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CAPÍTULO 3 - LOGÍSTICA REVERSA AMBIENTAL DE RESÍDUOS DE

3.6 Desafios na busca pela efetividade da PNRS

forma de absorver a grande quantidade desses resíduos que é gerada no próprio país, razão pela qual a importação não é aconselhável no momento.

Revela-se, assim, que a proteção ambiental idealizada pela PNRS ainda é meta a ser alcançada. De fato, há previsões legais de diversos instrumentos que podem conferir efetividade à Política em discussão, todavia, trata-se do primeiro passo rumo ao horizonte ainda distante.

É possível afirmar que a PNRS e seu decreto regulamentador estão em consonância com os requisitos vigência, legitimidade e eficácia (no sentido de aplicabilidade jurídica).Contudo, a efetividade dessas normas ainda não foi alcançada, pois depende da observância efetiva pelos seus destinatários.

Porém, é necessário ainda que se indague a efetividade das normas sob dois enfoques: se as normas são efetivamente cumpridas e se as normas contribuem para que o sistema jurídico atinja seus objetivos, ou seja, se há efetividade do sistema jurídico no meio social, no que respeita ao seu cumprimento, e, se para tanto, disponibiliza os instrumentos para que os aplicadores da norma atuem de modo a efetivá-lo.

Verifica-se, pois, que a amplitude de aplicabilidade de uma norma é mensurada por sua eficácia jurídica e por sua efetividade: efetividade no plano de seu real cumprimento e eficiência no plano de alcance de suas finalidades. Uma norma vigente, juridicamente eficaz, pode ser efetiva e não atingir suas finalidades, ou ser relativamente inefetiva, não ser de fato aplicada, mas, no entanto, ser cumprida e atingir suas finalidades.

A efetividade pode ser, então, referente à eficácia social, que apura se a norma tem sido realmente observada por seus destinatários ou à eficiência, que verifica se a norma alcançou as finalidades a que se destina, afinal uma norma sempre é criada em função de um determinado fim a ser atingido direta ou indiretamente, que poderá ou não ser alcançado, e, sendo atingido, isso poderá ocorrer em diversos níveis.

Como constatado no decorrer deste trabalho, a PNRS e seu decreto regulamentador prevêem uma série de instrumentos e medidas aptos a conferir efetividade aos objetivos também por eles delineados. Destacam-se, portanto, os princípios, os planos de resíduos sólidos, os acordos setoriais, os termos de compromisso, os regulamentos, os incentivos, as proibições, entre outros mecanismos não menos importantes e já apresentados no decorrer deste estudo.

Em que pese a tentativa legal de alcançar a consolidação de uma política de resíduos sólidos efetiva, a realidade aponta para deficiências normativas importantes que caso não venham a ser sanadas implicarão em prejuízos para as presentes e futuras gerações.

Considerando os impactos negativos causados ao meio ambiente e à vida humana pelo descarte inadequado de REEEs, a PNRS instituiu a obrigatoriedade da logística reversa dos EEEs e seus componentes valorizando, de forma louvável, aspectos sustentáveis imprescindíveis à realidade da sociedade contemporânea.

Entretanto, para que a logística reversa seja aplicável é necessário, primeiramente, a criação de planos de resíduos sólidos no âmbito dos respectivos entes federativos ou

atualização daqueles que já existem para identificação das especificidades de cada região como, por exemplo, a quantidade de resíduos gerados, a disponibilidade de aterros autorizados, identificação de custos logísticos, medidas sustentáveis em curso, entre tantas outras necessidades específicasvoltadas ao adequado gerenciamento dos resíduos.

A iniciativa privada também deverá elaborar planos privados de resíduos sólidos quando o volume, periculosidade ou natureza implicarem em necessidade de acompanhamento mais rigoroso.No que concerne aos REEEs, quase sempre tais planos deverão ser elaborados tendo em vista a presença de metais pesados na composição desses equipamentos.

Em um segundo momento desponta a necessidade de elaboração de acordos setoriais, termos de compromissos ou regulamentos para implantação da logística reversa de REEEs, mediante prévias discussões entre Poder Público e agentes responsáveis pela gestão compartilhada do produto.

É possível constatar, então, que para fixação da obrigatoriedade da logística reversa de REEEs existe um longo caminho a percorrer. Não há previsão em lei de cronogramas nem de regras mais específicas para a implementação do referido instrumento, razão pela qual resta aguardar a realização dos acordos setoriais ou outros instrumentos também aptos ao propósito. Espera-se, contudo, que a ausência de previsão legal de prazos específicos para medidas que impliquem na consolidação da logística reversa de EEEs não resulte em falta de efetividade da PNRS, mediante sucessivas prorrogações, em total desrespeito à segurança jurídica, que deve ser correlata às normas em comento sob pena de péssimas repercussões de cunho ambientalista.

Fundado-se nas circunstâncias elencadas, observa-se que a Lei 12.305/2010 e o Decreto 7.404/2010 são normas programáticas, de execução diferida e eficácia limitada, ou seja, normas que produzem efeitos jurídicos, só que de forma parcial. Destas normas não surgem direitos subjetivos de forma direta e imediata, pois necessitam da mediação, em regra, de outras normas para a sua plena realização nas relações concretas.

Acredita-se, assim, que os mencionados diplomas legais não disciplinaram, de forma pormenorizada, questões essenciais para implantação da logística reversa de REEEs. Tal fato torna-se notório, por exemplo, nos artigos referentes aos catadores de lixo, que induzindo a inserção destes trabalhadores no serviço de coleta de resíduos, como forma de regularização profissional da categoria, deixaram de apreciar pontos significativos como a diferenciação entre os resíduos sólidos domiciliares e os demais resíduos sólidos, principalmente no que diz

respeito à forma de tratamento e a viabilidade econômica e técnica de capacitação desses profissionais para lidar com lixo eletrônico.

A inserção dos catadores de lixo, ação extremamente afeta à PNRS, na coleta de REEEs é algo quase inalcançável, tendo em vista que estes profissionais não possuem qualificação técnica e conhecimento especializado para o trato dos materiais. Além disso, outros problemas são a atribuição da responsabilidade por danos ambientais decorrentes da gestão ineficiente dos resíduos e a necessidade de licença ambiental para o estabelecimento onde o lixo eletrônico será manipulado.

Precisamente a esse ponto, da inserção dos catadores de lixo nas atividades relativas ao ciclo de vida dos produtos eletroeletrônicos, a PNRS prevê uma série de incentivos para as empresas que promoverema respectiva prática. Resta averiguar em que situação as empresas efetuarão a inclusão destes trabalhadores.

Diante da busca insensata pela obtenção dos incentivos advindos do Poder Público receia-se que as empresas atuantes com resíduos sólidos distintos dos resíduos domésticos, com os quais os catadores de lixo estão aptos a trabalharem, sem critério algum, explorem a mão de obra destes profissionais com ausência de zelo, alocando-os em atividades com maiores riscos de contaminações sem o devido preparo técnico.

São inúmeras, portanto, as deficiências legislativas na PNRS e no seu decreto regulamentador. Entretanto, cabe ressaltar que o Ministério do Meio Ambiente tornou público no início desse ano o primeiro chamamento para elaboração de acordo setorial com fins de implantação do sistema de logística reversa de produtos eletroeletrônicos e seus componentes.

A proposta preliminar determina que o acordo setorial deveráprever, dentre outras medidas, a descrição das várias etapas do sistema de logística reversa, a possibilidade de inserção dos catadores de lixo ou cooperativas desses profissionais, cronograma de acompanhamento, metas de implantação progressiva dentro de um prazo de cinco anos contados da assinatura do acordo, menção aos pontos de recebimento dos REEEs e penalidades para casos de descumprimento do acordo setorial.

Até o momento foram entregues quatro propostas de acordo pela iniciativa privada e acredita-se que até o final do ano a problemática da logística reversa de REEEs terá normas específicas aptas a suprir a ausência legislativa atual e conferir efetividade a PNRS.

Diante desse contexto, releva-se que é fundamental a definição de novos parâmetros normativos como forma de conferir efetividade a todo o aparato legal já existente e para o bem concebido, de modo que a logística reversa de REEEs possa ser vivenciada como realidade nacional. Assim, à luz desse ponto de vista, espera-se que tais normas programáticas

não sejam meros enfeites legais, declarações de intenções políticas ou até mesmo pura demagogia.