TE II: Eu penso diferente, acredito que primeiramente a gente vem pensando em ganhar
5 DESALINHAVANDO OS NÓS SOBRE OS SENTIDOS DO TRABALHO
Ao acolher os TEs, percebe-se que a dureza da vida produziu um sujeito com dificuldades de buscar um trabalho mais complexo e que exija a intelectualidade, pois seu maior desafio é, após uma jornada de trabalho, concentrar-se nos estudos, o que demanda um olhar que respeite suas trajetórias; um olhar para seus dilemas e frustrações enquanto TEs. (DIÁRIO DE CAMPO, dez. 2018).
Este capítulo tem como objetivo central aprofundar os estudos sobre os sentidos do trabalho. Inicialmente, o debate centra-se nas transformações que ocorreram no mundo do trabalho a partir da década de 1990 e quais as repercussões dessas transformações no âmbito da Educação. Considera-se que essa seção cumpre papel basilar para este estudo, pois visa suscitar reflexões sobre como se configura o mundo do trabalho34 e impactos à vida dos TEs que vislumbram, nos Cursos Técnicos Subsequentes, possibilidade de melhores condições de trabalho e de vida, conforme depoimento de um dos TEs: “Você aprende a ter determinação que é um ponto importante. E tu agregando conhecimento... de repente até melhorando no trabalho, a tua autoestima vai melhorar. Muitas coisas mudam.” (TE-GFC, nov. 2018).
Para finalizar o capítulo, busca-se adentrar nos sentidos do trabalho, tendo como aporte teórico os estudos de Maraschin (2015), isto é, os quatro sentidos para o termo trabalho, acrescentando mais um sentido, entendido como trabalho precariado. Assim, a categoria mediação aparece como uma possibilidade crítica para desvendar os sentidos atribuídos ao trabalho pelos TEs, mediado pela sociedade capitalista. Desse modo, na condição de TEs, podem imprimir sentidos alienados ou críticos ao trabalho, conforme define Lukács (1978, p. 93): “o particular é a expressão lógica das categorias de mediação entre os homens singulares e a sociedade.”
5.1 AS DINÂMICAS NO MUNDO DO TRABALHO
Nos últimos anos, a sociedade vem presenciando acalorados debates em torno das complexas metamorfoses pelas quais o mundo do trabalho vem passando. As respostas desencadeadas pela inserção do estado neoliberal e o aprofundamento do processo de restruturação produtiva do trabalho marcaram profundamente a década de 199035, instituindo
34 A expressão mundo do trabalho, compreende o conjunto de fatores, além das atividades laborais. Representa as
atividades materiais produzidas pelos trabalhadores-estudantes e as forças produtivas onde os trabalhadores realizam o trabalho. Faz-se necessário registar que mundo do trabalho sinaliza uma oposição em relação ao mercado de trabalho que compreende as relações impostas pelo sistema capitalista de produção. Antunes (2009).
35 Utiliza-se o recorte histórico a partir da década de 1990 por confluir com a proposta do capítulo anterior que
inúmeros desafios no interior do mundo do trabalho. Reflexo disso é o impacto na oferta de uma Educação Profissional para o trabalho que dê conta das particularidades impostas pelo mercado.
A obra Os Sentidos do Trabalho: Ensaio da Afirmação à Negação do Trabalho, de autoria de Antunes (2009), apresenta uma série de argumentos conceituais sobre as transformações ocorridas no mundo do trabalho. A partir desses conceitos, entende-se que a concepção de mercado de trabalho busca circunscrever o trabalho ao espaço estrito da produção e inserção profissional. Em contraponto, o mundo do trabalho exige que se pense no trabalho sob um conjunto de elementos que envolvem a ação da classe trabalhadora, o que implica pensar sobre questões sindicais, formas de luta e resistência, ideário dos trabalhadores e consciência de classe. A partir dessa perspectiva, o mundo do trabalho torna-se muito mais abrangente, compreendido como espaço de produção e reprodução da vida, transcendendo os aspectos estritamente econômicos do mercado de trabalho (ANTUNES, 2009).
Ainda, de acordo com o referido autor, as inovações tecnológicas marcam uma nova processualidade histórica, ao revelar o surgimento de um novo tipo de trabalho e de trabalhador. A partir desses traços singulares do processo de reestruturação produtiva, encontram-se associados diversos modos multifacetados e heterogêneos da organização do trabalho, numa conjuntura sinalizada pela mundialização e financeirização dos capitais.
Destarte, a informalidade começa a dar sinais sobre o padrão de desenvolvimento. Nesse contingente, o que era exceção passa a ser regra e se cria uma classe trabalhadora sem direitos, desprotegida, à margem da seguridade social, conforme o conceito de trabalho precariado de Standing (2014). É justamente nesse contexto “que se gesta uma nova morfologia do trabalho.” (ANTUNES, 2009, p. 47).
Sob esse prisma, como já se enfatizou, neste estudo, a qualificação profissional passa a ser uma das portas de saída para diversos TEs que buscam não apenas inserção no mercado de trabalho, mas fundamentalmente, melhores condições para se manter no mundo do trabalho, livrando, assim, da precarização. Isso representa uma alternativa para classificação do trabalho e da capacidade produtiva do trabalhador.
Desse modo, as cobranças nas empresas e as transformações na gestão e organização do trabalho, produzem novos significados que, logicamente, são requeridos dos trabalhadores pelo sistema produtivo em relação à formação profissional. Essa perspectiva vai ao encontro das ideias de Ramos, (2005, p. 26): “à medida que o trabalho industrial foi-se tornando mais complexo, o tema sobre a formação do homem passou a atravessar os debates sobre educação e o conceito de qualificação adquiriu importância sociológica.”
Nesse sentido, parte-se do entendimento de que o trabalhador age e se modifica ao se constituir parte do trabalho, integrando-se ao modo de produção capitalista. Essa combinação entre padrões produtivos tecnologicamente mais avançados e uma melhor qualificação da força de trabalho resultam na ampliação da superexploração da força de trabalho, traço constitutivo e marcante do capitalismo brasileiro.
Para entender os olhares e as percepções dos TEs, na atualidade, durante a realização dos Grupos Focais, ao se perguntar: como você percebe o trabalho na atualidade? foi possível identificar os pontos de vista dos TEs, que compõem o Quadro 8.
Quadro 8 - Percepções do trabalho para os TEs na atualidade
Grupo Focal dos ingressantes - GFI Grupo Focal dos concluintes - GFC
TE I: Uma obrigação. TE I: Tá disputado e exigente.
TE II: A metade do dinheiro fica para o governo. TE II: É bastante desvalorizado.