CAPÍTULO I. PLOBLEMATIZAÇÃO DO FENÔMENO EVASÃO ESCOLAR NO
CAPÍTULO 3. REALIDADE SÓCIO-ESTUDANTIL E CONTEXTO FAMILIAR
3.5 Desafios escolares e o contexto socioestudantil
No processo de busca pelo entendimento, no que tange os desafios para frequentarem a unidade escolar, pode-se dizer que os maiores entraves para os estudantes frequentarem às aulas são: dificuldades no acesso ao transporte, dificuldade de aprendizagem, mudança de endereço das famílias e ausência de creche na região, pois na carência da mesma, os filhos mais velhos tendem a faltarem às aulas para cuidar dos irmãos.
No caso de dona Romilda, esta mãe atribui como uma das dificuldades enfrentadas na vida escolar do filho a mudança de endereço. Como é pastora, se transfere muito e, devido a este fato, o filho também tem que se transferir de escola. Hoje estão morando no bairro São Carlos, setor adjacente ao bairro da Vitória, onde está localizado o Centro de Ensino em Período Integral Ismael Silva de Jesus.
Segundo dona Maria, seu filho falta se for preciso ir ao médico, ou por algum outro motivo que justifique sua ausência, mas que o filho quase não falta à escola, porque não deixa que o filho se ausente da unidade de ensino por motivos banais. “Eu num gosto que ele pára de ir, porque... não tem assim... um caso de faltar à escola pra ficar em casa à toa não”, expõe a mãe de Thiago. Na entrevista, percebe- se uma certa timidez da mãe ao falar das faltas do filho. Acredita-se que isso se deve ao fato de a mesma ser beneficiária do Programa Bolsa Família5, e para que tenham direito ao benefício é exigida a condicionalidade da frequência escolar, isto é, a presença dos filhos na escola.
Mesmo que o programa tenha como foco garantir a essas famílias o direito à alimentação, o acesso à educação e à saúde, o benefício não se apresenta como um referencial para a mudança da qualidade de vida, até mesmo pelos valores pagos. E, ainda que possa ter impacto no que diz respeito a frequência escolar dos alunos, em termos de desempenho ou rendimento escolar, nada tem comprovado uma significativa contribuição, haja vista que, o valor pago é pouco para gerar maiores acessos a direitos, como também o Programa não atua estruturalmente para reverter a situação de pobreza extrema em que as famílias vivem, são ações compensatórias que, sozinhas, quase não geram mudanças. Embora, garantir o mínimo já seja um começo importante para o início das grandes mudanças que a
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O Bolsa família é um programa de transferência direta de renda, direcionado às famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo país, de modo que consigam superar a situação de vulnerabilidade socioeconômica. (MARCONATO, 2018, p. 31).
realidade brasileira carece. Porém, outras ações precisam ser coadjuvantes de um programa da envergadura deste.
Diante das realidades de vida aqui apresentadas, é necessário dizer que as políticas sociais ainda estão longe de alcançar as necessidades múltiplas que envolvem as condições de vida das classes mais pobres da sociedade. Assim, os estudantes pertencentes a essas classes se veem sem condições de superar as adversidades encontradas no dia a dia e acabam abandonando os estudos. Como assinala Oliveira (1999, p. 60):
Os jovens e adultos constitui-se excluídos da escola (...). Refletir sobre como esses jovens e adultos pensam e aprendem, envolve, portanto, transitar pelo menos por três campos que contribuem para a definição de seu lugar social: a condição de ”não-criança”, a condição de excluídos da escola e a condição de membros de determinados grupos culturais.
Dona Socorro assinala como problema mais grave a questão do transporte. A mãe tem que deixar seus filhos na escola em um horário mais cedo para conseguir chegar a tempo no seu local de trabalho. Então os filhos sempre ficam do lado de fora, expostos a vários tipos de riscos, relata ser esta a maior dificuldade. Dona Socorro mora no setor JK 2, em um lugar de difícil acesso.
Os moradores do Residencial JK vivem em situação de total precariedade em relação à infraestrutura. Conforme relata a entrevistada, a ocupação do loteamento foi feita de forma irregular e, devido ao bairro não ter transporte que atenda à região, seus filhos enfrentam muitas dificuldades para chegarem até a unidade de ensino, sendo uma delas, a de levantarem muito cedo e ficarem expostos aos vários tipos de riscos antes de adentrarem à Unidade Escolar, pois ainda são crianças.
De acordo com informações coletadas do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (2012, p. 01) a área ocupada consistia em ser um loteamento da região Noroeste de Goiânia que se encontrava sob a responsabilidade da Sociedade Habitacional Norte, evento este que teve início em 2005. Conforme informou o jornal, e relato de famílias entrevistadas, o bairro ainda carece de regularização fundiária.
A regularização da área não é um processo simples, pois, ao que indicam os dados do Ministério Público de Goiás, além das irregularidades técnicas, os responsáveis pelo loteamento têm envolvimento de longo prazo com a especulação imobiliária em Goiás. Assim, há evidente exploração do mercado imobiliário para
com as pessoas com situação de pobreza, evidenciando um processo histórico diante do sonho da necessidade de ter casa própria.
Para dona Florinda, a situação é mais difícil ainda, não hesitando em dizer: “não temos transporte para minha filha e minha filha anda mais de 5 km a pé, eu tenho que levá, volto pra casa e torno buscá, e volto com ela pra casa quase 5 km de pé”. Não tem ônibus no bairro, não tem transporte para a filha ir estudar e o dia em que adoece ou que está chovendo, também não tem como ir à aula. Então, de acordo com a explicação da mãe, às vezes, a filha perde aula por esses motivos.
Acordar de madrugada, sujeitar-se ao frio e a chuva e, na maioria das vezes, enfrentar lama, poeira e distância, não é uma tarefa nada fácil para quem estuda em regiões afastadas, como é o caso de Sueli, filha de dona Florinda. Esse fato foi por mim evidenciado ao entrar em contato com mãe e filha, fui até o local onde moram realizar a pesquisa. Constatei tamanha dificuldade no acesso à educação dos filhos, pois o local, longe, é considerado como zona rural e, no campo, onde atravessam várias vezes ao dia, há risco para as crianças, por ser lugar de difícil acesso e servir de pasto para alimentação de gados criados na região.
A desigualdade social, a falta de oportunidades e a negação de direitos fundamentais para uma vida digna são tão grande que, às vezes, fica impossível o acesso e permanência na escola, ainda que ela seja a única alternativa para sonhar e ter um projeto de vida, quando nos referimos às crianças, adolescentes e jovens de famílias em situação de pobreza. Ao levar em consideração a trajetória e as dificuldades que muitos estudantes enfrentam para chegarem a sala de aula, devido à distância entre as escolas e residências, ficam mais claros os motivos pelos quais muitos desistem dos estudos.
O direito ao transporte escolar é assegurado pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 208, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), no artigo 4, e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 54. Tem como objetivo promover o acesso do aluno às escolas, condição básica para garantir a educação, porém, o que se percebe é que isso não acontece na prática, pois, além de não terem transporte escolar satisfatório, alguns bairros, como é o caso do JK, situado na região Noroeste de Goiânia, não possuem transporte coletivo urbano, muito menos escolar, isso, em si, impede o acesso regular à escola.
A situação socioeconômica de dona Rosa também impõe limites para que sua filha frequente às aulas. Ela tem que sair para trabalhar muito cedo, deixando a filha na responsabilidade de outras pessoas, contando com o apoio delas para levar sua filha à escola.
Como se pode perceber, as dificuldades enfrentadas pelas famílias entrevistadas são várias e ocorrem por motivos adversos. Ao retratar a relação de problemas com a infrequência do aluno na escola, Marchesi (2006 p. 15) comenta que:
[...] a trajetória educacional do aluno se encontra diretamente relacionada ao modelo de sociedade no qual este se encontra inserido. Em outras palavras, o conhecimento das características sociais do aluno, poderá levar a compreender, porque surgem riscos de evasão escolar.
Marchesi, em sua discussão, sugere que para compreender os motivos que arrastam alunos para evasão escolar, carece de passar pelo labirinto do conhecimento das características sociais e suas particularidades.
Um outro problema narrado por outra mãe deve-se à dificuldade que a filha enfrenta no processo ensino-aprendizagem, pelo fato de a mesma não saber a ler e nem escrever. Sugere haver falta de compreensão por parte dos professores e, por isso, a filha sente-se constrangida. Acredita a mãe que, um pouco dessa dificuldade tenha a ver com o fato de sua filha ter feito a primeira fase do ensino fundamental em uma escola municipal. Alude a mãe que, o sistema de avaliação das escolas municipais é mais brando, e que a filha era aprovada sem condições para se promover de série.
Alguns jovens tem um histórico escolar marcado pelo insucesso e, muitas vezes, sentindo-se desmotivados, consideram a continuação dos estudos como uma realidade impossível, deixando o sistema educacional e, ainda, sem qualificação necessária para ingressar no mundo do trabalho, ocupando os empregos menos remunerados, quando não enfrentando a situação do desemprego. A baixa escolaridade diminui a chance para o ingresso no mercado de trabalho.
Como se percebe, são grandes as carências dos indivíduos que são obrigados a conviver com a miséria, violência e ausência de direitos fundamentais. De fato,
Infelizmente o que se sente, dia a dia com mais força aqui, menos ali, em qualquer dos mundos em que o mundo se divide, é o homem simples esmagado, diminuído e acomodado, convertido em espectador, dirigidos por mitos que forças sociais poderosas criam para ele, que se voltando contra ele, o destroem e aniquilam. É o homem tragicamente assustado temendo a convivência autêntica e até duvidando de sua possibilidade. (FREIRE, 2003, p. 53).
No caso de dona Divina, o fato de ter a necessidade de, muitas vezes, sair para resolver as coisas, a filha precisa ficar com os irmãos em casa. Na tentativa de aumentar a renda vai para outros setores vender pano de prato, tapete de retalho, os quais ela mesma confecciona. Porém, ao sair, não poderia deixar as crianças sozinhas, mas essa é uma realidade para muitas famílias de baixa renda. Essa situação requer a existência de mais creches na região, capazes de atender a essas demandas, favorecendo a permanência de todos os irmãos na escola, desde a mais tenra idade.
O baixo grau de escolaridade, as más condições de trabalho e subemprego a que estão sujeitas as famílias pobres em uma sociedade capitalista, faz do emprego informal a única possibilidade de tentarem garantir renda. Nas condições socioeconômicas em que estão inseridos, preocupados com a busca pela sobrevivência, a escola deixa de ser prioridade na vida desses indivíduos, o que nos leva a entender o ato desses fatores, os quais dificultam a permanência da criança na escola e o acesso ao direito à educação.
Ao se buscar compreender o fenômeno histórico da evasão escolar, fazendo relação de suas nuanças com as expressões da questão social, buscou-se fazer relação com o papel do profissional de serviço social na escola. Sobre a atuação do assistente social na escola, o CFESS (2001, p. 12) assinala que:
O Serviço Social no âmbito educacional tem a possibilidade de contribuir com a realização de diagnósticos sociais, indicando possíveis alternativas à problemática social vivida por muitas crianças e adolescentes, o que refletiriam na melhoria de suas condições de enfrentamento da vida escolar. Afirma Sylvia Terra em seu parecer (...), que o assistente social tem, entre outras, a atribuição de analisar e diagnosticar as causas dos problemas sociais detectados em relação aos alunos, objetivando saná-los ou atenuá-los.
3.6 Obstáculos determinantes para as ausências escolares no universo da