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3 METODOLOGIAS ATIVAS – A SALA DE AULA INVERTIDA (SAI)

3.2 SALA DE AULA INVERTIDA

3.2.1 Desafios da Sala de Aula Invertida

Há inúmeros benefícios proporcionados pela SAI, porém se faz necessário indicar a existência de desafios. Um dele é a necessidade de grande envolvimento e tempo para que educadores conheçam as tecnologias atuais e se familiarizem com softwares que utilizarão, como os de produção de vídeo, por exemplo; além de exigir maior tempo no preparo da aula/material utilizado (BERGMANN; SAMS, 2016).

Fulton (2012) e Lynch (2014) nos deixam clara a necessidade de se preparar e orientar o aluno para que compreendam as tarefas e sua intencionalidade, bem como que consigam trabalhar de forma colaborativa e que possuam disciplina. Esse preparo é outro desafio já que o hábito de estudos mais comum é relacionado a aulas expositivas.

Essa importância desse novo olhar por parte dos alunos é indagada por Freire (Faundez; Freire, 2017, p. 72) ao afirmar que

O necessário é que o educando, ao perguntar sobre um fato, tenha na resposta uma explicação do fato e não a descrição pura das palavras ligadas ao fato. É preciso que o educando vá descobrindo a relação dinâmica, forte, viva, entre palavra e ação, entre palavra-ação-reflexão.

Essas descobertas feitas pelo educando, movido pelas suas curiosidades devem ser estimuladas pelo professor sob essa ótica da SAI, sem orientação correta do professor, o aluno pode não encontrar meios para esclarecer suas dúvidas corretamente.

Portanto, Cuban (2001) e Enfield (2013) reafirmam a importância da aplicação adequada da SAI, apontando como desafio o preparo do professor para que esta não ocorra de forma simplista, sendo apenas uma substituição de recursos ou materiais, mas que seja feita de forma a atingir a individualidade e protagonismo de cada aluno.

A formação do professor é importante, pois cabe a ele dar orientações adequadas, mediando o aluno em suas conexões entre o que foi aprendido e o que se espera aprender, estimulando-o a buscar novas e várias perspectivas, caso contrário, segundo os autores, a SAI pode resultar em não aprofundamento e falha de apropriação do conteúdo e até mesmo assimilação incorreta, reforçando equívocos do educando.

Desta forma, o professor precisa, segundo destaca Pischetola (2016)

assumir uma atitude instigadora, atentando para o desenvolvimento da curiosidade dos seus alunos e acreditando que o fundamento da pesquisa está na formulação de perguntas que ele deve guiar, a fim de o aluno obter respostas significativas, diferenciadas e interessantes. Em outras palavras, um professor orientador que confie na capacidade dos jovens para pensar e achar sozinhos os seus caminhos, para entender e elaborar as informações por eles mesmos procuradas (PISCHETOLA, 2016, p. 55)

Ainda que caiba ao professor a aplicação da SAI, é uma proposta que não pode ser implantada como esforço individual, pois envolve gestão da escola, podendo ser necessária a reorganização logística de turnos, que é a realidade dos alunos da educação da rede pública. E este pode ser encarado como um desafio para que SAI ou outras metodologias ativas sejam corretamente aplicadas nas escolas.

A pesquisadora percebeu este desafio quando aplicou a SAI em duas escolas, em uma delas houve envolvimento da coordenação pedagógica que garantiu estrutura e apoio para que ela pudesse utilizar a SAI, resultando numa aplicação de sucesso, no qual mais tarde se tornaria projeto a ser aplicado em todo ensino fundamental desta escola. Em outra, a coordenação não concordou com a metodologia, e apesar da visível melhora no envolvimento e aprendizagem dos alunos, sem a cooperação e apoio da gestão escolar, sozinha, a pesquisadora (professora da escola) não conseguiu desenvolver adequadamente a metodologia.

O desafio mais aparente e que levanta mais questionamentos diz respeito ao acesso à tecnologia que se apresenta de maneira desigual e pode ser visto como agente que potencializa as desigualdades, já que alguns alunos não tem familiaridade ou acesso as TIC e TDIC; por isso cabe ao professor perceber as desigualdades existentes e buscar compreender essa diversidade para ajuda-los individualmente (ENFIELD, 2013; CUBAN, 2001). Ou seja, com base na possibilidade de acesso de seus alunos, o professor deve planejar a aplicação mais adequada da SAI.

Em entrevista concedida, quando esteve em evento em São Paulo, Bergmann (2017), quando questionado sobre como seria possível se aplicar a SAI e envolver os alunos quando, em muitas comunidades de baixa renda, os alunos não possuem acesso as TIC e TDIC, nem mesmo estrutura familiar adequada. Begmann (2017), respondeu que viu a implementação da SAI em comunidades de baixa renda ao redor do mundo e que para isso há uma inversão interna, “ou seja, as tarefas individuais são realizadas durante o dia escolar” (BERGMANN, 2017, não paginado) e muitas vezes não se espera o acesso à internet em casa, mas na própria escola, utilizando-se muitas vezes da telefonia móvel, entendendo-utilizando-se aqui as TDIC. O importante, como explica Bergmann (2016, 2017) é que os alunos sejam estimulados a interagir com o conteúdo de forma ativa.

Num exemplo prático sobre a fala de Bergmann (2016, 2017), em uma escola na qual o acesso às TIC e às TDIC é praticamente nulo, tomo a liberdade de trazer uma experiência vivenciada pela pesquisadora. Ao estudar tipos de solo, antes mesmo de abordar o conteúdo, a professora-pesquisadora levou para a turma do 4º ano, amostras de argila, areia e terra preta para que eles percebessem sua consistência e outras propriedades (cor, densidade, permeabilidade) depois permitiu experiências com as amostras e instigou os alunos a criarem hipóteses sobre as propriedades dos tipos de solo; somente após a experimentação de cada um e as hipóteses criadas é que foram escritas, coletivamente, as características de cada tipo de solo e seus nomes, com mediação da professora. Os alunos demonstraram grande interesse na descoberta e aprendizado sobre o assunto. Essa foi uma das etapas de um projeto sobre plantas, que foi todo norteado na utilização de metodologias ativas,

culminando na escrita de uma redação por aluno, sendo que uma delas foi a vencedora do Concurso Agrinho4 da Regional Curitiba do SENAR-PR.

Assim podemos salientar que a utilização de metodologias ativas, incluindo a SAI, não está sujeita apenas ao uso de TIC e das TDIC, pois a SAI pode ser feita utilizando-se recursos que não digitais, o importante é enfatizar a relação professor-aluno, no qual deve-se permitir o protagonismo e autonomia deste último.

O maior desafio de implementar novas metodologias na sala de aula pode ser representada pelo entender protagonismo do aluno na construção do conhecimento.