• Nenhum resultado encontrado

Descentralização e multicentralidade

1. CENTRO E CENTRALIDADE: ASPECTOS TEÓRICOS, METODOLÓGICOS E

1.5. CENTROS E MULTICENTRALIDADE

1.5.2. Descentralização e multicentralidade

Reconhecemos três processos, estabelecidos de modo relacional, como sendo primordiais para a emergência de novos centros nos espaços intraurbanos das cidades médias e metrópoles brasileiras.

O primeiro refere-se ao crescimento dos interesses fundiários e imobiliários sobre espaços situados em direção aos limites territoriais das cidades (SPOSITO, 2010). Tais espaços, reconhecidos como periféricos, em muitos casos, sequer eram dotados de infraestruturas e funcionalidades que pudessem lhe conferir o indicativo de urbano. Contudo, a atribuição de novos usos a estes espaços, sejam de caráter moderno e valorizado, a exemplo da implementação de grandes equipamentos como shopping centers e hipermercados, sejam através de loteamentos destinados a produção de residências para distintos estratos sociais, contribuiu para um incremento de elementos estruturais e de conteúdos capazes de inserir estes espaços ao urbano. Tais condições são retratadas nos capítulos 2 e 3 desta tese, nos quais é possível verificar, nas últimas décadas, a incorporação de novos espaços ao perímetro da cidade, numa marcada lógica de incremento demográfico e econômico nestes novos espaços urbanos.

O segundo processo diz respeito ao crescimento e desenvolvimento de atividades econômicas associadas a ocorrência de uma nova dinâmica populacional e de fluxos de

pessoas nestes espaços (SPOSITO, 2010). Essa nova realidade socioespacial vem acompanhada do estabelecimento de concentrações de atividades comerciais e de serviços de proximidade, marcado por repercussões e níveis de influência local, e até mesmo a implementação de grandes equipamentos capazes de reorientar os fluxos urbanos existentes, a exemplo dos shopping centers. Esse cenário retratado é consonante com o verificado na área de estudo eleita como objeto de investigação desta pesquisa. Sendo que nos capítulos 2 e 3 é possível verificar um destacado acréscimo de atividades comerciais e de serviços, em espaços que há poucas décadas sequer eram considerados legalmente como urbanos. Até mesmo a presença de shopping centers é identificada nestes espaços de recente incorporação ao urbano.

O terceiro processo refere-se aquilo que Corrêa (1997) considera como deseconomia de aglomeração experimentado pelo centro principal, onde uma excessiva centralização se verifica como condicionante.

Os fatores de repulsão do centro principal tendem a ser: o aumento constante do preço da terra, impostos e aluguéis, afetando certas atividades que perdem a capacidade de se manterem localizadas na área central; o congestionamento e alto custo do sistema de transporte e comunicações, que dificulta e onera as interações entre firmas; a dificuldade de obtenção de espaço para expansão; as restrições legais implicando ausência de controle do espaço por parte dos que visam exercer domínio sobre ele, limitando, portanto, as ações de determinados grupos; a ausência ou perda de amenidades ambientais, que acaba por afetar as atividades e a população de alto status; entre outros motivos (CORREA, 1997).

Deste modo, estamos diante de condições vivenciadas pelo centro principal que o fizeram um lugar “duro” diante da maleabilidade do restante do tecido urbano da cidade (TOURINHO, 2006). Sendo que, para Pintaudi (2005), esta dureza, gerada pela complexidade, pela superposição, pelo conflitante, perfilam-se como os inimigos do capital na sua dimensão espacial, tanto global quanto setorialmente considerado.

Nesta perspectiva, Tourinho (2006, p. 281), completa tal raciocínio sobre o centro principal, ao afirmar que:

as condições diferenciais deste espaço complexo (histórico, arquitetônico, urbanístico, legal, político, social, econômico, simbólico, residual, não dominado, diverso) fazem dele um espaço de difícil apropriação, e isso desagrada ao capital (imobiliário, financeiro, público, privado) cujos interesses dependem da dominação do território para auferir lucros, afetando, desse modo, os investimentos que o capital está disposto a realizar nele com essa

finalidade.

Desta maneira, por questões históricas, simbólicas, sociais e econômicas que se impõem sobre o centro principal, houve, em alguns períodos, uma tendência a redução da sua capacidade de absorção de novos investimentos (TOURINHO, 2006).

Estes três processos associados – crescimento dos interesses fundiários e imobiliários sobre as periferias; aumento da concentração de atividades econômicas (comércio e serviços) sobre tais espaços; e as deseconomias de aglomeração causadas pela excessiva centralização do centro principal – foram capazes, em nosso entendimento, de gerar aquilo que Corrêa (1997) considera como um destacado processo de descentralização14 nos espaços intraurbanos.

A descentralização ocorre, não somente pelo fato do centro principal repelir a atuação de agentes econômicos hegemônicos, mas sobretudo por haver fatores de atração por parte das áreas não centrais, esses fatores são, constantemente: terras não ocupadas, a baixos preços e impostos; infraestrutura implantada; facilidade de transporte; qualidades atrativas do sítio, como topografia e drenagem; possibilidades de controle do uso da terra; amenidades ambientais; um mercado mínimo capaz de suportar a instalação de uma atividade descentralizada (CORREA, 1997).

Essa organização espacial, do ponto de vista do capital, segundo Corrêa (1997, p. 128), está relacionada com uma lógica global descentralizadora das atividades e centralizadora da gestão, sendo que

a descentralização insere-se no processo de acumulação. No caso de firmas comerciais, a competição entre elas leva à procura de uma localização mais acessível ao mercado consumidor e espacialmente disperso. A descentralização minimiza a competição e garante a reprodução do capital. Mais ainda, através da descentralização verifica-se a expansão dos negócios localizados na Área Central sobre áreas urbanas não centrais, expansão esta que pode levar ao desaparecimento de firmas locais e ao estabelecimento de uma rede integrada de lojas dirigidas a partir da Área Central. Desse modo, a cidade reproduz internamente a expansão e domínio capitalista que se verifica em escala planetária.

Tais características apresentadas nos leva a considerar que o processo de

14 Consideramos que para a formação de novos centros, há que se estabelecer, para além da desconcentração

das atividades econômicas, um processo de descentralização destas atividades, no sentido de haver uma reestruturação espacial do poder articulador espacial. Mesmo que o centro principal continue exercendo papel predominante, parte do domínio espacial passa a ser exercido por outros centros. Assim, estamos diante do processo de descentralização, sendo a (des)concentração de atividades econômicas, como retratado no subcapítulo 1.1, apenas um componente na constituição de novos centros.

descentralização, que visa à diminuição da excessiva centralização de um dado espaço, pode ser considerado tanto como resultado de ações orquestradas por agentes e forças econômicas reprodutivas do capitalismo, como por ações geridas pelo Estado, através de ações de planejamento estratégico. Em que a descentralização, como desdobramento dos imperativos de forças socioeconômicas, basicamente, é uma resposta à deseconomia de escala resultante de elevada aglomeração que afeta principalmente o centro principal das grandes áreas urbanas (CORRÊA, 1997). Já como promoção de políticas governamentais, é uma ferramenta estratégica do planejamento para o desenvolvimento e melhoria da equidade espacial, a exemplo das diretrizes do European Spatial Development Perspective15 (ESDP, 1999), implementadas pela Comissão Europeia em 1999, e que se caracteriza um importante exemplo do esforço de agentes públicos, na tentativa de utilizar de processos espaciais, como a descentralização e o estabelecimento da policentralidade16, na indução do desenvolvimento socioeconômico.

Todavia o processo de descentralização reverbera novamente em centralizações, na medida em que contribui para a formação de outros centros localizados nos espaços receptores dos conteúdos e processos advindos do centro principal. A descentralização gera novas áreas de centralização no interior da cidade. Ou seja,

a descentralização aparece como um processo espacial associado às

deseconomias de aglomeração da Área Central, ao crescimento demográfico

e espacial da cidade, inserindo-se no processo de acumulação de capital. De certa forma repete o fenômeno de centralização tornando a organização espacial da cidade mais complexa, com o aparecimento de subcentros comerciais e áreas industriais não-centrais.” (CORRÊA, 1997, p. 129)

Nesta direção, o processo de descentralização acaba por impulsionar, no caso do espaço intraurbano, a constituição de novos centros em espaços anteriormente tidos como periféricos e em oposição aos conteúdos da centralidade. É neste contexto, que a formação de subcentros, centros especializados e shopping centers, ao constituírem-se como espaços dotados dos plenos atributos de centralidade (condições econômicas, de acessibilidade e simbólicas), passam a ser identificados como sendo novos centros em situação de coexistência com o centro tradicional/principal, no interior da mesma cidade ou aglomeração urbana. Sendo que distinções se estabelecem no sentido de que os novos centros são dotados de uma menor rigidez espacial no âmbito da cidade, em razão do

15 O documento trabalha com a escala europeia, entretanto, seus princípios podem basilar ações em distintas

escalas.

aparecimento de fatores de atração em áreas periféricas, e em detrimento aos fatores de repulsão do centro principal (CORRÊA, 1997).

No entanto, o processo de descentralização não significou o fim da centralidade urbana e nem o declínio do centro, mas o aparecimento de novos centros. Num contexto em que, “a centralidade única no interior das cidades não é mais uma forma predominante de articulação de sua estrutura interna” (SPOSITO, 2010, p. 202), sendo necessário revermos,

a ideia de centro urbano único e monopolizador de todas as atividades tipicamente centrais ligadas ao consumo de bens e serviços de diferentes ordens e à produção e circulação de ideias e informações. Vimos, atualmente, inscrever nossa reflexão em uma perspectiva de “centros” e não mais de centro (SPOSITO, 2010, p. 203).

Assim sendo, a centralidade passa a ser descrita, por Gaschet e Lacour (2002), em analogia, com explosões, espalhando-se e contribuindo para que apareça novos centros de decisões, de população, de comércio e de negócios. Num contexto em que o centro principal da cidade pode até perder centralidade, mas essa deve ser, primeiramente, procurada em sua extensão imediata e, logo em seguida, em locais relativamente desconexos ou até mesmo remotos (GASCHET; LACOUR, 2002).

Cabe ressaltarmos que a reestruturação das condições de transporte e mobilidade experimentado nas cidades brasileiras, durante as últimas décadas, tem sido um dos fatores fundamentais na constituição de espaços urbanos multicêntricos. Constituindo-se como condição determinante no processo de descentralização/centralização, na qual a ampliação de redes de transporte coletivo, a construção de redes de estradas e autoestradas e o progresso da posse do automóvel familiar são importantes fatores de estímulo desta reconfiguração espacial.

A implantação de sistemas de transporte urbano, primeiramente por trilhos (bondes e trens suburbanos, seguidos pelo metrô) e depois, sobretudo, o de matriz automotiva (ônibus, carros, caminhões, motos etc.) geraram condições técnicas e funcionais para uma cidade mais expandida. [...] Esse processo foi acompanhado, claramente, de emergência de novas áreas comerciais e de serviços (SPOSITO, 2013, p. 72).

Conforme Lebrun (2002), este processo reflete mudanças nos padrões de circulação nos espaços urbanos, afetando sobretudo nos deslocamentos para o trabalho e no comportamento do consumo, sendo que a partir da ampliação do acesso ao automóvel, há uma redução do empecilho proporcionado por grandes deslocamentos.

É neste cenário que temos que ir além da visão dicotômica centro-periferia e ressaltar o caráter dialético entre estes espaços, como considerado no subcapítulo 1.2. Destacamos assim, que as periferias também são locus do comércio, do automóvel, das grandes empresas e da centralidade. Como também, segundo Dematteis (1998), laboratórios sociais e territoriais em que se experimentam inovações e mudanças importantes nas formas de habitar, nos estilos de vida, no consumo, nas relações sociais e nos movimentos sociais e políticos.

É neste contexto em que se verifica a ocorrência da multicentralidade, sendo marcada pela ocorrência de novos centros, no interior dos espaços intraurbanos, coexistindo, a partir de relações hierárquicas, estabelecidas a partir de um centro principal. Estes novos centros podem ser tipificados, conforme Sposito (2010), a partir das seguintes formas espaciais: pela concentração de pequenos equipamentos comerciais e de serviços; pela incidência de grandes equipamentos comerciais e de serviços, a exemplo dos shopping centers e hipermercados; ou por outros centros de atividades mais complexas e/ou especializadas.

Na área de estudo eleita como objeto de investigação empírica desta tese, é verificada todas estas tipologias elencadas acima, sendo possível verificar, no capítulo 3, suas ocorrências.