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4 RISCO, DESASTRE E DINÂMICAS TERRITORIAS NO MORRO

4.3 DESASTRE E DINÂMICAS TERRITORIAIS NO MORRO

Neste subcapítulo, tratarei de apresentar alguns aspectos da relação entre moradores das áreas de morro e a território urbano, a partir de estudos já realizados no Brasil.

Com base em Rogério Haesbaert (2007), território é dotado de uma conotação material e uma conotação simbólica, relacionado ao poder, tanto no sentido mais concreto (em termos jurídico-legais) correspondendo à dominação; quando o poder em seu sentido simbólico, que compreende a apropriação a partir de uma identificação (HAESBAERT, 2007). Para o autor, todo território é simultaneamente funcional e simbólico.

Territorialidade compreende o processo de ações e dinâmicas envolvidos na ocupação e vivência do território. Conforme Haesbaert (2007), a territorialidade está envolvida por três dimensões: política, econômica e cultural; e se manifesta mediante a forma como os grupos exercem poder sobre o território, fazem uso da terra, se organizam e dão sentido ao lugar (HAESBAERT, 2007, p. 22).

Como já apresentado brevemente no capítulo anterior, a população moradora das áreas de morro, mais propriamente, os moradores das áreas de barreira ou interstício dos morros, estão sujeitas a um intenso processo de dinâmicas territoriais. O histórico das ocupações e expansão das moradias nos morros, que tem início com as políticas de urbanização conduzidas pela lógica desenvolvimentista do Estado, nas primeiras décadas do século XX no Brasil, é

marcado pela perseguição aos mocambos, fazendo com que os moradores mais pobres se deslocassem paras outras áreas da cidade. Muitos destes moradores se dispersaram para as regiões de morros, chamados sítios. De forma mais afastada do centro, passaram a viver à margem do poder público, permanecendo completamente desassistidos de políticas sociais durante muitos anos. As políticas públicas só foram destinadas aos morros depois de pressões populares e de uma forte organização dos movimentos de bairros e de outras organizações da sociedade civil nas últimas décadas do século XX, como vimos no capítulo anterior.

Hoje em dia, o morro se constitui enquanto um espaço de moradia do meio urbano e conta com a presença de política de infraestrutura e demais políticas sociais. Contudo, o funcionamento destas últimas não é suficiente para assegurar as condições de salubridade e de segurança às moradias nestas localidades, deixando os moradores constantemente vulneráveis aos desastres socioambientais. Nesta pesquisa, estou voltada aos desastres socioambientais relacionados às condições de habitabilidade, cujo o evento extremo resulta em deslizamento de terras e as consequentes perdas materiais e simbólicas para os moradores atingidos. Contudo não devemos ignorar as outras naturezas de desastre socioambiental a que esta população está cotidianamente sujeita, como alvo da injustiça e do racismo ambiental. Estes últimos se constituem no principal motivo para que a população mais pobre seja atingida desproporcionalmente por doenças presente em todas as classes sociais, como vimos o caso do surto do zika vírus38, ocorrido no ano de 2015, o que pode ser considerado um desastre dado a forma como afetou a população mais pobre no estado de Pernambuco.

Questões como o saneamento básico, o desordenamento urbano, a densidade populacional em áreas urbanas, as irregularidades no abastecimento de água e o lixo doméstico já são reconhecidas pelo como responsáveis por 80% dos focos de mosquitos transmissores da dengue. Para a Human Rights Watch39, anos de surtos de dengue deveriam ter deixado mais do que claro que as condições de água e saneamento são perigosas e requerem atenção e investimento, mesmo considerando outras prioridades concorrentes. Contudo o Estado brasileiro não solucionou antigos problemas de direitos humanos, o que permitiu que a epidemia de Zika se intensificasse se alastrasse como um fenômeno localizado, tendo em vista que apesar

38 Zika é um dos vírus transmitidos pelo mosquito aedes aegypti, o mesmo causador da dengue e da chikungunha.

No ano de 2015, o Brasil viveu o surto do Vírus da Zika. Entre muitos sintomas que o Zika pode causar, estudos comprovaram que o mesmo pode ser responsável pelos muitos casos de nascimentos de crianças com microcefalia, cujas mães foram picadas pelo mosquito infectado. Pernambuco e Paraíba foram os estados que mais registraram casos de Vírus Zika. Informações acessadas em: < http://www.iff.fiocruz.br/index.php/8-noticias/207-viruszika2 > em 18 de dez de 2017, às 16:38.

39 Informações disponíveis em: < https://www.hrw.org/pt/news/2017/07/25/307153 > acessado em 18 de dez de

de presente em diversas classes sociais, 70% dos casos de crianças nascidas com microcefalia são de mães mulheres das camadas mais pobres40.

O descaso para com a salubridade, saúde coletiva, o saneamento básico, infraestrutura, regularização fundiária e outras demandas sociais é o principal fator desencadear de acontecimentos desastrosos para as camadas mais pobres da população.

Neste sentido, estudos realizados41 mostram que o que aparece pontualmente como um desastre, é, na verdade, resultado de uma soma de descasos do poder público que provoca desastres socioambientais em pequenas escalas no dia a dia de mulheres, homens, idosos, jovens, crianças, que a partir de suas especificidades resistem, buscando superar os desafios postos por uma política ausente ou insuficiente e exercer a territorialidade neste meio urbano.

De acordo com Norma Valêncio,

A territorialização dos pobres é sempre uma territorialização em contestação, uma “área de risco”, de molde que a remoção das moradias é tratada como uma discussão meramente paisagística muito embora subjacente ao núcleo residencial haja, para o grupo ali inserido, sentidos de pertencimento, necessidades, sociabilidades especializadas (VALÊNCIO, 2009, p. 7). Para Valêncio (2009), esta população sempre reluta com as diversas formas de contestação de seu território, vindas do Estado a partir de discursos fundados na noção de: área

carente ou “áreas de risco”. O discurso de “área carente” corresponde à ideia de ameaça a

concepção de normalidade social do meio urbano. Já a noção de “área de risco” surge diante da persistência dos pobres no fazimento do lugar, eliminando-se da paisagem urbana a vizinhança indesejada” (VALÊNCIO, 2009).

O discurso de “área de risco”, muitas vezes, tem por base a cartografização da cidade para contestar o território a partir de argumentos técnicos. Geralmente desenvolvida por ações do Sistema Nacional de Defesa Civil (SNDC) como mapas de risco das cidades brasileiras.

A cartografização do risco se impõe como uma fala técnica que impede a vocalização de direitos dos que ali vivem, descartando simultaneamente a necessidade de outras interpretações. Ao simplificar a realidade sócio- espacial, suprime as correspondências de sentido entre o aqui e o lá e a tessitura associada da afluência e da miséria no território. Como toda a fala técnica, trata-se de uma linguagem silenciadora dos topoi leigos, sobretudo os

40 Dado percentual publicado em matéria do jornal Le Monde, publicado em 07/02/2016, com o título da Manchete:

Zika: a epidemia abre o debate sobre o aborto na América Latina.

41 Aqui destaco o Grupo de Estudos e Pesquisa em Desastres (GEPED), da Universidade Federal de São Carlos

(USFscar), coordenado pela professora Norma Valêncio, que desde 2003 reúne estudos de diversas áreas ressaltando o caráter multifatorial dos desastres, a partir de várias perspectivas, da área das ciências sociais e de outras áreas do conhecimento.

que transgridem a situação de classe. Ao delimitar o lugar de vivência de populações empobrecidas como área de risco, o referido mapa fundamenta as práticas de remoção compulsória dos ali inseridos e evita mostrarem o pulsante conflito territorial que caracteriza a cidade (VALÊNCIO, 2009, p.36).

Ao passo que são criadas tais estratégias de contestação do território com base na visão tecnicista do risco, os moradores criam formas de resistência mediante trajetórias tecidas a partir de ações, emoções, valores e representações ensejando a proclamação de um lugar social e de uma forma de pertencimento à sociedade. Neste sentido, o estudo de Maria Auxiliadora Vargas (2006, 2009), junto às famílias removidas de áreas urbanas em Juiz de Fora, Minas Gerais, evidencia alguns argumentos e estratégias contra-contestatórias a partir da perspectiva da construção social do risco, no âmbito da percepção do risco. Em sua pesquisa, a autora sustenta que o risco não pode ser tratado com base em uma visão técnica e objetiva, mas é uma categoria, objeto de construção por grupos sociais diferenciados pelo conhecimento técnico e saber leigo.

Para os moradores das chamadas “áreas de risco” de Juiz de Fora, vemos que a noção de risco é construída a partir de “reinterpretação e reelaboração” do risco que conformam em estratégias discursivas e práticas sociais específicas com vistas a permanência no lugar, para a garantia da posse e da manutenção de vínculos e redes sociais previamente construídos, se constituindo em resistência à noção técnica de risco que justifica a remoção.

Em Vargas (2006, 2009), muitas estratégias discursivas de resistência e luta pela permanência estão ancoradas na religiosidade e na noção de um lugar identitário. Nas narrativas presentes em Vargas (2009), é possível observar que os moradores elegem prioridades e estabelecem critérios relativos a suas demandas mais imediatas formando uma escala de prioridades que coloca o risco das moradias em segundo plano. Vale ainda destacar que, frente às dinâmicas de vulnerabilização decorrente do desigual poder entre os diferentes grupos sociais na cidade, os moradores de áreas vulneráveis a desastres lançam mão do que Vargas chama de “um processo de reelaboração moral do risco”, a partir do qual associam a sua experiência a uma oportunidade de moradia no contexto de despossessão e dificuldade de acesso a recursos públicos (VARGAS, 2009).

Não bastando a constante luta para se manter nas áreas consideradas pelo poder público e definidas tecnicamente como áreas de risco, o desafio em defender ou manter as suas referências sociais construídas com base no território se acirra ainda mais para as famílias que são diretamente atingidas com a ocorrência de um deslizamento de terras.

Para Victor Marchezini (2009), a desterritorialização decorrente dos efeitos de um evento extremo acarreta em algumas mudanças de referências para as pessoas atingidas, que

socialmente passam a não se constituir mais por categorias como família, cidadãos, mas sim por “desabrigados”.

desabrigado perde o chão, o local da cidade que lhe é cabível o qual, em geral, teve de ocupar e resistir durante um tempo para lhe servir de direito, isto é, perde a dimensão política associada ao território. Mas também é desterritorializado do ponto de vista simbólico: perde a casa e a trajetória de luta que, em geral, envolve a sua construção; perde o passado, o presente e o futuro que o projeto familiar incorporou na casa e nos objetos que compõem o mundo privado. Está sujeito a perder o próprio exercício da família e os papéis a ela associados, tendo em vista que esta é uma construção social que se fundamenta a partir do mundo privado (MARCHEZINI, 2009, p.54). As famílias desabrigadas, além de perder bens materiais, a própria casa e até entes queridos; também perdem seus marcos referenciais do espaço de realização da rotina, no qual a identidade se afirma e, assim, o exercício dos papeis de cada sujeito torna-se impraticável no plano da realidade concreta, conforme indica Mariana Siena (2009) no seu estudo com as famílias em abrigos em Nova Friburgo e no município de Sumidouro, no estado do Rio de Janeiro, após os danos causados com as chuvas e enxurradas no ano de 2007 nestas cidades.

Em seu estudo de pesquisa, Siena (2009) apresenta uma abordagem do desastre a partir dimensão de gênero nos casos das famílias desabrigadas, mostrando como o desastre e a consequente desterritorialização afetam de formas diferentes homens e mulheres. Tendo em vista que histórico e culturalmente estas últimas são vistas como as responsáveis por “produzir” o núcleo familiar, recaem sobre elas a “responsabilidade sobre a reprodução e manutenção do sistema de valores e crenças para os demais membros bem como o de zelar pelo território onde se realiza a sociabilidade deste grupo, ou seja, a moradia” (SIENA, 2009, p. 62).

No abrigo, as mulheres buscam reproduzir o ambiente privado no espaço público, mesmo com todas as dificuldades, “pois como mantenedora da unidade do lar, tenta reestabelecer o cenário de afirmação de sua identidade e, por consequência, da identidade dos membros da família, o mais rápido possível como forma de aliviar o sofrimento do grupo” (SIENA, 2009, P. 63). Outro aspecto sociológico relevante apontado por Siena (2009) são as práticas tensionantes entre os grupos em obrigatória interação: “a identidade da mulher como mãe, por exemplo, passa a ser influenciada por um agente externo que a faz sair de casa, que são os agentes da defesa civil, bombeiros etc”, e depois, quando abrigadas, com as gestoras e gestores dos abrigos.

Além da dimensão de gênero, vale ressaltar também que o desastre traz implicações de dimensões geracional, étnico-racial e as demais condições próprias da diversidade humana, que

são acirrados quando os indivíduos estão na condição de abrigados, desterritorializados. Neste sentido, Norma Valêncio destaca um aspecto complementar das injustiças ambientais, revelados com os desastres, a saber:

a compaixão e a solidariedade macroenvolventes com o sofrimento dos grupos étnicos de ascendência européia e a indiferença frente ao sofrimento social de negros, nordestinos, caboclos, indígenas, migrantes precarizados que, no país adentro, vivenciam inundações, enxurradas, deslizamentos, secas prolongadas, sem causar comoção social (Valêncio, 2009, p. 7).

Esta dificuldade ainda perdura para as famílias atingidas mesmo com o fim do período das chuvas. Mediante o acontecimento de desastres em decorrência das chuvas, estas famílias, a depender do nível do desastre, recebem, ainda que precariamente, o apoio dos órgãos públicos e a atenção dos meios de comunicação de massa. Depois de instaurada a desterritorialização e todas as suas consequências para as famílias desabrigadas, com o passar do período chuvoso, os espaços que serviam de abrigo provisório, geralmente escolas, quadras comunitárias, tendem voltar a suas atividades ordinárias, forçando as famílias abrigadas bem como os órgãos administradores dos abrigos a buscar outros destinos.

Em geral, quando o período chuvoso passa, os órgãos se envolvem em outras prioridades e a mídia não realiza mais a cobertura, deixando aquelas famílias abrigadas à própria sorte, permanecendo na sua condição de desabrigadas e ratificando a sua condição de esquecidas pela sociedade, permanecendo a mesma relação estabelecida pelo histórico descaso do poder público.

Vale ainda ressaltar aqui, que dada as dificuldades de (auto)gestão dos abrigos ao longo do tempo, estes passam a ser considerados como locais de riscos associados a epidemias, contaminação, violência, desordem (Marchezini, 2009, 54). Esta soma dos descasos é responsável pelo prolongamento do desastre e vai provocando o que Victor Marchezini (2009) trata como a “catastrofização” dos desastres, dado os efeitos do desastre por longo prazo, prolongando a desterritorialização. Para Marchezini,

uma desterritorialização extrema que perdura no tempo pode tornar o desabrigo não mais uma condição, mas uma nova situação, significando, desse modo, uma catastrofização, isto é, a transição paulatina do que inicialmente era tido como um desastre para uma catástrofe, presidindo de qualquer ameaça natural, ou, de qualquer agente externo ameaçador, sendo fruto sobretudo do abandono do Estado. (MARCHEZINI, 2009, p. 56)

5 O RISCO DE DESASTRES E SUA INTERFERÊNCIA NA DINÂMICA DOS