• Nenhum resultado encontrado

Desafios políticos da Câmara de Mariana no Oitocentos

No documento Casa de Vereança de Mariana (páginas 176-182)

A conjuntura política obrigou os camaristas de Mariana a uma acomodação às novas relações de força. Na luta pela Independência, tudo levava a crer que as Câmaras desempenhariam o papel de protagonistas do processo de mudança política. Afinal, elas haviam sido as principais

312

Ibidem. p. 210-211. Manteve-se, até o final do Império, a organização das forças policiais: chefes de polícia na corte e nas capitais das províncias, delegados nos termos, subdelegados nos distritos e inspetores dos quarteirões.

313

As “disposições do Livro III e legislação extravagante eram aplicadas por determinação expressa do Regulamento 143 de 15/3/1842 sobre Disposições Civis, da Lei de 3/12/1841” - VALLADÃO, Op. Cit. p. 132.

176

instituições (junto com as eclesiásticas e as militares) de uniformidade do tecido social e político que cobrira o Império português.

Nos antagonismos relacionados às concepções ou alternativas da forma de governo (independente ou unido à antiga metrópole, conforme a autonomia provincial ou o núcleo de Poder enraizado no centro-sul brasileiro), a Câmara de Mariana, assim como outras Câmaras influentes da província de Minas Gerais, defendeu o pacto constitucional, que parecia ocorrer em Portugal. Porém, admitia seu compromisso com o príncipe regente (futuro Pedro I) que, como governante máximo na corte do Rio de Janeiro, poderia garantir os princípios constitucionais de fundação do Estado-nação.

Assim, a decisão do príncipe de permanecer na ex-colônia, negando- se a acatar a ordem do governo português para voltar a Lisboa, amparada na repercussão entre os senhores e governantes locais, teve pleno apoio dos oficiais da Câmara de Mariana. Estes compreenderam que a continuidade dinástica assegurava um Poder autônomo no Brasil. Nos termos finais da sua carta ao príncipe (21 de março de 1822), definem-se: “protestamos como Súditos agradecidos nossa fidelidade a Vossa Alteza Real, e adesão à Sagrada Causa da Regeneração Política da Nação”. Numa outra carta do mesmo ano, usando de retórica astuciosa, a Câmara indica a legitimidade simbólica (e política) do príncipe a partir de uma matriz histórica: a analogia entre a condição ou a experiência de D. João IV e as do príncipe. É como se dissesse que, se D. João IV restaurou/fundou o Reino, resistindo à dominação da Espanha absolutista (século XVII), cabia ao seu descendente na América, também da dinastia de Bragança, fazer o mesmo.314

314

177

Na tarde de 12 de outubro de 1822, o príncipe foi aclamado “Imperador constitucional” em Mariana. O ato público, festivo, manifestou o pacto entre o novo governante imperial (cujas atribuições seriam determinadas pela constituição) e os moradores do termo municipal (implicando nisto o território episcopal), por intermédio da Câmara — a assembléia legítima dos cidadãos (membros da nação com direitos civis, notadamente, os senhores). Todavia, como já foi indicado, os liberais brasileiros (de face moderada) não buscaram, na doutrina do liberalismo, a proteção individual ou dos localismos, mas a concepção de um enquadramento provincial, por conta, justamente, do dinamismo inter- regional, experimentado por seus representantes mais notáveis.315

A lealdade da Câmara, admitida como um fato indiscutível na história da povoação, ficou à prova nessa mesma década, quando o governo local se viu obrigado à inovação político-administrativa determinada na lei de 1º de outubro de 1828. Mesmo assim, na província de Minas Gerais, os camaristas de Mariana foram talvez os primeiros a reescreverem a legislação específica da administração do termo (as posturas) de acordo com essa lei, e a darem para impressão (1829).

Os quatro capítulos das posturas mostram as preocupações com a segurança e a ordem públicas (“Sobre Polícia”) e com a economia municipal (temas relativos ao abastecimento, comércio e produção de gêneros: “Sobre marchantes e carniceiros”, “Sobre aferições”, “Sobre a agricultura”). A publicação quase imediata das posturas devia-se à necessidade prática de produzir cópias para serem encaminhadas aos juízes de paz dos distritos do município. Além disso, a impressão guardava um significado simbólico; servia para mostrar aos quatro cantos o compromisso e a obediência quase

315

178

automáticas dessa Câmara (“leal cidade de Mariana”) com a legalidade imperial, sugerindo mesmo a sua (tradicional) liderança.316

Em 1830, as posturas de 1829 foram publicadas com as alterações impostas pelo conselho geral da província de Minas Gerais (a primeira edição do tipo nesta província). Procurou-se, seguindo a racionalidade jurídica, arranjar o texto legal por meio da separação das matérias e da inter-relação dos temas (Títulos, Capítulos e Artigos). Houve o esclarecimento das categorias usadas e a previsão das condições ou situações de aplicabilidade da lei. Alguns pontos de alteração (ou adição) das posturas da Câmara são indícios da perspectiva adotada pelo governo provincial. Enquanto a Câmara não interferia nas relações de trabalho escravistas (senão para assinalar as obrigações costumeiras dos senhores, próprias da humanidade cristã, no trato com os escravos), acomodando-se ao direito privado, o conselho determinou que os escravos jornaleiros teriam obrigação de trabalhar nas obras públicas, conforme a imposição do juiz de paz feita aos senhores. Nas relações mercantis, como em geral no que se refere ao abastecimento e ao uso dos recursos naturais (como a madeira), a Câmara acompanhou a experiência passada, observando que os negociantes e taverneiros estavam obrigados a vender ou fornecer os mantimentos armazenados aos moradores do termo, dependendo da carestia ou da necessidade pública. Já o conselho, que parece supor alguma regulação natural do mercado, verificou que os preços seriam “livremente fixados” e não se obrigaria ninguém a vender contra a vontade, deixando assim de considerar, ao contrário da Câmara, a especulação e o monopólio praticados pelos atravessadores. Por outro lado, quando se trata da administração pública municipal, os camaristas não previram nenhuma

316

O registro das posturas, com data da sessão ordinária da câmara de 4 de setembro de 1829, encontra-se no Arquivo Público Mineiro, Câmara Municipal de Mariana [CMM], códice 44. Cf. POSTURAS..., 1829. Este exemplar, consultado, apresenta na capa a referência ao seu possuidor: o juiz de paz do [distrito] Barreto.

179

forma de fiscalização das atividades dos empregados. Mas, o conselho definiu os meios de controle camarário das funções e da arrecadação de impostos e taxas.317

A reformulação político-administrativa acirrou os ânimos e aumentou os conflitos no município de Mariana, nos últimos anos da década de 1820 e, sobretudo, no início da década seguinte. A tensão cresceu ainda mais quando os militares com assento na Câmara avaliaram que as funções policiais dos juízes de paz e a criação de uma guarda nacional afetavam as prerrogativas dos corpos militares (ordenanças e exército). Ao mesmo tempo, houve medidas impopulares do governo provincial cuja execução dependia da Câmara, enredando-a na reação popular. Uma destas medidas (inserida nas posturas), que desagradou os eclesiásticos e os membros de confrarias religiosas, devia-se à preocupação higienizadora; obrigava a transferência dos sepultamentos, que se faziam no solo dos templos, para os cemitérios municipais (ou seculares). Outra imposição muito criticada na época era a taxação provincial da produção e venda de aguardente, pois o imposto prejudicava as rendas municipais dependentes do comércio local e os negócios dos fazendeiros abastados.318

Os oficiais da Câmara viram-se alijados das decisões governamentais tramadas nas instâncias provincial e central, sem deixar, no entanto, de sofrer a pressão dos liberais exaltados (federalistas), liberais moderados (reformadores constitucionais) e restauradores (defensores do centralismo monárquico); isto talvez explique porque em 1833 (ano de um agudo

317

Cf. Ibidem. p. 16-17, 20. O conselho provincial ainda adiciona um artigo significativo na legislação da cidade de Mariana: “Estas posturas não punem as contravenções commetidas em escritos impressos”. Indicou-se aqui, parece, aconotação política dos impressos, importando muito no jogo liberal da época. Os panfletos e os jornais, com efeito, serviam comumente de tribuna para as lideranças locais ou partidárias. Caso houvesse calúnias ou ofensas nos impressos, o suposto ofendido deviarecorrer à justiça criminal . POSTURAS..., 1830, p. 5-7, 34-35.

318

18 0

confronto político e militar), os vereadores eleitos evitassem exercer os mandatos, alegando os mais diversos motivos.319

De qualquer modo, a organização administrativa do município de Mariana pouco mudou durante a Regência e o Segundo Reinado. Eram eleitos (ou reeleitos) nove membros para exercerem as funções administrativas mais elevadas da cidade, no período de quatro anos: um presidente, o vereador mais votado (ou o juiz de fora até que se implantasse o Código do Processo Criminal), e oito vereadores. A Câmara tinha um procurador, o agente das suas atribuições públicas: arrecadar e aplicar as rendas e multas, e representar a Câmara no âmbito da justiça (direito público). A escrituração (atas, registros, correspondência, certidões, editais) e a conservação do arquivo ficavam a cargo de um secretário. Os outros empregados municipais eram o fiscal (chegou-se a designar um fiscal geral e outros fiscais para as paróquias ou distritos de paz), cuja função era vigiar a execução das posturas e informar os vereadores sobre a administração, e o porteiro do auditório, responsável pela divulgação dos editais da Câmara e pela ordem da casa. Quando as rendas municipais permitiam, nomeava-se um cirurgião do partido para assistir os enfermos pobres e os menores abandonados, cuidar da vacinação dos moradores e, ainda, verificar a qualidade dos remédios e alimentos vendidos.320

319

Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana [AHCMM], códice 741, f. 53-54, [Atas da Câmara].

320

COLLECÇÃO..., 1878, p. 74-89. Desde 1829, a câmara guiou-se pela legislação de 1828 - cf. AHCMM, códice 694, f. 210-210v, [Atas da Câmara]. Mas, no decreto de 9 de janeiro de 1881 que modificou o processo eleitoral (pondo fim às eleições primárias e restringindo o direito de voto), determinou-se (artigo 22) que os vereadores escolhessem entre si, anualmente, um presidente e um vice-presidente (este cargo não parece ter sido importante em Mariana) - COLLECÇÃO..., 1882, p. 23. REGIMENTO interno..., 1882, p. 34. Até a década de 1880, as atribuições camarárias não tiveram alteração significativa, sendo resumidas no artigo 6º do Regimento interno de 1881: “Os vereadores tratarão nas sessões, dos bens e obras do concelho, do governo econômico e policial da terra e de tudo que neste ramo for a prol de seus munícipes” – Ibidem. p. 5. AHCMM, códice 638, f. 1-31, [Posturas da Câmara Municipal de Mariana, 1882].

18 1

Organograma da Administração Municipal (Câmara) no

No documento Casa de Vereança de Mariana (páginas 176-182)