1. POR TRÁS DA APARENTE “SOCIEDADE DO CONTROLE”: A
1.1. O CONTROLE SOCIAL DO CAPITAL E SEUS LIMITES ABSOLUTOS :
1.2.7. Descendentes de escravos e de senhores de escravos: a
Como sinalizamos anteriormente, a cultura em Povos-Novos como o Brasil desenvolve-se de forma alienante, pois condicionada a uma situação de colonização opressora que se reflete nas relações entre os diferentes no país, tratando-se da preponderância de uma consciência ingênua tanto do povo oprimido como de sua elite transfigurada, que consolida um abismo cultural entre classes. Isso tem origem histórica e a tendência é sua perpetuação.
Darcy Ribeiro descreve que isso se define como marginalidade cultural, na qual “exacerba-se o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnico-cultural e da unidade nacional tensões dissociativas de caráter traumático”209.
Portanto, no Brasil, impera uma alienação cultural, baseada em falsos diagnósticos pautados em falsas causas para justificar a condição do povo brasileiro e suas dificuldades. Darcy Ribeiro exemplifica tais falsos argumentos trazendo à tona a questão da inferioridade racial que, à sua maneira, foi uma falsa e absurda causa presente em todos os momentos da História brasileira e que hoje se perpetua, ainda que escamoteada em um discurso de tolerância e igualdade, explicando que esse tipo de justificativas “tidas como verdades indiscutíveis, porque sacramentadas com o poderio do consenso, essas representações, mesmo
209 RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.23-24.
quando atenuadas, se consolidam mais ainda”210
, cumprindo sua função de perpetuadora das relações e estruturas de poder.
Ainda a respeito de tal alienação cultural, Darcy Ribeiro afirma, ousadamente, que vivenciamos um novo processo de deculturação das massas marginalizadas, ou seja, o autor considera que, de maneira semelhante aos negros vindos da África para a colônia brasileira, os sujeitos hoje marginalizados econômica, política e culturalmente em nosso país, para se adaptarem e sobreviverem às condições mais adversas, passam por uma deculturação que deverá ser seguida por uma aculturação, tarefa que não conta com qualquer apoio dessa sociedade (uma vez que está à sua margem) e que pode trazer o novo. Apesar de extensa, a citação a seguir vale a pena:
Aos efeitos da alienação decorrentes da sobrevivência de conteúdos arcaicos na cultura se somam, para as parcelas citadinas destas massas marginais, as vicissitudes de uma nova deculturação a que estão sendo submetidas no curso do processo de urbanização. No primeiro impulso de deculturação, os contingentes africanos e indígenas foram desenraizados de suas tradições e aculturados na protocélula étnica brasileira, como um passo de sua incorporação à força de trabalho. Agora, no curso do segundo impulso, ativado pelo processo de urbanização, ao perderem sua cultura rurícola arcaica sem serem incorporados à sociedade urbana moderna e às suas novas compreensões, experimentam uma nova marginalização social e econômica que passa a ser também cultural (...) Nos conglomerados em que se amontoam, junto às vilas, cidades e metrópoles, aprendem a fazer casas com restos inservíveis; a cozinhar e a comer em vasilhames
210 RIBEIRO, Darcy. Os Brasileiros: 1.Teoria do Brasil. 4 ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1978, p.151.
de lataria e a refazer sua visão tradicional do mundo, sua mitologia e seu folclore com base nas informações contraditórias dos programas „popularescos‟ transmitidos pelo rádio e pela televisão (...) No mesmo passo, se degradam seus corpos de valores, suas formas arcaicas de dança e de música e suas explicações do mundo fundadas na tradição. Esta deterioração de um patrimônio cultural já de si parco ou paupérrimo, cuja expressão se torna inviável nas cidades, faz esta massa descer mais alguns degraus na condição de tabula rasa cultural que caracteriza os Povos- Novos. Só resta a esperança de que, a partir desse patamar inferior – como gente desvinculada de qualquer tradição que a amarre ao passado e a faça respeitar o que quer que seja – não lhe sobrará nada mais que caminhar para o futuro. Obviamente, este não pode ser outro senão o de integrar-se na civilização moderna, cujo acesso lhe é vedado pela ordenação social vigente que a relega à marginalidade.
A incapacidade do sistema para assegurar-lhe qualquer participação nas formas modernas de existência compele estas massas marginalizadas a reinventar a vida urbana, a partir de sua miséria e ignorância, criando modos de ser e de sobreviver que aparecem como aberrantes aos olhos dos privilegiados. Assim é que suas soluções originais e eficazes para a moradia, a assistência médica, a educação, etc. são vistas como se fossem problemas: as favelas a erradicar, o curandeiro a proibir, a vulgaridade a vencer. Ninguém aponta, porém, soluções alternativas de mais alto padrão que sejam viáveis para substituir para milhões de marginalizados suas soluções arquitetônicas, médicas, culturais e econômicas. Nada melhor do que este fracasso do saber acadêmico em prover soluções adequadas para os problemas populares demonstra a incapacidade do sistema para criar formas de participação na riqueza, no poder e na cultura211.
211 RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.152-153.
O alerta de Darcy Ribeiro de que se instaura um processo de deculturação do povo brasileiro marginalizado talvez seja demasiado drástico, porém seus fundamentos são precisamente localizáveis nas condições de existência de um povo historicamente espoliado em uma nação que não conseguirá se democratizar radicalmente se não vivenciar um processo revolucionário popular.
De um lado do palco, tem-se a vida “improvisada” na periferia, com suas dificuldades, brutalidades e desumanizações, mas também com sua criatividade e riqueza cultural. Do outro lado, estão os pertencentes a um grupo social historicamente hegemônico que carregam consigo um projeto inautêntico de país assegurado por pilhas de desculpas ideológicas rasas, impregnadas de preconceitos, estigmas e mistificações para culpabilizar os pobres como fracos, facilmente corruptíveis (leia-se: tendentes à vagabundagem, à criminalidade), responsáveis por sua miséria e por boa parte das mazelas sociais do país. Nesse jogo de luzes, busca-se compreender a peça brasileira em todo seu drama e profundidade. Quer-se contribuir com o despertar da consciência crítica capaz de analisar as causas reais de muitos dos impasses sociais.
Importa destacar, portanto, que a compreensão do autoritarismo brasileiro e das opressões dessa sociedade não se esgota numa análise puramente econômica do processo histórico de subjugação da imensa parcela da sociedade brasileira. O aspecto da alienação cultural, como uma nuvem que paira sobre as relações sociais, deve ser incorporado. Sua análise estende-se para a compreensão do racismo brasileiro:
Para seus descendentes (dos senhores de escravos), o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis (...) culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão (...) Grande parte desses negros dirigiu-se às cidades, onde encontrava um ambiente de convivência social menos hostil. Constituíram, originalmente, os chamados bairros africanos, que deram lugar às favelas (...) afortunadamente, encontraram negros de antiga extração nelas instalados, que já haviam construído uma cultura própria, na qual se expressavam com alto grau de criatividade. Uma cultura feita de retalhos do que o africano guardara no peito nos longos anos de escravidão, como sentimentos musicais, ritmos, sabores e religiosidade (...) a partir dessas precárias bases, o negro urbano veio a ser o que há de mais vigoroso e belo na cultura popular brasileira212.
Assim, Darcy Ribeiro demonstra como a questão racial está totalmente embutida nas diferenças classistas, tratando-se, sobretudo de um preconceito racial-classista, concluindo que as instituições políticas são reflexas e que, portanto, não há como se instituir uma vida democrática no país enquanto se mantiver tal estratificação social opressora. São suas palavras:
(...) a distância social mais espantosa no Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos. A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros (...). Entretanto, a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi,
212 RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.222.
ainda é, a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional213.
Dessa maneira, após essa extensa análise (ainda que longe de estar esgotada), buscou-se reunir os elementos históricos (tanto econômicos, políticos, étnicos, como os culturais) para que se possa entender como se encontra o Brasil diante de um mundo globalizado que caminha para ativação de seus limites absolutos, sob fortes riscos de ameaça à própria humanidade. Diante das contradições latentes do quadro atual, mais uma vez se reforça o entendimento de que o problema está na falta de oportunidades deste povo realmente construir seu projeto soberano e original.
213 RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.219-220.