CAPÍTULO 3: TAXA DE CÂMBIO E CRESCIMENTO ECONÔMICO:
3.2 REVISÃO DA LITERATURA EMPÍRICA
3.2.1 Desalinhamento cambial e crescimento econômico
Embora a teoria econômica tradicional não reconheça o papel da taxa de câmbio no desempenho de uma economia, existe na literatura econômica recente um debate sobre a relação entre taxa de câmbio e crescimento econômico.
Mbaye (2013) destaca pelo menos duas visões no âmbito da abordagem convencional sobre os efeitos da taxa de câmbio no processo de crescimento econômico. Uma, resultante do “Consenso de Washington” segundo a qual a taxa de câmbio deve ser fixada em um nível consistente com o equilíbrio interno e externo. Qualquer desvio da taxa de câmbio em relação a este nível de equilíbrio, está associado a algum tipo de desequilíbrio macroeconômico, sendo, portanto, prejudicial ao crescimento econômico. Williamson, (1990), Krueger, (1983) e Edward (1998) são alguns dos trabalhos que dão respaldo teórico a essa visão. A outra considera que a sobrevalorização cambial desestimula o crescimento econômico enquanto a subvalorização cambial estimula13 o crescimento econômico. Assim, vários trabalhos empíricos têm sido desenvolvidos com o objetivo de mensurar os efeitos de desalinhamento cambial no desempenho de uma economia. Na sequência são apresentados estudos que sistematizam algumas contribuições para a literatura empírica sobre desalinhamento cambial e crescimento econômico
O trabalho de Edwards (1989) é um dos pioneiros na relação entre desalinhamento cambial e crescimento econômico. Em seu trabalho o autor argumenta que manter uma taxa de câmbio em nível desalinhado resulta em custos significativos sobre o bem estar, gerando sinais incorretos aos agentes econômicos, resultando em maior instabilidade.
Portanto, para o autor desalinhamentos cambiais tendem a criar distorções nos preços relativos nos setores de tradebles e nontrables com consequências em alocações não ótimas de recursos entre os setores da economia, o que impacta adversamente o desempenho da economia. O trabalho de Razin e Collins (1997) apresenta-se como um dos pioneiros relacionando o desalinhamento cambial e o crescimento econômico nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Este trabalho baseou se na extensão do modelo IS-LM para uma economia aberta para países desenvolvimento e em desenvolvimento. Os resultados sugerem uma não linearidade na relação entre o desalinhamento cambial e o crescimento econômico e que apenas uma sobrevalorização muito alta estaria associada a um crescimento lento da economia. Já,
13 A subvalorização estimula a acumulação de capital e estimula a produtividade (a subvalorização encoraja altos níveis de poupança e investimento e aumenta a participação do setor de transacionáveis, setor reconhecido por produzir externalidades positivas para outros setores)
uma subvalorização moderada e alta (mas não muito alta) estaria associado a um rápido crescimento.
Easterly (2001), em uma pesquisa, desenvolveu um trabalho envolvendo 69 países, entre 1960 e 2000 tentando investigar os efeitos da sobrevalorização cambial sobre o crescimento econômico. Usando um modelo SUR (Seemingly Unrelated Regression) o autor conclui que taxas de câmbio sobrevalorizadas estão associadas a um menor crescimento econômico. Aguirre e Calderón (2005) investigaram a relação entre desalinhamento cambial e crescimento econômico para um conjunto de 60 países durante o período 1965-2003. A análise envolveu o GMM system e as evidências sugerem que o efeito do desalinhamento cambial sobre o crescimento econômico não é linear. Assim, quando a subvalorização da taxa real de câmbio é demasiado elevada o impacto sobre o crescimento econômico é negativo, e quando a subvalorização da taxa real de câmbio é pequena ou moderada, pode estimular o crescimento econômico.
Rodrik (2008), usou uma amostra de 188 países entre 1950 a 2004, usando medidas de taxa de câmbio real e GMM system para relacionar a subvalorização da taxa de câmbio real e o crescimento econômico. Os resultados do trabalho do autor mostram que a subvalorização cambial estimula o crescimento econômico e esse efeito é maior ainda para os países em desenvolvimento. Mais ainda os resultados do autor mostram que os bens comercializáveis sofrem desproporcionalmente com as falhas de mercado ou do governo, o que impedem os países mais pobres a convergir para os países de renda alta.
O trabalho de Araújo (2010) analisou empiricamente a relação entre o nível de câmbio e o crescimento econômico para um total de 82 países em desenvolvimento entre 1980 e 2007. Para a realização do trabalho a autora construiu um índice de subvalorizarão cambial, adotando o modelo usado pelo Rodrik (2007). Usando dados em painel com efeitos fixos e aleatórios os resultados do trabalho mostraram uma correlação positiva entre a subvalorizarão cambial e o crescimento econômico de todos os países usados na amostra.
Em Moçambique, Biggs (2011) realizou um trabalho para avaliar o impacto das flutuações da taxa de câmbio no crescimento econômico entre 1995 e 2011. Usando uma analise descritiva o trabalho concluiu que a taxa de câmbio em Moçambique é desalinhada. Portanto, a sobrevalorização da taxa de câmbio que se verificou ao longo do período analisado pelo autor criou desincentivos para o investimento em bens e serviços transacionáveis.
Mbaye (2012) realizou um trabalho relacionando a subvalorização e o crescimento. O trabalho envolveu um painel de 72 países entre 1970 e 2008, tentando medir o efeito da subvalorização cambial para o crescimento econômico através de dois canais, nomeadamente: via
produtividade total dos fatores e acumulação de capital. A análise do trabalho usou o GMM system. Os resultados do autor dão maior suporte para o canal produtividade total dos fatores para o crescimento econômico, sugerindo que uma subvalorização de 10% aumenta o crescimento em 0,14% via melhoria na produtividade total dos fatores.
Schroder (2013) desenvolveu um trabalho para 63 países em desenvolvimento. Usando a metodologia de MQO e GMM system os resultados o autor mostraram que, embora os trabalhos recentes apontem para uma relação positiva entre a subvalorização da taxa de câmbio e o crescimento econômico, os seus resultados apontam que esses resultados são motivados por pressupostos inadequados de homogeneidade do comportamento da taxa de câmbio real de longo prazo entre países e/ou a má especificação dos modelos de crescimento. Quando os problemas acima são corrigidos os resultados empíricos do autor sugerem que para os países em desenvolvimento (da amostra) qualquer desvio da taxa de câmbio ao seu nível de equilíbrio reduz o crescimento econômico.
O trabalho de Vieira e Macdonald (2012) tentou investigar o papel do desalinhamento da taxa de câmbio real no crescimento de longo prazo para um painel de 90 países entre 1980 e 2004, usando GMM system em dois estágios. Os resultados sugerem que uma subvalorização cambial estimula o crescimento, enquanto uma sobrevalorização desestimula o crescimento econômico, sendo os coeficientes maiores para os países emergentes e em desenvolvimento.
Wong (2013) desenvolveu um trabalho relacionando o desalinhamento da taxa de câmbio real e o crescimento econômico para a Malásia. Para a realização do trabalho o autor desenvolveu um modelo de crescimento usando a abordagem de teste de limites do modelo autor regressivo de distribuição defasada (ARDL). Os resultados do autor mostram que um aumento do desalinhamento da taxa de câmbio real tende a reduzir o crescimento econômico para aquele país.
Ali et al (2015) investigam o impacto do desalinhamento da taxa de câmbio real no crescimento econômico da Nigéria usando dados trimestrais abrangendo o período de 2000 a 2014. Usando o teste residual para Cointegração de Gregory e Hansen (1996) os resultados do trabalho mostram que o desalinhamento cambial tem um impacto negativo no crescimento econômico daquele país.
Vieira e Damasceno (2016) investigaram empiricamente a importância do desalinhamento, usando dados do Brasil para o período de 1995 e 2011. Os autores adotaram o método usado por Clark e MacDonald (1999) para o comportamento da taxa de câmbio real, para depois estimarem o crescimento em função dessa taxa de câmbio real. Os resultados sugerem que o desalinhamento é relevante para explicar o crescimento econômico do Brasil. Assim, uma
sobrevalorização cambial desestimula o crescimento enquanto a subvalorizacao estimula o crescimento econômico do Brasil.
Rodrik (2008) em seu trabalho apresenta um painel de 184 países entre 1950 a 2004, dividido em períodos de 5 anos, portanto 11 períodos entre 1950-54 e 2000-04. Os resultados do trabalho apresentam evidências de que a desvalorização da moeda (uma alta taxa de câmbio real) estimula o crescimento econômico, sendo essa constatação especialmente verdadeira para os países em desenvolvimento. Mais ainda o autor destaca evidências de que o canal operativo é o tamanho do setor comercializável (especialmente a indústria).
Paul et al (2018) desenvolveram um estudo para analisar o efeito da taxa de câmbio nominal, inflação e estoque de capital e investimento estrangeiro sobre o crescimento econômico de Kuwait. A análise dos autores usou dados de séries de tempo entre 1975 e 2015 por meio de mínimos quadrados ordinários (MQO). Os resultados do trabalho mostram que a taxa de câmbio nominal é positivamente relacionada com o crescimento econômico de Kuwait. Apesar do não consenso na literatura sobre o desalinhamento cambial e o crescimento econômico, a maioria dos trabalhos tem mostrado que o desalinhamento cambial desestimula o crescimento econômico, tanto os dados de painel quanto para séries temporais.
A análise da literatura sobre o desalinhamento cambial e o crescimento econômico mostrou que a maioria dos trabalhos realizados até aqui sugerem que a subvalorização cambial estimula o crescimento enquanto a sobrevalorização estimula o crescimento. No entanto existem trabalhos, embora em menor número que advogam para uma não linearidade da relação entre o desalinhamento da taxa de câmbio e crescimento econômico, mostrando que apenas uma sobrevalorização muito alta estaria relacionada com um crescimento lento da economia.