do mercado formal e informal.

Para elas a formação abrangente permite a inserção no mundo do trabalho, reconversão e orientação profissional, a pré e pós-formação. Ou seja, atiram-se de todos os lados para abraçar o público capaz de propiciar a geração de receitas, sejam próprias, ou subsidiadas pelas organizações privadas ou pelos recursos públicos como os do FAT, já citados neste trabalho, pois independentemente da condição do trabalhador, a premissa básica é oferecer a todos (empregados ou não). Entre as idéias de ampliação do mercado, encontra-se aquela que sugere a oferta de ensino médio, técnico e tecnológico. Essas novas frentes de ação dizem respeito tanto à oferta de cursos, venda de produtos, quanto à clientela atendida, com vistas a arrebanhar outros subsídios financeiros. Esse pode ser um exemplo característico de flexibilidade.

Uma questão interessante que também chamou nossa atenção nos argumentos dessas entidades, é a maneira como elas incorporam elementos do discurso crítico, quando dizem que o papel da formação profissional é viabilizar a compreensão da abrangência de uma “práxis profissional”, entendida como ferramenta capaz de suprir o trabalhador de condições para interagir, de modo criativo e crítico, no ambiente onde está inserido.

Documentos relacionados