• Nenhum resultado encontrado

5. Aprender a Ensinar, ensinando

5.13. Desafios para crescer dificuldades para aprender

A presença de alunos com atestado médico nas aulas obrigou-me a refletir sobre a melhor forma de os avaliar, tendo como máxima: não penalizar nenhum aluno da turma. Com este intuito, a primeira medida que tomei para os alunos com estas características foi ver os critérios de avaliação da escola para estes casos11 e, posteriormente, definir estratégias de forma a incluí-los nas aulas e garantir que eles aprendessem.

Esta preocupação foi inclusive, destacada por um aluno no final do ano, quando o PC pediu a opinião dos alunos da minha turma sobre as aulas de EF:

“Na minha opinião acho que o professor evoluiu e melhorou alguns aspetos relativamente aos períodos anteriores, até mesmo com os alunos que estão de atestado” (aluno 1, 02/05).

Obviamente que a inclusão destes alunos, inicialmente, não foi fácil, pois estes não sabiam bem o que fazer, contudo, com uma definição rigorosa das tarefas que estes alunos tinham de realizar, com mecanismos de autorregulação

11 In critérios de avaliação (ensino secundário e ensino profissional) departamento:

Aprender a Ensinar, ensinando

124

que tinham de cumprir e o desenvolvimento da sua autonomia, a sua função começou a ser mais clara e a produzir resultados mais profícuos para todos.

A maior responsabilização concedida permitiu o crescente desenvolvimento de papéis de maior relevo, apoiando os colegas nas diferentes tarefas e aumentando o seu envolvimento na aula. Pelo facto de estes alunos se sentirem parte integrante da aula, os seus resultados melhoraram no domínio do saber e do saber estar.

A avaliação dos alunos com atestado médico acontecia, obviamente, de forma diferenciada, face às suas particularidades. O saber foi avaliado, através da realização de uma questão aula e de um trabalho que pressupunha uma reflexão sobre as ações técnicas e táticas abordadas, situações de jogo e os conteúdos ensinados. O saber fazer foi avaliado, através de atividades de aula, divididas em 4 categorias, como mostra o Quadro 11.

Quadro 11. Avaliação das Atividades de Aula – Alunos com atestado.

Indicador Classificação

Iniciativa/Predisposição (80%) Empenho (5%)

Qualidade do trabalho desenvolvido (5%) Interesse (10%)

Média: (5*0,8)+(17*0,05)+(18*0,05)+(15*0,1) Observações:

5.13.2. À parte de todos os outros – caso de estudo …

O presente tema surgiu fruto de um caso particular na minha turma residente, que envolve um aluno com muitas dificuldades motoras. Este aluno precisava de atenção especial, contudo, como refere Barreira et al. (2006, p. 95), “Não basta afirmarmos que um aluno tem certas dificuldades, é indispensável

propormos meios, estratégias, atividades de apoio, para que esse aluno as ultrapasse”.

Tomando como referência este entendimento, era importante caracterizar o aluno para procurar encontrar as melhores estratégias para lidar com as suas dificuldades. O aluno caracteriza-se pelas suas debilidades motoras, baixa autoestima e uma fraca ou nula perceção de competência. Face a este quadro, questionei-me acerca da melhor forma de ensinar este aluno, isto sabendo que

não podia descurar os outros. Logo aqui, colocou-se um dilema, este aluno precisava de atenção redobrada e eu não lha podia dar, caso contrário não tinha como dar resposta a outros aspetos. Esta ideia está explícita no excerto do diário de bordo a seguir apresentado:

“Mesmo querendo dar resposta a todos os alunos, a verdade é que nem sempre é fácil dar conta do recado e ajudar todos os alunos a terem sucesso, isto porque há uma turma para gerir, estruturas para organizar, um tempo para controlar e alunos para ensinar. Controlar todas as variáveis não é nada fácil. Ao prestar atenção a um aluno acabo por negligenciar os outros” (Diário de Bordo, 1ª semana de outubro).

Face a este entendimento recorri a estratégias como objetivos diferenciados, reforço positivo e inclusão. O objetivo principal era permitir que o aluno vivenciasse situações de êxito, desenvolvesse uma perceção de competência e, consequentemente, melhorasse a sua autoestima e autoconfiança. Os seguintes excertos atestam o caminho trilhado:

“O … tem muitas dificuldades, mas hoje apresentou-se a um nível considerável. Está a evoluir bastante apesar de todas as suas dificuldades” (Aula 49 e 50, Reflexão pós-aula, 14/12/2016).

“Ver o … a jogar a este nível é incrível… quem o viu e quem vê. Sinto que está muito mais confiante, com menos medo de errar e isso é fundamental para a sua autoestima” (Aula 127 e 128, Reflexão pós-aula, 07/06/2016).

As estratégias utilizadas foram bastante benéficas e tiveram um grande impacto no desenvolvimento motor, cognitivo e social do aluno. A atribuição de objetivos diferenciados a este aluno possibilitou-lhe alcançar sucesso nas tarefas, o que, obviamente, desenvolveu sentimentos positivos, de confiança e competência. Ao longo da intervenção, tive sempre a preocupação de dar constante reforço positivo, encorajá-lo e incluí-lo. Este modo de atuar foi fundamental para a melhoria da autoestima deste aluno.

Os obstáculos e desafios que este aluno me colocou, obrigaram-me a dar mais de mim, a investigar e a questionar-me. Este foi um esforço que compensou, porquanto o resultado final do desempenho motor deste aluno, face ao desempenho demonstrado no início do ano foi francamente positivo, deixando-me, obviamente, muito satisfeito.

“É impressionante o que o … faz com a bola. Lança inclusive melhor que outros. Todo aquele trabalho individual ao longo do ano não foi em vão” (Aula 129 e 130, Reflexão pós- aula, 09/06/2017).

Aprender a Ensinar, ensinando

126

Acima de tudo, importa referir que sempre encarei esta situação, difícil, como uma oportunidade de crescer e de me tornar melhor profissional, conforme espelha o excerto do diário de bordo:

“Este ano deve servir para nos fortalecer, desenvolver a nossa capacidade de lutar contra as dificuldades. O constante desafio a que estamos submetidos, obriga-nos a dar sempre mais, a não nos contentarmos, sendo isso que nos permite crescer e alcançar algo mais” (Diário de Bordo, 3.ª semana de outubro).

Por fim, importa referir que lidar com um aluno tão diferente de todos os outros exige uma atenção especial. A importância de ter realizado um ensino diferenciado permitiu que o aluno se superasse e mostrasse que todos podem aprender, precisam é de ter oportunidades para que isso possa acontecer.