3. O SERVIÇO SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE E O PROJETO ÉTICO-
3.2 DESAFIOS PARA O SERVIÇO SOCIAL NA ATUAL CONJUNTURA:
Após ter sido realizada a análise da conjuntura pós-1970, a contextualização histórica da emergência do Serviço Social e a reflexão sobre o projeto ético-político profissional buscaremos refletir e analisar o Serviço Social na contemporaneidade, ou seja, as implicações da reestruturação capitalista na profissão, as novas demandas, bem como os limites e possibilidades de atuação profissional do Assistente Social no presente momento histórico.
Devido às transformações sócio-históricas nas relações Estado e sociedade em que a economia se encontra em grande recessão e em submissão ao capital, verifica-se o agravamento das expressões da questão social: o aumento do desemprego e subemprego;
das desigualdades sociais e econômicas; e a perda de direitos e conquistas sociais; o que gera, no intuito de intervir nesta realidade, um redimensionamento da profissão e dos espaços sócio-ocupacionais, cujo cenário é marcado, como afirma Iamamoto (2009, p.
359), pelo deslocamento da “satisfação de necessidades da esfera pública para a privada”.
O que ocorre é um processo de refilantropização social, aliada à privatização destas respostas, pautadas por um caráter de solidariedade nas ações; uma parceria entre o público e privado, no qual surge o “Terceiro Setor”, sendo a sociedade civil cada vez mais responsável em suprir tais necessidades sociais.
Esse processo gera importantes significados e repercussões para a atuação profissional do Assistente Social, pois ao mesmo passo que se mantém os campos de execução e implementação de políticas sociais, novas áreas de ação profissional surgem, tais como: uma nova configuração para área de recursos humanos, a formulação e gestão de políticas sociais, a atuação profissional em instituições do “Terceiro Setor”, entre outras.
Portanto, há uma diversificação nos espaços sócio-ocupacionais, os quais se constituem como produto histórico das lutas entre as classes pela hegemonia e pelo modo político das respostas profissionais. Ou seja, as demandas profissionais não estão pré-estabelecidas, elas se alteram conforme a correlação de forças e se modificam de acordo com a conjuntura, gerando ações potenciais a esse profissional.
61 Assim sendo, essa diversificação gera novas demandas, novas habilidades, competências e atribuições, como: análise de orçamentos e planejamento, elaboração, execução, avaliação e gestão de projetos e programas, dentre outras. Nesta direção, Duarte (2010) afirma, a partir de sua pesquisa que analisa a intervenção profissional do Assistente Social nas ONGs no Município de Natal/Rio Grande do Norte, que as exigências profissionais são intensificadas no cenário atual e estas trazem consigo um caráter de utilidade para a conjuntura capitalista, ou seja, exige-se na atualidade:
[…] qualificação, competência, criatividade, dinamismo e flexibilidade, palavras carregadas de utilidade e significado em uma conjuntura de crise mundial do capital. [...] também se inserem exigências direcionadas para a leitura e análise dos orçamentos públicos, para a identificação de alvos e metas, bem como para os recursos disponíveis, visando à captação de recursos e ao planejamento e execução de ações e projetos. (DUARTE, 2010, p.5)
Entretanto, é necessário ultrapassar as exigências e demandas imediatas; por isso o Assistente Social, de acordo com Iamamoto (2011), deve propor/negociar com a instituição empregadora projetos de atuação a fim de ampliar suas possibilidades de intervenção e responder muito mais que demandas institucionais, sobretudo, atender necessidades da população usuária.
Ressalta-se que, de acordo com Mota e Amaral (1998, p. 25), demandas sociais e necessidades sociais não significam a mesma coisa, já que as demandas “são requisições técnico-operativas que, através do mercado de trabalho, incorporam as exigências dos sujeitos demandantes”, os quais demandam, de acordo com as autoras, necessidades políticas, culturais, materiais e sociais. Logo as necessidades sociais são fonte da demanda da atuação profissional.
Assim, a principal tarefa posta para o Serviço Social, na atual conjuntura, é a de identificar o conjunto das necessidades (políticas, sociais, materiais e culturais), quer do capital, quer do trabalho [...]
Neste caso é preciso refazer – teórica e metodologicamente – o caminho entre a demanda e as suas necessidades fundantes, situando-as na sociedade capitalista contemporânea, com toda a sua complexidade.
(MOTA e AMARAL, 1998, p. 26)
Para que se tenha uma ampliação o Assistente Social deve buscar ultrapassar limites – que, dentre outros, podem ser caracterizados: 1) pela condição assalariada em
62 que se encontra inserido o profissional; 2) pelas exigências e competências específicas das instituições empregadoras; 3) pela jornada de trabalho; 4) pelo processo de descentralização, focalização e precarização das políticas sociais públicas; 5) pelo processo de privatização de serviços sociais.
Outro grande desafio para o Assistente Social é justamente a compreensão crítica da realidade, a partir da dinâmica da totalidade/particularidade/singularidade que perpassam o cotidiano do exercício profissional do Assistente Social, a fim de requalificar o seu fazer profissional, a fim de que possa encontrar alternativas criativas de atuação, ou seja:
[...] desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de demandas emergentes do cotidiano. Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo. (IAMAMOTO, 2011, p. 20)
Vale ressaltar que a Iamamoto (2011) coloca que é na realidade que as possibilidades estão postas e o profissional deve se apropriar desta e desenvolver alternativas de atuação, pois essa real compreensão da realidade evita o modo fatalista de enxergar o processo histórico, como se a realidade já estivesse com seus limites constituídos, ou seja, sem a possibilidade de modificação.
O que se concretizará a partir do momento em que essas alternativas são transformadas em projetos de ação, o que de acordo com Couto (2009) por meio deste projeto se terá estabelecido o que poderá ser oferecido ao seu espaço sócio-ocupacional para atender as demandas da instituição e traçar estratégias da atuação profissional. Para tanto a autora ainda afirma que a formulação deste projeto deve ter os seguintes elementos (idem, 2009, p. 657):
1. Identificação, delimitação e justificativa do objeto de ação: momento em que determinará as prioridades para responder as demandas colocadas;
2. Definição de objetivos, ou seja, esclarecer o que se pretende alcançar por meio da sua intervenção profissional;
3. Identificação das metas: formular os resultados a que se pretende chegar a partir das atividades desenvolvidas;
63 4. Demarcação de recursos: esclarecer quais os recursos serão necessários para
a execução deste projeto; e
5. O registro de todo do processo de formulação, execução e avaliação deste projeto a fim de gerar novos elementos para novos projetos.
Portanto, o projeto de trabalho é instrumento fundamental para a compreensão e consolidação da ação profissional, bem como do projeto ético-político profissional, pois parâmetros serão estabelecidos e assumidos.
Mais um desafio que é posto à atuação profissional encontra-se nas relações entre projeto ético-político e o estatuto assalariado: o Serviço Social está inserido no processo de mercantilização, pois é um profissional que vende a sua capacidade de ação às instituições empregadoras que necessitam dessa força especializada de atuação. Por isso:
Verifica-se uma tensão entre projeto profissional, que afirma o assistente social como um ser prático-social dotado de liberdade e teleologia, capaz de realizar projeções e buscar implementá-las na vida social; e a condição de trabalhador assalariado, cujas ações são submetidas ao poder dos empregadores e determinadas por condições externas aos indivíduos singulares, os quais são socialmente forjados a subordinar-se, ainda que coletivamente possam rebelar-se. (IAMAMOTO, 2009, p.
348)
De acordo com a Iamamoto (2009), ressalta-se que essa densa relação pode ser traduzida como a capacidade de realizar projeções e implementá-las na vida social, na precarização do trabalho, na instabilidade, na polivalência e na descaracterização da sua atuação como profissional assalariado que se encontra submetida ao poder dos empregadores. Como se pode observar na afirmação da autora:
A condição assalariada envolve necessariamente a incorporação de parâmetros institucionais e trabalhistas que regulam as relações de trabalho consubstanciadas no contrato de trabalho, estabelecem condições em que este trabalho se realiza em termos de intensidade, jornada, salário, controle do trabalho e da sua produtividade, metas a serem cumpridas, assim como prevê a particularização de funções e atribuições decorrentes de normatização institucional que regula a realização do trabalho coletivo no âmbito dos organismos empregadores, públicos e privados.(idem, 2002, p.24, grifos da autora)
64 Além disso, há um processo de descaracterização profissional nas instituições (públicas, privadas e do “Terceiro Setor”) a partir do momento que o Assistente Social passa a ocupar cargos com diferentes nomenclaturas, como técnico social e coordenador, o que gera um conflito entre as competências profissionais do profissional de Serviço Social com as competências destes cargos ocupados; ou seja, uma confusão de cargos ou funções com a profissão. Segundo Duarte (2010, p. 71):
Tal consideração é relevante para o Assistente Social, uma vez que sua consciência enquanto profissional qualifica seu trabalho, delimita suas atribuições e competências; por outro lado, o cargo se constitui como mera denominação que pouco explica sobre a sua atuação profissional.
O fato é que na verdade não é uma nomenclatura, impondo uma função profissional, que irá determinar a qualificação deste Assistente Social, mas sim as competências e atribuições que lhe são inerentes39, além disso, a profissionalização do Assistente Social se dá a partir de uma formação acadêmica que irá atribuir “o grau de assistente social”, e o Conselho Profissional40 irá “autorizar e fiscalizar o exercício” deste profissional. (IAMAMOTO, 2002, p.40)
E é por isso que o Assistente Social se depara com um dos maiores desafios da profissão, segundo Iamamoto (2002): a tradução do projeto ético-político efetivamente no seu espaço sócio-ocupacional, como forma de apropriação e ampliação dos espaços
39 As competências e atribuições profissionais do Assistente Social estão descritas nos artigos 4ª e 5º da Lei de Regulamentação da Profissão nº 8662/1993.
40“Os Conselhos de Profissão são entidades de direito público (mas sem vínculo político/financiamento com os órgãos estatais), criados por lei federal, com natureza autárquica, que têm a função básica de orientar, normatizar, fiscalizar e disciplinar o exercício profissional, além de garantir o cumprimento aos princípios do Código de Ética Profissional respectivo. Todas as profissões regulamentadas por lei dispõem de um Conselho Profissional. Há Conselhos que restringem suas competências a ações cartoriais e burocráticas (prerrogativas legais mais restritas) e outros que avançam para ações políticas e de defesa da garantia de direitos, sendo este o caso do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Serviço Social. Não deixando de cumprir o papel normatizador, o Conjunto Cfess/Cress (competências previstas na Lei 8662/93) preserva sua autonomia política em defesa das políticas públicas que contribuam com a construção de uma sociedade mais justa e democrática, cumprindo assim os compromissos e a direção social expressa nos seus instrumentos normativos.” (CONSELHO REGIONAL DE SERVIÇO SOCIAL DO DISTRITO FEDERAL. Disponível em:
<http://www.cressdf.org.br/o%20que%20%C3%A9%20o%20cress.html> Acesso em:
05/10/2011)
65 ocupacionais reforçando a identidade profissional. Portanto, é fundamental que o profissional se identifique como Assistente Social e se faça ser reconhecido como tal dentro da instituição onde atua.
Logo, isso significa tornar o projeto ético-político profissional o guia para a atuação do Assistente Social, assim como consolidá-lo e implementá-lo. Para tanto, é necessário que este profissional busque reconhecer as condições sócio-históricas que estão presentes na atuação profissional e, a partir disso, traçar possibilidades para a concretização deste projeto. Todavia, para que essa atuação se materialize o Assistente Social deve ter um perfil crítico, criativo (formule e reformule propostas de ação) e propositivo. (IAMAMOTO, 2002)
Cabe ressaltar que a prática profissional do Assistente Social traz consigo implicações políticas, devido ao vínculo com um projeto de classe (progressista ou conservador), ou seja, a natureza da ação profissional tem caráter político-ideológico.
Sabe-se que com a reestruturação do capital tem-se um redimensionamento da profissão devido à inserção do Serviço Social em novos espaços sócio-ocupacionais, como o “Terceiro Setor”, onde se observa diversas contradições e limites de atuação do Assistente Social, porém não impedem o compromisso e legitimação profissional com o projeto ético-político, conforme afirma Sant’ana (2000), a partir de um respaldo teórico político deste profissional com o seu projeto de trabalho.
Portanto, a partir da recuperação histórica da trajetória do Serviço Social, da caracterização do projeto ético-político profissional e tendo em vista que o objetivo geral deste estudo é articular a atuação do Assistente Social no SESC/DF, inserido na lógica do
“Terceiro Setor”, com o projeto ético-político profissional, considerando o projeto neoliberal na atualidade, observa-se a necessidade de analisarmos a atuação do Assistente Social nos espaços sócio-ocupacionais, principalmente no SESC/DF.
Para tanto buscaremos problematizar sobre o exercício profissional do Assistente Social na instituição em tela, por meio de uma pesquisa realizada com as profissionais do Serviço Social que atuam nesta instituição. E por isso serão sistematizados alguns aspectos: um breve perfil dos Assistentes Sociais da instituição, a atuação do profissional no SESC/DF e a relação entre a atuação e o projeto ético-político profissional.
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