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4. Resultados e Discussão

4.8. Desafios e requisitos para implantação

Muitas das estratégias apresentadas neste estudo implicam em mudanças estruturais e custos iniciais elevados. Os grandes custos iniciais e longos tempos de construção envolvidos no aproveitamento do potencial hidrelétrico e construção de infraestruturas de transporte de baixo carbono exigirão fluxos financeiros substanciais e arranjos institucionais eficientes para fornecer financiamento em condições adequadas. Um fluxo financeiro proveniente do exterior com o objetivo de financiar tais iniciativas contribuiriam enormemente para o sucesso de implementação das medidas aqui apresentadas, dada a baixa capacidade de poupança da economia brasileira.

Para o Brasil se engajar em um processo de mitigação mais ambiciosa, diversas medidas políticas e de planejamento podem ser imediatamente recomendadas. Reforçar as iniciativas que visem a contenção do desmatamento é uma dessas medidas, de modo a garantir que não haveria grandes desvios da atual trajetória que leva a um desmatamento ilegal próximo de zero dentro de uma década. Uma prioridade semelhante deve ser concedida para expandir substancialmente as áreas de florestas plantadas em terras degradadas e incentivar o reflorestamento, desde que assegurados os esquemas financeiros adequados para atender os elevados custos iniciais. Outro esforço importante seria garantir que o efeito líquido do sistema de impostos e subsídios sobre os mercados de energia favoreçam a adoção generalizada de medidas de eficiência energética e maior penetração de energias renováveis. Para assegurar esse efeito, no curto prazo, é essencial que não haja subsídios à gasolina, ao diesel e a outros combustíveis fósseis, e restabelecer a saúde financeira do setor elétrico.

Estender os incentivos já existentes para investimentos em energias renováveis para outros tipos de equipamentos, tais como geração solar fotovoltaica e aquecedores solares, e levar os fornecedores de eletricidade a adotar tecnologias de redes inteligentes também podem produzir retornos interessantes no curto prazo. A elaboração de um plano detalhado e viável para reestruturação do transporte de longa distância no Brasil, priorizando os modais ferroviário e hidroviário, sensivelmente mais eficientes, é outra iniciativa não só reduziria as emissões de forma significativa, mas também responderia à preocupações da comunidade empresarial. Uma iniciativa semelhante também deve ser realizada em colaboração com as autoridades locais no tema mobilidade urbana, um aspecto da infraestrutura brasileira que precisa de melhorias importantes e cuja prioridade é alta na agenda política neste momento.

Dentre os principais desafios tecnológicos aqui identificados estão a concepção e construção de uma nova geração de usinas hidrelétricas na Amazônia que evitem a perturbação dos ecossistemas. Outro ponto importante é a necessidade do desenvolvimento de soluções que possibilitem uma geração

elétrica facilmente despachável a partir de diferentes fontes de biomassa, a fim de substituir parte da geração elétrica a partir de combustíveis fósseis em períodos secos e na ponta.

No âmbito internacional, um conjunto de ações técnicas e políticas, juntamente com um caso convincente para os perigos da inação, podem criar uma chance real de manter o aumento de temperatura no planeta abaixo de 2oC. Para que seja alcançada tal descarbonização da economia global é preciso uma importante transformação na sociedade, da qual certamente emergirão novos vencedores e perdedores. A fim de somar forças com este objetivo, são necessários alguns pré- requisitos. Um dos mais importantes passa por uma forte sensibilização do público para os potenciais perigos das alterações climáticas e das armadilhas da inação. Os resultados aqui apresentados apontam que o Brasil se beneficiaria em um cenário mundial em que o esforço de descarbonização fosse aumentado, dada a abundância de recursos naturais renováveis no país.

Dentre os riscos identificados no estudo, pode-se destacar barreiras para implementação das medidas de mitigação escolhidas assim como custos ocultos. Dentre estas barreiras podem-se destacar barreiras técnicas, uma possível heterogeneidade das empresas dentro de um mesmo setor, efeito rebote (rebound effect), barreiras de mercado, incertezas, inércia de setores mais conservadores, falhas de mercado, informações incompletas de alguns agentes, e barreiras de financiamento. É importante ressaltar que ignorar tais barreiras pode levar a uma subestimação dos custos de abatimento e eu uma superestimação dos potenciais de abatimento.

5. 6. Limitações e Recomendações para Estudos Futuros

A versão do IMACLIM-BR apresentada no decorrer desta tese tem algumas restrições e limitações, que serão descritas a seguir. Recomendações para estudos futuros também serão apresentadas nessa seção.

Uma das mais importantes limitações desta versão do IMACLIM-BR é o fato dele não descrever a trajetória da economia nos anos intermediários entre o ano base (2005) e o ano final estudado (2030). Este problema foi em parte remediado pelo acoplamento do modelo com o MESSAGE e os demais modelos setoriais, que passaram a fornecer, a cada 5 anos, resultados detalhados de seus respectivos setores: níveis de produção, capacidades instaladas, investimentos totais, etc. Entretanto, para se ter realmente uma descrição da economia nos anos intermediários é necessário o desenvolvimento de uma versão dinâmica do modelo. Este será um dos principais desenvolvimentos visando a realização da segunda fase do projeto IES-Brasil, com horizonte de estudo 2050.

Para inferir o impacto social das políticas climáticas no Brasil, é necessário desagregar as famílias em classes de renda, e assim poder analisar a consequências da política em questão sobre a desigualdade social, ponto extremamente importante no caso do Brasil, um dos países mais desiguais do mundo (Neri, 2011). Na versão utilizada neste estudo, as famílias foram desagregadas em 3 faixas de renda, o que é um bom começo, mas não é suficiente para calcular o índice de GINI e desenhar curvas de Lorenz para cada um dos cenários simulados. A futura extração dos microdados da POF e PNAD possibilitará desagregar as famílias em decis, além de permitir o mapeamento das qualificações da mão de obra, e a modelagem de um mercado de trabalho para cada tipo de qualificação (baixa, média, alta). O desenvolvimento deste novo módulo de distribuição de renda encontra-se em andamento, e a ideia é que ele esteja pronto para utilização na segunda fase do projeto IES-Brasil.

Outra limitação importante decorrente da natureza estática do modelo envolve a representação dos investimentos em mitigação identificados pelos modelos setoriais. Simplificações do fluxo de investimentos e dos fluxos de caixa foram feitas de modo a representar da melhor forma possível o conjunto de medidas de mitigação selecionado para cada cenário. A elaboração da versão dinâmica do modelo IMACLIM-BR ajudará a superar esta limitação.

É extremamente importante é o desenvolvimento de uma ligação forte (hard-link) totalmente automatizada entre o IMACLIM-BR e o modelo de oferta de energia (MESSAGE), de forma a facilitar e possibilitar um número maior de simulações e cenários, que também deve ser desenvolvido no futuro. Desse modo, espera-se que seja possível a realização de simulações robustas até 2050.

Também é necessário o desenvolvimento de uma ligação forte (hard-link) entre o IMACLIM-BR e um modelo de uso do solo. O motivo é bem conhecido: o Brasil é um país continental, com a maior floresta tropical do mundo, com um setor agropecuário importante, sem citar a grande importância das emissões do setor AFOLU nas suas emissões totais. Portanto, além da importância de se considerar o setor na contabilização das emissões totais do país, uma dúvida surge ao se analisar o efeito das recentes e importantes políticas de combate ao desmatamento da Amazônia, aliadas aos cenários econômicos de intenso crescimento projetados pelo governo, assim como os cenários agrícolas também bastante otimistas. Contudo, é importante verificar em quais casos a limitação da oferta de novas terras vai provocar uma pressão sobre o preço das mesmas, que se refletirá no preço dos alimentos. O estudo desses feedbacks macroeconômicos é de grande interesse, e seus efeitos sobre a distribuição de renda e segurança alimentar das classes mais pobres são de extrema importância. Uma ligação forte entre os modelos permitirá a simulação de um número maior de cenários, onde diversas hipóteses poderão ser testadas, ajudando a responder a este importante questionamento.

Outro ponto interessante que deve ser estudado mais a fundo no futuro diz respeito à competitividade do Brasil frente o resto do mundo. O modelo IMACLIM-BR tem como foco o Brasil, e assim não consegue simular políticas climáticas no restante do mundo e consecutivas variações nos preços relativos. Como o Brasil é um país em desenvolvimento sem obrigação de redução de emissões, é plausível a hipótese de que o Brasil está implementando a política climática em questão devido a um acordo internacional, onde outros países estarão da mesma forma obrigados a reduzir as emissões. Dessa forma surgem duas possibilidades de tratamento desta questão (i) Verificar a relação entre o conteúdo de carbono dos principais bens exportados pelo Brasil e o conteúdo de carbono da produção dos mesmos produtos no resto do mundo: A hipótese aqui é que esta relação seria uma boa proxy da variação de preços destes produtos no resto do mundo em relação à variação de preços no Brasil devido à política climática; e (ii) avaliar o impacto deste acordo sobre os preços internacionais através uma simulação com o IMACLIM-R, a versão global da plataforma, e assim ter um feedback consistente da evolução dos preços do resto do mundo.

No sentido de possibilitar e complementar os aprofundamentos acima mencionados, é necessário contar com um modelo que represente de forma mais detalhada os setores produtivos da economia. Uma matriz insumo-produto mais desagregada faz-se necessária para este propósito. Com o intuito de ser utilizada em uma fase futura do projeto IES-Brasil, foi desenvolvida uma matriz que conta com uma quantidade maior de setores individualmente representados, com destaque para: (1) os produtos agrícolas que servem de matéria-prima para biocombustíveis, cana-de-açúcar e soja; (2) novos setores industriais de relevância com relação a emissões, cerâmica, vidro, cal e fertilizantes agrícolas; (3) combustíveis líquidos, gasoálcool, etanol e dieselB; (4) o setor de transporte separado não apenas entre passageiros e carga, mas também por modais (rodoviário, ferroviário, hidroviário e aeroviário); (5) setores de saúde e educação, a fim de possibilitar a simulação de políticas públicas de cunho social.

Referências bibliográficas

EPE (Empresa de Pesquisa Energética), 2014, Cenário Econômico 2050. Nota Técnica DEA 12/14. Rio de Janeiro. EPE (Empresa de Pesquisa Energética), 2014, Demanda de Energia 2050. Nota Técnica DEA 13/14. Rio de Janeiro.

IBGE, 2011, Sistema de Contas Nacionais Brasil 2005-2009, Contas Nacionais n. 34, Rio de Janeiro, Diretoria de Pesquisas – Coordenação de Contas Nacionais, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

IBGE, 2014, Projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação. Disponível em http://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/. Acesso em março de 2014.

IPEA, 2014, Série PIB (preços 2013) – Frequência: Anual de 1900 até 2013, R$ de 2013 (milhões). Acesso em março de 2015. Santolin, R., Antigo, M. F., 2009. Curvas de salários dinâmicas: Um estudo dos determinantes da histerese do desemprego no Brasil. Texto para Discussão No 368. Belo Horizonte: UFMG/CEDEPLAR, 2009.

Wills, William., 2013. Modelagem dos Efeitos de Longo Prazo de Políticas de Mitigação de Emissão de Gases de Efeito Estufa na Economia do Brasil. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Planejamento Energético, COPPE/UFRJ, para obtenção do título de Doutor em Ciências do Planejamento Energético.

Anexo I – O modelo IMACLIM-BR – Aspectos teóricos e

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